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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tributo de Martin Lings a René Guénon

A tradução apresentada na presente publicação corresponde a um texto transcrito de uma lição dada por Martin Lings no Outono de 1994 no Instituto do Príncipe de Gales em Londres, patrocinada pela Temenos Academy. Este texto foi publicado no Número 1 - Volume 1 do Sophia Journal em 1995.


***

No que diz respeito ao início da vida de René Guénon o nosso conhecimento é muito limitado devido à sua extrema reticência. A sua objectividade, a qual é um aspecto da sua grandeza, fê-lo compreender os males do subjectivismo e individualismo no mundo moderno, o que o impeliu, talvez em demasia, na direcção oposta; evitando de todas as formas falar sobre si próprio. Desde a sua morte, têm sido escritos livros atrás de livros e os seus autores têm, sem dúvida, sentido uma enorme frustração por serem incapazes de descobrir diversas coisas e, em resultado, livros atrás de livros contêm erros factuais.


Aquilo que sabemos é que nasceu em Blois, França, em 1886, e que era o filho de um arquitecto; teve uma educação tradicional Católica e era um excelente aluno em filosofia e matemática. Mas com a idade de 21 ele já estava em Paris, no mundo do ocultismo, o qual estava em grande agitação naquela altura, por volta de 1906-08. E os perigos daquele mundo foram talvez nele contrabalançados pelo facto de ser mais aberto a amplas perspectivas. Por volta desta altura, em Paris, entrou em contacto com alguns Hindus da escola Advaita Vedanta, um dos quais o iniciou na sua própria linha Shivaita de espiritualidade. Não temos detalhes da altura ou local e parece que ele nunca falou sobre esses Hindus nem parece ter mantido o contacto após um ou dois anos. Mas aquilo que aprendeu com eles encontra-se nos seus livros e os seus encontros com eles foram claramente providenciais. Estes contactos devem ter sido extremamente intensos enquanto duraram. Os seus livros são precisamente aquilo que era e é necessário como antídoto para a crise do mundo moderno.


Pela altura em que tinha quase 30 anos, a sua inteligência fenomenal permitiu-lhe ver exactamente o que estava errado no Ocidente moderno, e essa mesma inteligência tinha-lo trazido para fora dele totalmente. Eu próprio me lembro desse mundo no qual e para o qual Guénon escreveu os seus primeiros livros, na primeira década a seguir à Primeira Grande Guerra, um mundo monstruoso tornado impenetrável pela euforia: a Primeira Grande Guerra tinha sido a guerra para acabar com a guerra. Agora nunca mais haveria uma outra guerra; e a ciência tinha provado que o homem era descendente do macaco, isto é, ele tinha progredido dos primatas, e agora este progresso iria continuar sem nada que o impedisse; tudo iria tornar-se melhor, melhor e melhor. Eu estava na escola nessa altura e lembro-me de ser ensinado estas coisas, com apenas uma hora por semana a ser ensinado o oposto nas aulas de religião. Mas a religião no mundo moderno já tinha há muito sido encostada a um canto. Desse canto ela protestava conta a euforia, mas sem resultado.


Hoje a situação é consideravelmente pior e consideravelmente melhor. Ela é pior porque os seres humanos degeneraram ainda mais. Podemos ver bem mais faces maldosas do que se viam nos anos 20, se tal me é permitido dizer, ou, pelo menos, é essa a minha impressão. Ela é melhor porque já não existe qualquer euforia. O edifício do mundo moderno está a cair em ruína. Grandes fissuras estão a surgir por toda a parte, através das quais se pode penetrar como nunca foi possível. Mas é ainda pior porque a Igreja, ansiosa para não ficar atrás dos tempos, se tornou cúmplice da modernidade.


Mas para voltar aos anos 20, lembro-me de um político proclamar, como alguém se atreveria actualmente, “Estamos agora na manhã gloriosa do mundo.” E nesta mesma altura, escreveu Guénon deste maravilhoso mundo, “É como se um organismo com a sua cabeça cortada continuasse a viver uma vida, intensa e desordenada.” (retirado de Este e Oeste publicado a primeira vez em 1924).


Parece que Guénon não manteve contactos adicionais com o Hindus e sem dúvida eles regressaram à Índia. Entretanto, ele foi iniciado numa ordem Sufi, a qual seria a sua casa espiritual para o resto da sua vida. De entre os males que viu à sua volta ele era muito preocupado com o preconceito anti-religioso que era particularmente comum entre os designados intelectuais Franceses. Ele tinha a certeza que algumas dessas pessoas eram, no entanto, virtualmente inteligentes e seriam capazes de responder à verdade se esta lhes fosse claramente exposta. Este preconceito anti‑religioso surgiu porque os representantes da religião tinham gradualmente se tornado menos inteligentes e mais e mais centrados em considerações sentimentais. Especialmente na Igreja Católica, onde a divisão da comunidade em clero e leigos era sempre enfatizada, um leigo tinha de confiar na Igreja, não sendo sua função pensar sobre coisas espirituais. Os homens leigos inteligentes colocariam questões a padres que não teriam capacidade de responder e que se refugiariam na ideia que a inteligência e o orgulho estavam intimamente ligados. E, assim, não é difícil ver como este preconceito extremamente anti-religioso surgiu especialmente em França.


Guénon colocou-se então a seguinte questão: Uma vez que estas pessoas rejeitaram o Cristianismo, serão elas capazes de aceitar a verdade quando expressa nos termos Islâmicos do Sufismo, os quais estão proximamente relacionados com os Cristãos em vários aspectos? Ele decidiu que elas não seriam, que diriam que era outra religião; que tinham tido religião a mais. No entanto, O Hinduísmo, a religião viva mais antiga, é à superfície muito diferente, quer do Cristianismo, quer do Islamismo, e, assim, ele decidiu confrontar o mundo Ocidental com a verdade tendo por base o Hinduísmo. Foi com este fim que escreveu a sua geral Introdução ao Estudo das Doutrinas Hindu. O livro foi publicado em 1921, seguido em 1925 por aquela que é talvez a sua maior obra, O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta.


Ele não poderia ter escolhido uma melhor forma para a sua mensagem de verdade para o Ocidente, pois o Hinduísmo tem uma objectividade que resulta de ter sido revelada ao homem numa era remota em que ainda não existia a necessidade de estabelecer uma distinção entre o esoterismo e o exoterismo, e essa objectividade significa que a verdade não teve de ser velada. Ainda na Antiguidade Clássica os Mistérios, ou seja, o esoterismo, eram apenas para alguns. No Hinduísmo, no entanto, eles eram a norma e as mais elevadas verdades podiam ser faladas de forma directa. Não havia a questão de “Não lances as tuas pérolas aos porcos” e “Não dês coisas sagradas aos cães”. As religiões irmãs do Hinduísmo, por exemplo, as religiões da Grécia e de Roma, há muito que tinham desaparecido. Mas graças ao sistema de castas, tendo os Brahmins como salvaguarda da religião, temos hoje um Hinduísmo que ainda se encontra vivo e que ao longo deste século produziu flores de santidade.


Um dos pontos a ser referido em primeiro lugar é a questão da distinção que deve ser feita ao nível divino e que é feita em todos os esoterismos, não podendo ser feita exotericamente, ou seja, nas religiões dadas actualmente às massas – a distinção entre o Absoluto e o início, a partir daí, da relatividade. O Absoluto que é Um, Infinito, Eterno, Imutável, Indeterminado, Incondicionado, é representado no Hinduísmo pela monossílaba Aum, e é designado por Atmâ, que significa o Si, e Brahma, a qual é uma palavra neutra que serve para enfatizar que está para além de toda a dualidade, tal como o masculino e feminino. E é também designado por Tat (Aquilo), tal como no Sufismo, onde o Absoluto é por vezes designado por Huwa (Ele). Depois, temos o que corresponde em outras religiões ao Deus pessoal, Ishvara, o que corresponde já ao início da relatividade, uma vez que diz respeito à manifestação, o termo que os Hindus usam para a criação, e a criação é claramente o inicio da dualidade – Criador e criado. Ishvara está ao nível divino, no entanto, é o princípio da relatividade.


Em todo o esoterismo encontramos a mesma doutrina. Mestre Eckhart encontrou dificuldades com a Igreja porque insistiu em fazer a distinção entre Deus e Divindade [Godhead] – Gott und Gottheit. Ele usou o segundo termo para o Absoluto, isto é, para o Absoluto Absoluto, e usou o segundo termo para o Absoluto relativo. Podia ter sido o oposto, mas ele precisava de fazer alguma distinção. No Sufismo, falamos da Essência Divina e nos Nomes Essenciais de Deus, tais como O Uno, A Verdade, O Todo-Sagrado, O Vivo, O Infinitamente Bom, al-Rahmân, o qual contem as raízes de todo o bem e o qual é também um nome da Essência Divina. Abaixo disso existem os Nomes das Qualidades, como o Criador, o Misericordioso, no sentido daquele que tem Misericórdia pelos outros, e isso é claramente o início de uma dualidade. Em todos os esoterismos esta distinção é feita mesmo ao nível da Divindade. Ela não pode existir abaixo do esoterismo porque resultaria na ideia de dois Deuses; uma divisão na Divindade seria excessivamente perigosa nas mãos da massa de fiéis. A Unidade Divina tem que ser mantida a todo o custo.


Guénon, no seu livro, traça com toda a claridade a hierarquia do universo a partir do Absoluto, do Deus pessoal, até ao logos criado, isto é, buddhi, que é a palavra que significa intelecto e que tem três aspectos – Brahmâ (desta vez a palavra é masculina), Vishnu e Shiva. Falando apenas da hierarquia dos universos, estes devas (esta é linguisticamente a mesma palavra que a palavra Latina deus), têm o nível do que designaríamos por arcanjos. O Hinduísmo é, no entanto, tão subtil que apesar de serem criados eles podem ser invocados como Nomes do Absoluto porque descendem do Absoluto e regressam ao Absoluto. Eles podem ser invocados no sentido do Brahmâ Absoluto, no sentido de Atmâ, no sentido de Aum.


A doutrina Hindu, tal como o Génesis, fala de duas águas. O Corão fala de dois oceanos, as águas superiores e as águas inferiores. As águas superiores representam o aspecto mais elevado do mundo criado, isto é, do mundo manifestado, correspondendo aos diferentes níveis nos quais existem os diferentes paraísos. É tudo parte do próximo mundo do ponto de vista deste mundo. As águas inferiores representam o mundo do corpo e da alma, e tudo é uma manifestação do Absoluto.


Em O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta, Guénon, após traçar a manifestação do homem e mostrar com todo o detalhe qual é a sua natureza, procede mostrando como, de acordo com a doutrina Hindu, o homem pode regressar à sua fonte absoluta. Acaba com a suprema possibilidade de unidade com o Absoluto, uma unidade que já se encontra presente. Um rapaz Brahmin com a idade de oito anos é iniciado pelo seu pai e as palavras murmuradas aos seus ouvidos, “Tu és Aquilo” [Thou art That], sendo o significado de tu és o Absoluto, tat vam asi. Isto mostra o quanto estamos longe da religião tal como é compreendida no mundo moderno. Mas essa verdade, que no Sufismo é designada por o segredo, al-sirr, está necessariamente em todo o esoterismo nos tempos actuais, caso contrário não mereceria o nome de esoterismo.


