Black Bird - Oglala Lakotadomingo, 21 de outubro de 2007
Espírito Índio
Black Bird - Oglala Lakotaquinta-feira, 18 de outubro de 2007
Esoterismo [2]
***
O esoterismo pode ser entendido como a “religião da inteligência”: isto significa que este opera com o intelecto – e não apenas com o sentimento e a vontade – e que, consequentemente, o seu conteúdo é tudo o que a inteligência pode alcançar, e que apenas ela pode alcançar.* O “sujeito” do esoterismo é o Intelecto e o seu “objecto” é, ipso facto, a Verdade total, nomeadamente – expressa em termos Vedânticos – a doutrina de Atma e Maya; e aquele que diz Atma e Maya, diz Jnana, conhecimento directo, intuição intelectual.
(* Está longe da verdade que todo o esoterismo histórico é esoterismo puro; uma exegese colorida por um sistema confessional ou totalmente envolvido num misticismo subjectivo está longe de uma verdadeira gnose. Por outro lado, está longe de ser o caso de que tudo o que é colocado na categoria de esoterismo o seja na realidade; acontece demasiadas vezes que diversos autores, ao abordar este conceito, não façam a devida distinção entre o que é genuíno e o que é falso, entre a verdade e o erro, em consonância com os dois pecados do nosso tempo, os quais são a substituição da inteligência pela psicologia e a confusão entre o psíquico e o espiritual.) [Frithjof Schuon - To Have a Center, Intelligence and Character]
Reza Shah-Kazemi
Reza Shah-Kazemi (Ph.D. em Religião Comparada na Universidade de Kent) é investigador auxiliar no Instituto de Estudos Islâmicos em Londres.É o autor do livro “Paths to Transcendence: According to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart”. Shah-Kazemi contribuiu ainda para as seguintes obras: “Paths to the Heart”, “Islam, Fundamentalism, and the Betrayal of Tradition: Essays by Western Muslim Scholars”, sendo ainda o autor do ensaio: A Sacred Conception of Justice: Imam ‘Ali’s Letter to Malik al-Ashtar, incluído na obra "The Sacred Foundations of Justice in Islam".
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Knowledge and the Sacred
Este livro é sem dúvida uma das obras fundamentais dedicadas à exposição e análise das tradições sagradas e da própria Tradição. A magistralidade desta obra levou Huston Smith, um dos mais prestigiados autores ligados ao estudo das religiões do mundo, a escrever as seguintes palavras: “Em relação ao livro em análise, se o seu autor é um fenómeno, este seu livro é um evento. (…) Historiadores intelectuais irão no futuro considerar esta obra comparável com a tradução para Latim de Aristóteles por William of Moerbeke no século XIII, a de Platão do séc. XV por Marsiglio Ficino ou os Ensaios sobre Budismo Zen de D.T. Suzuki em 1927, sendo um marco de uma nova fase de compreensão multi-cultural”.Esta obra de Seyyed Hossein Nasr resulta das lições dadas na Universidade de Edimburgo, tendo sido o primeiro não Ocidental a ser convidado para leccionar as prestigiadas Gifford Lectures naquela Universidade desde que as mesmas foram instituídas em 1889.
Neste trabalho, Nasr procura ressuscitar a qualidade sagrada do conhecimento e reavivar a verdadeira tradição intelectual do Ocidente com o auxílio das tradições do Oriente ainda vivas. O livro está dividido em dez capítulos, cada um deles verdadeiras obras-primas:
1. Conhecimento e a sua Dessacralização
2. O que é a Tradição
3. A redescoberta do Sagrado: O reavivar da Tradição
4. Scientia Sacra
5. Homem, Pontífice e Prometeico
6. O Cosmos como Teofania
7. Eternidade e a Ordem Temporal
8. Arte Tradicional como Fonte de Conhecimento e Graça
9. Conhecimento Principial e a Multiplicidade de Formas Sagradas
10. Conhecimento do Sagrado como Entrega
Algumas das publicações no “Sabedoria Perene” foram extraídas deste magnífico livro, sendo certo que muitas mais surgirão, sendo as palavras de Nasr uma verdadeira fonte de conhecimento e inspiração.
Tradição e Religião
[…] Esta rápida análise do estado actual dos estudos religiosos, na medida em que dizem respeito à variedade e diversidade dos universos religiosos, revela a imperfeição de todos os métodos mais frequentes quando analisados na perspectiva da tradição e da visão sapiencial que reside no coração da mesma, apesar de cada um dos métodos poder conter algum aspecto ou particularidade positiva.
Hoje em dia é nos dado a escolher entre um exclusivismo que destruiria o verdadeiro significado de Justiça Divina e Misericordiosa e um designado universalismo que destruiria elementos preciosos de uma religião, em relação à qual os seus fiéis acreditam ser originária do céu e os quais são de origem celeste. Existe uma escolha entre um absolutismo que negligencia todas as manifestações do Absoluto para além das nossas e um relativismo que destruiria o próprio significado de absoluto. É nos dada a possibilidade de reduzir todas as realidades religiosas a influências históricas ou de as considerarmos como realidades a serem estudadas independentemente e sem qualquer referência para o contexto histórico da revelação de uma manifestação particular do Logos. Somos levados ou a aceitar uma outra educadamente e por conveniência, na melhor das hipóteses por caridade, ou a disputar ou combater a mesma como um oponente a ser refutado ou mesmo destruído, uma vez que a sua visão é baseada no erro e não na verdade. Somos confrontados com a alternativa de não estudar as outras religiões e manter a devoção religiosa no seio da própria tradição (embora esta não seja uma alternativa viável para quem tenha sido tocado pela verdade, graça e beleza de outras religiões) ou de estudar outras religiões com a consequência de perder a própria fé ou, na melhor das hipóteses, ter essa fé diluída e abalada.
