sábado, 1 de dezembro de 2007

Provas de Deus?

A ideia para a publicação da presente tradução de um curto trecho de um artigo de James Cutsinger surgiu da leitura de uma recente publicação no blog Espectadores, no qual se travam frequentemente árduas batalhas com o ateísmo generalizado da nossa sociedade actual. Aqui fica uma pequena contribuição.

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Finalmente, não, o ateísmo não é a posição mais inteligente. Pelo contrário, o ateísmo contradiz-se a si próprio. Pense-se no seu fundamento. O ateu afirma, “Deus não existe”. Ora, quem declara “isto não existe”, está a afirmar algo que um especialista em lógica classificaria como uma proposição negativa universal, seja qual for a coisa a que se esteja a referir. É negativa porque afirma “não” e nega algo, e é universal porque o plano que abrange é ilimitado. Se eu afirmasse, “não existe um ornitorrinco nesta capela”, eu estaria também a expressar uma afirmação negativa mas não universal, uma vez que o contexto estaria restrito a este edifício e poderíamos verificar a veracidade ou falsidade da minha afirmação atribuindo a alguém na sala a função de revistar minuciosamente o edifício, criando-se um exercício sistemático de caça ao ornitorrinco. Repare-se, no entanto, que quando um ateu afirma, “Deus não existe”, ele não está a dizer, “Não existe Deus nesta capela”, ou “Não existe Deus em Greenville”, ou “Não existe Deus na nossa galáxia”. Ele está a dizer, “Não existe Deus em qualquer parte de todo o universo, não existe Deus em qualquer parte da total extensão da realidade”. Mas ao afirmar tal coisa ele está a indicar que fez essa procura. Ele inspeccionou cuidadosamente todos os buracos e fendas da existência, tal como seria necessário inspeccionar todos os buracos e fendas do edifício para verificar que aí não existia qualquer ornitorrinco. No entanto, se ele procurou verdadeiramente todos os locais onde é possível procurar – se ele pode honestamente afirmar que verificou pessoalmente toda a extensão da realidade – deste facto resulta que ele terá de ser omnisciente. No entanto, a omnisciência é um atributo de Deus. Assim, ao afirmar que “Deus não existe”, um ateu está implicitamente a declarar ser Deus e, assim, inevitavelmente a contradizer-se.

Gostaria ainda de colocar mais umas questões antes de prosseguir. Ao longo da minha palestra referi algumas autoridades chave de algo que podemos chamar de “tecnologia” da vida espiritual, e pergunto-me se conhecem alguns deles. Por exemplo Patanjali? Não, tal como pensava. E Nicephorus o Solitário? Também não. Talvez Jalal al-Din Rumi? Estão cautelosamente a abanar afirmativamente a cabeça para este, imagino que o nome soe familiar, talvez pela popularidade da sua poesia. Mas será que estudaram os seus ensinamentos? Não. Bem, deixem-me perguntar o seguinte: já alguma vez tentaram se concentrar num só pensamento, e notaram que é impossível manter essa concentração por mais de dois ou três segundos? Sim, então trata-se de uma experiência familiar. Estão familiarizados com o facto de que a nossa consciência comum do dia a dia é altamente indisciplinada – na realidade, praticamente fora do nosso controlo.

Este é o meu ponto de vista: cada um destes três sábios que mencionei – o primeiro, Pantajali, o mais renomeado professor Hindu de yoga; o segundo, Nicephorus o Solitário, um mestre do Hesicasmo do Cristianismo Oriental; e o terceiro, Jalal al-Din Rumi, foi uma grande shaykh Sufi – cada um deles ensinou aos seus discípulos um método para adquirir o controlo da sua consciência, de forma a estabelecer um estado de quietude ou estabilidade que possa servir como um portal para níveis, modalidades ou dimensões de consciência normalmente velados ou adormecidos, dimensões a partir das quais e nas quais eles poderão experimentar directamente a Fonte Última de Todas as Coisas.

Vocês procuram evidências. Querem que alguém que vos “mostre” Deus. Muito bem, estes e outros mestres, quer do passado quer do presente, estão totalmente preparados para vos assistir nessa tarefa. Mas eles vão requerer aquilo que qualquer “cientista sério” como vós próprios reconhece como essencial quando se pretende testar uma qualquer teoria: nomeadamente, que se entre no laboratório, que neste caso é a mente, seguindo cuidadosamente os procedimentos e usando os equipamentos que estes cientistas espirituais oferecem. Até que isto tenha sido feito, peço desculpa, mas será um sinal de ignorância pensar que as afirmações das religiões do mundo não são verificáveis.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Inspirador de Fé (Al-Mumin)

Al-Mumin










Quanto tempo dirás,
“Eu conquistarei todo o mundo e o preencherei com o meu ser”?
Mesmo se um manto de neve cobrisse o mundo por completo,
o sol poderia derretê-la num instante.
Uma única centelha da misericórdia de Deus
poderia transformar veneno em água pura.
Onde existe dúvida,
Ele estabelece a certeza.

