Platão (Republica III, 401 C)
domingo, 13 de dezembro de 2009
Platão (Republica III, 401 C)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Uma breve introdução à "doutrina tradicional da arte"
Para já ficamos com trechos de mais um texto que será incluído na revista. Trata-se de um trabalho de Timothy Scott, originalmente publicado na publicação periódica Vincit Omnia Veritas 1.2, 2005, com o título “ A brief introduction to the “Traditional Doctrine of Art”.
A primeira coisa que nos impressiona numa obra-prima de arte tradicional é a inteligência: uma inteligência surpreendente, quer pela sua complexidade, quer pelo ser poder de síntese; uma inteligência que envolve, penetra e eleva. (Marco Pallis)
A arte tradicional deriva de uma criatividade que combina inspiração celeste com engenho étnico, de um modo que se assemelha a uma ciência dotada de regras e não por meio de improvisação. (Frithjof Schuon)
A arte sagrada é criada como um veículo para presenças espirituais, é criada simultaneamente para Deus, para os anjos e para o homem; a arte profana, por outro lado, existe apenas para o homem e, por conseguinte, atraiçoa-o. (Frithjof Schuon)
Quando se analisa a doutrina ou o entendimento tradicional da arte, é fundamental começar por dissipar qualquer confusão entre o termo “tradicional” e o simples “conservadorismo,” ou com o próprio termo “clássico”, em qualquer sentido escolástico. Aquilo que temos em mente não é um período classificável da “história da arte,” tal como possa ser interpretado nos meios académicos. A Tradição a que nos referimos é, em primeiro lugar, a sabedoria primordial, a Verdade imutável e sem forma, a essência supra-formal que enforma a criação; em segundo lugar, é o corpo formal da Verdade sob uma determinada aparência mitológica ou religiosa, o qual é transmitido ao longo do tempo. Marco Pallis considerou este segundo aspecto da tradição como “uma comunicação efectiva de princípios com origem supra humana (…) através do recurso a formas que terão surgido pela aplicação desses princípios a necessidades contingentes.”
[…]
A arte tradicional é inspirada pelo Divino. Não é, assim, “auto-expressão”, no sentido corrente do termo. A arte tradicional é anónima. Isto não quer dizer que desconhecemos os nomes dos artistas cujo trabalho consideramos inspirado e tradicional, mas que os próprios artistas não reclamariam “direitos” sobre o trabalho. Pelo contrário, era dito que eles estavam na “posse da sua arte”, no sentido de se encontrarem possuídos ou presididos pela arte. Segundo Coomaraswamy, “a posse de qualquer arte é uma participação. Adicionalmente, a posse da arte é uma vocação e uma responsabilidade; não ter uma vocação é não ter lugar na ordem social ou ser inferior ao homem.”
Refere Titus Burckhardt, islamólogo, comentador de arte e editor do Book of Kells, que, em pleno contraste com este sentido de anonimato,
grande parte do critério de estética do estudo moderno da arte deriva da Grécia clássica e da arte pós-medieval. Apesar de todos os seus desenvolvimentos ao longo do tempo, este sempre considerou o indivíduo como o verdadeiro criador de arte. Deste ponto de vista, um trabalho é “artístico” na medida em que mostre a marca de uma individualidade.
No estudo moderno da arte, como comenta Coomaraswamy, “ficamos perplexos com a possibilidade de substituir o conhecimento da arte por um conhecimento de biografias.”
[…]
(…) Schuon comenta que a arte tradicional está essencialmente preocupada com uma expressão daquilo que está para além do tempo, ao invés de com a expressão de um determinado “período”: “Uma arte que não expresse o imutável e que não pretenda ser imutável não é uma arte sagrada.” Isto não implica negar o génio étnico. Afirma Schuon que “um estilo exprime a espiritualidade e o génio étnico, e estes dois factores não podem ser improvisados.”
A partir da Renascença, e do denominado “iluminismo” que daí adveio, surgiu a concepção humanista da arte com a sua “mania” pela novidade, a qual seria mais tarde renomeada de “originalidade.” Nos mundos tradicionais, estar situado no espaço e no tempo é estar situado numa cosmologia e numa escatologia, respectivamente. A estação e o tempo são simbolizados pelo centro e pela origem, respectivamente, e é para estes que a arte tradicional aponta. Assim, a arte tradicional guia-nos para um crescente sentido de unidade. A “originalidade” moderna, por outro lado, é uma fuga para uma cada vez mais redutora individualidade que apenas pode acabar no absurdo e no bizarro, no anormal e no monstruoso, e, por fim, no surrealismo. Para Oldmeadow, a “libertação da Renascença” acabou no grotesco trabalho de um Dali.”
Aqui podemos admitir que, tal como o fez St. Agostinho, “algumas pessoas gostam de deformidades.” Mas a beleza da arte sagrada não depende do nosso reconhecimento. A “arte”, de acordo com a tradição hindu, “é expressão tornada forma pela beleza ideal (rasa).” Para Platão, “nada torna algo belo excepto a presença e a participação da Beleza, qualquer que seja a forma obtida (…) Através da Beleza todas as coisas se tornam belas.” De acordo com a tradição, o profeta Maomé terá declarado que “Deus é belo e ama a beleza.” Adicionalmente, como indica S. Tomás de Aquino, “a Beleza está relacionada com a faculdade cognitiva.” De modo semelhante, o monge e pintor chinês Tao-chi refere que, “as obras dos mestres antigos são instrumentos de conhecimento.” A arte tradicional participa no Ideal supra-formal de Beleza. Não somos nós que julgamos a arte, é ela que nos julga a nós.
[…]
Numa análise final, a arte Tradicional pode ser assim resumida: Deus, ao criar o Universo, é o Artista Divino. O ser humano é feito à imagem de Deus. Assim, tudo o que fazemos é um acto de criação e uma obra de arte. A arte Divina é a criação do humano; a arte do humano é, como uma imagem reflexa, a “criação” ou o reconhecimento do Divino. Este é o propósito e o fim da humanidade. Toda a arte é estritamente uma ciência e um ofício. Na sua forma mais elevada é a ciência e o ofício do Belo, o Ideal ou princípio de toda a beleza. O seu propósito é sempre o retorno do humano à Origem através de contemplação, meditação e acção, que encontram a sua perfeição na participação.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Arte e beleza [2]
A beleza é a cristalização de um determinado aspecto da alegria universal; ela é algo ilimitado expresso por um limite.
Por um lado, a beleza é sempre mais do que o que dá, mas por outro, ela dá sempre mais do que é: no primeiro sentido a essência revela-se como aparência, no segundo a aparência comunica a essência.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
A origem do belo
Deus é belo, e Ele ama a beleza.
Maomé
Quando alguém se aproxima do Maravilhoso não sabe se a arte é o Tao ou se o Tao é a arte.
Hui Tsung
Os homens que amam o corpo nunca terão a visão da Beleza e do Bem. Meu filho, tão gloriosa é a beleza daquilo que não tem forma nem cor!
Hermes
Sempre que, no decurso de uma caçada, o caçador vermelho se depara com uma cena sublime ou de extraordinária beleza – uma nuvem negra de trovoada com um arco-íris radiante sobre a montanha, uma alva cascata no coração de um desfiladeiro verdejante; uma vasta pradaria tingida pelo rubro de um pôr-do-sol – ele pausa por um instante numa atitude de adoração.
Ohiyesa
Eles chamam-lhe o “unificador do belo,” pois tudo o que é belo se reúne a ele. Todas as coisas belas se reúnem naquele que sabe isto.
Chândogya Upanishad
em Withall N. Perry, “The Spiritual Ascent: A Compendium of the World's Wisdom" (Fons Vitae, 2008).
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Arte e beleza
Alguns dos textos que vão surgir no próximo número já foram aqui publicados, nomeadamente os ensaios de Burckhardt e Keeble, bem como uma primeira parte do brilhante ensaio de A. Coomaraswamy; e outros, ou partes deles, irão continuar a ser publicados neste espaço.
Quero expressar a minha gratidão a todos os que têm enviado felicitações pela publicação da revista Sabedoria Perene; elas são sem dúvida uma grande motivação para a continuidade deste trabalho.
Finalmente, em antecipação ao que constituirá, em grande parte, a ambiência deste espaço nos próximos meses, deixo-vos algumas palavras de Schuon sobre a arte e a beleza.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Uma figura de linguagem ou uma figura de pensamento? * - Parte 1
***
“Egô de techên ou kâlo, ho an ê alogon pragma.”
Platão, Górgias, 465A[i]
Somos um povo peculiar. Digo isto relativamente ao facto de, apesar de quase todos os outros povos terem chamado à sua teoria da arte ou da expressão uma “retórica” e de terem considerado a arte como uma forma de conhecimento, nós termos inventado uma “estética” e considerarmos a arte como um tipo de sensação.
O original Grego da palavra “estética” significa percepção pelos sentidos, especialmente pela sensação. A experiência estética é uma faculdade que partilhamos com os animais e os vegetais, e é irracional. A “alma estética” é aquela parte da nossa constituição psíquica que “sente” as coisas e que lhes reage: por outras palavras, é a nossa parte “sentimental”. Identificar a nossa abordagem à arte com a prossecução destas reacções não é tornar a arte “bela” mas apenas aplicá-la à vida do prazer e desconectá-la das vidas activa e contemplativa.