O homem moderno enfrenta estas alternativas numa altura em que a presença de outras religiões lhe introduz um problema existencial, o qual é significativamente diferente do confrontado pelos seus ancestrais. De facto, se existe uma realmente nova e significativa dimensão para a vida religiosa e espiritual do homem de hoje, essa será a presença de outros mundos de forma e significado sagrado, não como factos e fenómenos arqueológicos ou históricos, mas como uma realidade religiosa. É esta necessidade de viver no seio de um sistema solar e de acordo com as suas leis, sabendo, no entanto, que existem outros sistemas solares e, inclusivamente, por participação, vir a conhecer algo dos seus ritmos e harmonias, adquirindo, desta forma, uma visão da beleza assombrosa de cada um como um sistema planetário, o qual é o sistema planetário dos que nele vivem. É o ser iluminado pelo Sol do nosso sistema planetário e, ainda assim, através de um notável poder de inteligência, conhecer por antecipação e à distância, que cada sistema solar tem o seu próprio sol, o qual é simultaneamente um sol e o Sol, pois como poderá o sol que nasce todas as manhãs e ilumina o nosso mundo ser outro do que o próprio Sol?
É em relação a este significado crucial do estudo das religiões no seio de múltiplos universos de forma sagrada que a pertinência da perspectiva tradicional e do conhecimento “principial” que reside no seu coração se torna clara para o homem contemporâneo, confrontado com este problema “existencial”. A chave fornecida pela tradição para a compreensão da presença das diferentes religiões sem relativizar a religião, é o resultado de uma das mais eternas aplicações da sabedoria ou conhecimento “principial”, o qual é, ele mesmo, eterno. Apenas este tipo de conhecimento pode realizar uma tal tarefa, sendo simultaneamente um conhecimento com carácter sagrado e conhecimento sagrado em si mesmo.
A tradição estuda as religiões do ponto de vista da scientia sacra, a qual distingue o Princípio da manifestação, a Essência da forma, a Substância do acidente, o interior do exterior. Ela coloca o carácter de absoluto ao nível do Absoluto, afirmando categoricamente que o Absoluto é absoluto. Ela recusa-se a cometer o erro cardinal de atribuir o carácter de absoluto ao relativo, erro que o Hinduísmo e o Budismo consideram ser a origem e a raiz de toda a ignorância. Assim, toda a determinação do Absoluto está imediatamente no reino da relatividade. A unicidade das religiões é encontrada, em primeiro lugar e acima de tudo, neste Absoluto, o qual é simultaneamente Verdade e Realidade e a origem de todas as revelações e de toda a verdade. Quando os Sufis exclamam que a doutrina da Unidade é única (al-tawdīd wāhid), eles estão a afirmar este princípio fundamental mas muitas vezes esquecido. Apenas ao nível do Absoluto os ensinamentos das religiões são semelhantes. Abaixo desse nível, apesar de existirem algumas correspondências de uma ordem mais profunda, estas nunca são idênticas. As diferentes religiões são como que diferentes linguagens a falar de uma única Verdade, na medida em que esta se manifesta em diferentes mundos e de acordo com as suas possibilidades arquétipas, não sendo a sintaxe dessas linguagens a mesma. No entanto, e porque todas as religiões são originárias da Verdade, tudo numa determinada religião revelada pelo Logos é sagrado e deverá ser respeitado e apreciado enquanto meio de elucidação, ao invés de serem desprezados e reduzidos ao insignificante, em nome de uma qualquer universalidade abstracta.
O método tradicionalista de estudo das religiões, enquanto que afirmando categoricamente a “unidade transcendente das religiões” e o facto de que “todos os caminhos levam ao mesmo cume”, é profundamente respeitosa de todos os passos de cada caminho, de todos os sinais que tornam a jornada possível e sem os quais o cume nunca poderia ser alcançado. Este procura penetrar no significado dos rituais, dos símbolos, das imagens e das doutrinas que constituem um universo religioso particular, não procurando ignorar estes elementos ou reduzi-los a algo diferente do que na realidade são no seio desse distinto universo de significado criado por Deus através de uma determinada revelação do Logos.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Sobre a crítica
Na realidade, toda a verdade é por definição construtiva; apenas o erro é destrutivo. Destruir uma destruição é já algo construtivo. [Frithjof Schuon – Spiritual Perspectives and Human Facts]
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Esoterismo [1]
No entanto, iremos em algumas das nossas futuras publicações procurar aprofundar igualmente um outro termo de grande importância e que é muitas vezes mal compreendido, o esoterismo. Para tal, recorreremos a alguns perenialistas, procurando extrair das suas obras alguns textos a ele dedicados.
