sábado, 10 de novembro de 2007
Virtude
Marco Pallis
Marco Pallis nasceu em 1895, filho de pais Gregos residentes em Liverpool, tendo recebido a sua educação em Harrow e na Universidade de Liverpool. Serviu durante a Primeira Grande Guerra o exército Britânico, tendo-se posteriormente dedicado ao estudo de música sobre a alçada de Arnold Dolmetsch. O seu crescimento intelectual foi muito influenciado pelas obras de dois grandes perenealistas, Ananda Coomaraswamy e René Guénon, tendo visitado o último duas vezes no Cairo e traduzido dois dos seus livros com o seu amigo Richard Nicholson.Em 1923 Pallis visitou pela primeira vez o sul do Tibete numa expedição de montanha, tendo aí regressado nos anos de 1933 e 1936, fruto de um profundo interesse pela sua cultura tradicional, visitando os mosteiros em Sikkin e Ladakh. Depois da Segunda Grande Guerra regressou para uma visita mais prolongada, altura em que, após visitar o Ceilão e o Sul da Índia, tendo recebido o darshan de Ramana Maharshi em Tiravunnamalai, se fixou perto de Shigatse onde estudou com lamas Tibetanos e foi iniciado numa das linhagens com o nome Tibetano de Thubden Tendzin.
Pallis regressou a Inglaterra em 1950 quando, em conjunto com Richard Nicholson e outros músicos, formou o “English Consort of Viols”, um grupo dedicado à preservação de música Inglesa antiga.
Escreveu dois livros resultantes das suas experiências durante a estadia no Tibete: Peaks and Lamas (1939), o qual se veio a tornar um bestseller, e The Way and the Mountain (1960). Constituem um conjunto único de ensaios sobre a cultura Tibetana e o Budismo Tibetano.
A obra de Pallis é totalmente livre das comuns assumpções de superioridade do Ocidente, derivando grande parte dos seus livros de uma receptividade para com as lições da Tradição que ainda sobrevivia na altura no Tibete. Pallis atingiu algum conhecimento público quando participou na exposição da farsa de Lobsang Rampa.
Pallis escreveu inúmeros artigos para a publicação “Studies in Comparative Religion”, alguns dos quais foram incluídos na sua última publicação, A Buddhist Spectrum (2004). Huston Smith, um dos mais prestigiados estudiosos de religião escreveu sobre a sua obra, “Para a compreensão, e a beleza que essa compreensão necessita para ser efectiva, não encontro nenhum autor que o ultrapasse no que diz respeito ao Budismo”. Marco Pallis deixou-nos em 1989.
Bibliografia:
Peaks and Lamas (1939)
The Way and the Mountain (1960)
A Buddhist Spectrum (2004)
Publicações no “Sabedoria Perene”:
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Studies in Comparative Religion
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Spiritual Perspectives and Human Facts
Este livro de Frithjof Schuon, a sua terceira obra e publicado pela primeira vez em 1953 pela editora Cahiers du Sud, é constituído por um conjunto de meditações sobre a tradição e a civilização moderna, a arte, a vida espiritual, a metafísica e as virtudes espirituais, sendo este último tema alvo de uma extensa discussão. De extrema importância é ainda um capítulo dedicado à comparação entre as perspectivas do Sufismo e do Vedānta.Esta nova edição da World Wisdom, dirigida por James S. Cutsinger, contém, para além de um conjunto importante de notas que ajudam à compreensão da obra, um apêndice com uma selecção de cartas e textos pessoais escritos por Schuon, os quais são publicados pela primeira vez.
Fiquemos com algumas das palavras de Schuon que prefaciaram a sua obra em 1988.