A nossa palavra “estética” toma assim como adquirido o que é actual e comummente aceite, isto é, que a arte é evocada por emoções e que tem como fito a expressão e evocação dessas emoções. A este respeito, Alfred North Whitehead observava que “o modo de excitar emoções em favor delas próprias foi uma descoberta tremenda”.[ii] Chegámos ao ponto de inventar uma ciência dos nossos gostos e desgostos, uma “ciência da alma”, a psicologia, e substituímos a concepção tradicional da arte, como uma virtude intelectual e como beleza pertencente ao conhecimento, por meras explicações psicológicas.[iii] A nossa actual indignação quanto ao significado da arte é tão forte como a implicação da palavra “estética”. Quando nos referimos a uma obra de arte como “significante” tentamos esquecer que esta palavra apenas pode ser usada se seguida de um “de”, que a expressão apenas pode ser significante de alguma tese que estava para ser expressa, e negligenciamos que o que quer que seja que não significa algo é, literalmente, in-significante. Na verdade, se toda a finalidade da arte fosse “expressar emoções,” então o grau da nossa reacção emocional seria a medida da beleza e todo o juízo seria subjectivo, já que não pode haver disputa alguma sobre gostos. Dever-se-ia recordar que uma reacção é uma “afecção” e que toda a afecção é uma paixão, ou seja, algo sofrido e padecido passivamente, e não uma actividade da nossa parte – como numa operação de juízo.[iv] Igualar o amor pela arte com um amor por sensações sublimes é fazer das obras de arte uma espécie de afrodisíaco. As palavras “contemplação estética desinteressada” são uma contradição de termos e são completamente desprovidas de sentido.
“Retórica”, cujo original Grego significa perícia no discurso público, implica por outro lado uma teoria da arte qual expressão efectiva de teses. Existe uma grande diferença entre o que se diz visando o efeito e o que se diz ou se faz para que seja efectivo, e que tem que funcionar, ou não mereceria ser dito ou feito. É verdade que existe uma suposta retórica da produção de “efeitos”, tal como existe uma suposta poesia que consiste apenas de palavras emotivas, e um tipo de pintura que é meramente espectacular; mas este tipo de eloquência que faz uso das figuras [de linguagem] em favor das próprias figuras, ou simplesmente para que o artista se exiba, ou para trair a verdade nos tribunais da lei, não é propriamente retórica, mas antes sofística ou a arte da adulação. Entendemos “retórica”, qual Platão e Aristóteles, como “a arte de dar efectividade à verdade”.[v] Por conseguinte, a minha tese será aquela em que se nos propusermos usar ou compreender quaisquer obras de arte (com a possível excepção dos trabalhos contemporâneos, os quais podem ser “ininteligíveis”[vi]), deveríamos abandonar o termo “estética” tal como é empregue actualmente e regressar ao da “retórica”, o “bene dicendi scientia” de Quintiliano.
Aqueles para quem a arte não é uma linguagem mas antes um espectáculo podem objectar que a retórica está primeiramente relacionada com eloquência verbal e não com a vida das obras de arte em geral. Não estou seguro que mesmo tais objectores concordariam em descrever as suas próprias obras como mudas ou ineloquentes. De qualquer modo, devemos afirmar que os princípios da arte não se alteram pela variedade de materiais com que o artista trabalha – materiais tal como o ar vibrante no caso da música ou da poesia, a carne humana no palco, ou a pedra, o metal ou a argila na arquitectura, na escultura ou na cerâmica. Tão pouco um material poderá ser considerado mais belo do que outro; não se pode fazer uma espada de ouro melhor do que uma de aço. Na realidade, o material em si, sendo relativamente desprovido de forma, é relativamente feio. A arte implica uma transformação do material, a impressão de uma nova forma no material que teria estado mais ou menos desprovido dessa forma; e é precisamente neste sentido que a criação do mundo a partir de uma matéria completamente desprovida de forma é chamada de “obra de adornamento”.
Existem boas razões para o facto de que a teoria da arte tenha sido genericamente expressa em termos da palavra falada (ou secundariamente, escrita). Em primeiro lugar, é “através de uma palavra concebida no intelecto” que o artista, quer seja humano ou divino, trabalha.[vii] De novo, aqueles cuja própria arte era verbal, tal como no meu caso, discutiam naturalmente a arte da expressão verbal, enquanto os que trabalhavam com outros materiais também não eram necessariamente peritos na formulação “lógica”. E finalmente, a arte de falar pode ser melhor compreendida por todos do que pode a arte do ceramista, permitamo-nos dizer, já que todos os homens fazem uso da fala (quer retoricamente para comunicar um significado ou sofisticamente por exibicionismo), mas relativamente poucos são os que trabalham a argila.
Todas as nossas fontes estão conscientes da identidade fundamental de todas as artes. Platão, por exemplo, faz notar que “o perito, que está concentrado no melhor quando fala, certamente não falará aleatoriamente, mas com um fim em vista; ele é precisamente como aqueles outros artistas, os pintores, construtores, carpinteiros, etc.”;[viii] e de novo, “a produção de todas as artes são tipos de poesia, e os seus artesãos são poetas”,[ix] no sentido lato da palavra. “Demiurgo” (dêmiourgos) e “técnico” (technitês) são as palavras Gregas comuns para “artista” (artifex). Platão inclui sobre estas denominações não apenas poetas, pintores e músicos, mas também arqueiros, tecedores, bordadores, ceramistas, carpinteiros, escultores, agricultores, doutores, caçadores, e sobretudo aqueles cuja arte é governar; Platão fez apenas distinção entre a criação (dêmiourgia) e o mero trabalho (cheirourgia), entre a arte (technê) e indústria sem arte (atechnos tribê).[x] Todos estes artistas são infalíveis, na medida em que são verdadeiramente fazedores e não meramente industriosos, na medida em que são musicais e por conseguinte sábios e bons, e na medida em que estão na posse da sua arte (entechnos, cf. entheos) e que são governados por ela.[xi] O significado primário da palavra sophia, “sabedoria”, é o de “perícia”, assim como o Sânscrito kausalam é uma “perícia” de qualquer tipo, tanto no fazer, como no agir ou no conhecer.
Agora, para que servem todas estas artes? Sempre e apenas para suprimir uma necessidade ou uma deficiência, real ou imaginada, por parte do patrono humano, para quem o artista trabalha como consumidor colectivo.[xii] Quando trabalha para si mesmo, o artista, na qualidade de ser humano, é também um consumidor. As necessidades que a arte deve servir podem aparentar ser materiais ou espirituais mas, tal como insiste Platão, esta é uma e a mesma arte – ou uma combinação de ambas as artes, prática e filosófica – que tanto deve servir o corpo como a alma para que seja admitida na Cidade ideal.[xiii] Poderemos ver na actualidade que a intenção de servir os dois fins de forma separada é um sintoma peculiar da nossa “falta de coração” moderna. A nossa distinção entre arte “bela” e “aplicada” (ridícula, já que a bela arte ela mesma é aplicada para dar prazer) é como se “não só de pão”[xiv] significasse “de bolo” para a elite que vai às exibições e “só de pão” para a maioria, e habitualmente para todos. A música e a ginástica de Platão, as quais correspondem ao que parecemos apreender por arte “bela” e “aplicada” (uma vez que uma é para a alma e a outra para o corpo), nunca estão divorciadas na sua teoria da educação; seguir apenas uma conduz à afeminação, seguir apenas a outra, à brutalidade; o terno artista não é mais homem do que o possante atleta; a música deve ser realizada nas graças corporais, e o poder físico deveria apenas ser exercitado em moção moderada, e não em violenta.[xv]
Seria supérfluo explicar quais são as necessidades materiais a serem servidas pela arte: necessitamos apenas relembrar que uma censura daquilo que incumbe ou não ser feito deveria corresponder ao nosso conhecimento sobre o que é bom ou mau para nós. É obvio que um governo sábio, mesmo um governo dos livres para os livres, não pode permitir a manufactura e a venda de produtos que são necessariamente nocivos, por muito rentável que essa manufactura possa ser para aqueles cujo interesse é o de vender, mas importa insistir naquelas normas de vivência para assegurar aquela que foi outrora a função dos grémios e do artista individual “inclinado pela justiça, que rectifica a vontade, para fazer o seu trabalho fielmente”.[xvi]
Relativamente ao fim espiritual das artes, aquilo que Platão diz é que estamos dotados pelos deuses com a visão e a audição, e que a harmonia “foi dada pela Musas àquele que consegue fazer uso delas intelectualmente (meta nou) e não, tal como se supõe nos dias de hoje, como um auxílio ao prazer irracional (hêdonê alagos), mas para apoiar a revolução interior da alma, para lhe restabelecer a ordem e em conformidade com ela própria. E devido ao desejo de medida e à carência de graça na maioria de nós, o ritmo foi-nos dado pelos mesmos deuses e com os mesmos fins”;[xvii] e enquanto a paixão (pathé) evocada por uma composição de sons “fornece um prazer-dos-sentidos (hêdonê) ao desinteligente, (a composição) confere no inteligente aquele consolo no coração que é induzido através da imitação da harmonia divina produzida nas moções mortais.”[xviii] Este último deleite ou contentamento que é experienciado quando participamos no festim da razão, o qual é também uma comunhão, não é uma paixão mas antes um êxtase, um sair fora de nós mesmos e um permanecer no espírito: uma condição insusceptível de análise, em termos de prazer ou dor, que possa ser sentida por corpos ou almas sensitivos.
