quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Spiritual Perspectives and Human Facts

Este livro de Frithjof Schuon, a sua terceira obra e publicado pela primeira vez em 1953 pela editora Cahiers du Sud, é constituído por um conjunto de meditações sobre a tradição e a civilização moderna, a arte, a vida espiritual, a metafísica e as virtudes espirituais, sendo este último tema alvo de uma extensa discussão. De extrema importância é ainda um capítulo dedicado à comparação entre as perspectivas do Sufismo e do Vedānta.

Esta nova edição da World Wisdom, dirigida por James S. Cutsinger, contém, para além de um conjunto importante de notas que ajudam à compreensão da obra, um apêndice com uma selecção de cartas e textos pessoais escritos por Schuon, os quais são publicados pela primeira vez.

Fiquemos com algumas das palavras de Schuon que prefaciaram a sua obra em 1988.

“Esta colecção de textos, escritos por volta do meio do século – anteriormente a muitos dos restantes livros – difere destes na medida em que, ao invés de se tratarem de artigos, consistem de extractos de cartas, notas das nossas leituras, e reflexões surgindo independentemente de circunstâncias exteriores e organizados posteriormente em forma de capítulos. Sendo assim, Spiritual Perspectives and Human Facts, contém assuntos que não abordámos noutros livros, nomeadamente no que diz respeito ao Cristianismo, ao Vedānta, psicologia espiritual e o simbolismo das cores; (…)”

Procuraremos traduzir alguns dos maravilhosos trechos que abundam neste livro para futuras publicações no "Sabedoria Perene", recomendando-se, no entanto, a leitura integral desta obra de Frithjof Schuon, sobretudo as suas meditações sobre as virtudes.

domingo, 21 de outubro de 2007

Tradição como Função Espiritual

Neste texto é apresentado um resumo das principais ideias contidas num brilhante artigo de Reza Shah-Kazemi, intitulado “Tradition as Spiritual Function: A “Perennialist” Perspective”, o qual foi inicialmente publicado no Volume 7 da Sacred Web e que foi disponibilizado para a Religioperennis.org onde pode ser consultado, recomendando-se vivamente a sua leitura [ler artigo].

O tema abordado neste artigo é, segundo a própria opinião do autor, um dos aspectos fundamentais da tradição religiosa, a função espiritual da tradição, ou seja, os meios com os quais as diferentes tradições religiosas indicam o caminho para a realização espiritual, isto é, a realização interior das verdades espirituais contidas nos seus ensinamentos. Esta função espiritual pode ser referida de várias formas: o “método” que acompanha a “doutrina”, a “praxis” que complementa a teoria, a “actividade” que aprofunda o “pensamento”. É, em resumo, um esforço da vontade para assimilar o que foi conceptualmente apreendido na mente; é um caminho que nos leva da cabeça para o coração. Pode ainda ser referida como “oração”, entendida esta como incluindo todos os meios pelos quais a alma se dirige à “única coisa necessária”, ou seja, petição pessoal, oração canónica, meditação, contemplação, concentração e invocação.

Segundo os Perenialistas, a oração envolve todos os caminhos que tornam possível o contacto e o assimilar do Absoluto, bem como os meios para nos transcendermos, residindo aqui a importância da Tradição. A Tradição pode ser compreendida como o primeiro ponto de contacto entre a alma e as verdades reveladas por Deus e transmitidas através da tradição; verdades estas que são simultaneamente transcendentes e imanentes e, assim, infinitamente acima e misteriosamente no interior da alma, não estando, no entanto, acessíveis excepto por meio de graças transformativas provenientes das manifestações exteriores da transcendência divina, tendo sido veladas pelo esquecimento, tal como afirmado por todas as grandes tradições.

A “ciência” da Tradição está, assim, directamente relacionada com um recordar espiritual, uma necessidade que é simultaneamente cognitiva e existencial, implicando, não só o relembrar de uma verdade esquecida, mas também o “recordar”, no sentido de reunir as realidades imanentes escondidas no interior da alma com as realidades transcendentes acima dela.

O autor foca de seguida a sua atenção no carácter primordial que os Perenialistas atribuem à Tradição. O aspecto mais importante que é referido está relacionado com o facto daquele carácter primordial não poder ser entendido de uma forma exclusivamente temporal, mas também num sentido “espacial” ou “central”, pois é esta realidade primordial que se acredita ser a substância nuclear de todas as diferentes tradições reveladas. Uma das mais citadas passagens extraídas dos textos sagrados sobre esta realidade interior das religiões é também citada pelo autor, sendo retirada do Corão: “Para cada um de vós prescrevemos uma Lei e um Caminho. E se Deus tivesse desejado Ele teria vos feito apenas uma comunidade. Mas Ele deseja testar-vos com aquilo que Ele vos deu. Por isso, rivalizem entre vós em boas acções. Para Deus é o vosso retorno, e Ele vos informará sobre aquilo que vos distingue.” (V:51).

Esta e outras passagens, não só do Corão mas também de outros textos sagrados de tradições reveladas, providenciam uma base para o entendimento das religiões como sendo várias revelações de apenas uma Realidade última, suportando a ideia da “unidade transcendente das religiões”. No entanto, e ao contrário do entendimento que muitos poderão ter desta ideia, a perspectiva específica dos perenialistas está, não no facto de poderem existir vários caminhos para o cume, mas sim no facto de, para além de assumirem a existência desse cume, lançarem-se na subida que a ele os dirige, traduzindo-se na prática dos elementos mais essenciais da religião de cada um. “Este ênfase, longe de implicar a descoberta de qualquer nova “religião”, pelo contrário, procura aprofundar o compromisso com a actual religião de cada um, respeitando todas os seus requisitos exotéricos, enquanto penetrando nas suas profundezas esotéricas” [sublinhado nosso].

Nesta perspectiva, a especificidade de cada uma das tradições religiosas é garantida, sendo cada uma delas única e irredutível. No entanto, num nível principial, as distinções entre formas dão lugar a realidades universais, preocupando-se a perspectiva metafísica dos perenialistas com a relação entre qualidades particulares e princípios universais.