***
A palavra “esoterismo” sugere, em primeiro lugar, uma ideia de complementaridade, de uma “metade”. O esoterismo é o complemento do exoterismo, é o “espírito” que completa a “letra”. Onde quer que exista uma verdade da Revelação e, assim, uma verdade formal e teológica, deverá igualmente existir uma verdade de intelecção, ou seja, uma verdade não-formal e metafísica; uma verdade não legalista ou obrigatória, mas sim uma que brote a partir da natureza das coisas, e uma verdade que seja também vocacional, uma vez que nem todos os homens apreendem esta natureza.
[Frithjof Schuon - Survey of Metaphysics and Esoterism, Two Esoterisms]
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Nova publicação periódica - Eye of the heart
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Religio Perennis
No Cristianismo – segundo Santo Ireneu e outros – Deus “tornou-se homem” por forma a que o homem possa “tornar-se Deus”; na terminologia Hindu poderíamos dizer: Âtmâ tornou-se Mâyâ por forma a que Mâyâ possa tornar-se Âtmâ. No Cristianismo, a contemplação e concentração unificadora consiste em residir no Real manifestado – a “Palavra feita carne” – por forma a que esse Real resida em nós, que somos ilusórios, de acordo com o que Cristo disse na visão concebida a Santa Catarina de Siena: “Eu sou Aquele que é; vós sois aquela que não é.” A alma reside no Real – no reino de Deus que está “dentro de nós” – através de uma permanente oração do coração, tal como é ensinada pela parábola do juiz injusto e a injunção de São Paulo.
No Islão, o mesmo tema fundamental – fundamental devido à sua universalidade – é cristalizado de acordo com uma perspectiva bastante diferente. O discernimento entre o Real e o não-real é afirmado pelo Testemunho da Unidade (a Shahâdah): a concentração correlativa no Símbolo ou a consciência permanente no Real é realizada por este mesmo Testemunho ou pelo Nome divino que o sintetiza e que é, assim, a cristalização quintessêncial da Revelação do Alcorão; este Testemunho ou este Nome é também a quintessência da revelação Abrâmica – através da linhagem de Ismael – e recua até à Revelação primordial do ramo Semita. A “descida” do Real (nazzala, unzila); ele entrou no não‑real ou ilusório, o “perecível” (fânin) [5], ao tornar-se o Alcorão – ou a Shahâdah que o sintetiza, ou o Ism (o “Nome”) que é a sua essência sonora ou gráfica, ou a Dhikr (a “Menção”) que é a sua síntese operativa – por forma a que com esta dádiva divina o ilusório possa regressar ao Real, à “Face (Wajh) do Senhor que só ele aceita” (wa yabqâ Wajhu Rabbika) [6], qualquer que seja a importância metafísica atribuída às ideias de “ilusão” e de “Realidade”. Nesta reciprocidade residem todos os mistérios da “Noite do Destino” (Laylat al-Qadr), a qual é uma “descida”, e a “Noite da Ascensão” (Laylat al-Mi‘râj), que é a sua fase complementar; realização contemplativa – ou “unificação” (tawhîd) – participa nesta ascensão do Profeta através dos degraus do Paraíso. “Em verdade” – diz o Alcorão – “a oração protege contra o pecado maior (fahshâ) e o menor (munkar), mas a menção (dhikr) de Allah é maior” [7].
Mais próximo, de certa forma, da perspectiva Cristã mas, simultâneamente, mais afastada, é a perspectiva Budista, a qual, por um lado, baseia-se na “Palavra feita carne”, mas por outro, não contempla qualquer noção antropomórfica de um Deus criador. No Budismo, os dois termos da alternativa ou do discernimento são o Nirvâna, o Real, e o Samsâra, o ilusório; em última análise, o caminho é a consciência permanente do Nirvâna como Shûnya, o “Vazio”, ou a concentração na manifestação salvífica do Nirvâna, o Buddha, o qual é Shûnyamûrti, “Manifestação do Vazio”.
Em Buddha – especialmente na sua forma de Amitabha – Nirvâna torna-se Samsâra para que Samsâra se torne Nirvâna; e se o Nirvâna é o Real e o Samsâra a ilusão, o Buddha é o Real no ilusório, e o Bodhisattva é o ilusório no Real [8], o que sugere o simbolismo do Yin‑Yang. A passagem do ilusório para o Real é descrita no Prajnâpâramitâ-hridaya-sûtra nestes termos: “Foi, foi – foi para a outra margem, atingiu a outra margem, ó Iluminado, que sejas abençoado!”.
***
Do ponto de vista da subjectividade humana, o homem é quem contém e Deus é o contido; do ponto de vista divino – se nos permitimos expressar desta forma – a relação é inversa, estando todas as coisas contidas em Deus e não existindo nada que O possa conter. Dizer que o homem é feito à imagem de Deus significa que, ao mesmo tempo, Deus assume algo dessa imagem a posteriori e em ligação com o homem; Deus é Espírito puro, e o homem é, consequentemente, inteligência ou consciência; por outro lado, se o homem é definido como inteligência, Deus aparece como “Verdade”. Por outras palavras, Deus, ao desejar Se atestar sob o aspecto de “Verdade”, dirige-Se ao homem enquanto capacitado com inteligência, tal como Se dirige ao homem em angústia para atestar a Sua Misericórdia ou para o homem capacitado com livre arbítrio O atestar como Lei salvadora.