O eu anímico ou sentimental deleita-se nas superfícies estéticas das coisas naturais ou artificiais, com as quais se assemelha; o eu intelectual ou espiritual aprecia a ordem destas coisas e é nutrido pelo que, naquelas coisas, a ele se assemelha. O espírito é uma entidade mais meticulosa do que sensitiva; não saboreia as qualidades físicas das coisas mas antes aquilo a que se chama o perfume ou o aroma dessas coisas, não uma forma sensível mas uma forma inteligível, por exemplo “a imagem que não está nas cores” ou “a música inaudível”. O “consolo no coração” de Platão é o mesmo que aquela “beatitude intelectual” que a retórica Indiana vê no “saborear do aroma” de uma obra de arte, uma experiência imediata, congenérica com o saborear de Deus.[xix]
Por conseguinte, isto não é de modo algum uma experiência estética ou psicológica, já que implica aquilo a que Platão e Aristóteles chamavam de katharsis, e uma “derrota das sensações do prazer” ou dor.[xx] A katharsis é uma purga e purificação sacrificial ”que consiste na separação da alma do corpo, na medida em que tal é possível”; é, noutras palavras, um tipo de morte, aquele tipo de morte a que é dedicada a vida do filósofo.[xxi] A katharsis Platónica implica um êxtase, ou um “apartar” do eu próprio, energético, espiritual e imperturbável, relativamente ao eu próprio, passivo, estético e natural, implica um “ser fora de si mesmo” que é um ser “no seu juízo correcto” e um Eu próprio real, essa “in-sistência” que Platão tem em mente quando “desejaria de novo nascer interiormente em beleza” e chama a isto uma oração bastante.[xxii]
Platão repreende o seu amadíssimo Homero por atribuir aos deuses e aos heróis paixões excessivamente humanas e pela perícia nas imitações destas paixões, que são tão bem calculadas, a ponto de suscitar as nossas próprias “sim-patias”.[xxiii] A katharsis da Cidade de Platão não se efectua por exibições tais como estas, mas antes pela banição de artistas que se permitem imitar todo o tipo de coisas, por mais vergonhosas que sejam. Os nossos próprios novelistas e biógrafos teriam sido os primeiros a partir, enquanto que entre os poetas modernos não é fácil pensar noutro que não William Morris como um que Patão pudesse ter aprovado com sinceridade.
A katharsis da Cidade tem paralelo com a do indivíduo; as emoções estão tradicionalmente ligadas com os órgãos de evacuação, precisamente porque as emoções são resíduos. É difícil ter a certeza sobre o significado exacto da bem conhecida definição de Aristóteles, em cuja tragédia “através da sua imitação de piedade e medo efectiva a katharsis destes e das paixões idênticas,[xxiv] apesar de estar claro que também para Aristóteles a purificação é a das paixões (pathemâta); devemos ter presente que para Aristóteles, a tragédia é contudo e essencialmente uma representação de acções, e não de carácter. Certamente que não é um “soltar” esporádico de – que é o mesmo que dizer, indulgência em – emoções “reprimidas” que poderá conduzir à emancipação das mesmas; um soltar como este, tal como a ebriedade de um ébrio, pode apenas ser uma situação temporária.[xxv] Naquilo a que Platão chama com aprovação o tipo de poesia “mais austero”, presume-se que estamos a desfrutar de um banquete de razão em vez de um “pequeno-almoço” de sensações. A sua katharsis é um êxtase ou uma libertação da “alma imortal” relativamente às afeições do “mortal”, uma concepção de emancipação que tem paralelo estreito nos textos Indianos, em que a libertação se realiza por um processo de “sacudir-se os corpos”.[xxvi] O leitor ou o espectador da imitação de um “mito” é raptado da sua personalidade habitual e passiva e, tal como em todos os outros rituais sacrificiais, torna-se um deus enquanto dura o rito e regressa apenas a ele próprio quando o rito capitula, quando a epifania está no seu término e a cortina cai. Devemos recordar que todas as operações artísticas eram originalmente ritos, e que o propósito do rito (tal como a palavra teletê implica) é sacrificar o homem antigo e fazer ser um homem novo e mais perfeito.
Podemos então imaginar facilmente aquilo que Platão, expondo uma filosofia da arte que não “lhe pertence”, mas que é intrínseca à Filosofia Perene, teria pensado sobre as nossas interpretações estéticas e do nosso contentamento para com a noção de que o fim último da arte é simplesmente o de agradar. Pois, como Platão diz, “o ornamento, a pintura, e a música feitos apenas para dar prazer” são apenas “brinquedos”.[xxvii] O “amante da arte” é, por outras palavras, um “playboy”. Admite-se que a maioria dos homens julga a arte pelo prazer que proporcionam; mas em vez de se afundar a um tal nível, Sócrates diz não, “nem que todos os bois e cavalos e animais do mundo, pela sua prossecução do prazer, proclamem que tal é o critério”.[xxviii] O tipo de música que Platão aprova não é uma música multifária e alterável, mas antes uma música canónica;[xxix] não o som de instrumentos “poli-harmónicos”, mas a simples música (haplotês) da lira acompanhada pelo cântico “concebido deliberadamente para produzir na alma aquela sinfonia de que temos estado a falar”;[xxx] não a música de Marsyas o Sátiro, mas aquela de Apolo.[xxxi]
______
* Quintiliano IX.4.117, “Figura? Quae? Cum orationis, turn etiam sententiae?” Cf. Platão, Républica 601B.
[i] “Não posso dar justamente o nome de ‘arte’ a algo irracional.” Cf. Leis 890D, “A lei e a arte são filhos do Intelecto” (nous). A sensação (aisthêsis) e o prazer (hêdonê) são irracionais (alogos, ver Timeu 28A, 47D, 69D). Em Gorgias, o irracional é aquilo que não pode dar conta de si mesmo, aquilo que é irrazoável, que não tem raison d’être. Ver também Fílon, Legum Allegoriarum I.48, “Porquanto a relva é o alimento dos seres irracionais, também os sensivelmente-perceptíveis (to aisthêton) foram destinados à parte irracional da alma.” Aisthêsis é tão somente o que os biólogos agora chama de “irritabilidade”.
[ii] Citado com a aprovação de Herbert Read, Art and Society (Nova Iorque, 1937), p. 84, de Alfred North Whitehead, Religion in the Making (Nova Iorque, 1926).
[iii] Sum. Theol. I-II.57.3c (a arte é uma virtude intelectual); I.5.4 ad 1 (a beleza pertence ao cognitivo, não à faculdade apetitiva).
[iv] “Patologia … 2. O estudo das paixões ou emoções” (The Oxford English Dictionary), 1933, VII, 554). A “psicologia da arte” não é uma ciência da arte mas sim da forma como somos afectados pelas obras de arte. Uma afecção (pathêma) é passiva; fazer ou agir (poiêma, ergon) é uma actividade.
[v] Ver Charles Sears Baldwin, Medieval Retoric and Poetic (Nova Iorque, 1928), p. 3, “Uma arte de discursar verdadeira que não se apoie na verdade não existe e nunca existirá” (Fedro 260E; cf. Górgias 463-465, 513D, 517A, 527C, Leis, 937E).
[vi] Ver E. F. Rothschild, The Meaning of Unintelligibility in Modern Art (Chicago, 1934), p. 98. “A maldição dos feitos artísticos foi a alteração do visual como um meio de compreensão do não-visual para o visual como um fim em si mesmo e a estrutura abstracta das formas físicas como a transcendência artística pura do visual … uma transcendência completamente estranha e ininteligível para o homem médio [sc. normal] (F. de W. Bolman, criticando a obra de E. Kahler Man the Measure, em Journal of Philosophy, XLI, 1944, 134-135; itálico meu).
[vii] Sum. Theol. I.45.6c, “Artifex autem per verbum in intellectu conceptum et per amorem suae voluntatis ad aliquid relatum, operator”; I.14.8C, “Artifex operatur per suum intellectum”; I.45.7C, “ Forma artificiati est ex conceptione artificis“. Ver também São Boaventura, Il Sententiarum I-1.1.1 ad 3 e 4, “Agens per intellectum producit per formas”. Informalidade é fealdade.
[viii] Górgias 503E.
[ix] Simpósio 205C.