Voltando à palavra Tradição, o autor cita uma descrição de Marco Pallis em que este considera a Tradição como uma categoria genérica que compreende todas as várias tradições que constituem e transmitem a religio/sophia perennis:

"...onde quer que uma tradição completa exista, isso implicará a presença de quatro coisas, nomeadamente: uma fonte de (…) Revelação; uma corrente de influência ou Graça emitida a partir dessa fonte e transmitida ininterruptamente através de uma variedade de canais; um meio de “verificação”, o qual, quando rigorosamente seguido, conduzirá o sujeito humano para sucessivas posições em que poderá “actualizar” as verdades comunicadas pela Revelação; e finalmente, um corpo formal de tradição – as doutrinas, as artes, as ciências e outros elementos que em conjunto determinam o carácter de uma civilização normal”.

Continuando com as palavras de Marco Pallis e com uma sua expressão, “a voz da sabedoria tradicional”, a qual apela aos seres humanos para terem em consideração as suas imperfeições e as suas possibilidades, o autor diz-nos que a Tradição deve tornar-se viva nas nossas mãos, que devemos ser “metamorfoseados” por ela, e que o início desta metamorfose reside na nossa capacidade de reconhecer que necessitamos dela, que ansiamos urgentemente pelo Absoluto.

Este aspecto é precisamente um dos mais sensíveis para o homem moderno, a asserção de que estamos num estado sub-humano e que precisamos de sofrer as transformações estipuladas pela sabedoria tradicional, de acordo com um método espiritual. Outra dificuldade para a mente irrequieta do moderno traduz-se no sentimento geral de: se as verdades últimas estão no interior da nossa alma, porque é que temos de seguir uma revelação e os seus requisitos formais? A resposta dada pela perspectiva perenialista é a de que, se cada indivíduo fosse capaz de realizar essas verdades últimas apenas com os seus próprios recursos, então essas verdades que teriam sido oferecidas à humanidade por Deus seriam redundantes; e quem a este argumento responde que apenas alguns terão essa capacidade para dispensar os meios cedidos pelo Absoluto, considerando-os como possíveis e não exclusivos, a resposta perenialista é que esse indivíduo se estaria a auto-denominar um santo. O autor volta a analisar este aspecto mais à frente, pelo que vamos também continuar, levantando a pergunta “o que devo fazer” para responder à “voz da sabedoria tradicional”? As seguintes palavras de Marco Pallis voltam a servir de guia:

“O primeiro passo (…) será tipicamente um passo negativo; (…) uma renúncia á vida governada pelas preocupações profanas, de forma a procurar o conhecimento que resulta do ego parar de se considerar divino. Para nos prepararmos para a missão que temos pela frente, sentimo-nos obrigados a respeitar uma disciplina não criada por nós; e isto é precisamente o que as prescrições exteriores das religiões nos oferecem, sendo o seu propósito controlar o nosso ser ao longo da estadia terrena (…) tratada de forma inteligente, uma lei religiosa não precisa de ser perturbante; mas de qualquer forma a sua dureza e a sua suavidade deverão ser aceites como parte de um todo orgânico tradicional”.

Subjectivamente, esta importante submissão, derivada da humildade e que Pallis designa por “uma disciplina não criada por nós”, está longe de poder ser associada a um conformismo, devendo, pelo contrário, ser entendida como um meio de modéstia pessoal, um esforço profundamente enraizado para viver de acordo com os princípios e regras fielmente transmitidas pela tradição. Este caminho, esta obediência para com a autoridade religiosa, é visto pelas várias tradições como um pré-requisito necessário para qualquer início num percurso de transformação e auto transcendência, antecipando a extinção do egotismo que marca o verdadeiro nascimento da vida divina.

Objectivamente, os rituais – mesmo a um nível exotérico – quando praticados, põem em movimento um momento espiritual em direcção ao Absoluto. Relembra-nos o autor que Guénon insistiu repetidamente que o impacto dos rituais das religiões é rigorosamente objectivo e que esses rituais são canais de graças independentes do grau de receptividade ou conhecimento de quem os pratica:

“A repetição destas fórmulas [rituais] procuram produzir uma harmonização dos diferentes elementos do ser e causar vibrações que, pelas repercussões que atravessam a imensa hierarquia de estados, são capazes de abrir vias de comunicação com os estados mais elevados, o que é em geral o propósito essencial e primordial de todos os rituais”.

É óbvio que existem profundas diferenças entre os rituais exotéricos e esotéricos, no entanto, segundo a perspectiva perenialista, não existe qualquer possibilidade de separar os dois, alertando‑nos para quem oferece um Sufismo sem Islão, um Tantrismo Tibetano sem Budismo, uma Oração de Jesus sem Cristianismo, etc.. É, de facto, uma das grandes tentações do mundo moderno, a de dispensar os elementos formais das religiões, ignorando a “superstrutura” e desligando-a da “infraestrutura” mística, a qual pode ser perseguida segundo os desejos pessoais. O autor apresenta um exemplo característico desta tendência, o autor Fritz Staal, dedicando-se durante alguns parágrafos à demonstração do quanto as ideias deste são opostas à perspectiva perenialista.

Um outro papel absolutamente fundamental da tradição no caminho do conhecimento místico está relacionado com os grandes perigos que este acarreta para as nossas mentes presas no esquecimento, no orgulho e na pretensão. É precisamente neste caminho que a tradição espiritual e um aconselhamento preciso são imperativos, sendo indispensável um guia que já tenha atravessado o caminho, um guia que já tenha sido guiado por outros, numa corrente de autoridade espiritual transmitida e originária na revelação, a qual garante à tradição o seu poder e eficácia sagrada. Este caminho místico, garantido pelas elevadas “funções espirituais” da tradição, envolvem uma iniciação, um “segundo nascimento”, uma total entrega para com os meios sagrados que permitem a travessia das formas exotéricas para a essência esotérica de uma determinada tradição, travessia esta que deverá ser efectuada sobre a estrutura protectora da tradição revelada.