“Esta colecção de textos, escritos por volta do meio do século – anteriormente a muitos dos restantes livros – difere destes na medida em que, ao invés de se tratarem de artigos, consistem de extractos de cartas, notas das nossas leituras, e reflexões surgindo independentemente de circunstâncias exteriores e organizados posteriormente em forma de capítulos. Sendo assim, Spiritual Perspectives and Human Facts, contém assuntos que não abordámos noutros livros, nomeadamente no que diz respeito ao Cristianismo, ao Vedānta, psicologia espiritual e o simbolismo das cores; (…)”
domingo, 21 de outubro de 2007
Tradição como Função Espiritual
O tema abordado neste artigo é, segundo a própria opinião do autor, um dos aspectos fundamentais da tradição religiosa, a função espiritual da tradição, ou seja, os meios com os quais as diferentes tradições religiosas indicam o caminho para a realização espiritual, isto é, a realização interior das verdades espirituais contidas nos seus ensinamentos. Esta função espiritual pode ser referida de várias formas: o “método” que acompanha a “doutrina”, a “praxis” que complementa a teoria, a “actividade” que aprofunda o “pensamento”. É, em resumo, um esforço da vontade para assimilar o que foi conceptualmente apreendido na mente; é um caminho que nos leva da cabeça para o coração. Pode ainda ser referida como “oração”, entendida esta como incluindo todos os meios pelos quais a alma se dirige à “única coisa necessária”, ou seja, petição pessoal, oração canónica, meditação, contemplação, concentração e invocação.
Segundo os Perenialistas, a oração envolve todos os caminhos que tornam possível o contacto e o assimilar do Absoluto, bem como os meios para nos transcendermos, residindo aqui a importância da Tradição. A Tradição pode ser compreendida como o primeiro ponto de contacto entre a alma e as verdades reveladas por Deus e transmitidas através da tradição; verdades estas que são simultaneamente transcendentes e imanentes e, assim, infinitamente acima e misteriosamente no interior da alma, não estando, no entanto, acessíveis excepto por meio de graças transformativas provenientes das manifestações exteriores da transcendência divina, tendo sido veladas pelo esquecimento, tal como afirmado por todas as grandes tradições.
A “ciência” da Tradição está, assim, directamente relacionada com um recordar espiritual, uma necessidade que é simultaneamente cognitiva e existencial, implicando, não só o relembrar de uma verdade esquecida, mas também o “recordar”, no sentido de reunir as realidades imanentes escondidas no interior da alma com as realidades transcendentes acima dela.
O autor foca de seguida a sua atenção no carácter primordial que os Perenialistas atribuem à Tradição. O aspecto mais importante que é referido está relacionado com o facto daquele carácter primordial não poder ser entendido de uma forma exclusivamente temporal, mas também num sentido “espacial” ou “central”, pois é esta realidade primordial que se acredita ser a substância nuclear de todas as diferentes tradições reveladas. Uma das mais citadas passagens extraídas dos textos sagrados sobre esta realidade interior das religiões é também citada pelo autor, sendo retirada do Corão: “Para cada um de vós prescrevemos uma Lei e um Caminho. E se Deus tivesse desejado Ele teria vos feito apenas uma comunidade. Mas Ele deseja testar-vos com aquilo que Ele vos deu. Por isso, rivalizem entre vós em boas acções. Para Deus é o vosso retorno, e Ele vos informará sobre aquilo que vos distingue.” (V:51).
Esta e outras passagens, não só do Corão mas também de outros textos sagrados de tradições reveladas, providenciam uma base para o entendimento das religiões como sendo várias revelações de apenas uma Realidade última, suportando a ideia da “unidade transcendente das religiões”. No entanto, e ao contrário do entendimento que muitos poderão ter desta ideia, a perspectiva específica dos perenialistas está, não no facto de poderem existir vários caminhos para o cume, mas sim no facto de, para além de assumirem a existência desse cume, lançarem-se na subida que a ele os dirige, traduzindo-se na prática dos elementos mais essenciais da religião de cada um. “Este ênfase, longe de implicar a descoberta de qualquer nova “religião”, pelo contrário, procura aprofundar o compromisso com a actual religião de cada um, respeitando todas os seus requisitos exotéricos, enquanto penetrando nas suas profundezas esotéricas” [sublinhado nosso].