[x] Ver, por ejemplo, O Estadista 259E, Fedro 260E, Leis 938A. A palavra tribê significa literalmente “um polimento” [a rubbing], e é um equivalente exacto da nossa expressão moderna “um desgastar” [a grind] (Cf. Hipócrates, Fracturas 772,”vergonhoso e sem arte”, e as palavras “indústria sem arte é brutalidade” de Ruskin. “Para todos os povos bem governados há um trabalho de que cada homem fica encarregue e que ele deve executar” (República 406C). O “lazer” é a oportunidade de fazer este trabalho sem interferência (Républica 370C). Um “trabalho por lazer” é um que requer atenção indivisa (Eurípedes, Andrómaca 552). A visão de Platão sobre o trabalho em nada difere da de Hesíodo, o qual diz que o trabalho não é nenhum opróbrio mas que é a melhor dádiva dos deuses ao homem (Os Trabalhos e os Dias 295-296). Sempre que Platão desaprova as artes mecânicas, fá-lo relativamente aos tipos de trabalho que providenciam exclusivamente o bem estar corporal e que não providenciam em simultâneo alimento espiritual; Platão não relaciona a cultura com o ócio.
[xi] República 342 BC. O que é feito segundo a arte é feito correctamente (Alcibíades 1.108B). Seguir-se-á que aqueles que estão na possa de e que são governados pela sua arte e não pelos seus próprios impulsos racionais, os quais anseiam por inovação, operarão do mesmo modo (República 349-350, Leis 660B). “A arte tem fins fixos e meios de operação apurados” (Sum. Theol. II-IIII.47.4 ad 2, 49.5 ad 2). É desta mesma forma que um oráculo, falando ex cathedra, é infalível, mas não o homem que fala por ele mesmo. Isto é igualmente verdade no caso de um guru.
[xii] República 396BC, O Estadista 279CD, Epinome 975C.
[xiii] República 398A, 401B, 605-607, Leis 646C.
[xiv] Deut. 8:3, Lucas 4:4.
[xv] República 376E, 410A-412A, 521E-522A, Leis 673A. Platão sempre tem presente a obtenção do “melhor” para o corpo e para a alma, “já que não é bom, nem inteiramente possível, que qualquer tipo possa ser deixado só, puro e isolado” (Filebo 63B; República 409-410). “O único meio para a salvação destes males não é nem o exercitar da alma sem o corpo, nem do corpo sem a alma” (Timeu 88B).
[xvi] Sum. Theol. I-II.57.3 ad 2 (baseado na visão de justiça de Platão, que incumbe a cada homem o trabalha para o qual ele está naturalmente apto). Nenhuma das artes visa o seu próprio bem, mas apenas o do patrão (República 342B, 347A), o qual reside na excelência do produto.
[xvii] Timeu 47DE; cf. Leis 659E, no cântico.
[xviii] Timeu 80B, parafraseado em Quintiliano IX.117, “docti rationem componendi intelligunt, etiam
indocti voluptatem”. Cf. Timeu 47, 90D
[xix] Sâhitya Darpana III.2-3; cf. Coomaraswamy, The Transformation of Nature in Art, 1934, pp.
48-51.
[xx] Leis 840C. Sobre a katharsis, ver Platão, Sofista 226-227, Fedro 243AB, Fédon 66-67, 82B, Républica 399E; Aristóteles, Poética VI.2.1499b.
[xxi] Fédon 67DE.
[xxii] Fedro 279BC; tal como Hermes (Lib XIII.3,4, “Passei para fora de mim mesmo”, e Chuang-Tzu,
cap. 2, “Hoje enterrei-me a mim mesmo”. Cf. Coomaraswamy, “On Being in One’s Right Mind”, 1942.
[xxiii] Républica 389-398.
[xxiv] Aristóteles, Poética VI.2.1449b.
[xxv] O homem estético é “um que é demasiado fraco para enfrentar o prazer e a dor” (Républica 556C). Se pensarmos na impassibilidade (apatheia), não como o que nos referimos como “apatia” mas como sendo superior aos impulsos do prazer e da dor; cf. BG II.56 com horror, isto é porque deveríamos estar “indispostos a viver sem fome e sem sede ou afins, se não pudéssemos também sofrer (paschô, sânscrito bâdh) as consequências naturais destas paixões,” os prazeres de comer e beber e disfrutar belas cores e sons (Filebo 54E, 55B). A nossa atitude para com os prazeres e as dores é sempre passiva, se não verdadeiramente masoquista. Cf. Coomaraswamy, Time and Eternity, 1947, p. 73 e notas.
É muito claro na Républica 606 que o deleite numa tempestade emocional é exactamente o que Platão não entende por katharsis; uma tal indulgência apenas favorece os próprios sentimentos que se tentam suprimir. Um paralelo perfeito pode ser encontrado em Milinda Pañho (Mil, p. 76), pergunta-se, sobre as lágrimas derramadas pela morte de uma mãe ou derramadas pelo amor da Verdade, qual delas pode ser chamada de “cura” (bhesajjam) – ou seja, para a mortalidade do homem – e é assinalado que as primeiras são febris, as últimas frias, e é o que é frio que cura.
[xxvi] JUB III.30.2 e 39.2; BU III.7.3-4; CU VIII.13; Svet. Up. V.14. Cf. Fédon 65-69.
[xxvii] Estadista 288C.
[xxviii] Filebo 67B.
[xxix] Républica 399-404; cf. Leis 656E, 660, 797-799.
[xxx] Leis 659E; ver também nota 86 abaixo
[xxxi] Républica 399E; cf. Dante, Paraíso 1.13-21.
domingo, 14 de dezembro de 2008
A universalidade da arte sagrada
Apresentado o autor, publica-se agora uma tradução de um ensaio seu, A Universalidade da Arte Sagrada, publicado inicialmente na sua obra, Sacred Art in East and West, e republicado na obra a si dedicada, The Essential Titus Burckhardt, editada por William Stoddart e publicada pela World Wisdom em 2003.
Neste ensaio, Burckhardt, não só nos oferece uma clara exposição de como deve ser entendida a arte sagrada, como, através de uma demonstração da sua erudição, viaja a diferentes mundos tradicionais para nos mostrar como esta arte se manifesta em formas muito distintas, mantendo, ao mesmo tempo, a sua “Essência Divina”.

Quando os historiadores de arte aplicam o termo “sagrado” a todas as obras que tenham um tema religioso, escapa-lhes o facto da arte ser essencialmente forma. Uma arte não pode ser considerada sagrada pelo simples facto dos seus temas derivarem de verdades espirituais; a sua linguagem formal deve também derivar da mesma fonte.
Este não é, de forma alguma, o que ocorre em artes religiosas tais como a dos períodos da Renascença e do Barroco, as quais, no que respeita ao estilo, em nada diferem da arte fundamentalmente profana desses períodos; nem os seus temas, que retiram da religião de uma forma totalmente exterior e literária, nem os seus sentimentos devocionais com que é muitas vezes permeada, nem mesmo a nobreza da alma que ocasionalmente aí encontra a sua expressão, são suficientes para lhe conferir um carácter verdadeiramente sagrado. Nenhuma arte merece o epíteto de sagrada a não ser que as suas próprias formas reflictam a visão espiritual característica de uma determinada religião.
Toda a forma “transporta” uma qualidade particular do ser. O tema religioso de uma obra de arte pode estar meramente sobreposto a uma forma, caso em que lhe faltará toda a relação com a “linguagem” formal da obra, como é demonstrado pela arte Cristã desde a Renascença. Tais produções são meras obras de arte profanas com temas religiosos. Por outro lado, não existe arte sagrada que seja profana na sua forma, pois existe uma rigorosa analogia entre a forma e o espírito. Uma visão espiritual encontra necessariamente a sua expressão numa dada linguagem formal. Se esta linguagem foi esquecida – com o resultado que uma, assim designada, arte sagrada retira as suas formas a partir de todo o tipo de arte profana – significa que uma visão espiritual das coisas não mais existe.
Seria infrutífero procurar desculpar o estilo proteiforme de uma arte religiosa, ou o seu carácter impreciso e mal definido, com base na universalidade do dogma ou da liberdade do espírito. Apesar de reconhecido que a espiritualidade em si é independente da forma, isto não implica que possa ser expressa e transmitida por qualquer tipo de forma. Através da sua essência qualitativa, a forma tem um lugar na ordem sensorial análogo ao da verdade na ordem intelectual; esta é a importância da noção Grega eidos. Do mesmo modo que uma forma mental, tal como um dogma ou uma doutrina, pode ser uma reflexão adequada, apesar de limitada, de uma Verdade Divina, também uma forma sensorial pode restaurar uma verdade ou uma realidade que transcende os planos das formas sensoriais e do pensamento.
Cada arte sagrada é, assim, fundada numa ciência de formas ou, por outras palavras, no simbolismo inerente às formas. Deverá ser mantido em mente que um símbolo sagrado não é apenas um sinal convencional; ele manifesta o seu arquétipo em virtude de uma determinada lei ontológica. Como observou Ananda Coomaraswamy, um símbolo sagrado é, num certo sentido, aquilo que expressa. Por esta razão, o simbolismo tradicional nunca é desprovido de beleza. Em relação a uma visão espiritual do mundo, a beleza de um objecto não é mais do que a transparência das suas limitações existenciais.