As “provas” de Deus e da religião estão no próprio homem: “Conhecendo a sua própria natureza, ele conhece também o Céu”, diz Mencius, de acordo com outras máximas semelhantes. Devemos extrair da nossa própria natureza as chaves que abrem o caminho de subida em direcção à certeza do Divino e da Revelação; falar do “homem” é implicitamente falar de “Deus”; falar do “relativo” é falar do “Absoluto”. A natureza humana em geral e a inteligência humana em particular, não podem ser compreendidas separadas do fenómeno religioso, o qual os caracteriza na forma mais directa e completa possível: capturando a transcendente – não a “psicológica” – natureza do seu humano, capturamos a natureza da revelação, religião, tradição; compreendemos as suas possibilidades, as suas necessidades, a sua verdade. E, ao compreender a religião, não só numa forma particular ou literal, mas na sua essência sem forma, compreendemos também as religiões, ou seja, o significado da sua pluralidade e diversidade; este é o lugar da gnose, ou da religio perennis, onde as antinomias extrínsecas dos dogmas são explicadas e resolvidas.
***
No seu plano exterior e, desta forma, contingente – o qual tem, no entanto, a sua importância na ordem humana – existe concordância entre a religio perennis e a natureza virgem e, pela mesma razão, entre esta e a nudez primordial, a da criação, nascimento, ressurreição, ou o mais alto padre no Sagrado dos Sagrados, um eremita no deserto [9], um sâdhu ou sannyâsin Hindu, um Indío Vermelho numa oração silenciosa numa montanha [10]. A natureza inviolada é, simultaneamente, um vestígio do Paraíso terreno e a prefiguração do Paraíso celeste; os santuários e trajes diferem, mas a natureza virgem e o corpo humano permanecem fiéis à sua unidade inicial. A arte Sagrada, a qual aparenta afastar-se dessa unidade, na realidade, serve simplesmente para restaurar aos fenómenos naturais as suas mensagens divinas, para as quais o homem se tornou insensível; na arte, a perspectiva do amor tende para inundar e exceder, enquanto que a perspectiva da gnose tende para a natureza, a simplicidade e o silêncio; este é o contraste entre a riqueza Gótica e a sobriedade Zen [11]. Mas não devemos perder de vista o facto de que os modelos ou modos exteriores são sempre contingentes e que todas as combinações e todas as compensações são possíveis, especialmente porque, na espiritualidade, todas as possibilidades podem se reflectir nas restantes de acordo com as adequadas modalidades. Uma civilização é integral e saudável na medida em que estiver fundada no “invisível” ou na religião “basilar”, a religio perennis, isto é, na medida em que as suas formas e expressões sejam transparentes para o Não-Formal, mas também – e ainda com mais razão – o pressentimento de uma Beatitude intemporal. Pois a Origem está, simultaneamente, dentro de nós e à nossa frente; o tempo não é mais do que um movimento espiral em torno de um Centro imóvel.
__________________
[6] Sûrah “O Misericordioso” [55]:27.
[7] Sûrah “A Aranha” [29]:45.
[8] Ver “Le mystère du Bodhisattva” (Études Traditionnelles, Maio-Junho, Jullho-Augosto, Setembro-Outubro, 1962).
[9] Tal como Maria do Egipto, na qual o não-formal e carácter totalmente interior de um amor por Deus, partilha as qualidades da gnose, de tal forma que se lhe pode chamar “gnose do amor” no sentido de parabhakti.
[10] Simplicidade na roupa e na sua cor, em particular branca, substitui muitas vezes o simbolismo de nudez na arte do traje; em todos os planos, o estado de nudez inspirado pela Verdade nua contrabalança um “culturismo” terreno. Por outro lado, um robe sagrado simboliza a vitória do Espírito sobre a carne, e a sua riqueza hierática – a qual estamos longe de criticar – expressa a profusão inextinguível do Mistério e Glória.
[11] Mas é muito claro que a mais sumptuosa arte sagrada é infinitamente mais próxima da gnose do que a ignorante e simplista dos nossos contemporâneos que professam estar a fazer “uma limpeza”. Só uma simplicidade que seja qualitativa, nobre e conforme com a essência das coisas, pode reflectir e transmitir o perfume da sabedoria não-formal.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Compreender a palavra “Tradição”
***
A Tradição nada tem a haver com quaisquer “idades”, sejam “negras”,
Ananda K. Coomaraswamy, Correspondência, 1946
…não existe nem pode existir nada verdadeiramente tradicional que não
René Guénon, O reino da quantidade e os sinais dos tempos
Os termos “tradicional” e “moderno” sugerem uma distinção entre o antigo e o novo, o fixo e o em alteração, o venerado caminho do passado e o progressivo caminho do futuro. A polaridade subjacente que reflecte está fundada na estrutura metafísica da realidade, na arquitectura da Absoluta inviolabilidade da Substância e da Infinita possibilidade da Forma. Esta polaridade subjacente é expressa na dialéctica da Necessidade e Liberdade. A Necessidade é o principio organizador da disposição, da projecção e reintegração: tudo o que existe reside e emerge a partir de uma mesma realidade, cuja Substância transcendental é simultaneamente a sua Origem e o seu Fim, o critério de toda a objectividade. A Liberdade é o princípio criativo desta disposição, expressando-se numa infinita variedade de modos e modalidades da Forma e no imanente potencial da nossa própria subjectividade pessoal.