Outro aspecto do Hinduísmo que serve de veículo perfeito para a mensagem de Guénon é a amplitude da sua estrutura. Nas religiões mais recentes, é como que a Providência tivesse encaminhado a humanidade para um vale cada vez mais estreito: a abertura é a mesma mas a perspectiva horizontal é cada vez mais estreita porque o homem não consegue receber mais do que apenas uma parte. A doutrina Hindu do samsâra, ou seja, da eterna corrente de inúmeros mundos que foram manifestados, e dos quais o universo é constituído, originaria todo o tipo de distracções. De qualquer forma, quando estamos a falar de um Absoluto, Divindade Eterna, a ideia que essa Infinitude produziu apenas um único mundo ao manifestar-se não satisfaz a inteligência. A doutrina do samsâra por outro lado, satisfaz, mas os mundos que foram manifestados são inumeráveis.


Outro ponto a este respeito é o facto do Hinduísmo possuir uma surpreendente versatilidade. Ele depende em primeiro lugar da Revelação Divina. Os Vedas e os Upanishades são revelados; o Bhagavad Gita é geralmente considerado como revelado mas não a totalidade do Mahâbhârata, o épico “inspirado” a que pertence o Gita. No Hinduísmo, esta distinção entre revelação, sruti, e inspiração, smriti, é assinalada claramente, tal como o é no Judaísmo e no Islão: O Pentateuco, ou seja, os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, foram revelados a Moisés, o Livro dos Salmos a David, o Corão a Maomé. Isto é algo que, de uma maneira geral, os Cristãos não compreendem. Eles têm dificuldade em entender, no Antigo Testamento por exemplo, a diferença entre o Pentateuco e os Livros dos Reis e as Crónicas, os quais são apenas história sagrada, sem dúvida inspirada, mas de forma alguma revelada. Para os Cristão a revelação é Jesus Cristo, a Palavra feita carne; o conceito da “Palavra feita livro”, a qual é uma revelação paralela, não entra na sua perspectiva.


O Hinduísmo tem ainda os avatâras, e isso um Cristão pode compreender, ou seja, as manifestações, as descidas, da Divindade. É claro que o Cristianismo não reconhece as descidas dos avatâras Hindus, pois para o Cristão comum apenas existiu uma única descida e essa foi o próprio Cristo, mas o Hinduísmo reconhece a descida como uma possibilidade inexaurível e nomeia dez avatâras que ajudaram a manter a vitalidade da religião até aos dias actuais. O nono avatâra, o qual é chamado de avatâra estrangeiro, é o próprio Buda, apesar de aparecer na índia, ele não foi para os Hindus mas claramente para o mundo Oriental. A amplitude do Hinduísmo é também visível na sua prefiguração do exoterismo, o qual é o reconhecimento das Três Vias. Estas são ainda Vias de retorno a Deus – as três margas – a via do conhecimento, a via do amor, e a via da acção – três vias que correspondem às inclinações e afinidades de diferentes seres humanos.


Outro aspecto que torna os termos Hindus tão ajustados para passar aos Europeus a sua mensagem, é que eles têm, como Arianos, uma afinidade com o Hinduísmo, pois as suas raízes estão nas religiões da Antiguidade Clássica, as quais são religiões irmãs do Hinduísmo; a sua estrutura era claramente semelhante à do Hinduísmo. É claro que elas degeneraram em completa decadência e estão agora desaparecidas. No entanto, a nossa herança reside nelas e Guénon oferece-nos a possibilidade de uma misteriosa renascença num sentido puramente positivo através da sua mensagem da verdade em termos Hindus. Esta afinidade não deve ser, no entanto, exagerada, e Guénon nunca, tanto quanto sabemos, aconselhou a ninguém que não fosse Hindu que se tornasse Hindu.


A sua mensagem foi sempre uma mensagem de estrita ortodoxia num esoterismo, mas ao mesmo tempo de igual reconhecimento de todas as outras ortodoxias, mas este propósito não era de forma alguma académico. O seu motto foi vincit omnia veritas, a Verdade conquista tudo, mas implicitamente o seu motto era “Procura e encontrarás, bate e a porta te será aberta”. Implícito nos seus textos está a certeza que eles aparecerão providencialmente para aqueles que forem qualificados para receber a sua mensagem e os impelirão a procurar e, dessa forma, descobrir um caminho.


Guénon estava consciente de ter uma função e sabia o que pertencia à sua função e o que não pertencia. Ele sabia que não era a sua função ter discípulos; ele nunca teve nenhum. A sua função era ensinar como preparação para uma via em que as pessoas pudessem encontrar por elas próprias, e esta preparação implicava preencher as lacunas provocadas pela educação moderna. A primeira destas lacunas é a incapacidade de compreender o significado do transcendente e o significado da palavra intelecto em consequência, uma palavra que continuou a ser utilizada, mas que no sentido tradicional da palavra, correspondente ao Sânscrito buddhi, foi simplesmente esquecida no mundo ocidental. Guénon insistiu nos seus textos em dar a esta palavra o seu verdadeiro significado, o qual é a percepção das realidades transcendentes, a faculdade que pode ver as coisas do próximo mundo, e os seus prolongamentos na alma são aquilo que pode ser designado por intuições intelectuais, as quais são as luzes preliminares que antecedem o momento da intelecção total.


Ficamos com a impressão de que Guénon deve ter tido uma iluminação intelectual numa idade muito jovem. Ele deve ter pressentido directamente verdades espirituais com o intelecto no seu verdadeiro sentido. Ele preencheu as lacunas explicando o significado dos ritos, o significado dos símbolos, a hierarquia dos mundos. Na educação moderna o próximo mundo é deixado totalmente de fora, enquanto que na Idade Média os estudantes eram ensinados sobre a hierarquia das faculdades e, correspondentemente, da hierarquia do universo.


Vamos agora por uns instantes falar a um nível mais pessoal, mas talvez possa não ser sem interesse. Quando li os livros de Guénon no princípio dos anos trinta foi como se tivesse sido atingido por um relâmpago e compreendi que aquilo era a verdade. Eu nunca tinha visto a verdade exposta da forma como o foi na mensagem de Guénon, que existiam várias religiões e que todas deveriam ser tratadas com reverência; elas eram muito diferentes porque eram destinadas a pessoas diferentes. Fazia todo o sentido e era ao mesmo tempo para a glória de Deus porque qualquer pessoa com um nível de inteligência razoável, quando ensinada aquilo que nos ensinavam na escola, teria inevitavelmente que perguntar: então e o resto do mundo? Porque é que as coisas eram geridas desta forma? Porque é que a verdade foi dada em primeiro lugar apenas aos Judeus, a um só povo? E depois foi ordenado que o Cristianismo fosse espalhado pelo mundo, mas porquê tão tarde? E nos tempos antigos? Estas questões nunca eram respondidas, mas quando li Guénon eu soube que aquilo que ele dizia era a verdade e que eu teria que fazer algo em relação a isso.


Escrevi a Guénon. Traduzi um dos seus primeiros livros, Este e Oeste, para o Inglês, e mantive correspondência com ele em relação à tradução. Em 1930, Guénon deixou Paris após a morte da sua mulher e foi para o Cairo onde viveu durante vinte anos até à sua morte, em 1951. Uma das minhas primeiras ideias ao ler os livros de Guénon foi enviar cópias ao meu melhor amigo que tinha estudado comigo em Oxford, pois sabia que ele teria a mesma reacção que eu. Ele regressou ao Ocidente e seguiu o mesmo caminho que eu já tinha encontrado, um caminho do tipo do referido por Guénon nos seus livros. Depois, ao precisar de trabalho, aceitou um lugar de professor na Universidade do Cairo, e enviei-lhe o número da caixa postal de Guénon. Guénon era extremamente reservado e não dava a sua morada a ninguém; ele queria desaparecer. Ele tinha inimigos em França e suspeitava que eles o queriam atacar através de magia. Eu não tenho a certeza disto mas sei que Guénon tinha imenso receio de ser atacado por certas pessoas e desejava manter-se desaparecido, afundar-se no mundo Egípcio onde estava, o mundo do Islão. Assim, o meu amigo teve que esperar muito tempo até que Guénon tivesse aceitado encontrar-se com ele. Quando finalmente se encontraram Guénon afeiçoou-se imediatamente a ele e disse-lhe que podia ir a sua casa sempre que desejasse.


No Verão de 1939 fui visitar o meu amigo ao Cairo e enquanto lá estava a guerra começou. Eu tinha aulas para dar na Lituânia nessa altura e, uma vez que não podia regressar, fui forçado a ficar no Egipto. O meu amigo, que por essa altura se tinha tornado como que membro da família de Guénon, recolhendo o seu correio e ajudando-o em muitas outras coisas, levou-me a conhecer Guénon. Um ano depois estava a andar a cavalo no deserto com o meu amigo quando o seu cavalo fugiu com ele e o matou em resultado de um acidente. Nunca esquecerei o momento em que tive de ir dar a notícia a Guénon. Quando o fiz ele chorou durante uma hora. Não tive opção senão tomar o lugar do meu amigo. Eu já tinha sido posto à vontade para frequentar a sua casa e muito rapidamente me tornei como que parte da família. Foi obviamente um enorme privilégio. A mulher de Guénon não sabia ler e apenas falava Árabe. Rapidamente aprendi Árabe e consegui falar com ela. Era um casamento muito feliz. Eles estavam casados há sete anos e não tinham qualquer filho e Guénon, que já estava a ficar com alguma idade – ele era bastante mais velho que ela – não tinha tido filhos com a sua primeira mulher, razão pela qual foi inesperado quando eles começaram a ter filhos. Tiveram ao todo quatro filhos. Eu visitava Guénon praticamente todos os dias. Fui a primeira pessoa a ler o Reino da Quantidade, o único livro que escreveu enquanto estava com ele pois os outros livros já tinham sido todos escritos. Ele deu-me a ler capítulo a capítulo. Tive ainda a oportunidade de lhe dar o meu próprio primeiro livro, The Book of Certainty, o qual lhe dei igualmente capítulo a capítulo. Foi um grande privilégio conhecer tal pessoa.


Durante este tempo uma questão muito importante foi resolvida. Os Hindus com quem Guénon havia estabelecido contacto em Paris tinham lhe dado uma ideia errada, uma ideia não estritamente Hindu, sobre o Budismo. O Hinduísmo reconhece o Buddha como o nono avatâra de Vishnu apesar de alguns Hindus manterem a ideia que ele não era um avatâra, que ele era apenas um kshatriya revoltado, um membro da casta real, contra os Brahmins e foi esta ideia que Guénon aceitou. Consequentemente ele escreveu sobre o Budismo como se este não fosse uma das grandes religiões do mundo. Ananda Coomaraswamy, Frithjof Schuon e Marco Pallis decidiram em conjunto procurar elucidar Guénon sobre esta questão. Guénon mostrou-se muito aberto a ser persuadido e em 1946 levei Marco Pallis a ver Guénon e como resultado ele aceitou que estava enganado e que os erros deveriam ser corrigidos nos seus livros. Marco Pallis começou a mandar-lhe listas com as páginas que precisavam de ser corrigidas.


Guénon praticamente não saía de casa excepto quando nos vinha visitar. Eu mandava um carro para o apanhar e ele vinha visitar-nos com a sua família cerca de duas vezes por ano. Nessa altura vivíamos perto das pirâmides fora de Cairo. Saí com ele apenas uma vez quando fomos visitar a mesquita de Sayyidnâ Husayn perto de al‑Azhar. Ele tinha uma presença incrível; era fantástico ver o respeito com que ele era tratado. À medida que entrou na mesquita ouvia-se as pessoas sussurrar de todo o lado dizendo “Allâhumma salli ‘alâ Sayyianâ Muhammad,” ou seja, “Que Deus faça chover bênções sobre o profeta Maomé”, o que é uma forma de expressar grande reverência a alguém. Ele tinha uma presença luminosa e os seus maravilhosos olhos, uma das suas mais impressionantes características, retiveram o seu lustre até numa idade muito avançada.