Uma arte digna desse nome é bela porque é verdadeira. Não é possível nem necessário que cada artista ou artesão envolvido na arte sagrada seja consciente da Lei Divina inerente às formas; ele saberá apenas alguns dos seus aspectos, ou certas aplicações que surgem a partir dos limites e regras do seu ofício. Estas regras irão permitir pintar um ícone, moldar um vaso sagrado, ou praticar caligrafia de uma forma liturgicamente válida, sem ser necessário que ele conheça o significado último dos símbolos com que trabalha. É a tradição que transmite os modelos sagrados e as regras de trabalho e, dessa forma, garante a validade espiritual das formas. A tradição possui um poder secreto que é comunicado a uma civilização e que determina mesmo aquelas artes e ofícios cujos objectivos imediatos não incluem nada de sagrado. Este poder cria o estilo de uma civilização tradicional. Um estilo – algo que não pode ser limitado a partir do exterior – é perpetuado sem dificuldade, de uma forma quase orgânica, apenas pelo poder do espírito que qual é animado.
Um dos mais tenazes preconceitos modernos é aquele que se opõe às regras impessoais e objectivas de uma arte, resultante do receio de reprimir o génio criativo. Na realidade, não existe qualquer obra tradicional – uma governada por princípios imutáveis – que não consagre uma significante expressão de alegria criativa na alma; o individualismo moderno, por outro lado, produziu, à excepção de algumas obras de génio apesar de espiritualmente estéreis, toda a fealdade – a infindável e desesperada fealdade – das formas que preenchem a “vida quotidiana” dos nossos tempos.
Uma das condições fundamentais para a felicidade é saber que tudo o que fazemos tem um significado eterno; mas quem, nos tempos actuais, pode ainda conceber uma civilização em que todos os seus aspectos vitais se encontram desenvolvidos “à imagem dos Céus”? Numa sociedade teocêntrica, a mais humilde actividade participava nesta graça celestial.
O objectivo último da arte sagrada não é evocar sentimentos ou comunicar impressões; ela é um símbolo e, como tal, utiliza meios simples e primordiais. Não pode, em caso algum, ser mais do que alusiva, o seu real objectivo inefável. É de origem angélica, pois os seus modelos reflectem realidades supra-formais. Ao recapitular a criação – a “arte Divina” – em parábolas, demonstra a natureza simbólica do mundo e liberta o espírito humano do seu apego a crus e efémeros “factos”.
A origem angélica da arte é explicitamente formulada pela tradição Hindu. De acordo com o Aitareya Brâhmana, toda a obra de arte é alcançada pela imitação da arte dos devas, “seja um elefante em terracota, um objecto de bronze, uma peça de vestuário, um ornamento de ouro, ou uma carroça”. As lendas Cristãs que atribuem uma origem angélica a certas imagens milagrosas exemplificam a mesma ideia.
Os devas não são mais do que as funções particulares do Espírito Universal, expressões permanentes da Vontade de Deus. De acordo com uma doutrina comum a todas as civilizações tradicionais, a arte sagrada deve imitar a Arte Divina, mas deve ser claramente compreendido que tal não implica que a criação Divina concluída, o mundo tal como o vemos, deva ser copiado, pois tal seria pura pretensão. Um “naturalismo” literal é estranho à arte sagrada. O que deve ser copiado é a forma como o Espírito Divino actua. As suas leis devem ser transpostas para o domínio restrito em que o homem trabalha como homem, ou seja, no seu ofício.
Tal como, em virtude da sua Mâyâ, o Absoluto objectiva certos aspectos de Si próprio, ou certas possibilidades contidas em Si, e as determina por uma distinta visão, também o artista na sua obra realiza certos aspectos de si próprio. Ele projecta-os para além do seu ser indiferenciado. E, na medida em que a sua objectivação reflicta as profundezas do seu ser, tomará um carácter puramente simbólico, ao mesmo tempo que o artista se tornará cada vez mais consciente do abismo que separa a forma, reflectora da sua essência, daquilo que aquela essência realmente é na sua intemporal plenitude. O artista tradicional sabe: esta forma sou eu, no entanto, eu sou infinitamente mais do que isto, pois a sua Essência mantêm-se o puro Conhecedor, a Testemunha que nenhuma forma pode alcançar; mas ele sabe que é Deus que é expresso através da sua obra, para que a obra transcenda, por sua vez, o fraco e frágil ego do homem.
Aqui reside a analogia entre a Arte Divina e a arte humana: nomeadamente na realização do eu através da objectivação. Para que esta objectivação tenha significado espiritual, e não apenas por uma vaga introversão, os seus meios de expressão devem nascer de uma visão essencial. Por outras palavras, não deverá ser o “ego”, a raiz de toda a ilusão ignorância do eu, que arbitrariamente escolhe esses meios; eles devem ser derivados a partir da tradição, da formal e “objectiva” revelação do Ser Supremo, que é o “Si” de todos os seres.
Atingir a Unidade a partir da beleza do mundo – isto é sabedoria. Por esta razão, o pensamento Islâmico liga, necessariamente, a arte à sabedoria; aos olhos de um Muçulmano, a arte é essencialmente fundada na sabedoria, ou “ciência”, ciência esta que não é mais do que a formulação da sabedoria em termos temporais. O propósito da arte é permitir ao ambiente humano – o mundo na medida em que se encontra moldado pelo homem – a participação na ordem que de forma mais directa manifesta a Unidade Divina. A arte esclarece o mundo; ajuda o espírito a se desprender da perturbante multiplicidade de coisas, para que possa ascender em direcção á Unidade Divina.
***
Enquanto que nenhuma doutrina interessada a Deus pode escapar, na sua formulação, ao carácter ilusório dos processos mentais, o que atribui os seus próprios limites ao ilimitado e as suas próprias formas conjecturais ao informe, a beleza de Buddha irradia um estado de ser que não é limitado por qualquer processo mental. Esta beleza é reflectida na beleza do Lotus; é perpetuado ritualmente na imagem pintada ou esculpida de Buddha.
No entanto, quem perceber este movimento circular é capaz de reconhecer o centro que constitui a sua essência. O propósito da arte é conformar-se a este ritmo cósmico. A mais simples fórmula que atesta a mestria na arte consiste na capacidade para traçar um círculo perfeito num única pincelada e, desta forma, identificar-se implicitamente com o seu centro, sem que o próprio centro esteja explicitamente expresso.
***
Não existe qualquer arte sagrada que não dependa de um aspecto de metafísica. A ciência da metafísica é, ela própria, ilimitada, dado que o seu objecto é infinito. Como não é possível descrever aqui todos os relacionamentos que ligam as diferentes doutrinas metafísicas neste domínio, o leitor é remetido para outros livros que apresentam as premissas nas quais este ensaio é baseado. Eles cumprem essa tarefa através da exposição, numa linguagem acessível ao leitor ocidental moderno, a essência das doutrinas tradicionais do Oriente e do Ocidente Medieval. Referimo-nos em particular aos escritos de René Guénon e Frithjof Schuon.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Em cada homem um artista


Esta antologia de textos confronta na verdade dois mundos; mais propriamente uma filosofia tradicional ou uma sabedoria sobre a vocação, com aquilo que a substituiu: um substituto que teve o seu início como uma glorificação do homem e terminou, a seu devido tempo – o nosso tempo – como uma justificação para o sub-humano. Durante milénios, os assuntos relacionados com a vocação humana, a arte, o trabalho, o talento, eram colocados na matriz de um entendimento do homem como uma criatura criada à imagem de Deus. Apesar de se admitir a sua natureza física, o homem era dotado, na sua vida terrena, com a vocação de apreender a sua verdadeira natureza, a espiritual, na realidade a natureza espiritual de todas as coisas. Esta vocação, pela sua própria natureza, não era a herança de uma elite especializada, mas sim a verdadeira distinção do que significava ser verdadeiramente humano. A arte, como a norma ou a perfeição do trabalho humano, era o meio essencial pelo qual o homem e a mulher apreendiam, através dos requisitos da vivência adequada, o seu relacionamento integral com a natureza sagrada da realidade.
A partir da Renascença esta filosofia tradicional, na qual a arte era entendida como uma virtude ou um hábito da mente, foi gradualmente substituída por um entendimento da arte como algo referente a uma categoria seleccionada de coisas produzidas por pessoas designadas por artistas, que possuíam um temperamento excepcional, e que criavam obras com ressonâncias estéticas e emocionais especiais.
Este desenvolvimento foi agora levado a explorar os limites do potencial irracional que a ele pertenciam desde o início. As sementes da destruição foram semeadas no instante em que se aceitou que a arte não necessitava de se basear em nada para além do humano: isto é, a doutrina da arte pela arte. O resultado é que muito do que é considerado arte é agora incompreensível para a maioria, e parece não servir qualquer propósito para além da personalidade “excepcional” do seu criador. Ao mesmo tempo, tornou-se de todo impossível definir arte numa sociedade onde a maior parte dos homens e mulheres são excluídos de um envolvimento efectivo com qualquer tipo de arte. Apesar da presente colecção não abordar directamente tais temas, podemos referir que esta exclusão da maioria do envolvimento com a arte, cria e promove uma grande injustiça social e económica. A questão imediata que nos interessa aqui é se a filosofia tradicional é apenas um interesse antiquado, ultrapassado por algo mais sábio, mais abrangente, mais efectivo na sua habilidade para explicar quais as necessidades espirituais e práticas do homem e como elas podem ser alcançadas; ou se a filosofia tradicional pode ser revelada como sendo um repositório vivo de sabedoria, que pode desafiar e demonstrar, de forma efectiva, o quanto inadequado é o que a substituiu. De uma coisa podemos estar certos: sempre que a compreensão do homem do mundo físico e da sua relação prática com ele não esteja em harmonioso acordo com as suas aspirações espirituais, o resultado será sempre ruína.