Nesta perspectiva, a especificidade de cada uma das tradições religiosas é garantida, sendo cada uma delas única e irredutível. No entanto, num nível principial, as distinções entre formas dão lugar a realidades universais, preocupando-se a perspectiva metafísica dos perenialistas com a relação entre qualidades particulares e princípios universais.
Voltando à palavra Tradição, o autor cita uma descrição de Marco Pallis em que este considera a Tradição como uma categoria genérica que compreende todas as várias tradições que constituem e transmitem a religio/sophia perennis:
"...onde quer que uma tradição completa exista, isso implicará a presença de quatro coisas, nomeadamente: uma fonte de (…) Revelação; uma corrente de influência ou Graça emitida a partir dessa fonte e transmitida ininterruptamente através de uma variedade de canais; um meio de “verificação”, o qual, quando rigorosamente seguido, conduzirá o sujeito humano para sucessivas posições em que poderá “actualizar” as verdades comunicadas pela Revelação; e finalmente, um corpo formal de tradição – as doutrinas, as artes, as ciências e outros elementos que em conjunto determinam o carácter de uma civilização normal”.
Este aspecto é precisamente um dos mais sensíveis para o homem moderno, a asserção de que estamos num estado sub-humano e que precisamos de sofrer as transformações estipuladas pela sabedoria tradicional, de acordo com um método espiritual. Outra dificuldade para a mente irrequieta do moderno traduz-se no sentimento geral de: se as verdades últimas estão no interior da nossa alma, porque é que temos de seguir uma revelação e os seus requisitos formais? A resposta dada pela perspectiva perenialista é a de que, se cada indivíduo fosse capaz de realizar essas verdades últimas apenas com os seus próprios recursos, então essas verdades que teriam sido oferecidas à humanidade por Deus seriam redundantes; e quem a este argumento responde que apenas alguns terão essa capacidade para dispensar os meios cedidos pelo Absoluto, considerando-os como possíveis e não exclusivos, a resposta perenialista é que esse indivíduo se estaria a auto-denominar um santo. O autor volta a analisar este aspecto mais à frente, pelo que vamos também continuar, levantando a pergunta “o que devo fazer” para responder à “voz da sabedoria tradicional”? As seguintes palavras de Marco Pallis voltam a servir de guia:
“O primeiro passo (…) será tipicamente um passo negativo; (…) uma renúncia á vida governada pelas preocupações profanas, de forma a procurar o conhecimento que resulta do ego parar de se considerar divino. Para nos prepararmos para a missão que temos pela frente, sentimo-nos obrigados a respeitar uma disciplina não criada por nós; e isto é precisamente o que as prescrições exteriores das religiões nos oferecem, sendo o seu propósito controlar o nosso ser ao longo da estadia terrena (…) tratada de forma inteligente, uma lei religiosa não precisa de ser perturbante; mas de qualquer forma a sua dureza e a sua suavidade deverão ser aceites como parte de um todo orgânico tradicional”.
Subjectivamente, esta importante submissão, derivada da humildade e que Pallis designa por “uma disciplina não criada por nós”, está longe de poder ser associada a um conformismo, devendo, pelo contrário, ser entendida como um meio de modéstia pessoal, um esforço profundamente enraizado para viver de acordo com os princípios e regras fielmente transmitidas pela tradição. Este caminho, esta obediência para com a autoridade religiosa, é visto pelas várias tradições como um pré-requisito necessário para qualquer início num percurso de transformação e auto transcendência, antecipando a extinção do egotismo que marca o verdadeiro nascimento da vida divina.
Objectivamente, os rituais – mesmo a um nível exotérico – quando praticados, põem em movimento um momento espiritual em direcção ao Absoluto. Relembra-nos o autor que Guénon insistiu repetidamente que o impacto dos rituais das religiões é rigorosamente objectivo e que esses rituais são canais de graças independentes do grau de receptividade ou conhecimento de quem os pratica:
“A repetição destas fórmulas [rituais] procuram produzir uma harmonização dos diferentes elementos do ser e causar vibrações que, pelas repercussões que atravessam a imensa hierarquia de estados, são capazes de abrir vias de comunicação com os estados mais elevados, o que é em geral o propósito essencial e primordial de todos os rituais”.