Ao nível do seu livro sobre o Vedanta temos o livro que escreveu sobre símbolos, intitulado Símbolos Fundamenteais: A Linguagem Universal da Ciência Sagrada, publicado após a sua morte a partir dos artigos que foi escrevendo para a revista Études Traditionelles. Era maravilhoso ler estes artigos à medida que apareciam mês após mês, mas este livro transporta-nos de volta para os tempos pré-históricos, tal como no O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta, mas numa forma mais abrangente. Tudo é obviamente um símbolo, não poderia existir se não fosse um símbolo, mas os símbolos fundamentais são aqueles que expressam eloquentemente aspectos da Verdade Suprema e do Caminho Supremo. Por exemplo, um destes aspectos do Caminho e da Verdade é aquilo que é designado por “eixo do mundo”, eixo que atravessa de todos os estados elevados a partir do centro deste estado. Este é o significado do que é designado por Árvore da Vida. A Árvore da Vida é simbolizada por várias árvores particulares: o carvalho, o freixo, a figueira e outras em todo o mundo. O eixo é o próprio Caminho, o caminho de retorno ao Absoluto. É igualmente simbolizado por objectos criados pelo homem: a escada, o mastro, armas como a lança, e o pilar central de edifícios. Como os arquitectos sabem, muitos edifícios são construídos em torno de um eixo central que, na realidade não está lá, não se encontra materializado. Muitas vezes nas casas tradicionais a lareira é o centro da casa e a chaminé a partir da qual o fumo sobe é outra figura do eixo. E coisas que são normalmente horizontais podem ser igualmente símbolos do eixo: uma ponte também é um símbolo do eixo do mundo. Veja-se o título de Pontífice, o fazedor da ponte, o qual é dado a mais elevada autoridade espiritual da Igreja – a ponte, que é a ponte entre o Céu e a terra.


Outro símbolo fundamental é o rio. Existem três aspectos associados ao rio: a passagem do rio simboliza a passagem deste mundo para um mundo mais elevado, sempre, mas depois existe o próprio rio. Existe a dificuldade de subir contra o curso do rio o que simboliza as dificuldades do caminho espiritual, de regressar à nossa fonte contra a corrente. Existe também o simbolismo de movimento na outra direcção, a do oceano, de regressar finalmente ao oceano; este é outro símbolo do Caminho. No seu livro, entre muitos outros símbolos, Guénon aborda o simbolismo da montanha, da gruta, do ciclo temporal. No ciclo temporal, os solstícios de verão e do inverno são os portões dos deuses de acordo com o Hinduísmo. Os portões dos deuses do solstício de inverno, no signo de Capricórnio; os portões dos ancestrais no solstício de verão, no signo de Caranguejo.


Como referi, Guénon não gostava de falar sobre si próprio e eu respeitei a sua reticência, nunca lhe coloquei questões e acho que ele apreciava isso. Resumindo o que era a sua função, pode-se dizer que a esta era, num mundo cada vez mais abundante de heresia e pseudo-religião, relembrar ao homem do século vinte a necessidade de ortodoxia, a qual pressupõe, em primeiro lugar, a intervenção divina, e em segundo lugar, uma tradição que transmita fielmente de geração em geração aquilo que o Céu revelou. Neste sentido, estamos extremamente em dívida para com ele por ter restaurado ao mundo a palavra ortodoxia com todo o rigor do seu significado original, ou seja, rectidão de opinião, uma rectidão que compele o homem inteligente não só a rejeitar a heresia, mas também a reconhecer a validade de todas aquelas fés que estão conforme os critérios com os quais essas fés dependem para a sua ortodoxia.


Na base desta universalidade, a qual é muitas vezes conhecida como religio perennis, foi também função de Guénon lembrar-nos que as grandes religiões do mundo não são apenas meios para a salvação do homem, mas que frequentemente estão para além disso, mesmo durante esta vida, duas possibilidades esotéricas que correspondem àquilo que era conhecido na Antiguidade Greco-Romana como mysteria pava e mysteria magna, os “Grandes Mistérios” e os “Pequenos Mistérios”. O primeiro é o caminho de retorno à perfeição primordial perdida na queda. O segundo, que pressupõe o primeiro, é o caminho da gnosis, o cumprimento do preceito “conhece-te a ti próprio”. Este fim último é designado no Cristianismo por deificatio, no Hinduísmo, por yoga, união e moksha, libertação, no Budismo, por nirvana, isto é, extinção de tudo o que é ilusório. E no misticismo Islâmico, isto é, no Sufismo, por tahaqquq, o que significa realização tendo sido referido por um sheikh Sufi como auto-realização em Deus. Os Mistérios, e especialmente os Grandes Mistérios, são explicitamente ou implicitamente o tema central dos escritos de Guénon, mesmo na Crise do Mundo Moderno e no Reino da Quantidade. Ele demonstra que os problemas em questão tiveram a sua origem na perda da dimensão dos mistérios, isto é, da dimensão dos mistérios do esoterismo. Ele encontra a origem de todos os problemas do mundo moderno no esquecimento dos mais elevados aspectos da religião. Ele estava consciente de ser um pioneiro, e vou terminar simplesmente com uma citação de algo que ele disse de si próprio, “Tudo o que fizermos ou dissermos servirá para oferecer aqueles que vierem posteriormente as facilidades que nós próprios não tivemos. Aqui como em todo o lado, é o início do trabalho que é o mais difícil.”

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O que é a Tradição? – parte II

A presente publicação é a continuação da tradução do segundo capítulo “What is Tradition?” da obra absolutamente fundamental de Seyyeid Hossein Nasr, “Knowledge and the Sacred”.



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Antes de abandonar o assunto da philosophia perennis, parece apropriado dedicar um momento ao destino dado a esta ideia pela tradição Islâmica, em cuja relação com o conhecimento sagrado e o seu significado como uma verdade perene revivida em cada revelação é bastante evidente e mais enfatizada do que na tradição Cristã. O Islão não só vê a doutrina da unidade (al-tawḥīd) como a essência da sua própria mensagem mas também como o coração de todas as religiões. Para o Islão, a revelação significa a afirmação da al-tawḥīd e as religiões são todas vistas como várias repetições da doutrina da unidade em diferentes regiões e línguas. Mormente, onde quer que a doutrina da unidade seja encontrada, é considerada como sendo de origem divina. Logo, os Muçulmanos não faziam distinção entre religião e paganismo mas sim entre aqueles que aceitavam a unidade e aqueles que a negavam ou a ignoravam. Sábios da antiguidade tais como Pitágoras e Platão eram, para eles, “unitarianos” (muwaḥḥidün) que expressavam a verdade que reside no coração de todas as religiões.[i] Por conseguinte, eles pertenciam, e não eram considerados estranhos, ao universo Islâmico.


A tradição intelectual Islâmica viu nos ensinamentos de profetas tão antigos como Adão, nos seus aspectos juntamente gnósticos (ma’rifah ou ‘irfān) e filosóficos e teosóficos (falsafah-ḥikmah),[ii] a fonte desta verdade única que é a “Religião da Verdade” (dīn al-ḥaqq) e considerava o profeta Idrīs, que era associado a Hermes, como o “pai dos filósofos” (Abu’l-ḥukamā’).[iii] Muitos Sufis, para além de chamarem “divino” a Platão, relacionaram também Pitágoras e Empédocles, este último associado com um importante corpo que influenciou certas escolas de Sufismo, entre outros, à sabedoria primordial associada com a profecia. Já filósofos Peripatéticos (mashshā’ī) anteriores, tais como al-Fārābī, tinham visto a relação entre filosofia e profecia e revelação. Figuras posteriores, tal como Suhrawardī, expandiram esta perspectiva para incluir a tradição da Pérsia pré-Islâmica.[iv] Suhrawardī falava frequentemente da al-ḥikmat al-laduniyyah ou Sabedoria Divina (literalmente a sabedoria que está perto de Deus) em termos praticamente idênticos aos do significado tradicional da Sophia e também da philosophia perennis, incluindo o seu aspecto de realização.[v] Uma figura Islâmica posterior, do século oitavo/décimo quarto (Islâmico/Cristão), o gnóstico e teólogo Sayyid Ḥaydar Āmulī, não se coibiu em apontar a correspondência que existia entre o pleroma “Maomediano” das setenta e duas estrelas do universo Islâmico e as setenta e duas estrelas do pleroma compreendido por aqueles sábios que teriam preservado a sua natureza primordial, mas pertencido a um mundo exterior ao especificamente Islâmico.[vi]


Ṣadr al-Dīn Shīrāzī identificou o conhecimento verdadeiro como sendo a sabedoria perene que existira desde o início da história da humanidade.[vii] A concepção Islâmica acerca da universalidade da revelação apresentava paralelismo com a ideia de uma verdade primordial que sempre existiu e sempre existirá, uma verdade sem história. O al-dīn Árabe, que é provavelmente a palavra mais adequada para traduzir o termo tradição, é indissociável da ideia de sabedoria permanente e perpétua, a sophia perennis que também pode ser identificada com a philosophia perennis tal como uma personalidade como Coomaraswamy a entendeu.


Para melhor compreender o significado da tradição também é necessário abordar com maior profundidade a sua relação com a religião. Se por um lado tradição está etimológica e conceptualmente relacionada com transmissão, por outro lado, a raiz do significado de religião implica “ligar” (do Latim religare).[viii] Tal como mencionado anteriormente, é o que liga o homem a Deus e simultaneamente o que os liga entre eles como membros de uma comunidade sagrada ou de um povo, ou o que o Islão apelida de ummah. Compreendida neste sentido, a religião pode ser considerada como a origem da tradição, como o início celeste que através da revelação manifesta certos princípios e verdades em cujas aplicações se encerra a tradição. Mas, tal como indicado anteriormente, o significado pleno da tradição inclui esta origem bem como as suas ramificações e desdobramentos. Neste contexto, a tradição é um conceito genérico que abrange a religião tal como o termo Árabe al-dīn significa de uma vez tradição e religião no seu sentido mais universal, enquanto a religião tal como é utilizada num sentido mais lato é compreendida por alguns como inclusa da aplicação dos seus princípios revelados e do seu desenvolvimento histórico posterior, a ponto de encerrar ela própria aquilo que entendemos por tradição ainda que este ponto de vista tradicional difira do religioso como resultado da intrusão do modernismo e das forças anti-tradicionais no seio da própria religião.


Mormente, o significado limitado que o termo religião ganhou nas línguas Europeias induziu autores tradicionalistas como Guénon na certeza de cingir a utilização deste termo exclusivamente às religiões ocidentais, especialmente nas suas expressões exotéricas, distinguindo-as do Hinduísmo, do Taoismo, e de outras como estas a que chamou de tradição na vez de religião. Contudo, não existe qualquer limitação de princípio no termo religião nem nenhuma razão para excluir o Hinduísmo da categoria de religião desde que este termo seja entendido como o que liga o homem à Origem através da mensagem, da revelação, ou da manifestação que provem da Realidade Última.