Nenhuma filosofia de arte se pode dar ao luxo de ser verdadeira apenas em teoria. Ela deverá ser igualmente verdadeira na prática. Qual seria a razão de ser de uma filosofia de arte que não buscasse ser verdadeira em ambas. Nesta necessidade integral estão ancoradas todas as complexidades da situação. Qualquer filosofia de arte tem de pressupor um artista e, uma vez que toda a arte surge em primeiro lugar no artista, deverá ter em consideração a natureza do homem como artista, como “criador” das obras de arte. Apenas aí poderá essa filosofia considerar a operação pela qual a arte é aplicada. E esta é aplicada a uma estonteante variedade de situações; desde praticamente todas as substâncias físicas até a modos mais subtis da realidade – desde a pedra (escultura) até às vibrações do ar (música), desde de tubos a sinfonias.
Adicionalmente, uma verdadeira filosofia de arte deverá ter em consideração a evidência histórica que nunca existiu uma altura em que o homem e a mulher não fossem artistas. No modo com interagem através do corpo e da mente com a natureza do mundo, é da própria essência do homem e da mulher que sejam artistas, criadores de coisas necessárias para viver uma vida em que, simultaneamente e na mesma medida, as necessidade da vida corporal e as necessidades da vida espiritual sejam satisfeitas. Esta antologia propõe, assim, que aquilo a que Ananda K. Coomaraswamy designou pela “verdadeira filosofia de arte” (expostas em dois dos ensaios aqui incluídos), é precisamente isso, e que aquilo que a substituiu é uma compreensão demasiado restrita da real natureza do artista como agente e, consequentemente, uma noção demasiado especializada do que é a arte.
A filosofia tradicional da arte nunca foi extensamente formulada excepto no modo em que foi praticada durante séculos pela maioria dos homens e mulheres. Não existiu qualquer razão para articular esta necessidade de forma sistemática, até à altura em que a sua ausência, e a resultante confusão que a substituiu, tornou este trabalho imperativo. Este trabalho foi cumprido por Coomaraswamy que, regressando aos princípios primeiros, propôs a verdadeira filosofia da arte com base na philosophia perennis – a totalidade das verdades universais e axiomas metafísicos que estão na base das tradições sagradas do mundo. Coomaraswamy não trabalhou sozinho, ele foi um de um grupo de académicos independentes que vieram a ser conhecidos como tradicionalistas ou perenialistas. Para além de Coomaraswamy, a primeira geração deste grupo incluía René Guénon, Frithjof Schuon, Titus Burckhardt, Marco Pallis, Martin Lings e Whitall Perry. Outros surgiram a partir daí seguindo os seus passos. Tal era a convicção de Coomaraswamy – baseada numa inigualável erudição – na verdade universal e na normalidade da philosophia perennis que, numa carta a Aldous Huxley em 1944, ele a descrevia como um corpo de doutrina de “inteligibilidade auto-autenticável [que] explica mais coisas do que as explicadas em qualquer outro lugar.” Aquilo que espero que emerja da presente colecção é, não só um sentido daquilo que é a filosofia tradicional da arte, mas também, incidentalmente, um sentido daquilo que substituiu este corpo de sabedoria, e de que forma este substituto explica menos coisas.
Alguns anos atrás o Museu Britânico em Londres publicou um catálogo sobre arte Românica, no qual estava uma ilustração de um diagrama cosmológico Cristão do século XI mostrando a harmonia do microcosmos e do macrocosmos na constituição do Universo. A legenda da ilustração terminava com a afirmação de que este diagrama, e outros do género, “podem ser descritos como obras de arte por mérito próprio.” Mais recentemente, um conhecido jornal descrevia o trabalho de uma senhora que tecia paisagens com coloridas lãs e um garfo de mesa. A senhora não havia tido qualquer sucesso até que, em vez de se denominar artesã, decidiu se promover como “artista.” Noutra situação, uma revista dedicada à “cultura pop” falava dos anos sessenta como um período em que a música rock se estava a tornar consciente do seu crescente estatuto de “arte”. Todas estas afirmações, escolhidas deliberadamente a partir de fontes muito distintas, têm algo em comum. Não excluindo completamente a possibilidade de que devemos entender a arte como algo que requer perícia na produção de coisas, cada afirmação assume que a arte está relacionada com uma categoria seleccionada de objectos avaliados apenas por razões estéticas. Por essa razão têm prestígio e são distanciadas das coisas da vida comum, as quais são, de qualquer forma, coisas feitas por homens e mulheres, mas não são arte. A arte, segundo este entendimento, em vez de se localizar no artista é aplicada a objectos externos. Este desvio de significado tem vindo a se desenvolver há já algum tempo. Do entendimento antigo da palavra “arte” como perícia (ou como uma virtude do intelecto que leva à perfeição do trabalho), ao sentido moderno de arte como uma mal definida mas prestigiada categoria de objectos estéticos, está um caminho com muitas e subtis curvas. Tal como Owen Barfield referiu na sua “History in English Words”, foi apenas a partir da Renascença que a arte (que antigamente se referiria também àquilo que hoje chamamos de ciência), passou a ser entendida como uma actividade sem relação com as muitas produções e acções necessárias à vida. Hoje, com surpreendente regularidade, notamos o quanto é frequente em discussões no campo das artes, estas rapidamente tropeçarem na questão aparentemente impossível de responder “o que é a arte?”. Daqui devemos concluir que a palavra “arte”, no seu uso moderno, pouco ou nada elucida.
Certamente concordamos que a arte é importante. Certamente concordamos, embora mais tacitamente, que a realização nas artes é desejável para o maior número de pessoas possível. Mas existem sinais de que estamos desconfortáveis com este consenso, numa altura em que a arte não tem um lugar significativo nas vidas da maior parte dos homens e mulheres. Quanto mais diligentemente as artes são promovidas (por um crescente exército de administradores de arte e empresários), mais elas são recomendadas para o nosso consumo passivo, por vezes como se fossem um remédio que devemos tomar para a nossa saúde. A juntar à confusão, é agora prática comum que o Estado conceba fundos públicos a um artista avant-garde cuja principal motivação é colocar em questão qualquer noção estabelecida do que é a arte. O nosso acordo tácito que o artista é, de certa forma, uma pessoa especial (ou talvez, mais precisamente, uma pessoa com um especial tipo de sensibilidade), implica que essa arte tenha o poder de aliviar a condição de comum vulgaridade que é a vida da maioria: os não artistas. Esta assumpção (na realidade pertence mais à natureza de uma superstição), está tão intrincada que, mesmo quando somos confrontados com artefactos que são obviamente um reflexo da nossa corrupção espiritual e decadência cultural, a ideia de que o artista é um ser elevado persiste.
Adular a “criatividade” e a inovação por si só, como é caso na nossa sociedade, é equivalente a argumentar que o trabalho de um artista não tem de responder a nenhum princípio inteligível ou ordem de conhecimento: que não pode ser julgado em relação a qualquer estrutura de valores, ou ser assimilado a qualquer ordem de significado para além dele próprio. É concordar que a arte é um fim em si própria. Este auto-imposto isolamento é, em última análise, a medida da irrealidade daquilo que tentamos rotular como arte. Pensamos na criatividade como uma extensão sem restrições das fronteiras que necessitam de ser desafiadas, de modo a que estas não inibam e encurtem a nossa necessidade de explorar novas regiões da mente. Mas aqui reside um paradoxo. Que valor pode ser atribuído a essas ideias de liberdade e de fronteiras num meio artístico perto da anarquia? Seria saudável reconhecer que esta actividade auto referenciada, que pensamos ser a criatividade, assenta num sentido de liberdade totalmente espúrio que o dispensa de qualquer mais ampla responsabilidade.
O entendimento académico da arte como uma coisa feita e da prudência como uma acção cumprida – uma a perícia no fazer, a outra a perícia na acção – cria uma distinção vital que nos impede de assumir que o fim para o qual a perícia é aplicada é o mesmo que o fim para o qual a vida deve ser dirigida. Fazer isto é, efectivamente, limitar a vida ao aperfeiçoamento do trabalho e, assim, tornar o trabalho mais importante que o próprio homem. Para além de se tornar perigosamente próximo de definir o homem meramente em relação às suas produções, levanta uma outra questão: em relação a que padrão devem as obras humanas ser julgadas? Uma bomba pode ser feita de forma perfeita pela arte do fabricante, mas é a explosão letal que demonstra a sua perfeita perícia um bem que promove a perfeição da vida? Tal questão ajuda nos a compreender a razão pela qual, de acordo com a filosofia tradicional, a virtude da arte, apesar de não confundida com a virtude moral, está, no entanto, a ela intimamente ligada. Ninguém age isolado. Nenhum homem ou mulher é tão “livre” que possa não contribuir, bem ou mal, para a estrutura social e material e bem-estar do mundo. Isto implica que todas as acções têm consequências e, por essa razão, implicam responsabilidades.