É óbvio que existem profundas diferenças entre os rituais exotéricos e esotéricos, no entanto, segundo a perspectiva perenialista, não existe qualquer possibilidade de separar os dois, alertando‑nos para quem oferece um Sufismo sem Islão, um Tantrismo Tibetano sem Budismo, uma Oração de Jesus sem Cristianismo, etc.. É, de facto, uma das grandes tentações do mundo moderno, a de dispensar os elementos formais das religiões, ignorando a “superstrutura” e desligando-a da “infraestrutura” mística, a qual pode ser perseguida segundo os desejos pessoais. O autor apresenta um exemplo característico desta tendência, o autor Fritz Staal, dedicando-se durante alguns parágrafos à demonstração do quanto as ideias deste são opostas à perspectiva perenialista.
Um outro papel absolutamente fundamental da tradição no caminho do conhecimento místico está relacionado com os grandes perigos que este acarreta para as nossas mentes presas no esquecimento, no orgulho e na pretensão. É precisamente neste caminho que a tradição espiritual e um aconselhamento preciso são imperativos, sendo indispensável um guia que já tenha atravessado o caminho, um guia que já tenha sido guiado por outros, numa corrente de autoridade espiritual transmitida e originária na revelação, a qual garante à tradição o seu poder e eficácia sagrada. Este caminho místico, garantido pelas elevadas “funções espirituais” da tradição, envolvem uma iniciação, um “segundo nascimento”, uma total entrega para com os meios sagrados que permitem a travessia das formas exotéricas para a essência esotérica de uma determinada tradição, travessia esta que deverá ser efectuada sobre a estrutura protectora da tradição revelada.
Em resumo, os perenialistas defendem que qualquer esforço individual para substituir a tradição religiosa na busca do Absoluto nunca será mais do que um acto de tolice individual ou, pior ainda, de auto engano. Os principais inimigos a ultrapassar na vida espiritual não são os “demónios” externos, mas sim os internos, os pecados congénitos do orgulho e do individualismo, sendo este último o mais difícil de superar. O indivíduo é tão incapaz de superar o individualismo como uma pessoa é incapaz de fugir da sua própria sombra.
É precisamente nesta batalha que uma inteligente e total submissão para com uma autêntica orientação e autoridade tradicional se tornam fundamentais, sem elas a tarefa de dissolver todas as coagulações da alma produzidas pelos venenos do egotismo e individualismo seria virtualmente impossível. Esta alteração alquímica a efectuar na alma, esta solve et coagula, passa assim pela “dissolução” dos nós subjectivos e individualistas, e a fixação dos elementos da verdade, obtidos por meios que são objectivos e supra-individuais.
O orgulho é um dos obstáculos principais da vida espiritual, o sentido ilusório de auto-suficiência que é a raiz de todo o fracasso de nos transcendermos. A negação da necessidade de recorrer e abraçar os meios oferecidos pelas tradições reveladas é uma expressão – explícita ou implícita – do individualismo.
Estas ideias devem ser assimiladas em profundidade, tornando-se parte do nosso ser, para que as suas verdades supra-formais se possam tornar “realidade”. O total e activo compromisso com uma disciplina contemplativa no seio de uma tradição revelada é inequivocamente o suporte mais efectivo para esta assimilação.
Finalmente, é essencialmente a oração que nos torna receptivos para a pureza da vida divina; para a presença sagrada à luz da qual todas as imperfeições da alma se tornam aparentes e pelas graças da qual elas são ultrapassadas.