A limitação da religião aos seus aspectos mais externos, na história recente do Ocidente, também levou a que termos tais como arte religiosa ou literatura religiosa se tornassem tão desprovidos do sentido do sagrado e desviados da tradição, considerada como a aplicação dos princípios de ordem transcendente, que aquilo que é actualmente apelidado de arte religiosa, literatura religiosa, etc., apresenta muitos vezes um carácter não-tradicional ou até mesmo anti-tradicional. Tornou-se, por conseguinte, necessário distinguir o tradicional do religioso em contextos como estes. Mas logo que o termo religião seja ressuscitado para significar o que descende da Fonte, naquelas manifestações objectivas do Logos chamadas de revelação no caso das religiões Abraâmicas ou de avatāric no caso do Hinduísmo, a religião poderá então ser vista como o coração daquela ordem plena e totalmente abrangente que é a tradição. Obviamente, este entendimento da religião em toda a sua amplitude e universalidade é apenas possível quando o ponto de vista tradicional é reavivado e quando a realidade é admirada segundo a perspectiva do tradicional e do sagrado, e não do profano.


Para discutir a relação da tradição para com a religião é necessário aprofundar o problema da pluralidade das religiões. Fala-se da Tradição Primordial ou da Tradição como tal, porém também que a multiplicidade das formas religiosas implica a multiplicidade das tradições, do mesmo modo que existe uma sophia perennis mas várias religiões onde se pode encontrar em diferentes formas. Existe necessariamente um confronto com a questão fundamental da Tradição e das tradições, uma questão sobre a qual muito tem sido escrito e que tanta confusão tem provocado. Tomando um determinado ângulo, não existe senão uma Tradição, a Tradição Primordial, a que é sempre. É a verdade única que é de uma vez o coração e a origem de todas as verdades. Todas as tradições são manifestações terrenas de arquétipos celestes que se relacionam enfim com o arquétipo imutável da Tradição Primordial, do mesmo modo que todas as revelações se relacionam com o Logos ou com a Palavra que foi o início e que é de uma vez um aspecto do Logos Universal e o Logos Universal como tal.[ix]


Todavia, cada tradição está fundada numa mensagem directa do Céu e não é apenas o resultado da continuidade histórica da Tradição Primordial. Um profeta ou avatār nada deve a ninguém excepto o que recebe da Origem. Certos ocultistas e círculos pseudo-esotéricos do mundo moderno que reclamam ser tradicionais falaram de um depositário efectivo da Tradição Primordial na terra, geralmente identificando tal local com uma qualquer região na Ásia Central ou até mesmo reclamando o contacto com representantes do centro.[x] Muitos aspirantes vaguearam pelas montanhas do Hindu Kush ou pelos Himalaias em busca de um tal centro e criou-se toda uma ficção científica em torno de uma geografia sagrada que foi interpretada de modo literário na vez de simbólico. Do ponto de vista tradicional, a realidade da Tradição Primordial e do “Centro Supremo” é veementemente confirmada, mas esta afirmação em nada diminui ou aniquila a autenticidade ou completa originalidade de cada religião e tradição que conforma com um arquétipo particular e que representa uma manifestação directa da Origem, marcando a ruptura da dimensão horizontal e temporal pela vertical e transcendente. Existem juntamente Tradição e tradições sem que uma contradiga a outra. Falar de Tradição não significa rejeitar a origem celestial de qualquer uma das religiões e tradições autênticas, mas significa antes o confirmar do sagrado em cada mensagem “original” do Céu,[xi] enquanto se permanece ciente daquela Tradição Primordial que é confirmada não apenas nas doutrinas e símbolos de cada tradição mas também através da preservação da uma “presença” que é inseparável do sagrado.


A perspectiva tradicional está de facto tão intimamente ligada com o sentido do sagrado que é necessário dizer algo sobre o sagrado e tentar “definir” o seu significado. Até certo ponto, o sagrado, tal como a verdade, a realidade, ou o ser, é demasiado principial e elementar para que seja delimitado na forma lógica de definir um universal por meio de género e de diferenças específicas. O sagrado reside na natureza da própria realidade, e a humanidade normal possui um sentido para o sagrado tal como o tem para a própria realidade, que se distingue naturalmente do irreal.[xii] Mas a condição do homem humano é tal que até mesmo este sentido natural se tornou quase esquecido, provocando a necessidade de providenciar uma “definição” do sagrado. É muito interessante denotar que tentativas como as de R. Otto em relacionar o sagrado com o irracional atraíram a maior atenção durante este século. Este facto implica que a relação com a verdade intelectual ou conhecimento para com o sagrado tenha sido ignorada precisamente devido ao esvaziar do conteúdo sagrado do conhecimento. Mormente, num mundo secularizado, chegou-se a um ponto em que o sagrado é visto segundo a perspectiva de um mundo profano para o qual o sagrado é então o totalmente outro.[xiii] Este ponto de vista é perfeitamente compreensível porquanto muitos homens vivem efectivamente num mundo de esquecimento em que a lembrança de Deus é totalmente “outra”; estes homens vivem num mundo de indiferença e trivialidade em que a grandeza do sagrado representa uma radical “outrês”. Mas o que é excepcional no mundo moderno é que a perspectiva sapiêncial, que reside no sagrado e vê o profano em termos do sagrado e que foi desde sempre uma presença viva no seio de civilizações normais, tornou-se tão esquecida que a visão do sagrado como completamente estranho ao que aparenta ser uma vida humana “normal” se tornou a única visão, se o sagrado é sequer aceite de todo como uma possibilidade. Na medida em que a realidade do sagrado é aceite pelo menos em círculos religiosos, esta está conectada com o poder de Deus na vez de com a Sua sabedoria.


Talvez a forma mais directa de abordar o significado do sagrado seja a de o relacionando com o Imutável, com aquela Realidade que é simultaneamente o Movedor Inmovido e o Eterno. Aquela Realidade que é imutável e eterna é o Sagrado como tal, e a manifestação desta Realidade no rio do devir e na matriz do tempo é o que possui a qualidade da sacralidade. Um objecto sagrado ou um som sagrado é um objecto ou um som que sustenta o cunho do Eterno e do Imutável naquela realidade física que externamente contém o objecto ou o som. O sentido do sagrado de um homem é não outro que o seu sentido para o Imutável e para o Eterno, a sua nostalgia para com o que ele realmente é, pois ele transporta o sagrado dentro da substância que perfaz o seu próprio ser e, acima de tudo, dentro da sua inteligência que foi criada para conhecer o Imutável e para contemplar o Eterno.


Como tal, O Sagrado é a fonte da Tradição e o que é tradicional é inseparável do sagrado. Aquele que não tem o sentido do sagrado não pode percepcionar a perspectiva tradicional, e o homem tradicional nunca está separado do sentido do sagrado. Contudo, o sagrado é sobretudo como o sangue que flui nas artérias e veias da tradição, um aroma que impregna totalmente uma civilização tradicional.[xiv] A tradição prolonga a presença do sagrado para todo o mundo, criando uma civilização em que o sentido do sagrado é ubíquo. Pode ser dito da função de uma civilização tradicional que não é outra senão a de criar um mundo dominado pelo sagrado, mundo este no qual o homem está a salvo do terror do niilismo e do cepticismo que acompanha a perda da dimensão sagrada da existência e a destruição do carácter sagrado do conhecimento.


A abrangência plena que caracteriza a tradição torna-se possível em cada tradição integral pela presença de, e retornando à religião que se situa na origem da tradição, não uma mas várias dimensões, vários níveis de significado ou vários tipos de ensino correspondentes aos diferentes tipos de capacidades espirituais e intelectuais e às necessidades da humanidade escolhida como o veículo terreno da tradição em questão. Apesar da multiplicidade de dimensões ou níveis e de muitas tradições falarem de sete, catorze ou qualquer outro número simbólico de níveis, estes podem ser reduzidos na etapa inicial às duas dimensões básicas que são o exotérico e o esotérico: a primeira, concerne aquele aspecto da mensagem do Céu que governa toda a vida de uma humanidade tradicional; a outra, as necessidades espirituais e intelectuais daqueles que procuram Deus ou a Realidade Última aqui e agora. No Judaísmo e no Islão estas duas dimensões são claramente delineadas, tal como a Talmúdica e a Cabalística ou a Sharī’ah e a Tarīqah, ainda que mesmo nestes casos existam regiões intermédias e um espectro longe de ser abruptamente separável.[xv] Relativamente ao Cristianismo, ainda que este seja essencialmente um eso-exoterismo com uma dimensão esotérica menos bem definida do que as outras duas tradições Abraâmicas, também possuía uma mensagem distintamente esotérica no início, a qual se manifestou em diferentes maneiras durante a história recente do Cristianismo.[xvi]


Apesar dos mundos Indiano e do Oriente Longínquo terem estruturas tradicionais diferentes das das Abrâamicas, existem contudo realidades que correspondem no seu contexto específico às dimensões exotérica-esotérica da tradição, tais como o Código de Manu que complementa o Advaita Vedanta, o Confucionismo que complementa o Taoismo ou as escolas Theravada e Mahayana do Budismo. Apesar da nossa preocupação neste estudo ser para com o conhecimento sagrado, e portanto especialmente para com a dimensão esotérica que mais directamente se relaciona com o conhecimento sagrado, é importante realçar a importância da dimensão exotérica e a necessidade da mesma para uma tradição integral e viva. É particularmente significativo mencionar este ponto em particular à luz das pretensões de tantos grupos pseudo-esotéricos de hoje em dia, que reclamam estarem para além da necessidade do exotérico, em contraste com os grandes sábios de tempos volvidos que por entre as mais intensas expressões de realização espiritual, permaneciam fieis às formas e ensinamentos exotéricos das suas religiões, sendo as raras excepções aquelas que provam a regra.[xvii]


O esoterismo é aquela dimensão interna da tradição que aponta ao homem interior, o ho eso anthropos de São Paulo. Está escondida devido à sua própria natureza e está acessível apenas a uns poucos porque nesta fase da história humana apenas esse número limitado permanece ciente da dimensão interior da sua própria natureza; os restantes vivem na periferia do círculo da sua própria existência, absortos do Centro que está ligado à circunferência ou periferia pela dimensão esotérica da tradição.[xviii] O esotérico é o raio que providencia os meios para ir da circunferência para o Centro, mas não está disponível para todos porque nem todos estão dispostos ou qualificados, nesta vida, para enveredar na jornada que conduz ao Centro. Seguir a dimensão exotérica da religião é, ainda assim, permanecer na circunferência e por conseguinte num mundo que tem um centro, e permanecer qualificado para levar a cabo a jornada para o Centro na vida posterior, sendo a visão beatífica apenas uma possibilidade póstuma do ponto de vista exotérico.