Em resumo, os perenialistas defendem que qualquer esforço individual para substituir a tradição religiosa na busca do Absoluto nunca será mais do que um acto de tolice individual ou, pior ainda, de auto engano. Os principais inimigos a ultrapassar na vida espiritual não são os “demónios” externos, mas sim os internos, os pecados congénitos do orgulho e do individualismo, sendo este último o mais difícil de superar. O indivíduo é tão incapaz de superar o individualismo como uma pessoa é incapaz de fugir da sua própria sombra.

É precisamente nesta batalha que uma inteligente e total submissão para com uma autêntica orientação e autoridade tradicional se tornam fundamentais, sem elas a tarefa de dissolver todas as coagulações da alma produzidas pelos venenos do egotismo e individualismo seria virtualmente impossível. Esta alteração alquímica a efectuar na alma, esta solve et coagula, passa assim pela “dissolução” dos nós subjectivos e individualistas, e a fixação dos elementos da verdade, obtidos por meios que são objectivos e supra-individuais.

O orgulho é um dos obstáculos principais da vida espiritual, o sentido ilusório de auto-suficiência que é a raiz de todo o fracasso de nos transcendermos. A negação da necessidade de recorrer e abraçar os meios oferecidos pelas tradições reveladas é uma expressão – explícita ou implícita – do individualismo.

Estas ideias devem ser assimiladas em profundidade, tornando-se parte do nosso ser, para que as suas verdades supra-formais se possam tornar “realidade”. O total e activo compromisso com uma disciplina contemplativa no seio de uma tradição revelada é inequivocamente o suporte mais efectivo para esta assimilação.

Finalmente, é essencialmente a oração que nos torna receptivos para a pureza da vida divina; para a presença sagrada à luz da qual todas as imperfeições da alma se tornam aparentes e pelas graças da qual elas são ultrapassadas.

A seguinte passagem de Schuon com que o autor termina o seu artigo, expressa a intenção fundamental que orienta o discurso dos perenialistas e que tão brilhantemente Reza Shah-Kazemi descreveu neste seu trabalho:

“Todas as grandes experiências espirituais concordam neste ponto: não existe medida comum entre os meios postos em operação e o resultado. “Com o homem isto é impossível, mas com Deus todas as coisas são possíveis”, diz o Evangelho. De facto, o que separa o homem da Realidade divina é a mais ténue das barreiras: Deus está infinitamente perto do homem mas o homem está infinitamente longe de Deus. Esta barreira é uma montanha para o homem; o homem está perante uma montanha que terá de ser removida com as suas próprias mãos. Ele escava a terra em vão, a montanha mantém-se; no entanto, se o homem avança sem escavar, em nome de Deus, a montanha desaparece. Ela nunca existiu.”

Espírito Índio

"Não pertubes nenhum homem sobre a sua religião - respeita-o na sua visão do Grande Espírito, e exige dele o mesmo respeito com a nossa. Trata com respeito as coisas que ele considera sagradas. Não forces a tua religião a ninguém".

Wabasha e Red Jacket,
Seneca

Retirado e traduzido de “Indian Spirit”, editado por Michael Oren Fitzgerald & Judith Fitzgerald. Publicado por World Wisdom, Inc., 2006.


Black Bird - Oglala Lakota

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Esoterismo [2]

Continuamos com as palavras de Frithjof Schuon sobre significado da palavra esoterismo.

***

O esoterismo é aquilo que desvenda a relatividade de algo aparentemente absoluto ou o absoluto de algo aparentemente relativo. Visto do alto, o carácter de absoluto de uma dada forma revela os seus limites, enquanto que a contingência existencial de um determinado fenómeno revela, pelo contrário, o carácter de absoluto da sua essência, de uma forma tal em que um único elemento sagrado, depois de perder o carácter formal de absoluto que lhe é atribuído pela perspectiva exotérica, assume um novo carácter de absoluto, ou mais correctamente, revela-o, nomeadamente o do arquétipo que manifesta. O Evangelho aparenta ser absoluto enquanto se impõe aos Cristãos como a única palavra de Deus; mas a visão esotérica das coisas permite-nos, por um lado, descobrir os limites deste totalitarismo e, por outro lado, discernir neste mesmo Evangelho o carácter absoluto da Palavra Divina como tal, a palavra a partir da qual todas as Revelações derivam. [Frithjof Schuon - Logic and Transcendence, The Problem of Qualifications]


O esoterismo pode ser entendido como a “religião da inteligência”: isto significa que este opera com o intelecto – e não apenas com o sentimento e a vontade – e que, consequentemente, o seu conteúdo é tudo o que a inteligência pode alcançar, e que apenas ela pode alcançar.* O “sujeito” do esoterismo é o Intelecto e o seu “objecto” é, ipso facto, a Verdade total, nomeadamente – expressa em termos Vedânticos – a doutrina de Atma e Maya; e aquele que diz Atma e Maya, diz Jnana, conhecimento directo, intuição intelectual.
(* Está longe da verdade que todo o esoterismo histórico é esoterismo puro; uma exegese colorida por um sistema confessional ou totalmente envolvido num misticismo subjectivo está longe de uma verdadeira gnose. Por outro lado, está longe de ser o caso de que tudo o que é colocado na categoria de esoterismo o seja na realidade; acontece demasiadas vezes que diversos autores, ao abordar este conceito, não façam a devida distinção entre o que é genuíno e o que é falso, entre a verdade e o erro, em consonância com os dois pecados do nosso tempo, os quais são a substituição da inteligência pela psicologia e a confusão entre o psíquico e o espiritual.) [Frithjof Schuon - To Have a Center, Intelligence and Character]

Reza Shah-Kazemi

Reza Shah-Kazemi (Ph.D. em Religião Comparada na Universidade de Kent) é investigador auxiliar no Instituto de Estudos Islâmicos em Londres.

É o autor do livro “Paths to Transcendence: According to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart”. Shah-Kazemi contribuiu ainda para as seguintes obras: “Paths to the Heart”, “Islam, Fundamentalism, and the Betrayal of Tradition: Essays by Western Muslim Scholars”, sendo ainda o autor do ensaio: A Sacred Conception of Justice: Imam ‘Ali’s Letter to Malik al-Ashtar, incluído na obra "The Sacred Foundations of Justice in Islam".