A seguinte passagem de Schuon com que o autor termina o seu artigo, expressa a intenção fundamental que orienta o discurso dos perenialistas e que tão brilhantemente Reza Shah-Kazemi descreveu neste seu trabalho:
“Todas as grandes experiências espirituais concordam neste ponto: não existe medida comum entre os meios postos em operação e o resultado. “Com o homem isto é impossível, mas com Deus todas as coisas são possíveis”, diz o Evangelho. De facto, o que separa o homem da Realidade divina é a mais ténue das barreiras: Deus está infinitamente perto do homem mas o homem está infinitamente longe de Deus. Esta barreira é uma montanha para o homem; o homem está perante uma montanha que terá de ser removida com as suas próprias mãos. Ele escava a terra em vão, a montanha mantém-se; no entanto, se o homem avança sem escavar, em nome de Deus, a montanha desaparece. Ela nunca existiu.”
Espírito Índio
Black Bird - Oglala Lakotaquinta-feira, 18 de outubro de 2007
Esoterismo [2]
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O esoterismo pode ser entendido como a “religião da inteligência”: isto significa que este opera com o intelecto – e não apenas com o sentimento e a vontade – e que, consequentemente, o seu conteúdo é tudo o que a inteligência pode alcançar, e que apenas ela pode alcançar.* O “sujeito” do esoterismo é o Intelecto e o seu “objecto” é, ipso facto, a Verdade total, nomeadamente – expressa em termos Vedânticos – a doutrina de Atma e Maya; e aquele que diz Atma e Maya, diz Jnana, conhecimento directo, intuição intelectual.
(* Está longe da verdade que todo o esoterismo histórico é esoterismo puro; uma exegese colorida por um sistema confessional ou totalmente envolvido num misticismo subjectivo está longe de uma verdadeira gnose. Por outro lado, está longe de ser o caso de que tudo o que é colocado na categoria de esoterismo o seja na realidade; acontece demasiadas vezes que diversos autores, ao abordar este conceito, não façam a devida distinção entre o que é genuíno e o que é falso, entre a verdade e o erro, em consonância com os dois pecados do nosso tempo, os quais são a substituição da inteligência pela psicologia e a confusão entre o psíquico e o espiritual.) [Frithjof Schuon - To Have a Center, Intelligence and Character]
Reza Shah-Kazemi
Reza Shah-Kazemi (Ph.D. em Religião Comparada na Universidade de Kent) é investigador auxiliar no Instituto de Estudos Islâmicos em Londres.É o autor do livro “Paths to Transcendence: According to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart”. Shah-Kazemi contribuiu ainda para as seguintes obras: “Paths to the Heart”, “Islam, Fundamentalism, and the Betrayal of Tradition: Essays by Western Muslim Scholars”, sendo ainda o autor do ensaio: A Sacred Conception of Justice: Imam ‘Ali’s Letter to Malik al-Ashtar, incluído na obra "The Sacred Foundations of Justice in Islam".
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Knowledge and the Sacred
Este livro é sem dúvida uma das obras fundamentais dedicadas à exposição e análise das tradições sagradas e da própria Tradição. A magistralidade desta obra levou Huston Smith, um dos mais prestigiados autores ligados ao estudo das religiões do mundo, a escrever as seguintes palavras: “Em relação ao livro em análise, se o seu autor é um fenómeno, este seu livro é um evento. (…) Historiadores intelectuais irão no futuro considerar esta obra comparável com a tradução para Latim de Aristóteles por William of Moerbeke no século XIII, a de Platão do séc. XV por Marsiglio Ficino ou os Ensaios sobre Budismo Zen de D.T. Suzuki em 1927, sendo um marco de uma nova fase de compreensão multi-cultural”.Esta obra de Seyyed Hossein Nasr resulta das lições dadas na Universidade de Edimburgo, tendo sido o primeiro não Ocidental a ser convidado para leccionar as prestigiadas Gifford Lectures naquela Universidade desde que as mesmas foram instituídas em 1889.