Os termos “Tradição” e “Modernidade”, tal como usados por tradicionalistas como Seyyed Hossein Nasr, não são derivativos da diferenciação convencional entre os termos “tradicional” e “moderno”, apesar do uso particular que eles dão a estes termos tenha como premissa a estrutura metafísica descrita atrás. Isto pode ser confuso. Para Nasr, “Modernidade” é “aquilo que está separado do Transcendente, dos princípios imutáveis que, na realidade, governam todas as coisas e que são dadas a conhecer ao homem através da revelação no seu sentido mais universal”, enquanto que “Tradição”, por contraste, designa esses mesmos princípios imutáveis, a sophia perennis ou sabedoria primordial, as quais estão fundadas no Transcendente. De acordo com esta definição, Modernidade não é necessariamente um sinónimo de contemporâneo (ou focado no futuro), nem Tradição é sinónimo de continuidade história (ou focado no passado). Tradição é, neste sentido, metahistórica: a sua única relação com o passado reside na ligação de uma particular tradição religiosa à sua fonte original, ou seja, à revelação que a autentica, a escritura que a fundou e as suas formas de adoração, transmitidas através do ambiente protector de uma tradição particular. Mas esta relação entre uma tradição particular e as suas origens históricas é, de certa forma, acidental. A relação entre Tradição e Revelação transcende a história. A Revelação, “no seu sentido mais universal”, não é um acontecimento histórico: está baseada no eterno presente e é contínua. A sua autenticação não pode ser reduzida à nossa capacidade para a colocar em qualquer momento da história, mas sim, garantida pela sua capacidade de ressoar como verdade no interior do santuário do Coração, cuja faculdade de discernimento é o supra-racional Intelecto.
O Conhecimento é, assim, uma ressonância da Substância espiritual que pertence ao todo da criação, e cuja presença ressoa no interior do Coração puro. O Conhecimento não é uma mera forma de taxidermia intelectual, mas sim um caminho para habitar a própria criatura. É ser humano na sua totalidade.
Em linguagem corrente, os termos “tradicional” e “moderno” sugerem duas atitude distintas para com a mudança, o primeiro resistindo-lhe, e o último aceitando-a. Mas a “Tradição”, no sentido de sabedoria primordial, não é necessariamente resistente à mudança. A imagem de Shiva Nataraja personifica, quer a ideia de quietude (o fixo, ou o ser), quer a de movimento (em mudança, ou vir a ser). A “Tradição” é uma combinação de ambos estes elementos. É ao mesmo tempo um Equilíbrio estático e uma Atracção dinâmica, o realismo clássico da transcendência e o idealismo romântico da imanência. O homem é simultaneamente um escravo da mudança (estando sujeito aos processos do tempo) e o seu mestre (estando equipado para a transcender espiritualmente). A busca da salvação é, num determinado nível, uma busca pela paz, enquanto que noutro, uma busca da criatividade e frescura, a libertação da petrificação. O termo “tradicional” pode ter uma implicação pejorativa de excessiva rigidez e formalismo, enquanto que o termo “moderno”, pode querer significar aquilo que é excessivamente individualista ou sem princípios. Nestes sentidos, quer o tradicional quer o moderno são opostos à “Tradição”, a qual reconhece a mútua interdependência dos princípios organizadores e criativos da realidade. Quando a criatividade deixa de se conformar às hierarquias inerentes a um universo ordenado espiritualmente, a volição torna-se satânica e profana a Liberdade. E quando as exigências de conformidade reprimem a expressão genuinamente espiritual, o intelecto torna-se tirânico e profana a Necessidade. A “Tradição” reconhece que a Necessidade (o discernimento intelectual que a expressão criativa tem necessariamente um princípio organizador) e a Liberdade (a transcendência da expressão criativa em conformidade com esse princípio organizador) estão interligados, e que o discernimento intelectual tem implicações morais. O “ethos” humano é assim uma dimensão da estrutura sagrada da realidade.
A “Modernidade”, no sentido considerado pelos tradicionalistas, indica uma tendência para uma “rigidez” moral e intelectualidade “opaca”. Quando a realidade deixa de ser apreendida como metafisicamente “transparente para a transcendência”, não existe nenhuma realidade espiritual apreendida que possa ressoar na alma humana, nada que “derreta” o coração em submissão por compaixão, a verdadeira e serena Liberdade, cuja vil falsificação é uma alma aprisionada pelas paixões, cedendo às gratificações momentâneas de auto-indulgência, antes que os seus insaciáveis apetites sejam desviados para uma nova sedução.