O esotérico autêntico está sempre contido numa tradição total e integral. É apenas no Ocidente moderno, e possivelmente durante a decadência da antiguidade mais recente, que os ensinamentos esotéricos se tornaram distintos da tradição em cuja matriz o esotérico é verdadeiramente o esotérico. Como resultado deste fenómeno, que no que respeita ao mundo moderno remonta ao século dezoito, o esotérico fez-se parecer na sua grande parte como sendo oposto à tradição Cristã, enquanto que o que sobreviveu da tradição Cristã desprezou em muitas instâncias a exacta ideia de esotérico de modo similar ao de grande parte das igrejas Cristãs dos dias de hoje que desconsideraram a gnose ou o conhecimento sagrado na exposição da sua mensagem. Devido à disjunção para com uma tradição viva, este denominado esoterismo degenerou num ocultismo inoperativo ou até mesmo prejudicial e o invólucro do conhecimento sagrado permaneceu mas tornou-se deposto do sagrado. Grande parte do esoterismo ostentado no mundo moderno tornou-se desunido do sentido do sagrado em pleno contraste com o esoterismo genuíno, tal como é percebido tradicionalmente, este que está naturalmente relacionado com o sagrado e que é o meio por excelência para obter acesso ao sagrado naquele aqui e agora que é o reflexo do Imutável e do Eterno.[xix]


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[i] Lidámos com este assunto em muitos dos nossos escritos. Ver, por exemplo, “An Introduction to Islamic Cosmological Doctrines”, pp. 37ff.
[ii] Falsafah e ḥikmah podem ser traduzidos como filosofia e teosofia dependendo da forma como estes termos são compreendidos em inglês e em que contexto se empregam os termos em Árabe.
[iii] Sobre a figura de Hermes no pensamento Islâmico ver L. Massignon, “Inventaire de la littérature hermétique árabe,” em A. Nock e A.J. Festugière, La Révélation d´Hermès Trismégiste, 1, Paris, 1949, app. 3; S.H. Nasr, “Hermes and Hermetic Writtings in the Islamic Worlds,” em Islamic Life and Thought, Londres, 1981, pp. 102ff.; F. Sezgin, Geschichte der Arabischen Schrifttums, Leiden, 1970, com referências a Hermes em várias páginas, como por exemplo, vol. 3, 1970, pp. 170-71, vol. 4, 1971, pp. 139-269; e no artigo “Hirmis” de M. Plesser na New Encyclopedia of Islam.
[iv] A ênfase dada à Pérsia pré-Islâmica e à Grécia como a base da “filosofia perene” também se encontram em Ibn Miskawayh e am Abu’l Hasan al-‘Āmirī ainda que não com a mesma extensão que se encontra em Suhrawardī, que se considerava a si mesmo como o ressuscitador da sabedoria dos Persas antigos. Ver Nasr, Three Muslim Sages, cap. 2; e H. Corbin, En Islam iranien, vol. 2.
[v] Suhrawardī também se refere a esta sabedoria como al-ḥikmat al-‘aṭīqah (a sabedoria antiga), que é exactamente o mesmo que a philosophia psicorum em Latim. Se existe uma ligação histórica ou simplesmente a repetição da mesma verdade, e mesmo da mesma terminologia, na Pérsia e na Itália Renascentista do século doze, não se poderá confirmar até que mais estudos e maior disseminação dos ensinamentos de Suhrawardī seja feita no Ocidente. Ver S.H. Nasr, “The Spread of the Illuminationist School of Suhrawardī,” em La Persia nel Medioevo, Roma, 1971, pp. 255-65.
[vi] Sayyid Ḥaydar Âmolî, Le texte dês textes (NaṢṢ al-NoṢûṢ), commentaire des “FoṢûṢ al-ḥikam” d’Ibn Arabî. Les prolégomènes, ed. Por H. Corbin e O. Yahya, Teerão-Paris, 1975, p.865. O autor providencia diagramas complexos que se assemelham a mandalas baseados na visão de um mundo inteligível e que contêm os nomes de várias figuras espirituais e intelectuais, tanto Islâmicas como pré-Islâmicas. Estes diagramas foram analisados por Corbin no seu, “La paradoxe du monothéisme,” Eranus-Jahrbuch, 1976, pp.77ff. Corbin escreve relativamente ao “interesse extraordinário” destes diagramas que representam os sábios no firmamento espiritual, “[Cet intérêt] est dans la correspondence instituée pour les deux diagrammes 21 et 22 entre la totalité mahammadienne groupé autor de la famille ou du temple dês Imams immaculés (Ahl al-bayt) et la totalité dês religions groupés autor des hommes dont la nature foncière originelle a été preservée (fiṭra salîma). La fiṭra salîma, c’est la nature humaine, l’Image Dei, telle qu’elle est ‘sortie des mains’ du Créateur, sans avoir jamais été détruite." Ibid., pp. 98-99
[vii] A obra de arte de Ṣadr al-Dīn Shīrāzī, al-Ḥikmat al-muta’āliyah fi’l-asfār al-arba’ah, é não apenas uma summa da filosofia e teologia Islâmica mas também uma fonte para a história do pensamento Islâmico e também para as ideias pré-Islâmicas com que se depararam os filósofos e teólogos Muçulmanos. Mullā Ṣadrā recorre a filosofias antigas e também a filosofias Islâmicas em quase todas as discussões e assume como garantido o ponto de vista da philosophia perennis. Pode-se encontrar o mesmo ponto de vista noutros trabalhos seus, tal como Ḥudūth al-ālam. Ver S.H. Nasr, Ṣadr al-Dīn Shīrāzī and His Transcendent Theosophy, Londres, 1978; e idem, “Mullā Ṣadrā as a Source for the History of Muslim Philosophy,” Islamic Studies 3/3 (set. 1964): 309-14.
[viii] “Religio é o que ‘liga’ (religat) o homem ao Céu e envolve a totalidade do seu ser; enquanto a palavra ‘traditio’ está relacionada com uma realidade mais extrovertida e por vezes mais fragmentada, para além de sugerir um panorama retrospectivo. No seu nascimento, uma religião ‘liga’ o homem ao Céu desde o momento da sua primeira revelação, mas não se torna uma ‘tradição’, ou admite mais do que uma ‘tradição’, até duas ou três gerações mais tarde.” Schuon, Light on the Ancient Worlds, p. 144.
[ix] A multiplicidade das formas religiosas à luz do conhecimento unitário e sagrado será tratado no cap. 9 deste trabalho.
[x] O livro de R. Guénon, Le Roi du monde, Paris, 1927, deu também aso a muitas especulações deste género por parte de pessoas com esse tipo de tendências.
[xi] Falando estritamente, apenas o que provém da Origem pode ser original. Isto é precisamente o modo como a perspectiva tradicional vê a originalidade, em contraste com a perspectiva anti-tradicional para a qual a originalidade está divorciada quer da verdade quer da presença sagrada e, por conseguinte, de tudo o que compreende a religião ou a tradição como tal.
[xii] Esta distinção é tão fundamental que até mesmo os sofistas que tentam refutar a realidade do real vivem e actuam ainda assim no pressuposto da intuição da distinção entre o real e o irreal.
[xiii] É esta ideia de sagrado como totalmente outro que foi desenvolvida por R. Otto no seu bem conhecido trabalho The Idea of the Holly, trad. J. Harvey, Nova Iorque, 1958, pp. 12ff., e que tanto atraiu a atenção de académicos da religião ao longo das décadas recentes.
[xiv] Por exemplo, toda a arte sacra é arte tradicional mas nem toda a arte tradicional é arte sacra. A última compreende aqueles aspectos da arte tradicional que se relacionam directamente com os símbolos, imagens, ritos, e objectos que lidam com a religião que reside no coração da tradição em questão. Trataremos deste assunto com maior detalhe no cap. 8, no qual se trata da arte sacra.
[xv] Sobre estas dimensões do Islão ver S. H. Nasr, Ideals and Realities of Islam; quanto ao exoterismo e esoterismo em geral, ver F. Schuon, the Transcendent Unity of Religions, trad. P. Townsend, Nova Iorque, 1975, cap. 2 e 3.
[xvi] “Avançámos com a visão de que o processo de enunciação dogmática durante os primeiros séculos foi um de Iniciação sucessiva, ou numa palavra, que existiu na religião Cristã um exoterismo e um esoterismo. Ainda que possa desagradar historiadores, encontram-se vestígios incontestáveis do lex arcani na origem da nossa religião.” P. Vuillaud, Études d’ésoterism catholique, citado por Schuon, Transcendent unit, p. 142.
[xvii] É comummente esquecido que um Śankara, que era o jñani no Hinduismo, que compôs hinos a Śiva e que um Ḥāfiz ou Rūmī, que constantemente falavam em rejeitar as formas (Ṣurah) em favor da essência (ma’nā – literalmente “significado”) nunca falhavam as preces diárias. Eles transcendiam a forma desde cima, não desde baixo, e eram assim os primeiros a reconhecer a necessidade das formas exotéricas para a preservação do equilíbrio da colectividade humana.
[xviii] Ver S.H. Nasr, “Between the Rim and the Axis,” em Islam and the Plight of Modern Man, Londres, 1976, cap. 1.
[xix] Sobre o significado do esoterismo ver F. Schuon, Esoterism as Principle and as Way, trad. por William Stoddart, Londres, 1981, Introdução; e L. Benoist, L’Esotérism, Paris, 1963.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O que é a Tradição? - parte I

A presente publicação é uma tradução da parte inicial do segundo capítulo “What is Tradition?” da obra absolutamente fundamental de Seyyeid Hossein Nasr, “Knowledge and the Sacred.

(parte II); (parte III)


***

Pela devoção ao Tao do passado
Mestrar-se-á a existência do presente
Tao Te-Ching

Eu não crio; Apenas falo do passado
Confucius



O termo tradição foi profusamente usado no capítulo anterior. É agora necessário defini-lo com tanta exactidão quanto possível de modo a evitar incompreensão sobre um conceito que reside no cerne da nossa preocupação para com o significado do sagrado na sua relação com o conhecimento. A utilização do termo tradição no sentido que lhe é conferido no presente estudo surgiu para a civilização Ocidental no momento da fase final da desacralização do conhecimento e do mundo que rodeava o homem moderno. A redescoberta da tradição constituiu uma espécie de compensação cósmica, uma bênção do Empíreo Divino e da sua misericórdia que tornou possível, num momento em que tudo parecia perdido, a reafirmação da Verdade que constitui o próprio coração e essência da tradição. A formulação do ponto de vista tradicional foi uma resposta do Sagrado, que é simultaneamente o alfa e o ómega da existência humana, à elegíaca sentença do homem moderno perdido num mundo deposto do sagrado e, por conseguinte, deposto de significado.

For though all seem lost, yet All is found
In the Last who is the First. Faithful pageant,
Not amiss is thy mine, for manifest in thee
Omega is an archway where Alpha stands framed,
The First who comes Last, for likewise art thou
The season of seeds, O season of fruits
[i]

The First who comes Last”, a reafirmação da tradição nesta tarda hora da história da humanidade, tradição que é ela própria de carácter primordial e que possui continuidade ao longo dos tempos, tornou possível uma vez mais o acesso àquela Verdade segundo a qual os seres humanos viveram durante a grande parte – ou antes a quase totalidade – da sua história terrestre. Foi necessário que esta Verdade fosse novamente declarada e reformulada em nome da tradição, devido precisamente ao quase total eclipse e à perda daquela realidade que constituiu a matriz da vida da humanidade normal ao longo dos tempos. A utilização do termo e o recurso ao conceito da tradição tal como se efectiva no mundo contemporâneo são, de certa forma, uma anomalia tornada necessária pela anomalia em que consiste o mundo moderno.[ii]


Várias línguas anteriores aos tempos modernos não utilizavam um termo que correspondesse exactamente ao da tradição já que a humanidade pré-moderna se caracterizava ela própria por aqueles que aceitavam o ponto de vista tradicional. O homem pré-moderno estava demasiado imbuído no mundo criado pela tradição para que tivesse a necessidade de ver este conceito definido de modo exclusivo. Este homem era como os peixinhos que, de acordo com a parábola Sufi, se aproximaram de sua mãe um dia pedindo que lhes fosse explicada a natureza da água de que tanto haviam ouvido falar, mas que jamais haviam visto ou lhes tinha sido definida e descrita. A mãe respondeu que se alegraria em revelar-lhes a natureza da água desde que primeiramente encontrassem algo que não fosse água. De igual modo, as humanidades normais viviam em mundos tão impregnados com aquilo a que agora chamamos de tradição que não reconheciam sentido em chamar tradição a um conceito isolado, tal como foi necessário definir e formular no mundo moderno. Os homens pré-modernos tinham uma percepção da revelação, da sabedoria, do sagrado e também conheciam os períodos de decadência das suas civilizações e da sua cultura, mas nunca tinham tido a experiência de um mundo totalmente secularizado e anti-tradicional que viesse a necessitar de uma definição e formulação da tradição, tal como foi o caso dos dias de hoje. Num certo sentido, a formulação do ponto de vista tradicional e a reafirmação da perspectiva tradicional total, a qual se equipara à recapitulação de todas as verdades manifestadas no actual ciclo da história da humanidade, não poderia senão surgir no crepúsculo da Idade Negra que marca de uma vez o fim e a véspera que precede um novo amanhecer de esplendor. Apenas o fim de um ciclo de manifestação torna possível a recapitulação da totalidade do ciclo e a criação de uma síntese que possa então servir como a semente para um novo ciclo.[iii]