Mais informação:

The Institute of Ismaili Studies


Publicações no “Sabedoria Perene”:

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Knowledge and the Sacred

Este livro é sem dúvida uma das obras fundamentais dedicadas à exposição e análise das tradições sagradas e da própria Tradição. A magistralidade desta obra levou Huston Smith, um dos mais prestigiados autores ligados ao estudo das religiões do mundo, a escrever as seguintes palavras: “Em relação ao livro em análise, se o seu autor é um fenómeno, este seu livro é um evento. (…) Historiadores intelectuais irão no futuro considerar esta obra comparável com a tradução para Latim de Aristóteles por William of Moerbeke no século XIII, a de Platão do séc. XV por Marsiglio Ficino ou os Ensaios sobre Budismo Zen de D.T. Suzuki em 1927, sendo um marco de uma nova fase de compreensão multi-cultural”.

Esta obra de Seyyed Hossein Nasr resulta das lições dadas na Universidade de Edimburgo, tendo sido o primeiro não Ocidental a ser convidado para leccionar as prestigiadas Gifford Lectures naquela Universidade desde que as mesmas foram instituídas em 1889.

Neste trabalho, Nasr procura ressuscitar a qualidade sagrada do conhecimento e reavivar a verdadeira tradição intelectual do Ocidente com o auxílio das tradições do Oriente ainda vivas. O livro está dividido em dez capítulos, cada um deles verdadeiras obras-primas:

1. Conhecimento e a sua Dessacralização
2. O que é a Tradição
3. A redescoberta do Sagrado: O reavivar da Tradição
4. Scientia Sacra
5. Homem, Pontífice e Prometeico
6. O Cosmos como Teofania
7. Eternidade e a Ordem Temporal
8. Arte Tradicional como Fonte de Conhecimento e Graça
9. Conhecimento Principial e a Multiplicidade de Formas Sagradas
10. Conhecimento do Sagrado como Entrega

Algumas das publicações no “Sabedoria Perene” foram extraídas deste magnífico livro, sendo certo que muitas mais surgirão, sendo as palavras de Nasr uma verdadeira fonte de conhecimento e inspiração.

Tradição e Religião

A presente publicação é uma tradução de um trecho da absolutamente fundamental obra de Seyyeid Hossein Nasr, “Knowledge and the Sacred”, o qual revela um pouco a forma como a perspectiva tradicional aborda a religião e em particular a sua multiplicidade de formas, multiplicidade esta que constitui um grande desafio ao homem moderno.

***

[…] Esta rápida análise do estado actual dos estudos religiosos, na medida em que dizem respeito à variedade e diversidade dos universos religiosos, revela a imperfeição de todos os métodos mais frequentes quando analisados na perspectiva da tradição e da visão sapiencial que reside no coração da mesma, apesar de cada um dos métodos poder conter algum aspecto ou particularidade positiva.

Hoje em dia é nos dado a escolher entre um exclusivismo que destruiria o verdadeiro significado de Justiça Divina e Misericordiosa e um designado universalismo que destruiria elementos preciosos de uma religião, em relação à qual os seus fiéis acreditam ser originária do céu e os quais são de origem celeste. Existe uma escolha entre um absolutismo que negligencia todas as manifestações do Absoluto para além das nossas e um relativismo que destruiria o próprio significado de absoluto. É nos dada a possibilidade de reduzir todas as realidades religiosas a influências históricas ou de as considerarmos como realidades a serem estudadas independentemente e sem qualquer referência para o contexto histórico da revelação de uma manifestação particular do Logos. Somos levados ou a aceitar uma outra educadamente e por conveniência, na melhor das hipóteses por caridade, ou a disputar ou combater a mesma como um oponente a ser refutado ou mesmo destruído, uma vez que a sua visão é baseada no erro e não na verdade. Somos confrontados com a alternativa de não estudar as outras religiões e manter a devoção religiosa no seio da própria tradição (embora esta não seja uma alternativa viável para quem tenha sido tocado pela verdade, graça e beleza de outras religiões) ou de estudar outras religiões com a consequência de perder a própria fé ou, na melhor das hipóteses, ter essa fé diluída e abalada.

O homem moderno enfrenta estas alternativas numa altura em que a presença de outras religiões lhe introduz um problema existencial, o qual é significativamente diferente do confrontado pelos seus ancestrais. De facto, se existe uma realmente nova e significativa dimensão para a vida religiosa e espiritual do homem de hoje, essa será a presença de outros mundos de forma e significado sagrado, não como factos e fenómenos arqueológicos ou históricos, mas como uma realidade religiosa. É esta necessidade de viver no seio de um sistema solar e de acordo com as suas leis, sabendo, no entanto, que existem outros sistemas solares e, inclusivamente, por participação, vir a conhecer algo dos seus ritmos e harmonias, adquirindo, desta forma, uma visão da beleza assombrosa de cada um como um sistema planetário, o qual é o sistema planetário dos que nele vivem. É o ser iluminado pelo Sol do nosso sistema planetário e, ainda assim, através de um notável poder de inteligência, conhecer por antecipação e à distância, que cada sistema solar tem o seu próprio sol, o qual é simultaneamente um sol e o Sol, pois como poderá o sol que nasce todas as manhãs e ilumina o nosso mundo ser outro do que o próprio Sol?

É em relação a este significado crucial do estudo das religiões no seio de múltiplos universos de forma sagrada que a pertinência da perspectiva tradicional e do conhecimento “principial” que reside no seu coração se torna clara para o homem contemporâneo, confrontado com este problema “existencial”. A chave fornecida pela tradição para a compreensão da presença das diferentes religiões sem relativizar a religião, é o resultado de uma das mais eternas aplicações da sabedoria ou conhecimento “principial”, o qual é, ele mesmo, eterno. Apenas este tipo de conhecimento pode realizar uma tal tarefa, sendo simultaneamente um conhecimento com carácter sagrado e conhecimento sagrado em si mesmo.