É neste sentido que “Tradição” e “Modernidade” são colocados em oposição. O tradicionalista não é necessariamente oposto ao “moderno” como convencionalmente entendido, apenas à “Modernidade”, entendida como o inverso de “Tradição”, no sentido particular definido anteriormente. Um tradicionalista pode ser “moderno” no modo de vestir, na linguagem, nos confortos modernos ou tecnologias e, ainda assim, necessariamente oposto à “Modernidade”, no sentido da sua negação do transcendente ou do sentido do sagrado. Da mesma forma, nem tudo o que parece “tradicional” está de acordo com a “Tradição”. Por exemplo, o fundamentalismo, apesar de poder surgir revestido de uma roupagem tradicional e usar uma linguagem tradicional, é a própria antítese da “Tradição”, a qual recusa a redução fundamentalista do espírito à palavra, bem como o seu excessivo formalismo e exclusivismo. “Pelos seus frutos conhecê-los-emos”, não pela sua aparência.
As palavras e os rótulos, em ultima análise, tendem a ocultar a realidade, abstraindo-a. Na melhor das hipóteses agem como símbolos, inspirando o significado que reside adormecido no nosso interior. “Tradição” e “Modernidade” são, finalmente, aspectos de nós próprios: “Duo sunt in homine”, ensinado por S. Aquino, um ensinamento que ressoa através do discurso tradicionalista e no interior de cada alma humana. Existe, no fim, um elemento em cada alma que terá de ser conquistado para um bem maior. A “Tradição” convida cada um de nós a cumprir o nosso total potencial humano, a compreender o mundo exterior com o olho interior, com compaixão, e a nos conformarmos com a vontade do intelecto e, dessa forma, ultrapassar as tendências do nosso ser Prometeico, integrando a Verdade, a Bondade e a Beleza nas nossas vidas, por forma a alcançar a Vida Eterna.
sábado, 11 de agosto de 2007
Religio Perennis
***
Uma das chaves para a compreensão da nossa verdadeira natureza ou destino último é o facto de que as coisas deste mundo nunca são proporcionais ao real alcance da nossa inteligência. A nossa inteligência existe para o Absoluto, caso contrário não seria nada; de todas as inteligências deste mundo, apenas o espírito humano está capacitado para a objectividade, o que implica – ou prova – que apenas o Absoluto confere à nossa inteligência o poder para alcançar em pleno tudo o que pode e ser a totalidade do que é [1]. Se fosse útil ou necessário comprovar o Absoluto, o carácter objectivo e transpessoal do Intelecto humano seria testemunho suficiente, pois este Intelecto é o sinal incontestável de uma primeira Causa puramente espiritual, uma Unidade infinitamente central mas contendo a totalidade das coisas, uma Essência simultaneamente imanente e transcendente. Já foi dito mais do que uma vez que a Verdade total está inscrita num eterno guião na própria substância do nosso espírito; aquilo que as diferentes Revelações fazem é “cristalizar” ou “actualizar”, em diferentes graus e de acordo com cada caso específico, um conjunto de certezas que, não só permanecem para sempre na divina Omnisciência, mas também repousam, por refracção, no “naturalmente sobrenatural” núcleo da individualidade, tal como em cada uma das colectividades étnicas ou históricas, ou na espécie humana como um todo.
Da mesma forma, no caso da vontade, a qual não é mais do que o prolongamento ou complemento da inteligência, os objectivos que normalmente procura atingir, ou aqueles que a vida lhe impõe, não reclamam todo o seu alcance. Apenas a “dimensão divina” pode satisfazer a sede de plenitude na nossa vontade ou no nosso amor. O que torna a nossa vontade humana e, por essa razão, livre, é o facto de que esta é proporcional a Deus; apenas em Deus ela é mantida livre de todas as restrições, de tudo o que limita a sua natureza.
A função essencial da inteligência humana é o discernimento entre o Real e o ilusório ou entre o Permanente e o impermanente, e a função essencial da vontade é a ligação ao Permanente ou ao Real. Este discernimento e esta ligação são a quintessência de toda a espiritualidade; considerados ao seu nível mais elevado ou reduzidos à sua mais pura substância, constituem a universalidade subjacente a cada um dos grandes patrimónios espirituais da humanidade, ou o que pode ser designado por religio perennis [2]; esta é a religião a que os sábios aderem, a que é sempre e necessariamente fundada nos elementos formais da instituição divina [3].
***
O discernimento metafísico é uma “separação” entre Âtmâ e Mâyâ; a concentração contemplativa ou consciência unificadora é, pelo contrário, uma união de Mâyâ e Âtmâ. O discernimento é separativo [4], em relação ao qual se refere a “doutrina”; a concentração é unitiva, em relação à qual se refere o “método”; a “fé” está relacionada com o primeiro elemento, enquanto que o “amor a Deus” se relaciona com o segundo.
Parafraseando o conhecido dito de Santo Ireneu, a religio perennis é fundamentalmente o seguinte: o Real entrou no ilusório de modo a que o ilusório possa regressar ao Real. É este mistério, em conjunto com o discernimento metafísico e a concentração contemplativa que são o seu complemento, o mais importante do ponto de vista da gnose; para os gnósticos – no sentido etimológico e correcto da palavra – em última análise, não existe qualquer outra “religião”. É ao que Ibn Arabi chamou a “religião do Amor”, colocando o ênfase no elemento de “realização”.