Neste trabalho, Nasr procura ressuscitar a qualidade sagrada do conhecimento e reavivar a verdadeira tradição intelectual do Ocidente com o auxílio das tradições do Oriente ainda vivas. O livro está dividido em dez capítulos, cada um deles verdadeiras obras-primas:
1. Conhecimento e a sua Dessacralização
2. O que é a Tradição
3. A redescoberta do Sagrado: O reavivar da Tradição
4. Scientia Sacra
5. Homem, Pontífice e Prometeico
6. O Cosmos como Teofania
7. Eternidade e a Ordem Temporal
8. Arte Tradicional como Fonte de Conhecimento e Graça
9. Conhecimento Principial e a Multiplicidade de Formas Sagradas
10. Conhecimento do Sagrado como Entrega
Algumas das publicações no “Sabedoria Perene” foram extraídas deste magnífico livro, sendo certo que muitas mais surgirão, sendo as palavras de Nasr uma verdadeira fonte de conhecimento e inspiração.
Tradição e Religião
[…] Esta rápida análise do estado actual dos estudos religiosos, na medida em que dizem respeito à variedade e diversidade dos universos religiosos, revela a imperfeição de todos os métodos mais frequentes quando analisados na perspectiva da tradição e da visão sapiencial que reside no coração da mesma, apesar de cada um dos métodos poder conter algum aspecto ou particularidade positiva.
Hoje em dia é nos dado a escolher entre um exclusivismo que destruiria o verdadeiro significado de Justiça Divina e Misericordiosa e um designado universalismo que destruiria elementos preciosos de uma religião, em relação à qual os seus fiéis acreditam ser originária do céu e os quais são de origem celeste. Existe uma escolha entre um absolutismo que negligencia todas as manifestações do Absoluto para além das nossas e um relativismo que destruiria o próprio significado de absoluto. É nos dada a possibilidade de reduzir todas as realidades religiosas a influências históricas ou de as considerarmos como realidades a serem estudadas independentemente e sem qualquer referência para o contexto histórico da revelação de uma manifestação particular do Logos. Somos levados ou a aceitar uma outra educadamente e por conveniência, na melhor das hipóteses por caridade, ou a disputar ou combater a mesma como um oponente a ser refutado ou mesmo destruído, uma vez que a sua visão é baseada no erro e não na verdade. Somos confrontados com a alternativa de não estudar as outras religiões e manter a devoção religiosa no seio da própria tradição (embora esta não seja uma alternativa viável para quem tenha sido tocado pela verdade, graça e beleza de outras religiões) ou de estudar outras religiões com a consequência de perder a própria fé ou, na melhor das hipóteses, ter essa fé diluída e abalada.
O homem moderno enfrenta estas alternativas numa altura em que a presença de outras religiões lhe introduz um problema existencial, o qual é significativamente diferente do confrontado pelos seus ancestrais. De facto, se existe uma realmente nova e significativa dimensão para a vida religiosa e espiritual do homem de hoje, essa será a presença de outros mundos de forma e significado sagrado, não como factos e fenómenos arqueológicos ou históricos, mas como uma realidade religiosa. É esta necessidade de viver no seio de um sistema solar e de acordo com as suas leis, sabendo, no entanto, que existem outros sistemas solares e, inclusivamente, por participação, vir a conhecer algo dos seus ritmos e harmonias, adquirindo, desta forma, uma visão da beleza assombrosa de cada um como um sistema planetário, o qual é o sistema planetário dos que nele vivem. É o ser iluminado pelo Sol do nosso sistema planetário e, ainda assim, através de um notável poder de inteligência, conhecer por antecipação e à distância, que cada sistema solar tem o seu próprio sol, o qual é simultaneamente um sol e o Sol, pois como poderá o sol que nasce todas as manhãs e ilumina o nosso mundo ser outro do que o próprio Sol?