O conceito da tradição teve que ser evidenciado e os ensinamentos tradicionais expressos na sua totalidade; e é exactamente isto que tem acontecido durante esta última etapa da história da humanidade. Mas os escritos tradicionalistas estão longe de ser amplamente conhecidos no mundo moderno. Na realidade, tivessem-se tornado bem conhecidos os escritos daqueles que partilham o ponto de vista tradicional e quase não seria necessário redefinir, aqui e agora, o significado da tradição à qual tantas páginas, artigos e até mesmo livros se têm devotado.[iv] Um dos aspectos mais significativos da vida intelectual deste século, contudo, é precisamente o omissão deste ponto de vista em círculos cuja função oficial é a de cuidarem aspectos de ordem intelectual. Se esta omissão é deliberada ou acidental não é a nossa preocupação aqui. Seja qual for a causa, o resultado é que sessenta ou setenta anos depois do aparecimento no Ocidente de trabalhos com carácter tradicional, a tradição ainda é incompreendida em muitos círculos e é confundida com costume, hábito, padrões de pensamento herdados, entre outros. Daí a necessidade de aprofundar uma vez mais o seu significado, apesar de tudo o que já foi escrito sobre o assunto.


No que concerne a linguagens tradicionais, estas não possuem, pelas razões já mencionadas, um termo que corresponda exactamente à tradição. Existem termos fundamentais com o dharma Hindu e Budista, o al-dīn Islâmico, o Tao Taoista, entre outros que estão inextricavelmente relacionados com o significado do termo tradição, mas que não são idênticos a este ainda que os mundos ou civilizações criados pelo Hinduísmo, Budismo, Taoismo, Judaísmo, Cristandade, Islão, ou para este contexto por qualquer outra religião, sejam obviamente mundos tradicionais. Cada uma destas religiões é também o coração ou origem da tradição que prolonga os princípios da religião para domínios diferentes. Tradição também não significa exactamente traditio na forma em que é usado no Catolicismo, apesar de incluir a ideia da transmissão de uma doutrina e práticas de uma natureza inspirada e enfim revelada que são implicadas pelo termo traditio. Na realidade, a palavra tradição está etimologicamente relacionada com transmissão e, no âmbito do seu significado, contém a ideia de transmissão de conhecimento, práticas, técnicas, leis, formas, e muitos outros elementos de natureza oral e escrita. A tradição é como uma presença viva que deixa impressa a sua marca mas que não é redutível a essa marca. Aquilo que transmite pode-se parecer com palavras escritas sobre pergaminho mas pode também consistir em verdades gravadas nas almas dos homens, de uma forma tão subtil como o murmúrio ou mesmo o relance do olho através do qual certos conhecimentos são transmitidos.


A tradição utilizada no sentido técnico deste trabalho, tal como em todos os nossos outros escritos, designa verdades ou princípios de origem divina revelados ou desvendados à humanidade e, de facto, todo um sector cósmico por meio de várias figuras encaradas como mensageiros, profetas, avatāras, o Logos ou outros agentes de transmissão, a par com todas as ramificações e aplicações destes princípios em domínios vários que incluem a lei e estrutura social, a arte, o simbolismo, as ciências, e abrange evidentemente o Conhecimento Supremo bem como os meios para a sua obtenção.


No seu sentido mais universal, tradição pode ser considerada como inclusa de princípios que ligam o homem ao Céu, e por conseguinte de religião, enquanto tomando um outro ponto de vista a religião pode ser considerada na sua essência como aqueles princípios que são revelados pelo Céu e que ligam o homem à sua Origem. Neste caso, tradição pode ser considerada num sentido mais restrito como sendo a aplicação destes princípios. A tradição implica verdades de um carácter supraindividual enraizadas na natureza da realidade como tal, porquanto, conforme foi afirmado, “A tradição não é uma mitologia infantil e fora de moda mas uma ciência terrivelmente real”.[v] A tradição, tal como a religião, é de uma vez verdade e presença. Concerne o sujeito que conhece e o objecto que é conhecido. Surge da Fonte da qual tudo se origina e para a qual tudo retorna. Por conseguinte, engloba todas as coisas tal como o “Respiro do Compassivo” que, de acordo com os Sufis, é precisamente a raiz da própria existência. A tradição está inextricavelmente relacionada com revelação e religião, com o sagrado, com a noção de ortodoxia, com autoridade, com a continuidade e regularidade da transmissão da verdade, com o exotérico e com o esotérico e bem assim com a vida espiritual, a ciência e as artes. As cores e nuances do seu significado tornam-se deveras clarificadas uma vez que a sua relação com cada um destes e de outros conceitos e categorias pertinentes é elucidada.


Para muitos dos que foram atraídos ao chamamento da tradição durante as parcas últimas décadas, o significado da tradição tornou-se relacionável acima de tudo com a sabedoria perene que reside no coração de cada religião e que não é outra que não a Sophia cuja posse foi considerada como o objectivo supremo da vida humana, no Ocidente bem como no Oriente, segundo a perspectiva sapiêncial. Esta sabedoria eterna da qual a ideia da tradição não pode ser dissociada e que constitui um dos componentes principiais do conceito da tradição é nenhum outro que a sophia perennis da tradição Ocidental a que os Hindus chamam sanatāna dharma[vi] e os Muçulmanos al-ḥikmat al-khālidah (ou jāvīdān khirad em Persa).[vii]


Num certo sentido, sanatāna dharma ou sophia perennis estão relacionadas com a Tradição Primordial[viii] e, por conseguinte, com a Origem da existência humana. Mas esta visão não deve de modo algum desviar ou anular a autenticidade das últimas mensagens do Céu na forma das várias revelações, cada uma das quais começa com uma origem que é a Origem e sinaliza o começo de uma tradição que é de uma vez a Tradição Primordial e a sua adaptação a uma humidade particular, sendo esta adaptação a Possibilidade Divina manifestada no plano humano. A atracção do homem do Renascimento pela quimera das origens e a “Tradição Primordial” que levou Ficino a desprezar a tradução de Platão em favor do Corpus Hermeticum, que era então considerado como mais antigo e primordial, atracção esta que passou também a fazer parte da visão do mundo e do Zeitgeist do século dezanove,[ix] provocou muita confusão em torno da questão do significado da “Tradição Primordial” na sua relação com as várias religiões. Cada tradição, e portanto Tradição, estão profundamente relacionadas com a sabedoria perene ou ‘Sophia’, não devendo esta ligação ser considerada como apenas temporal e nem como uma causa para a rejeição daquelas outras mensagens do Céu que constituem as diferentes religiões e que são, claramente, interiormente relacionadas com a Tradição Primordial sem que sejam somente a sua continuidade histórica ou temporal. A genialidade espiritual e a particularidade de cada tradição não podem ser negligenciadas em nome da sempre presente sabedoria que reside no coração de cada e de todas as descendências celestes.


A.K. Coomaraswamy, um dos mais relevantes expositores das doutrinas tradicionais no período contemporâneo, traduziu sanatāna dharma como philosophia perennis, ao que adicionou o adjectivo universalis. Sob a sua influência, muitos identificaram tradição como a filosofia perene com a qual está profundamente relacionada.[x] Mas o termo philosophia perennis, ou a sua tradução Inglesa, é de alguma forma problemático em si mesmo e carece de definição prévia para que a tradição possa ser compreendida por referência àquela. Contrariamente ao que Huxley afirma, o termo philosophia perennis não foi empregue pela primeira vez por Leibniz, ainda que este o tenha citado numa célebre carta escrita a Remond em 1714.[xi] Mais propriamente, o termo foi provavelmente primeiramente empregue por Agostino Steuco (1497-1548), o filósofo e teólogo Augustiniano da Renascença. Apesar do termo ter sido associado a muitas e diferentes escolas, incluindo a Escolástica, especialmente a escola Tomista,[xii] e o Platonismo em geral, estas são associações mais recentes, enquanto que a associação do termo com Steuco foi identificada a respeito da sabedoria perene que abrangia a filosofia e a teologia e não apenas pela relação com uma escola de sabedoria ou de pensamento.


O trabalho de Steuco De perenni philosophia foi influenciado por Ficino, por Pico e ainda por Nicolas de Cusa, especialmente pelo De pace fidei que fala da harmonia entre as várias religiões. Steuco, que conhecia Árabe e outras línguas Semitas e que era bibliotecário da Biblioteca do Vaticano, o que lhe concedeu acesso à “sabedoria dos tempos” com a profundidade que era possível no Ocidente naquela altura, seguiu as ideias destas figuras antigas no que respeita à presença de uma sabedoria ancestral que tinha existido desde o despertar da história. Ficino não falou de philosophia perennis mas aludiu sim por diversas vezes à philosophia priscorium ou prisca theologia, que pode ser traduzida como antiga ou venerável filosofia e teologia. No encalço de Gemisthus Plethon, o filósofo Bizantino que escreveu sobre esta sabedoria ancestral e enfatizou o papel de Zaratustra como mestre deste conhecimento ancestral de ordem sagrada, Ficino enfatizou a significância do Corpus Hermeticum e dos Oráculos Caldeus, os quais considerava terem sido compostos por Zaratustra e que teriam sido estes as origens desta sabedoria primordial. Steuco acreditava que Platão herdara esta sabedoria[xiii] e que com este a verdadeira filosofia tinha sido originada, tal como a verdadeira teologia teria tido origem na Cristandade. Esta verdadeira filosofia, vera philosophia, era para ele o mesmo que religião e, a verdadeira religião, o mesmo que esta filosofia. Para Ficino, tal como para tantos outros Cristãos Platonistas, Platão teria conhecido o Pentateuco e teria sido um “Moisés greco-falante,” este Platão a quem Steuco chamou Platão divinus e que muitos sábios Muçulmanos, de modo semelhante, titularam de Aflāṭūn al-ilāhī, o “Platão Divino.”[xiv] Ficino, de certa forma, reformulou a visão de Glemithus Plethon relativamente à perenidade da verdadeira sabedoria.[xv] O compatriota de Ficino, Pico della Mirandola, adicionaria ainda às fontes da philosophia priscorium consideradas por Ficino, não Cristãs e especialmente Greco-Egípcias, o Corão, a filosofia Islâmica e a Cabala, ainda que tenha dado seguimento à perspectiva de Ficino e que tenha enfatizado a ideia da continuidade de uma sabedoria que é essencialmente uma ao longo das várias civilizações e períodos da história.


A philosophia perennis de Steuco era nada mais que esta philosophia priscorium, mas sobre uma outra designação.[xvi] Steuco afirmou que a sabedoria era originariamente de origem divina, um conhecimento sagrado dado por Deus a Adão que, para a maioria dos seres humanos, foi gradualmente esquecido e se tornou num sonho sobrevivente apenas e quase integralmente na prisca theologia. Esta verdadeira religião ou filosofia, cujo objectivo é a theosis e a obtenção do conhecimento sagrado, existiu desde o começo da história humana e é obtenível através da expressão histórica desta verdade nas suas várias tradições ou pela intuição intelectual e contemplação “filosófica”.