A dupla definição de religio perennis – discernimento entre o Real e o ilusório e uma unificadora e permanente concentração no real – implica, adicionalmente, o critério de ortodoxia intrínseca para todas as religiões e espiritualidades; uma religião, por forma a ser ortodoxa, terá de possuir uma mitologia ou simbolismo doutrinal que estabeleça a distinção essencial analisada, providenciando um caminho que garanta, quer a perfeição da concentração, quer a sua continuidade; por outras palavras, uma religião é ortodoxa se providencia a suficiente, senão exaustiva, ideia do absoluto e do relativo e, assim, da suas relações recíprocas, e uma actividade espiritual que é, por natureza, contemplativa e efectiva no que respeita o nosso destino último. De facto, é evidente que as heterodoxias tendem sempre a adulterar ou a ideia do Principio divino ou a forma como nos ligamos a ele; elas oferecem uma mundana e profana, ou – se preferirmos – “humanista” imitação de religião ou de um misticismo que não contém mais do que o ego e as suas ilusões.
***
Pode parecer desproporcional tratar de uma forma simples e, de certa forma, esquemática, um assunto tão complexo como as perspectivas espirituais mas, uma vez que a própria natureza das coisas nos permite considerar o aspecto da simplicidade, a verdade não seria melhor servida seguindo os meandros de uma complexidade não requerida neste caso. A capacidade de análise é uma função da inteligência e a de síntese outra; a corrente associação da inteligência com a dificuldade e da facilidade com a presunção, não tem, obviamente, qualquer relação com a verdadeira natureza do Intelecto. O mesmo acontece com a visão intelectual e a visão óptica: existem coisas que devem ser examinadas em detalhe por forma a serem compreendidas e outras que são melhor observadas a uma certa distância e que, parecendo simples, revelam desta forma, a sua verdadeira natureza. A Verdade pode expandir e diferenciar-se indefinidamente, mas está também contida num “ponto geométrico”; compreender este ponto é tudo, seja qual for o símbolo – ou simbolismo – que provoque a intelecção.
A Verdade é una, e seria inútil recusar procurá-la excepto num local específico, pois o Intelecto contem na sua substância tudo o que é verdadeiro, e a verdade não pode ser manifestada a não ser onde o Intelecto seja utilizado na atmosfera de uma Revelação. O espaço pode ser representado por um circulo, mas também por uma cruz, uma espiral, uma estrela ou um quadrado; e tal como é impossível a existência de uma só figura para representar a natureza do espaço ou extensão, o mesmo se verifica em relação à existência de uma só doutrina para descrever o Absoluto; por outras palavras, acreditar que existe apenas uma verdadeira doutrina é semelhante ao negar a pluralidade das figuras geométricas usadas para indicar as características do espaço ou – escolhendo um exemplo diferente – a pluralidade da consciência individual e de pontos de vista visuais.
Em cada Revelação, Deus diz “Eu”, enquanto Se coloca extrinsecamente num ponto de vista diferente de outras Revelações anteriores surgindo, assim, uma contradição no plano de cristalização formal.
Pode ser feita a objecção de que as várias figuras geométricas não são rigorosamente equivalentes na sua capacidade de servir como correspondências entre o simbolismo gráfico e a extensão espacial e, assim, que a comparação apresentada pode, de igual forma, ser utilizada como um argumento contra a equivalência das perspectivas tradicionais; em relação a isto respondemos que não se pretende que as perspectivas tradicionais sejam correspondências absolutas – pelo menos a priori – com os caminhos de salvação e meios de libertação. Adicionalmente, apesar do círculo – para não mencionar o ponto – constituir uma adequação mais directa da forma ao espaço do que a cruz ou qualquer uma das restantes figuras e, dessa forma, reflectir de uma forma mais perfeita a natureza da extensão, temos que considerar o seguinte: a cruz, o quadrado ou a espiral, expressam explicitamente uma realidade espacial que o círculo ou o ponto expressam apenas implicitamente; as figuras diferenciadas são assim insubstituíveis – doutra forma não existiriam – e não são, de forma alguma, diferentes tipos de círculos imperfeitos; a cruz, por exemplo, é infinitamente mais próxima da perfeição do ponto ou do círculo do que a forma oval ou trapezoidal. Considerações análogas são aplicáveis às doutrinas tradicionais no que respeita às suas diferentes formas e méritos.
[1] “O céu e a terra não Me (Allah) podem conter, mas o coração do Meu fiel servo contem-Me” (hadîth qudsî). Da mesma forma diz Dante: “Eu entendo que o nosso intelecto nunca esteja satisfeito se a verdade não o ilumina, para além do qual nenhuma verdade é possível” (Paraíso 4:124-26).
[2] Estas palavras relembram a philosophia perennis de Steuchus Eugubin (séc. 16) e os neo-escolásticos; mas a palavra philosophia sugere correctamente ou erradamente uma elaboração mental e não sabedoria e, por essa forma, não traduz exactamente o sentido pretendido. Religio é o que “liga” o homem ao Céu e congrega todo o seu ser; em relação á palavra traditio, esta está relacionada com uma realidade mais exterior e por vezes fragmentada, para além de sugerir uma visão retrospectiva; uma religião recém formada “liga” o homem ao Céu a partir do momento da primeira revelação, mas apenas se torna uma “tradição” – ou tem “tradições” – após duas ou três gerações.