A tradição estuda as religiões do ponto de vista da scientia sacra, a qual distingue o Princípio da manifestação, a Essência da forma, a Substância do acidente, o interior do exterior. Ela coloca o carácter de absoluto ao nível do Absoluto, afirmando categoricamente que o Absoluto é absoluto. Ela recusa-se a cometer o erro cardinal de atribuir o carácter de absoluto ao relativo, erro que o Hinduísmo e o Budismo consideram ser a origem e a raiz de toda a ignorância. Assim, toda a determinação do Absoluto está imediatamente no reino da relatividade. A unicidade das religiões é encontrada, em primeiro lugar e acima de tudo, neste Absoluto, o qual é simultaneamente Verdade e Realidade e a origem de todas as revelações e de toda a verdade. Quando os Sufis exclamam que a doutrina da Unidade é única (al-tawdīd wāhid), eles estão a afirmar este princípio fundamental mas muitas vezes esquecido. Apenas ao nível do Absoluto os ensinamentos das religiões são semelhantes. Abaixo desse nível, apesar de existirem algumas correspondências de uma ordem mais profunda, estas nunca são idênticas. As diferentes religiões são como que diferentes linguagens a falar de uma única Verdade, na medida em que esta se manifesta em diferentes mundos e de acordo com as suas possibilidades arquétipas, não sendo a sintaxe dessas linguagens a mesma. No entanto, e porque todas as religiões são originárias da Verdade, tudo numa determinada religião revelada pelo Logos é sagrado e deverá ser respeitado e apreciado enquanto meio de elucidação, ao invés de serem desprezados e reduzidos ao insignificante, em nome de uma qualquer universalidade abstracta.

O método tradicionalista de estudo das religiões, enquanto que afirmando categoricamente a “unidade transcendente das religiões” e o facto de que “todos os caminhos levam ao mesmo cume”, é profundamente respeitosa de todos os passos de cada caminho, de todos os sinais que tornam a jornada possível e sem os quais o cume nunca poderia ser alcançado. Este procura penetrar no significado dos rituais, dos símbolos, das imagens e das doutrinas que constituem um universo religioso particular, não procurando ignorar estes elementos ou reduzi-los a algo diferente do que na realidade são no seio desse distinto universo de significado criado por Deus através de uma determinada revelação do Logos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sobre a crítica

Ouvimos muitas vezes dizer que toda a crítica é “estéril” porque não envolve qualquer proposta “construtiva”; isto é o mesmo que dizer que, por não sabermos indicar a alguém o caminho correcto, não temos o direito de lhe dizer que está a caminhar em direcção a um precipício, ou como ser proibido de reparar na existência de manchas no sol sob o pretexto de não termos capacidade de criar um sol sem manchas.
Na realidade, toda a verdade é por definição construtiva; apenas o erro é destrutivo. Destruir uma destruição é já algo construtivo
. [Frithjof Schuon – Spiritual Perspectives and Human Facts]

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Esoterismo [1]

Desde o início da actividade do Sabedoria Perene que nos temos vindo a dedicar sobretudo à exposição do verdadeiro significado das palavras Tradição e Sophia Perennis, as quais se pretende continuar a aprofundar, sendo fundamental clarificar o seu significado da forma mais completa possível.

No entanto, iremos em algumas das nossas futuras publicações procurar aprofundar igualmente um outro termo de grande importância e que é muitas vezes mal compreendido, o esoterismo. Para tal, recorreremos a alguns perenialistas, procurando extrair das suas obras alguns textos a ele dedicados.

Consideramos o trabalho de estudo e análise do correcto significado da terminologia utilizada em toda a linguagem espiritual de enorme importância, pelo que esta será sempre um dos principais temas deste espaço. Usando as palavras de Frithjof Schuon: “Toda a expressão é necessariamente relativa, no entanto, a linguagem tem a capacidade de transmitir a qualidade de absoluto necessária; a expressão contém tudo, como uma semente: abre tudo, como uma chave mestra; o que resta para ser visto depende da capacidade de entendimento para a qual se dirige”. São precisamente deste autor as palavras apresentadas de seguida, dedicadas ao significado da palavra esoterismo.

***

A palavra “esoterismo” sugere, em primeiro lugar, uma ideia de complementaridade, de uma “metade”. O esoterismo é o complemento do exoterismo, é o “espírito” que completa a “letra”. Onde quer que exista uma verdade da Revelação e, assim, uma verdade formal e teológica, deverá igualmente existir uma verdade de intelecção, ou seja, uma verdade não-formal e metafísica; uma verdade não legalista ou obrigatória, mas sim uma que brote a partir da natureza das coisas, e uma verdade que seja também vocacional, uma vez que nem todos os homens apreendem esta natureza.

Mas, de facto, esta segunda verdade existe independentemente da primeira; não sendo, assim, na sua realidade intrínseca, uma metade complementar; só o é extrinsecamente e como que “acidentalmente”. Isto significa que a palavra “esoterismo” designa, não só a verdade total na medida em que é “colorida” pela entrada num sistema de verdade parcial, mas também a verdade total como tal, a qual é incolor. Esta distinção não é uma mera extravagância teórica; pelo contrário, ela implica consequências extremamente importantes.

Assim, o esoterismo como tal é metafísica, a qual está necessariamente ligada a um método apropriado de realização. Mas o esoterismo de uma religião particular – precisamente de um exoterismo particular – tende a adaptar-se a esta religião e, desta forma, entrar nos meandros da teologia, psicologia e legalidade (os quais são estranhos à sua natureza, preservando, ao mesmo tempo, no seu centro secreto, a sua autêntica e plenária natureza), mas para a qual não será o que é.

[Frithjof Schuon - Survey of Metaphysics and Esoterism, Two Esoterisms]

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Nova publicação periódica - Eye of the heart

Regressamos de férias com uma agradável notícia, o aparecimento de uma nova publicação periódica dedicada ao estudo da Sabedoria Tradicional.

Este novo projecto, liderado pelo Dr. Timothy Scott, surge no âmbito do programa de Filosofia e Estudos Religiosos da Universidade La Trobe em Bendigo, na Austrália. Esta publicação, "Eye of the Heart - A Journal of Tradicional Wisdom", será dedicada ao estudo do significado interior de filosofia e religião à luz de príncipios metafísicos, cosmológicos e soteriológicos, penetrando nas formas preservadas nas várias religiões.