A perda da distinção entre arte e prudência não é apenas sentida pelo artista. Esta perda estende-se ao patrono, que perdeu o conhecimento para discernir o bem para o qual as coisas criadas com perícia devem ser dirigidas. Estende-se, ainda, ao utilizador final, que perdeu os meios culturais para reconhecer como devem ser utilizadas as coisas criadas com a adequada perícia. Também perdido foi o relacionamento interactivo entre o artista, o patrono e o utilizador final, pelo qual a arte se torna um modo de vida, numa série de acções mutuamente suportáveis através da sociedade.
E interessará se produzimos coisas através de máquinas ou manualmente? No fundo, estas são simplesmente diferentes técnicas para a produção de bens necessários, e a produção mecânica é de longe a mais eficiente. É claro que interessa. O padrão puramente utilitário da eficiência envolvida na produção mecânica dilui a distinção entre perícia e técnica. Não reconhece a responsabilidade intelectual que é própria ao homem como um criador talentoso de coisas. Tornou-se necessário ter um claro entendimento do que foi usurpado no domínio da perícia, pois nunca antes o artista (como homo faber) teve que trabalhar num meio tão completamente dominado pela máquina – esse aparelho de absoluta utilidade cuja forma e função tão impiedosamente exclui todas as qualidades humanas no modo em que iguala os meios aos fins. Não é uma coincidência o facto das máquinas, ao retirar ao criador a sua responsabilidade intelectual, se tornarem no instrumento perfeito da catástrofe que é o mundo material manipulado puramente em termos quantitativos.
A perícia é uma habilidade humana aplicada a algo, de forma a alcançar um determinado fim. Claramente, ter perícia é superior a não ter. Isto é ainda reconhecido numa sociedade largamente moldada por formas de mecanização que recorrem a trabalho que não requer qualquer perícia. A perícia encara à partida um dado fim ou resultado, um objectivo para a sua aplicação que é superior àquilo que seria no caso da sua ausência. A perícia é, desta forma, um conhecimento e um discernimento de um fim a ser atingido – neste sentido, é indistinguível da arte no sentido tradicional. A técnica difere da perícia na medida em que é o modo imediato da aplicação da perícia. A técnica é uma habilidade praticada ou um meio pelo qual o conhecimento e discernimento da perícia (arte) são consumados em acção. A perícia deve ser entendida, de modo mais amplo, como sendo tanto uma função da inteligência, como uma habilidade prática. A técnica é uma função mais localizada da perícia, não da mente. A técnica pode ser operativa na ausência da perícia; a perícia nunca é operativa sem a técnica. Parte da perícia está na mente, parte é realizada na aplicação. Toda a técnica é uma aplicação (uma pequena parte pode ser considerada como algo de residual na memória).
Mas existe outra dimensão para a noção da responsabilidade intelectual do criador que deve ser considerada. Intrínseca à natureza produtiva da perícia e da técnica tem-se a repetição e, assim, a comparação. Se uma coisa é repetida, a comparação entre duas torna-se possível, enquanto que a coisa feita como única está, por definição, para além de qualquer comparação, não tem realidade genérica. Isto significa que existe uma sabedoria intelectual, conceptual e prática em relação ao que é, por exemplo, um ícone ou uma cadeira, e como cada um deve ser usado. Cada um é um “tipo” que tem uma forma inteligível. A “peça única” (esse ídolo do avant-garde) que está para além da comparação, é isolada para lá de qualquer contexto de sabedoria ou conhecimento que nos informa sobre o que é, e como deve ser usada. No conhecimento e discernimento que é logicamente anterior à aplicação da perícia, deve existir uma sabedoria sobre o fim para o qual a perícia é aplicada. Esta sabedoria é um conhecimento do que serve e do que é apropriado em qualquer circunstância em que a perícia humana é solicitada. Por extensão, é também uma sabedoria do quão correctamente foi aplicada a perícia. É inconcebível que tal sabedoria possa ser exercida sem um amplo acordo para com um padrão e um contexto aceitável, pelo qual um resultado possa ser medido. Se o produto da perícia (arte) é medido por um padrão reconhecido de comparação, então a ocasião da perícia será uma convenção quanto à validade da sua aplicação. Na verdadeira aplicação da perícia, o artista deve ser capaz de conceber qual é o fim apropriado para a sua arte. De outra forma, não poderá existir uma efectiva correlação entre a imitação e o resultado, a qual é a base de todo o julgamento artístico, bem como parte da razão pela qual perguntamos, de uma obra de arte que não compreendemos, “O que é isto?”
Em qualquer parte em que a arte seja entendida como uma virtude ou um hábito da mente que se mantém no artista, estas verdades aplicam-se a toda a criação com recurso à perícia. A sua “auto-autenticada inteligibilidade” exemplifica a afirmação de Platão que “não podemos dar, de forma justa, o nome de arte a qualquer coisa que seja irracional.” Onde estas verdades forem mantidas de forma operativa, a arte é ocasional e provém de convenções que não fazem qualquer distinção entre artistas e não artistas. Não será necessário referir que a mutualidade de tais verdades estarão tão efectivamente presentes nas condições industriais de manufactura, como estão no meio da arte contemporânea. No sistema industrial, o operador das máquinas é usurpado da sua responsabilidade para exercer a sabedoria e o discernimento da perícia que deveria, por direito próprio, ser sua, e é sua integralmente em virtude da sua natureza espiritual. O moderno criador da “bela” arte simplesmente repudia tal responsabilidade, na medida em que desrespeita as convenções, aspirando continuamente a produzir obras sem precedente, rejeitando a validade de qualquer padrão para além da sensibilidade estética.
O facto da questão “O que é a arte?” ser tão rapidamente e frequentemente proferida em discussão, é apenas uma das muitas indicações que a cultura moderna se encontra num estado de confusão. O resultado social e prático é o estado de crise que força constantemente à reformulação dos princípios e regras para a conduta dos assuntos humanos, enquanto que, ao mesmo tempo, falhando na garantia de um critério filosófico e intelectual que tornaria inteligível o necessário caminho para uma acção de remedeio. Esta “erosão” da inteligibilidade que lança tudo na dúvida, é o resultado de uma subjectividade que nunca é tida em consideração em qualquer critério objectivo. Na sua essência, a confusão não é mais do que o seguinte: se a arte é, de certa forma, tudo aquilo que alguém decide que seja, temos apenas de nos proclamar como “artistas” para produzir obras de arte. Nesse caso, todos os homens e mulheres são artistas através dessa proclamação. Mas se todos são artistas onde está a distinção particular e o prestígio (tão evidentemente desejado) de ser um artista?
Regressámos nós, assim, ao entendimento tradicional, no qual, em virtude de possuir o hábito da mente que é a norma do trabalho humano, cada pessoa é um artista? Longe disso. A liberdade arbitrária tomada pela subjectividade auto-governada que é o ideal do artista moderno, não é mais do que o entronamento da vocação e da originalidade para governar, sem responsabilidade, as amplas circunstâncias da vocação, modo de vida e justiça exercida à luz das verdadeiras necessidades humanas. Ficamos com este tipo de paródia de liberdade interior do intelecto e da vontade de alcançar o bem e o belo, que é o objectivo final de todas as coisas feitas com perfeição, e que constitui parte dos ensinamentos tradicionais.
Da perspectiva tradicional do que constitui a vocação humana, qual é especificamente o fardo da nossa era?
Aqui, é necessário compreender duas coisas que vão para além das questões da arte, mas que constituem uma profunda e inescapável base para a forma como a arte é concebida e praticada. Mantendo em mente que, na esfera das artes, não existem absolutos, em primeiro lugar, deve ser entendido que estamos a viver no final de um ciclo cósmico para o qual fomos destinados. Em relação à depreciação metafísica da história, corresponde a um tempo em que tudo é colocado em questão e nenhuma verdade parece ser capaz de se manter firme. Esta tendência para a depreciação, na medida em que afecta as artes, é manifestada na aceitação passiva geral das mais negativas possibilidade do estado humano na nossa sociedade. Isto não pode ser evitado, visto que o final do ciclo terá que ser exausto da totalidade dessas possibilidade – positivas e negativas – das quais é constituído.
Em segundo lugar, e de forma contrária, a alma humana requer o reconhecimento de um movimento espiritual compensatório para contrariar esta precipitação descendente, de modo a que seja salva de um determinismo que iria anular qualquer tentativa para transcender a história. Se a mera passagem do tempo pudesse, por si própria, anular a aspiração espiritual, qual seria a necessidade da oração, quanto mais o esforço de procurar a Verdade sem a qual não poderá existir o reconhecimento da natureza contingente do passar do tempo? Muitos dos que contribuem para esta antologia aludem ao princípio Beneditino onde “trabalho é oração.” Isto refere-se a interpretações dos critérios cósmicos e morais nas leis do correcto modo de vida (uma das maiores preocupações na obra de Wendell Berry, por exemplo), que torna possível moldar adequadamente a vida humana ao modelo divino.