Apesar de severamente atacada por muitos sectores por expressar ideias tão opostas ao humanismo da Renascença e às interpretações um tanto exotéricas e sectárias da Cristandade que prevaleciam naqueles tempos, o termo utilizado por Steuco continuou a sobreviver e ficou célebre devido à utilização que lhe foi dada por Leibniz, este que tinha uma certa simpatia com as ideias tradicionais. Mas, algo curiosamente, o termo apenas ganhou popularidade generalizada no século vinte. Se a sabedoria perene ou antiga for de facto compreendida tal como Plethon, Ficino e Steuco o fizeram, então está relacionada com a ideia da tradição e pode mesmo ser empregue como uma tradução de sanatāna dharma, desde que o termo philosophia não seja tomado apenas de maneira teórica mas que abranja também a realização.[xvii] A tradição contém o sentido de uma verdade que é simultaneamente de origem divina e perpetuada ao longo de um importante ciclo da história da humanidade através, quer de transmissão, quer da renovação da mensagem por meio de revelação. A tradição também implica uma verdade interior que reside no coração das diferentes formas sagradas e que é única porquanto a Verdade é una. Em ambos os sentidos, a tradição está intimamente relacionada com a philosophia perennis se este termo for entendido como a Sophia que sempre foi e sempre será e que é perpetuada juntamente por meios de transmissão horizontal e de renovação vertical através do contacto com aquela realidade que o era “no início” e que o é aqui e agora.[xviii]



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[i] Do poema “Autumn” de M. Lings, um dos principais escritores tradicionalistas contemporâneos que é também poeta, no seu The Heralds and Other Poems, Londres, 1970, p. 26.
[ii] Tal como um dos mais importantes mestres tradicionais contemporâneos afirmou, a exposição das doutrinas tradicionais na sua totalidade é necessária nos dias de hoje porque “uma irregularidade merece uma outra”.
[iii] No plano microcósmico, as escatologias tradicionais ensinam que no momento da morte, toda a vida de um ser humano é recapitulada laconicamente perante ele mesmo. Ele é então julgado em conformidade e entra num estado póstumo em acordo com o seu estado de existência e obviamente com a Misericórdia Divina, cujas dimensões são imponderáveis. O mesmo princípio existe no plano macrocósmico, e como envolve a vida da humanidade como tal, obviamente com todas as diferenças implicadas pela variação do plano individual para o colectivo.
[iv] Os primeiros trabalhos de R. Guénon, um dos mais importantes expositores da perspectiva tradicional no Ocidente moderno, contêm muitas passagens sobre o significado da tradição. Ver “What is meant by Tradition”, no seu Introduction to the Study of Hindu Doctrines, trad. M. Pallis, Londres, 1945, pp. 87-89; e “De l’infallibilité traditionnelle”, em ed. Aperçus sur l’initiation, Paris, 1946, pp. 282-88. Do mesmo modo, A. K. Coomaraswamy e F. Schuon escreveram numeras páginas e passagens sobre o próprio conceito de tradição. Ver, por exemplo, Coomaraswamy, The Bugbear of Literacy, esp. caps. 4 e 5; e F. Schuon Spiritual Perspectives and Human Facts, pt. 1; idem, Light on the Ancient Worlds, caps. 1 e 2; idem, “Fatalité et progress”, Etudes Traditionelles, n. 261 (Jul-Ago 1947): 183-89; e idem, “L’impossible convergence“, Etudes Traditionelles, n. 402-3 (Set-Out 1967): 145-49; Ver também E. Zolla, Ché cos’ è la tradizione?“, esp. pt. 2, “La Tradizione Eterna”, que trata a tradição de um ponto de vista mais literário; e idem, “What is Tradition?”, um volume dedicado a A.K. Coomaraswamy e editado por R. Fernando. A tradição também foi usada com um significado semelhante, ainda que mais restrito do que o significado utilizado no presente trabalho, por certos autores católicos tais como J. Pieper, Überlieferung-Begriff und Anspruch, Munique, 1970, enquanto outras figuras católicas a quem retornaremos adiante adoptaram integralmente a ideia da tradição.
[v] F. Schuon, Understanding Islam.
[vi] Sanatāna dharma não pode ser traduzido com rigor, ainda que sophia perennis seja talvez o que mais se aproxima, já que sanatāna significa perenidade (que é, perpetuidade ao longo de um ciclo de existência humana e não eternidade) e dharma o princípio de conservação dos seres, tendo cada ser o seu próprio dharma com o qual deve conformar e que é a sua lei. Mas dharma também se relaciona com a humanidade como um todo no sentido de Mānava-dharma e neste caso relaciona-se com o conhecimento sagrado ou ‘Sophia’, o qual está no coração da lei que governa um ciclo humano. Neste sentido sanatāna dharma corresponde a sophia perennis, esp. tendo em consideração a realizada e não apenas a dimensão teórica de ‘Sophia’. No seu significado pleno, sanatāna dharma é a tradição primordial ela mesma tal como tem subsistido e continuará a subsistir no decurso do presente ciclo da humanidade. Ver R. Guénon, “Sanatāna Dharma”, no seu Études sur L’Hindouisme, Paris, 1968, pp. 105-6.
[vii] Este é, na realidade, o título de um trabalho de Ibn Miskawayh (Muskūyah) sobejamente conhecido e que contém aforismos e ditos metafísicos e éticos de sábios Islâmicos e pré-Islâmicos. Ver a edição de A. Badawi al-Ḥikmat al-khālidah: Jāwīdān khirad, Cairo, 1952. Este trabalho discute o pensamento e escritos de muitos sábios e filósofos, incluindo aqueles da Pérsia antiga, Índia, e do mundo Mediterrânico (Rūm). Neste trabalho, ver a introdução de M. Arkoun para a tradução Persa de Ibn Miskawayh, por T. M. Shushtarī, Jāvīdān khirad, Teerão, 1976, pp. 1-24.
[viii] A tradição primordial não é outra que a que o Islão refere como al-dīn al-ḥanif, e que o Corão refere um vários contextos mas habitualmente em relação com o Profeta Abraão que é habitualmente referido como ḥanif; por exemplo, “Recusa mas (nós seguimos) a religião de Abraão, o correcto [upright] (ḥanifan), e ele não era dos idólatras” (II; 135-Pickthall translation). Ver também versos III; 67 e 95-VI; 79 e 161-XVI; 120-e XVII; 31.
[ix] Ver M. Eliade, “The Quest for the ‘Origins of Religion’,” History of Religions 4/1 (Verão 1964); 154-69.
[x] O bastante conhecido trabalho de A. Huxley, Perennial Philosophy, Nova Iorque, 1945, é um dos trabalhos que procurou demonstrar a existência e apresentar os conteúdos desta sabedoria duradoura e perene recorrendo a ditos seleccionados e retirados de várias tradições, mas o trabalho permanece incompleto em muitos aspectos e a sua perspectiva não é tradicional. O primeiro trabalho que tomou plenamente a sugestão de Coomaraswamy em organizar o vasto compendio de conhecimento tradicional com o fito de demonstrar a notável perenidade e universalidade da sabedoria é o tristemente negligenciado trabalho de W.N. Perry, A Treasury of Traditional Wisdom, Londres e Nova Iorque, 1971, o qual consiste num trabalho chave para a compreensão do que autores tradicionais intentam por filosofia perene.
[xi] Depois de declarar nesta carta que a verdade é mais extensa do que havia sido pensado até então, e que o seu rasto se encontra entre os antigos, ele diz “et ce serait en effect perennis quaedam Philosophia.” C.J. Gerhardt (ed.), De philosophischen Schriften von Gottfried Wilhelm Leibnitz, Berlim, 1875-90, vol. 3, p. 625. Também citado em C. Schmitt, “Perennial Philosophy: Steuco to Leibniz,” Journal of the History of Ideas 27 (1966): 506. Este artigo (pp. 505-32 do volume citado) descreve a história da utilização do termo philosophia perennis dedicando especial atenção ao suporte Renascentista de Ficino e de outras figuras Renascentistas anteriores. Ver também J. Collins, “The Problem of a Perennial Philosophy,” na sua Three Paths in Philosophy, Chicago, 1962, pp. 255-79.
[xii] A identificação da “filosofia perene” com o Tomismo ou a Escolástica em geral é um fenómeno do Sec. XX, porquanto durante o Renascimento os Escolásticos em geral opunham-se às teses de Steuco.
[xiii] Especialmente herdeiro de Zaratustra, Hermes, Orfeu, Aglaophemus (o professor de Pitágoras), e Pitágoras.
[xiv] Este termo encontra-se entre filósofos Islâmicos tais como al-Fārābī e certos Sufis.
[xv] Sobre a visão de Ficino ver os vários trabalhos de R. Klibansky, E. Caisser, e P. O. Kristeller acerca do Renascimento, esp. Studies in Renaissance Thought and Letters de Kristeller, Roma, 1956; e idem, Il pensiero filosofico di Marsilio Ficino, Florença, 1953.
[xvi] Este facto é demonstrado claramente por Scmitt no seu artigo já citado, porquanto apesar do termo philosophia perennis ser de origem Renascentista, mesmo para a vida intelectual Ocidental, a ideia subjacente é de origem medieval e em última análise originária da Grécia antiga.
[xvii] Referindo-se à religio perennis, Schuon escreve “Estas palavras fazem lembram a philosophia perennis de Steuchus Eugubin (século XVI) e dos neo-escolásticos; mas a palavra ‘philosophia’ sugere, correcta ou erradamente, uma elaboração mental em vez de sabedoria e por conseguinte não aporta o sentido pretendido com exactidão.” Light on the Ancient Worlds, p. 143.
[xviii] “‘Philosophia perennis’ é geralmente entendida como relacionada com a verdade metafísica que não tem começo, e que se mantém inalterada em todas as expressões de sabedoria. Talvez fosse melhor e mais prudente falar de uma ‘Sophia perennis’. (…)
Quanto à Sophia Perennis, a questão é a seguinte: existem verdades inatas no Espírito humano, que apesar disso estão de certa forma enterradas nas profundezas do ‘Coração’-no puro Intelecto-e que são acessíveis apenas àquele que é espiritualmente contemplativo; e estas são as verdades metafísicas fundamentais. O acesso a estas verdades está na posse do ‘gnóstico’, ‘pneumático’ ou ‘teósofo’,- no sentido original e não sectário destes termos: por exemplo, Pitágoras, Platão e em grande parte também Aristóteles." Schuon, "Sophia perennis": Studies in Comparative Religion. Ver também Schuon, Wissende, Verschwiegene. Ein geweihte Hinführung zur Esoterik, Iniciativa Herderbücherei 42, Munique, 1981, pp. 23-28; e idem, a introdução e o primeiro capítulo, “Prémisses epistémologiques,” no seu Sur les traces de la religion pérenne.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Tradição Primordial: Um tributo a Ananda Coomaraswamy

"The Primordial Tradition: A Tribute to Ananda Coomaraswamy", escrito por Ranjit Fernando e lido por Manik Sandrasagra no 112º Encontro do Aniversário Comemorativo de Ananda Coomaraswamy promovido pelo ‘Cultural Survival Trust’ em associação com o Taj Samudra, Colombo, no domingo de 10 de Agosto de 1989.