Para já trata-se apenas do anúncio desta nova publicação e do convite ao envio de artigos. Para mais informações pode-se consultar a seguinte página: http://www.latrobe.edu.au/prs/newsandevents/callforarticles

Infelizmente esta notícia coincide com o anúncio do fim da publicação on-line e gratuita do "journal" da religioperennis.org, Vincit Omnia Veritas, tendo o número publicado no passado mês de Julho sido o seu último. Os artigos publicados encontram-se, no entanto, disponíveis na página Religio Perennis - artigos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Religio Perennis

PARTE II / >> PARTE I

Regressemos às nossas considerações sobre a religio perennis considerada, quer como discernimento metafísico e concentração unificadora, quer como descida do Princípio divino, o qual se torna manifestação por forma a que a manifestação possa regressar ao Principio.

No Cristianismo – segundo Santo Ireneu e outros – Deus “tornou-se homem” por forma a que o homem possa “tornar-se Deus”; na terminologia Hindu poderíamos dizer: Âtmâ tornou-se Mâyâ por forma a que Mâyâ possa tornar-se Âtmâ. No Cristianismo, a contemplação e concentração unificadora consiste em residir no Real manifestado – a “Palavra feita carne” – por forma a que esse Real resida em nós, que somos ilusórios, de acordo com o que Cristo disse na visão concebida a Santa Catarina de Siena: “Eu sou Aquele que é; vós sois aquela que não é.” A alma reside no Real – no reino de Deus que está “dentro de nós” – através de uma permanente oração do coração, tal como é ensinada pela parábola do juiz injusto e a injunção de São Paulo.

No Islão, o mesmo tema fundamental – fundamental devido à sua universalidade – é cristalizado de acordo com uma perspectiva bastante diferente. O discernimento entre o Real e o não-real é afirmado pelo Testemunho da Unidade (a Shahâdah): a concentração correlativa no Símbolo ou a consciência permanente no Real é realizada por este mesmo Testemunho ou pelo Nome divino que o sintetiza e que é, assim, a cristalização quintessêncial da Revelação do Alcorão; este Testemunho ou este Nome é também a quintessência da revelação Abrâmica – através da linhagem de Ismael – e recua até à Revelação primordial do ramo Semita. A “descida” do Real (nazzala, unzila); ele entrou no não‑real ou ilusório, o “perecível” (fânin) [5], ao tornar-se o Alcorão – ou a Shahâdah que o sintetiza, ou o Ism (o “Nome”) que é a sua essência sonora ou gráfica, ou a Dhikr (a “Menção”) que é a sua síntese operativa – por forma a que com esta dádiva divina o ilusório possa regressar ao Real, à “Face (Wajh) do Senhor que só ele aceita” (wa yabqâ Wajhu Rabbika) [6], qualquer que seja a importância metafísica atribuída às ideias de “ilusão” e de “Realidade”. Nesta reciprocidade residem todos os mistérios da “Noite do Destino” (Laylat al-Qadr), a qual é uma “descida”, e a “Noite da Ascensão” (Laylat al-Mi‘râj), que é a sua fase complementar; realização contemplativa – ou “unificação” (tawhîd) – participa nesta ascensão do Profeta através dos degraus do Paraíso. “Em verdade” – diz o Alcorão – “a oração protege contra o pecado maior (fahshâ) e o menor (munkar), mas a menção (dhikr) de Allah é maior” [7].

Mais próximo, de certa forma, da perspectiva Cristã mas, simultâneamente, mais afastada, é a perspectiva Budista, a qual, por um lado, baseia-se na “Palavra feita carne”, mas por outro, não contempla qualquer noção antropomórfica de um Deus criador. No Budismo, os dois termos da alternativa ou do discernimento são o Nirvâna, o Real, e o Samsâra, o ilusório; em última análise, o caminho é a consciência permanente do Nirvâna como Shûnya, o “Vazio”, ou a concentração na manifestação salvífica do Nirvâna, o Buddha, o qual é Shûnyamûrti, “Manifestação do Vazio”.

Em Buddha – especialmente na sua forma de AmitabhaNirvâna torna-se Samsâra para que Samsâra se torne Nirvâna; e se o Nirvâna é o Real e o Samsâra a ilusão, o Buddha é o Real no ilusório, e o Bodhisattva é o ilusório no Real [8], o que sugere o simbolismo do Yin‑Yang. A passagem do ilusório para o Real é descrita no Prajnâpâramitâ-hridaya-sûtra nestes termos: “Foi, foi – foi para a outra margem, atingiu a outra margem, ó Iluminado, que sejas abençoado!”.

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É da natureza das coisas que todas as perspectivas espirituais tenham que colocar a concepção do homem em contraste com a correspondente concepção de Deus; surgem assim três ideias ou definições: em primeiro lugar a do homem; em segundo, a de Deus tal como Ele se revela a um homem que é definido desta forma e, em terceiro, do homem como determinado e transformado por Deus em resultado da perspectiva em questão.

Do ponto de vista da subjectividade humana, o homem é quem contém e Deus é o contido; do ponto de vista divino – se nos permitimos expressar desta forma – a relação é inversa, estando todas as coisas contidas em Deus e não existindo nada que O possa conter. Dizer que o homem é feito à imagem de Deus significa que, ao mesmo tempo, Deus assume algo dessa imagem a posteriori e em ligação com o homem; Deus é Espírito puro, e o homem é, consequentemente, inteligência ou consciência; por outro lado, se o homem é definido como inteligência, Deus aparece como “Verdade”. Por outras palavras, Deus, ao desejar Se atestar sob o aspecto de “Verdade”, dirige-Se ao homem enquanto capacitado com inteligência, tal como Se dirige ao homem em angústia para atestar a Sua Misericórdia ou para o homem capacitado com livre arbítrio O atestar como Lei salvadora.