[3] Isto é verdade mesmo no caso dos sábios Árabes pré-Islâmicos, os quais viviam a sua espiritualidade na herança de Abraão e Ismael.
[4] Este é o significado da palavra Árabe “furqân”, nomeadamente, “diferenciação qualitativa”, derivada de “faraqa”, separar, discernir, bifurcar; é sabido que “Furqân” é um dos nomes para o Alcorão.
>> PARTE II
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Frithjof Schuon
Frithjof Schuon, nasceu em 1907 em Basle, na Suiça, filho de pais alemães. Sendo seu pai músico, cresceu num ambiente onde, para além da constante presença da música, prevalecia a arte e literatura, quer do Oriente quer do Ocidente. Vivei em Basle, frequentando a escola da cidade, até à morte do pai em 1920, após a qual se deslocou com a sua mãe para Mulhouse, onde foi forçado a adquirir nacionalidade francesa. Tendo recebido a sua edução inicial em Alemão, era agora exposto ao sistema de educação francês, tendo adquirido conhecimento das duas línguas ainda muito jovem. Com a idade de 16 anos abandonou a escola, dedicando-se ao desenho de tecidos, iniciando-se assim no caminho da arte, a qual era uma sua paixão desde criança, nunca tendo, no entanto, tido qualquer instrução formal.Ainda em criança, Schuon havia sido atraído pelo Oriente pelas belas canções do Bhagavad-Gita, o qual era um dos seus livros favoritos, assim como as “Mil e uma noites”. Tinha uma propensão natural para a metafísica, tendo-se dedicado à leitura de Platão ainda muito jovem. Ainda em Mulhouse, teve conhecimento das obras de Guénon, as quais serviram como confirmação das suas intuições intelectuais e que lhe vieram a providenciaram o suporte para os princípios metafísicos que tinha começado a descobrir.
Schuon viajou para Paris depois de cumprir serviço militar durante um ano e meio com o exército Francês. Em Paris, para além de continuar o seu antigo trabalho, iniciou o estudo da língua árabe. Em 1932 visitou pela primeira vez a Algéria, marcando a sua primeira experiência com uma civilização tradicional e o seu primeiro contacto com o mundo Islâmico, resultando na obtenção de um conhecimento em primeira mão sobre a tradição Islâmica, incluindo o Sufismo, conhecendo alguns dos seus maiores representantes, tal como o Shaykh al-‘Alawi. Na sua segunda viagem ao Norte de África em 1935, visitou não só a Algéria mas também Marrocos, tendo em 1938 viajado até ao Cairo, onde finalmente se encontrou com René Guénon, com quem se vinha a corresponder há já vários anos.
Em 1939 voltou a parar no Egipto enquanto viajava para a Índia, uma terra que sempre amou e cuja espiritualidade o atraía desde a juventude. Pouco depois da sua chegada à Índia deu-se o início da Segunda Grande Guerra, sendo forçado a regressar a França e a ingressar no exército. Pouco tempo depois foi capturado e preso pelos Alemães. Quando soube que estes planeavam colocá-lo no seu exército devido ao seu passado, fugiu para a Suiça onde acabou por se fixar.
Durante cerca de 40 anos a Suiça foi o seu lar, tendo casado em 1949. Foi aqui que escreveu grande parte das suas obras, tendo sido visitado por diversas personalidades ligadas à religião e pensadores ligados ao Oriente e ao Ocidente.
Em 1959 e 1963, Schuon viajou para os Estados Unidos para visitar as tribos dos Índios Americanos, pelos quais tinha uma profunda admiração e afinidade. Ele e a sua esposa visitaram as reservas Sioux e Crow no Dakota do Sul e Montana, tendo sido aceites pela tribo Sioux.
Bibliografia:
The Transcendent Unity of Religions, 1953
Gnosis: Divine Wisdom, 1959
Language of the Self, 1959;
Stations of Wisdom, 1961
Understanding Islam, 1963
Light on the Ancient Worlds, 1966
In the Tracks of Buddhism, 1968, New Translation, Treasures of Buddhism, 1993
Logic and Transcendence, 1975
Esoterism as Principle and as Way, 1981
Castes and Races, 1959
Sufism: Veil and Quintessence, 1981
From the Divine to the Human, 1982
Christianity/Islam, 1985
Survey of Metaphysics and Esoterism, 1986
In the Face of the Absolute, 1989
The Feathered Sun: Plain Indians in Art & Philosophy, 1990
To Have a Center, 1990
Roots of the Human Condition, 1991
Images of Primordial & Mystic Beauty: Paintings by Frithjof Schuon, 1992
Echoes of Perennial Wisdom, 1992
The Play of Masks, 1992
Road to the Heart, 1995
The Transfiguration of Man, 1995
The Eye of the Heart, 1997
Biografias:
Frithjof Schuon: Life and Teachings - Jean-Baptiste Aymard, Patrick Laude
Mais informação:
Frithjof Schuon