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Ananda Coomaraswamy sugeriu que a grande admiração pelo Budismo no Ocidente se devia sobretudo ao que não representa; e referiu sobre o Hinduísmo que, apesar de ter sido examinado pela academia Europeia durante mais de um século, um entendimento fiel do mesmo poderia assumir uma forma que refutaria categoricamente a maioria das afirmações produzidas sobre o assunto, tanto por académicos Europeus como por Indianos treinados segundo as formas modernas de pensamento.

De igual modo, poder-se-ia dizer que a admiração pelo próprio Coomaraswamy, tanto no Ceilão como na Índia, deve-se em grande parte ao que ele não foi, e que uma verdadeira compreensão das suas ideias poderia configurar a negação de grande parte das afirmações proferidas sobre ele na terra onde nasceu.

Coomaraswamy vem sendo apresentado desde há muito, na Índia e no Ceilão, como patriota, famoso indologista e historiador de arte, distinto académico e orientalista; seria também de examinar a validade destas convicções generalizadas sobre um homem que foi sem dúvida uma das maiores figuras dos nossos tempos.

Os conteúdos das obras maturas de Coomaraswamy podem ser catalogados com um título, nomeadamente o de Tradição. A Tradição sobre a qual escreveu em quase nada se relaciona com a utilização corrente deste termo para designar costumes ou padrões sociais que prevalecem durante um determinado período de tempo. O tema central dos seus escritos é a Tradição Primordial e Universal imutável que, como Coomaraswamy demonstra, foi a fonte de onde todas as verdadeiras religiões do presente e também do passado surgiram, bem como a fonte das formas de todas as sociedades moldadas pela religião.

O aspecto particular da Tradição que Coomaraswamy escolheu como a sua especialidade particular – a que mais se adequava aos seus talentos – foi, claramente, a perspectiva tradicional da arte, agora principalmente associada ao Oriente mas em tempos universalmente aceite tanto no Oriente como no Ocidente e bem assim pelas civilizações da antiguidade e, seguramente, por aquelas sociedades que aprazivelmente são chamadas de primitivas. Coomaraswamy nunca se cansou de demonstrar que a perspectiva tradicional da vida e da arte sempre foi a perspectiva universal e normal até que os Gregos do denominado período clássico introduzissem pela primeira vez uma perspectiva da vida e da arte em divergência fundamental com a perspectiva até então aceite.

A aversão de Coomaraswamy para com o designado ‘milagre Grego’ é unissonante com a atitude de desaprovação veemente, no mínimo, de Platão para com as mudanças que se verificavam no seu tempo. Coomaraswamy demonstra, como Platão o fez, que a perspectiva da vida e da arte inventada e glorificada pelo Gregos, e subsequentemente adoptada pelos Romanos foi, no contexto da longa história da humanidade, uma perspectiva anormal, uma aberração; e que apesar da perda de suporte desta perspectiva nas mentes dos homens com o surgimento da Cristandade na Idade Média, o seu restabelecimento com ainda maior vigor durante o Renascimento torná-la-ia responsável pelos males fundamentais do mundo moderno.
Em todas as sociedades tradicionais, muito para além da faculdade de raciocinar, o homem sempre foi considerado como capaz de ir mais além e atingir o conhecimento directo e intuitivo da verdade absoluta que, tal como o escritor tradicionalista Gal Baton diz, “transporta consigo uma certeza imediata providenciada por nenhum outro tipo de conhecimento.”

“No mundo moderno”, aquele escritor prossegue, “pensa-se em termos de ‘progresso intelectual’, pelo qual se entende um progresso nas ideias que o homem formula relativamente à natureza das coisas; mas, do ponto de vista do conhecimento tradicional, não pode existir progresso, excepto porquanto determinados indivíduos progridem da ignorância para o conhecimento reflectido ou racional, e da razão para o conhecimento directo e intuitivo que, pode-se ainda acrescentar, pela sua natureza não pode ser definido, mas que, ainda assim se situa sobre e acima de todas as outras formas de conhecimento e é nada menos do que o conhecimento ele mesmo.”

De um ponto de vista tradicional, a falha dos Gregos reside em terem substituído a faculdade racional pela supra-racional como a mais elevada faculdade do homem, e nas palavras do distinto colega de Coomaraswamy, René Guénon, “quase parece que os Gregos, num momento em que estavam prestes a desaparecer da história, desejaram vingar-se da sua própria incompreensão impondo a uma fracção da humanidade as limitações do seu próprio horizonte mental”. “Desde o Renascimento”, conforme refere Baton, “o mundo moderno foi, claramente, ainda para além dos Gregos ao negar até mesmo a possibilidade de um conhecimento real que transcende os limites restringidos da mentalidade individual”. Mormente, conforme todos percebemos, aquilo que aparenta ser uma séria limitação de horizontes tomando uma perspectiva tradicionalista, é percepcionado como um avanço intelectual sem precedentes segundo a perspectiva moderna!

Porquanto é quase impossível num breve sumário, como este, discutir com maior profundidade os assuntos em causa, poderá ser útil ponderar sobre a alegoria de Platão acerca da caverna subterrânea onde alguns homens foram confinados desde a infância. Estes homens apenas estão familiarizados com as sombras projectadas pelo fogo sobre as paredes escuras da caverna, para as quais dispõe de todo o tempo de estudo, e sobre as quais são bastante conhecedores. Eles nada sabem do mundo exterior e como tal não acreditam na sua existência.

Coomaraswamy, tal como Platão, queria que se compreendesse que também nós estamos na escuridão como estes homens, e que faríamos bem em buscar a luz de outro mundo acima ocupando-nos com aquelas coisas que os nossos antepassados conheciam e compreendiam tão bem. Ele refere constantemente que as sociedades modernas ou anti-tradicionais são moldadas pelas ideias desenvolvidas pelos homens com recurso aos seus próprios poderes de racionalidade, pelo que acabam por existir tantos conjuntos de ideias como existem homens; ele também tenta demonstrar que as sociedades tradicionais, por outro lado, eram baseadas em ideias perenes de uma ordem bem diferente – ideias de origem divina e revelada – segundo a qual se determinavam todos os aspectos da sociedade.

Um tema recorrente nas obras de Coomaraswamy consiste na perspectiva tradicional da arte. Nas referências à arte Europeia, Coomaraswamy salienta repetidamente que a arte Greco-Romana e a arte do Renascimento, tal como todas as escolas de arte Europeia mais modernas, eram de inspiração terrena e por conseguinte de origem humana tal como as filosofias que as acompanhavam, enquanto a arte tradicional, à semelhança da filosofia tradicional, se relacionava com a ordem metafísica e portanto era de carácter religioso e de origem divina.

Reconhece-se agora que nas primeiras obras, designadamente a monumental “Medieval Sinhalese Art”, Coomaraswamy ainda não compreendera na totalidade a diferença entre estes dois pontos de vistas contrastantes, os quais viriam a formar a base dos seus trabalhos subsequentes e mais significativos; nos seus primeiros escritos, a compreensão profunda das artes tradicionais das Índias, assim como o já considerável alcance do verdadeiro sentido da religião, estavam ligeiramente enublados com preconceitos modernistas resultantes, sem dúvida, do tipo de formação académica prévia que obteve em Inglaterra e que, logo naquela altura, começaria a enjeitar. Contudo, posteriormente, e na sequência de se ter relacionado com o metafísico francês René Guénon, os escritos de Coomaraswamy assumiriam uma correcção de exposição plena e o grande reconhecimento que se associa à sua obra mais matura.

Na medida em que se consegue perceber que a abordagem universalista ao estudo das religiões do mundo, a par com a compreensão do verdadeiro significado da Tradição, tem uma importância especial para o mundo moderno actual, deve-se também perceber que estes dois homens, o Francês René Guénon e Ananda Coomaraswamy do Ceilão, se destacam como os maiores pensadores da primeira metade do século. Um grande abismo separa o pensamento destes homens daquele de quase todos os seus contemporâneos. A segunda metade deste século assistiu ao aparecimento de toda uma escola fundada no trabalho precursor destes homens e na ‘Filosofia Perene’, um movimento que encontrou aceitação em muitas partes de um mundo confuso e desorientado.

É então evidente que, para considerar Coomaraswamy como ilustre orientalista e historiador de arte, tem antes que se compreender perfeitamente que ele se destaca da quase totalidade de outros académicos que podem ser referidos de forma similar, porque enquanto estes abordam a vida e a arte das sociedades tradicionais segundo uma perspectiva moderna (que é simultaneamente “céptica e evolucionária”, para usar as suas próprias palavras), Coomaraswamy, bem como os seus poucos colegas e colaboradores verdadeiros, assume a perspective que assume a perspectiva de que a Tradição apenas pode ser compreendida através de uma consideração cautelosa da sua perspectiva própria por quão inconveniente isso possa ser. Compreendendo isto, seria certamente verdadeiro não só afirmar que Coomaraswamy foi um académico distinto mas, como Marco Pallis o disse, que foi um príncipe entre académicos.

Coomaraswamy visionou que uma sociedade feudal ou hierárquica baseada em princípios metafísicos é essencialmente superior aos sistemas supostamente igualitários tidos actualmente em tão grande estima. Tal como Platão, defendeu que a democracia era uma das piores formas de governo, nem visionou qualquer outro sistema materialístico mais favorável. O seu entusiasmo por instituições como casta e monarquia baseavam-se, não em sentimento, mas numa profunda compreensão da relação vital entre autoridade espiritual e poder temporal da sociedade e governo. Coomaraswamy dificilmente aprovaria o caminho que a Índia e o Ceilão tomaram desde que atingiram a assim chamada independência, ainda que o considerasse inevitável.

É bem conhecido que, à partida, Coomaraswamy deplorava a influência do Ocidente sobre os povos Orientais, e especialmente as consequências da governação Britânica nas Índias. Por conseguinte, foi colocado ao lado daqueles que, na Índia e no Ceilão, foram considerados como líderes nacionais na luta pela independência. Mas também neste plano, uma disparidade total de abordagem separa Coomaraswamy dos seus contemporâneos, porque não era o imperialismo ou o domínio de um povo sobre outro que constituía a sua preocupação, mas antes a destruição das sociedades tradicionais por povos que haviam abandonado as formas sagradas. Era o que os Britânicos representavam que detestava e não os Britânicos; pelo contrário, não existem dúvidas de que amou Inglaterra, porque havia conhecido uma outra Inglaterra antiga que, em forma como em espírito, tanto se havia parecido com o mundo oriental que tão bem compreendia.

Seria apropriado, em jeito de conclusão, citar as palavras do imensamente respeitado artista-filósofo Inglês, Eric Gill, que prestou este grande tributo a Coomaraswamy na sua autobiografia:

“Existiu um indivíduo, a cuja influência estou profundamente agradecido; Refiro-me ao filósofo e teólogo, Ananda Coomaraswamy. Outros escreveram a verdade sobre a vida e religião e o trabalho do homem. Outros escreveram em Inglês são e claro. Outros tiveram a bênção de expor argutamente. Outros compreenderam a metafísica da Cristandade e outros compreenderam a metafísica do Hinduísmo e do Budismo. Outros compreenderam o verdadeiro significado de desenhos e esculturas eróticas. Outros visionaram a relação da verdade com o bem e o belo. Outros tiveram ensinamentos aparentemente ilimitados. Outros amaram; outros foram amáveis e generosos. Mas não conheço outrem em quem todas estas bênçãos e todos estes poderes tenham sido combinados. Não me atrevo a confessar como seu discípulo; isso apenas o embaraçaria. Posso apenas afirmar que acredito que nenhum outro escritor vivo escreveu a verdade em matéria de arte e vida e religião e piedade com tanta sabedoria e compreensão.”