As “provas” de Deus e da religião estão no próprio homem: “Conhecendo a sua própria natureza, ele conhece também o Céu”, diz Mencius, de acordo com outras máximas semelhantes. Devemos extrair da nossa própria natureza as chaves que abrem o caminho de subida em direcção à certeza do Divino e da Revelação; falar do “homem” é implicitamente falar de “Deus”; falar do “relativo” é falar do “Absoluto”. A natureza humana em geral e a inteligência humana em particular, não podem ser compreendidas separadas do fenómeno religioso, o qual os caracteriza na forma mais directa e completa possível: capturando a transcendente – não a “psicológica” – natureza do seu humano, capturamos a natureza da revelação, religião, tradição; compreendemos as suas possibilidades, as suas necessidades, a sua verdade. E, ao compreender a religião, não só numa forma particular ou literal, mas na sua essência sem forma, compreendemos também as religiões, ou seja, o significado da sua pluralidade e diversidade; este é o lugar da gnose, ou da religio perennis, onde as antinomias extrínsecas dos dogmas são explicadas e resolvidas.

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No seu plano exterior e, desta forma, contingente – o qual tem, no entanto, a sua importância na ordem humana – existe concordância entre a religio perennis e a natureza virgem e, pela mesma razão, entre esta e a nudez primordial, a da criação, nascimento, ressurreição, ou o mais alto padre no Sagrado dos Sagrados, um eremita no deserto [9], um sâdhu ou sannyâsin Hindu, um Indío Vermelho numa oração silenciosa numa montanha [10]. A natureza inviolada é, simultaneamente, um vestígio do Paraíso terreno e a prefiguração do Paraíso celeste; os santuários e trajes diferem, mas a natureza virgem e o corpo humano permanecem fiéis à sua unidade inicial. A arte Sagrada, a qual aparenta afastar-se dessa unidade, na realidade, serve simplesmente para restaurar aos fenómenos naturais as suas mensagens divinas, para as quais o homem se tornou insensível; na arte, a perspectiva do amor tende para inundar e exceder, enquanto que a perspectiva da gnose tende para a natureza, a simplicidade e o silêncio; este é o contraste entre a riqueza Gótica e a sobriedade Zen [11]. Mas não devemos perder de vista o facto de que os modelos ou modos exteriores são sempre contingentes e que todas as combinações e todas as compensações são possíveis, especialmente porque, na espiritualidade, todas as possibilidades podem se reflectir nas restantes de acordo com as adequadas modalidades. Uma civilização é integral e saudável na medida em que estiver fundada no “invisível” ou na religião “basilar”, a religio perennis, isto é, na medida em que as suas formas e expressões sejam transparentes para o Não-Formal, mas também – e ainda com mais razão – o pressentimento de uma Beatitude intemporal. Pois a Origem está, simultaneamente, dentro de nós e à nossa frente; o tempo não é mais do que um movimento espiral em torno de um Centro imóvel.
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[5] A palavra fanâ’, por vezes traduzida como “extincão” por analogia com o Sanskrit nirvâna, tem a mesma raiz e significa literalmente “natureza perecível”.

[6] Sûrah “O Misericordioso” [55]:27.

[7] Sûrah “A Aranha” [29]:45.

[8] Ver “Le mystère du Bodhisattva” (Études Traditionnelles, Maio-Junho, Jullho-Augosto, Setembro-Outubro, 1962).

[9] Tal como Maria do Egipto, na qual o não-formal e carácter totalmente interior de um amor por Deus, partilha as qualidades da gnose, de tal forma que se lhe pode chamar “gnose do amor” no sentido de parabhakti.

[10] Simplicidade na roupa e na sua cor, em particular branca, substitui muitas vezes o simbolismo de nudez na arte do traje; em todos os planos, o estado de nudez inspirado pela Verdade nua contrabalança um “culturismo” terreno. Por outro lado, um robe sagrado simboliza a vitória do Espírito sobre a carne, e a sua riqueza hierática – a qual estamos longe de criticar – expressa a profusão inextinguível do Mistério e Glória.

[11] Mas é muito claro que a mais sumptuosa arte sagrada é infinitamente mais próxima da gnose do que a ignorante e simplista dos nossos contemporâneos que professam estar a fazer “uma limpeza”. Só uma simplicidade que seja qualitativa, nobre e conforme com a essência das coisas, pode reflectir e transmitir o perfume da sabedoria não-formal.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Compreender a palavra “Tradição”

Este curto texto de Ali Lakhani dedicado ao significado da palavra “Tradição”, tal como entendida pelos perenialistas ou tradicionalistas, foi publicado como editorial do nono número da publicação periódica Sacred Web. A tradução deste texto constitui, assim, mais uma contribuição para o objectivo de dar a conhecer o pensamento destes autores, dedicados ao estudo das doutrinas Tradicionais e da Sophia Perennis.

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A Tradição nada tem a haver com quaisquer “idades”, sejam “negras”,
“primitivas”, ou quaisquer outras. A Tradição representa a doutrina
dos princípios primeiros, os quais são inalteráveis.
Ananda K. Coomaraswamy, Correspondência, 1946


…não existe nem pode existir nada verdadeiramente tradicional que não
contenha em si algum elemento de ordem sobre-humana. Este é, de facto, o ponto essencial, contendo em si a própria definição de tradição
e de tudo o que lhe está relacionado.
René Guénon, O reino da quantidade e os sinais dos tempos


Os termos “tradicional” e “moderno” sugerem uma distinção entre o antigo e o novo, o fixo e o em alteração, o venerado caminho do passado e o progressivo caminho do futuro. A polaridade subjacente que reflecte está fundada na estrutura metafísica da realidade, na arquitectura da Absoluta inviolabilidade da Substância e da Infinita possibilidade da Forma. Esta polaridade subjacente é expressa na dialéctica da Necessidade e Liberdade. A Necessidade é o principio organizador da disposição, da projecção e reintegração: tudo o que existe reside e emerge a partir de uma mesma realidade, cuja Substância transcendental é simultaneamente a sua Origem e o seu Fim, o critério de toda a objectividade. A Liberdade é o princípio criativo desta disposição, expressando-se numa infinita variedade de modos e modalidades da Forma e no imanente potencial da nossa própria subjectividade pessoal.