É em relação a este significado crucial do estudo das religiões no seio de múltiplos universos de forma sagrada que a pertinência da perspectiva tradicional e do conhecimento “principial” que reside no seu coração se torna clara para o homem contemporâneo, confrontado com este problema “existencial”. A chave fornecida pela tradição para a compreensão da presença das diferentes religiões sem relativizar a religião, é o resultado de uma das mais eternas aplicações da sabedoria ou conhecimento “principial”, o qual é, ele mesmo, eterno. Apenas este tipo de conhecimento pode realizar uma tal tarefa, sendo simultaneamente um conhecimento com carácter sagrado e conhecimento sagrado em si mesmo.
A tradição estuda as religiões do ponto de vista da scientia sacra, a qual distingue o Princípio da manifestação, a Essência da forma, a Substância do acidente, o interior do exterior. Ela coloca o carácter de absoluto ao nível do Absoluto, afirmando categoricamente que o Absoluto é absoluto. Ela recusa-se a cometer o erro cardinal de atribuir o carácter de absoluto ao relativo, erro que o Hinduísmo e o Budismo consideram ser a origem e a raiz de toda a ignorância. Assim, toda a determinação do Absoluto está imediatamente no reino da relatividade. A unicidade das religiões é encontrada, em primeiro lugar e acima de tudo, neste Absoluto, o qual é simultaneamente Verdade e Realidade e a origem de todas as revelações e de toda a verdade. Quando os Sufis exclamam que a doutrina da Unidade é única (al-tawdīd wāhid), eles estão a afirmar este princípio fundamental mas muitas vezes esquecido. Apenas ao nível do Absoluto os ensinamentos das religiões são semelhantes. Abaixo desse nível, apesar de existirem algumas correspondências de uma ordem mais profunda, estas nunca são idênticas. As diferentes religiões são como que diferentes linguagens a falar de uma única Verdade, na medida em que esta se manifesta em diferentes mundos e de acordo com as suas possibilidades arquétipas, não sendo a sintaxe dessas linguagens a mesma. No entanto, e porque todas as religiões são originárias da Verdade, tudo numa determinada religião revelada pelo Logos é sagrado e deverá ser respeitado e apreciado enquanto meio de elucidação, ao invés de serem desprezados e reduzidos ao insignificante, em nome de uma qualquer universalidade abstracta.
O método tradicionalista de estudo das religiões, enquanto que afirmando categoricamente a “unidade transcendente das religiões” e o facto de que “todos os caminhos levam ao mesmo cume”, é profundamente respeitosa de todos os passos de cada caminho, de todos os sinais que tornam a jornada possível e sem os quais o cume nunca poderia ser alcançado. Este procura penetrar no significado dos rituais, dos símbolos, das imagens e das doutrinas que constituem um universo religioso particular, não procurando ignorar estes elementos ou reduzi-los a algo diferente do que na realidade são no seio desse distinto universo de significado criado por Deus através de uma determinada revelação do Logos.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Sobre a crítica
Na realidade, toda a verdade é por definição construtiva; apenas o erro é destrutivo. Destruir uma destruição é já algo construtivo. [Frithjof Schuon – Spiritual Perspectives and Human Facts]
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Esoterismo [1]
No entanto, iremos em algumas das nossas futuras publicações procurar aprofundar igualmente um outro termo de grande importância e que é muitas vezes mal compreendido, o esoterismo. Para tal, recorreremos a alguns perenialistas, procurando extrair das suas obras alguns textos a ele dedicados.
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A palavra “esoterismo” sugere, em primeiro lugar, uma ideia de complementaridade, de uma “metade”. O esoterismo é o complemento do exoterismo, é o “espírito” que completa a “letra”. Onde quer que exista uma verdade da Revelação e, assim, uma verdade formal e teológica, deverá igualmente existir uma verdade de intelecção, ou seja, uma verdade não-formal e metafísica; uma verdade não legalista ou obrigatória, mas sim uma que brote a partir da natureza das coisas, e uma verdade que seja também vocacional, uma vez que nem todos os homens apreendem esta natureza.
[Frithjof Schuon - Survey of Metaphysics and Esoterism, Two Esoterisms]