Uma vez que é contra estas condições que, para o homem moderno, todas as actividades humanas decorrem, temos que aceitar que não poderá existir nada na esfera da cultura comparável com os feitos do passado. Apesar da esperança de Titus Burckhardt para uma renovação da arte sagrada no Ocidente, existe um tempo para a arte hierática do Egipto, na qual o ego estava completamente ausente, um tempo para as cristalizações harmónicas do Gótico, um tempo para o humanismo titânico da Renascença, um tempo para o “realismo” do século dezanove e, terá de ser admitido (mesmo que apenas para medir a descida de uma transcendência do humano, para uma demonstração do sub-humano), um tempo para um urinol suspenso num fio assinado R. Mutt.
Todas as vozes na secção final da presente colecção, e algumas na secção intermédia, expressam a sensação de terem que trabalhar contra a corrente, de lutar contra a falta de coerência, de um empobrecimento de contexto, quando se trata de tornar efectivo a totalidade da prática que a sua arte exige. Nada, na arte moderna, foi para além do radical desafio de Duchamp em colocar em questão o status e as fronteiras da arte na sociedade moderna. Mas apenas o apelo aos princípios primeiros, feito pela filosofia tradicional (por exemplo por Coomaraswamy), em “explicar mais e melhor,” toma em consideração todos os factores que contribuem para um entendimento totalmente inclusivo da natureza e da função da arte. E a arte é, segundo este entendimento, apenas um modo (o produtivo) de uma mais ampla e profunda concepção da vocação. Do ponto de vista do artista ou artesão contemporâneo não é, de todo, uma questão das doutrinas tradicionais providenciarem uma filosofia recuperada e uma fórmula de trabalho em que se possam basear. Nem é, de todo, uma questão de disponibilidade de talento individual. A falta de coerência e empobrecimento do contexto mencionado, aponta claramente para preocupações para além do uso de uma arte ou perícia. No lado interno, por assim dizer, existiriam muitos imponderáveis de educação, de gosto estético e preferências pessoais acumuladas que provavelmente se tornaram hábitos da mente, para o artista contemporâneo prosseguir como se a filosofia tradicional tivesse instantaneamente limpo todas as confusões agora associadas com as questões de vocação e de arte. Coomaraswamy disse de Eric Gill que “ele inventou um modo humano de trabalhar e descobriu que era aquele de todas as sociedades humanas.” Mas o próprio Gill, provavelmente mais consciente das dificuldades práticas envolvidas, sabe-se ter dito “Aquilo que alcancei não tem qualquer consequência – apenas pode ser considerado o princípio – irá levar gerações.”
Do lado externo, não é para o “criador” determinar a qualidade no seu patrono. As forças sociais e económicas são uma parte significativa do patronado, bem como um entendimento da natureza da vocação – um conceito relativamente obsoleto na nossa era pós-industrial. A única preocupação, como criador, é olhar para o bem do trabalho a ser feito.
O desafio colocado pela filosofia tradicional deverá ser o de voltar a focar a atenção sobre o último instrumento da arte: o próprio homem. O que é o homem? Nenhuma elaboração sobre a teoria estética pode esconder o facto da arte, da perícia, do trabalho (todos eles provem da mesma raiz), repousarem sobre questões mais amplas como a beleza e a verdade, o bem e o mal, justiça, moralidade e ética. Está na mente do homem que os erros surgem e que a falsidade é permitida e considerada uma presença aceitável. Está na mente do homem que as ilusões da modernidade devem ser afastadas por um conhecimento e uma sabedoria de acordo com a duradoura natureza destes mais amplos assuntos.
Para responder ao bem ensaiado criticismo que a defesa da visão tradicional da arte é invocar o passado, ordem morta das coisas que pouco ou nada pode fazer para remediar os males e a confusão actuais: isto é não conceber o nível a que o remedeio poderá ser efectivo. Qualquer ajuste ou mudança de direcção ao mero nível da estética ou prática, está destinada a acarretar em si as mesmas confusões que nos apoquentam agora, se essas mudanças não alcançarem os princípios primeiros (formulados nas secções i e ii) de conhecer e ser, a partir dos quais todas as acções humanas emergem. Precisamos de despertar para essas verdades fundamentais que dão valor e significado aos nossos pensamentos e acções. A filosofia tradicional, longe de invocar relíquias do museu de história, aponta para a necessidade de uma testemunha eterna, uma intuição directa das realidades do intelecto, que são a verdadeira base a partir da qual a arte provém.
A pequena secção “Intimations”, não faz mais do que semear algumas sementes. Sementes nas quais, no entanto, completas áreas de discurso filosófico se encontram em potência, de modo a germinarem nos temas principais na subsequente exposição teórica da natureza e do lugar da arte na vida humana. O cerne da colecção como um todo encontra-se nos dois grandiosos ensaios sinópticos de Coomaraswamy na secção “Formulations”. Estes dois ensaios cobrem o período desde Platão até à formulação escolástica da teoria na Alta Idade Média. Na sua clareza e profundidade, baseada em fontes contemporâneas, Coomaraswamy demonstra que a visão tradicional da arte é dependente, e baseada, num mais vasto corpo de doutrina que é a philosophia perennis. É precisamente este suporte e dependência que permite que a “verdadeira” filosofia da arte explique mais e melhor que as filosofias mais tardias.
Outros contribuintes para esta secção, muitas vezes trabalhando a partir do conhecimento dos textos de Coomaraswamy, fazem as suas “formulações,” por vezes pela necessidade de clareza teórica (Schuon, Burckhardt), outras provenientes de uma necessidade de casar a prática com os princípios primeiros. Eric Gill, por exemplo, não via qualquer contradição entre a sua prática como um pioneiro escultor, gravador e polemista do século vinte, e a sua profunda fé Católica. Na realidade, uma era necessariamente o suporte da outra.
A face polémica desta colecção – e que é intencional – surge sobretudo na última secção, “Reverberations”. Esta secção demonstra, espero, a continuidade da relevância dos ensinamentos tradicionais. Cada um dos autores é um dos principais praticantes na sua área – que inclui a pintura, a poesia, a olaria, a caligrafia, a música e, no caso de Wendell Berry, a agricultura, a mais fundamental de todas as artes. Todos estes praticantes sentiram na sua prática das suas muito diferentes artes, as tensões internas de uma dupla necessidade: libertarem-se do pântano contemporâneo de ideias vagas e mal definidas do que constitui a arte; e, depois, moldar a sua própria prática a um modelo que tenha em consideração a dimensão inerentemente espiritual da vocação humana. O “Art and Sacrament” de David Jones oferece o mais reactivo e detalhado resumo que conheço sobre as muitas tensões e dilemas que enfrentam os artistas contemporâneos que se pretendem manter fiéis com a natureza ultimamente sacramental da arte, enquanto mantendo uma legítima relevância para a sua própria situação histórica.
Uma última palavra, um ensaio escrito especialmente para a presente ocasião, é dada por Sir John Tavener, cuja música tem sido largamente reconhecida como relevante para o seu tempo, e que providencia um autêntico suporte para a contemplação de uma realidade sacramental.
_______________________________________
Every Man an Artist
I INTIMATIONS
Chapter 1 PLATO
Chapter 2 ARISTOTLE
Chapter 3 PLOTINUS
Chapter 4 THE HOLY BIBLE
Chapter 5 CORPUS HERMETICUM
Chapter 6 DIONYSIUS THE AREOPAGITE
Chapter 7 ERIUGENA
Chapter 8 ST JOHN OF DAMASCUS
Chapter 9 ST THEODORE THE STUDITE
Chapter 10 ST THOMAS AQUINAS
Chapter 11 ST BONAVENTURE
II FORMULATIONS
Chapter 12 LUC BENOIST The Origins of Art
Chapter 13 RENÉ GUÉNON Initiation and the Crafts
Chapter 14 RENÉ GUÉNON The Arts and their Traditional Conception
Chapter 15 ANANDA K. COOMARASWAMY A Figure of Speech or a Figure of Thought?
Chapter 16 ANANDA K. COOMARASWAMY The Christian and Oriental, or True Philosophy of Art
Chapter 17 FRITHJOF SCHUON Principles and Criteria of Art
Chapter 18 JOHN HOWARD BENSON and ARTHUR GRAHAM CAREY The General Problem
Chapter 19 ERIC GILL The Four Causes
Chapter 20 ERIC GILL Of Beauty
Chapter 21 SOETSU YANAGI Pattern
Chapter 22 TITUS BURCKHARDT The Decadence and Renewal of Christian Art
III REVERBERATIONS
Chapter23 DAVID JONES Art and Sacrament
Chapter 24 KATHLEEN RAINE The Vertical Dimension
Chapter 25 WENDELL BERRY Two Economies
Chapter 26 CECIL COLLINS `Why does Art today lack inspiration?'
Chapter 27 BERNARD LEACH Integration
Chapter 28 MICHAEL CARDEW On Pottery and Potting
Chapter 29 EDWARD JOHNSTON Formal Penmanship defined by the thing
Chapter 30 SIR JOHN TAVENER Towards the Musica Perennis