Os termos “Tradição” e “Modernidade”, tal como usados por tradicionalistas como Seyyed Hossein Nasr, não são derivativos da diferenciação convencional entre os termos “tradicional” e “moderno”, apesar do uso particular que eles dão a estes termos tenha como premissa a estrutura metafísica descrita atrás. Isto pode ser confuso. Para Nasr, “Modernidade” é “aquilo que está separado do Transcendente, dos princípios imutáveis que, na realidade, governam todas as coisas e que são dadas a conhecer ao homem através da revelação no seu sentido mais universal”, enquanto que “Tradição”, por contraste, designa esses mesmos princípios imutáveis, a sophia perennis ou sabedoria primordial, as quais estão fundadas no Transcendente. De acordo com esta definição, Modernidade não é necessariamente um sinónimo de contemporâneo (ou focado no futuro), nem Tradição é sinónimo de continuidade história (ou focado no passado). Tradição é, neste sentido, metahistórica: a sua única relação com o passado reside na ligação de uma particular tradição religiosa à sua fonte original, ou seja, à revelação que a autentica, a escritura que a fundou e as suas formas de adoração, transmitidas através do ambiente protector de uma tradição particular. Mas esta relação entre uma tradição particular e as suas origens históricas é, de certa forma, acidental. A relação entre Tradição e Revelação transcende a história. A Revelação, “no seu sentido mais universal”, não é um acontecimento histórico: está baseada no eterno presente e é contínua. A sua autenticação não pode ser reduzida à nossa capacidade para a colocar em qualquer momento da história, mas sim, garantida pela sua capacidade de ressoar como verdade no interior do santuário do Coração, cuja faculdade de discernimento é o supra-racional Intelecto.

O Conhecimento é, assim, uma ressonância da Substância espiritual que pertence ao todo da criação, e cuja presença ressoa no interior do Coração puro. O Conhecimento não é uma mera forma de taxidermia intelectual, mas sim um caminho para habitar a própria criatura. É ser humano na sua totalidade.

Em linguagem corrente, os termos “tradicional” e “moderno” sugerem duas atitude distintas para com a mudança, o primeiro resistindo-lhe, e o último aceitando-a. Mas a “Tradição”, no sentido de sabedoria primordial, não é necessariamente resistente à mudança. A imagem de Shiva Nataraja personifica, quer a ideia de quietude (o fixo, ou o ser), quer a de movimento (em mudança, ou vir a ser). A “Tradição” é uma combinação de ambos estes elementos. É ao mesmo tempo um Equilíbrio estático e uma Atracção dinâmica, o realismo clássico da transcendência e o idealismo romântico da imanência. O homem é simultaneamente um escravo da mudança (estando sujeito aos processos do tempo) e o seu mestre (estando equipado para a transcender espiritualmente). A busca da salvação é, num determinado nível, uma busca pela paz, enquanto que noutro, uma busca da criatividade e frescura, a libertação da petrificação. O termo “tradicional” pode ter uma implicação pejorativa de excessiva rigidez e formalismo, enquanto que o termo “moderno”, pode querer significar aquilo que é excessivamente individualista ou sem princípios. Nestes sentidos, quer o tradicional quer o moderno são opostos à “Tradição”, a qual reconhece a mútua interdependência dos princípios organizadores e criativos da realidade. Quando a criatividade deixa de se conformar às hierarquias inerentes a um universo ordenado espiritualmente, a volição torna-se satânica e profana a Liberdade. E quando as exigências de conformidade reprimem a expressão genuinamente espiritual, o intelecto torna-se tirânico e profana a Necessidade. A “Tradição” reconhece que a Necessidade (o discernimento intelectual que a expressão criativa tem necessariamente um princípio organizador) e a Liberdade (a transcendência da expressão criativa em conformidade com esse princípio organizador) estão interligados, e que o discernimento intelectual tem implicações morais. O “ethos” humano é assim uma dimensão da estrutura sagrada da realidade.

A “Modernidade”, no sentido considerado pelos tradicionalistas, indica uma tendência para uma “rigidez” moral e intelectualidade “opaca”. Quando a realidade deixa de ser apreendida como metafisicamente “transparente para a transcendência”, não existe nenhuma realidade espiritual apreendida que possa ressoar na alma humana, nada que “derreta” o coração em submissão por compaixão, a verdadeira e serena Liberdade, cuja vil falsificação é uma alma aprisionada pelas paixões, cedendo às gratificações momentâneas de auto-indulgência, antes que os seus insaciáveis apetites sejam desviados para uma nova sedução.

É neste sentido que “Tradição” e “Modernidade” são colocados em oposição. O tradicionalista não é necessariamente oposto ao “moderno” como convencionalmente entendido, apenas à “Modernidade”, entendida como o inverso de “Tradição”, no sentido particular definido anteriormente. Um tradicionalista pode ser “moderno” no modo de vestir, na linguagem, nos confortos modernos ou tecnologias e, ainda assim, necessariamente oposto à “Modernidade”, no sentido da sua negação do transcendente ou do sentido do sagrado. Da mesma forma, nem tudo o que parece “tradicional” está de acordo com a “Tradição”. Por exemplo, o fundamentalismo, apesar de poder surgir revestido de uma roupagem tradicional e usar uma linguagem tradicional, é a própria antítese da “Tradição”, a qual recusa a redução fundamentalista do espírito à palavra, bem como o seu excessivo formalismo e exclusivismo. “Pelos seus frutos conhecê-los-emos”, não pela sua aparência.

As palavras e os rótulos, em ultima análise, tendem a ocultar a realidade, abstraindo-a. Na melhor das hipóteses agem como símbolos, inspirando o significado que reside adormecido no nosso interior. “Tradição” e “Modernidade” são, finalmente, aspectos de nós próprios: “Duo sunt in homine”, ensinado por S. Aquino, um ensinamento que ressoa através do discurso tradicionalista e no interior de cada alma humana. Existe, no fim, um elemento em cada alma que terá de ser conquistado para um bem maior. A “Tradição” convida cada um de nós a cumprir o nosso total potencial humano, a compreender o mundo exterior com o olho interior, com compaixão, e a nos conformarmos com a vontade do intelecto e, dessa forma, ultrapassar as tendências do nosso ser Prometeico, integrando a Verdade, a Bondade e a Beleza nas nossas vidas, por forma a alcançar a Vida Eterna.