[Jalâluddîn Rumi, Mathnawi I:542-546fonte: Sufism.org]

sábado, 10 de novembro de 2007

A Buddhist Spectrum

Este livro, “A Buddhist Spectrum”, reflecte a sabedoria adquirida durante mais de meio século de estudo e de experiência vivida no Budismo Tibetano, bem como do estudo de outras religiões. Marco Pallis, dado a conhecer ao público com o seu trabalho “Peaks and Lamas”, o qual introduziu pela primeira vez no Ocidente a tradição integral do Tibete vista numa perspectiva Tradicionalista, escreveu ao longo da sua vida um importante conjunto de ensaios, na sua maioria dedicados ao Budismo, grande parte dos quais vieram a ser publicados nos seus dois livros publicados posteriormente.

Este livro, tal como indica o seu título, lida com uma grande variedade dos mais importantes aspectos da Tradição Budista, sendo simultaneamente uma obra dedicada à religião comparada, baseada sobretudo no encontro entre o Budismo e o Cristianismo. O objectivo de Pallis foi apresentar o Budismo como um upaya para a salvação e oferecer uma chave para a compreensão profunda dos seus ensinamentos tradicionais. Adicionalmente, a sua obra serve como um antídoto para as incompreensões resultantes da exposição de uma versão secularizada do Budismo tão dominante no mundo Ocidental.

Seyyed Hossein Nars disse em relação a esta obra: “A Buddhist Spectrum é simultaneamente um dos mais acessíveis trabalhos sobre o Budismo e uma grandiosa obra dedicada ao estudo de diferentes religiões e da sua espiritualidade. É o fruto dos pensamentos e das meditações de um homem cuja autoridade da sua exposição sobre questões religiosas e, em particular, o Budismo na sua forma Tibetana, teve uma profunda influência em muitos estudiosos e praticantes de religião, quer no Ocidente, quer no Oriente”.

Esta obra publicada pela World Wisdom é constituída pelos seguintes dez ensaios:

I – Living One’s Karma
II – The Marriage of Wisdom and Method
III – Is There a Problem of Evil?
IV – Is There Room for ‘Grace’ in Buddhism?
V – Considerations on the Tantric Alchemy
VI – Nembutsu as Remembrance
VII – Dharma and the Dharmas
VIII – Metaphysics of Musical Polyphony
IX – Anattâ
X – Archetypes, as Seen Through Buddhist Eyes

Virtude

Uma virtude apenas é um símbolo de imortalidade na condição de ser fundada em Deus; este facto atribuí-lhe um carácter simultaneamente impessoal e generoso. Uma qualidade que seja puramente natural - e não validada por uma atitude espiritual que a envolva de vida divina - não tem mais importância para Deus do que o "metal que tine". [Frithjof Schuon - Spiritual Perspectives and Human Facts]

Marco Pallis

Marco Pallis nasceu em 1895, filho de pais Gregos residentes em Liverpool, tendo recebido a sua educação em Harrow e na Universidade de Liverpool. Serviu durante a Primeira Grande Guerra o exército Britânico, tendo-se posteriormente dedicado ao estudo de música sobre a alçada de Arnold Dolmetsch. O seu crescimento intelectual foi muito influenciado pelas obras de dois grandes perenealistas, Ananda Coomaraswamy e René Guénon, tendo visitado o último duas vezes no Cairo e traduzido dois dos seus livros com o seu amigo Richard Nicholson.

Em 1923 Pallis visitou pela primeira vez o sul do Tibete numa expedição de montanha, tendo aí regressado nos anos de 1933 e 1936, fruto de um profundo interesse pela sua cultura tradicional, visitando os mosteiros em Sikkin e Ladakh. Depois da Segunda Grande Guerra regressou para uma visita mais prolongada, altura em que, após visitar o Ceilão e o Sul da Índia, tendo recebido o darshan de Ramana Maharshi em Tiravunnamalai, se fixou perto de Shigatse onde estudou com lamas Tibetanos e foi iniciado numa das linhagens com o nome Tibetano de Thubden Tendzin.

Pallis regressou a Inglaterra em 1950 quando, em conjunto com Richard Nicholson e outros músicos, formou o “English Consort of Viols”, um grupo dedicado à preservação de música Inglesa antiga.

Escreveu dois livros resultantes das suas experiências durante a estadia no Tibete: Peaks and Lamas (1939), o qual se veio a tornar um bestseller, e The Way and the Mountain (1960). Constituem um conjunto único de ensaios sobre a cultura Tibetana e o Budismo Tibetano.

A obra de Pallis é totalmente livre das comuns assumpções de superioridade do Ocidente, derivando grande parte dos seus livros de uma receptividade para com as lições da Tradição que ainda sobrevivia na altura no Tibete. Pallis atingiu algum conhecimento público quando participou na exposição da farsa de Lobsang Rampa.

Pallis escreveu inúmeros artigos para a publicação “Studies in Comparative Religion”, alguns dos quais foram incluídos na sua última publicação, A Buddhist Spectrum (2004). Huston Smith, um dos mais prestigiados estudiosos de religião escreveu sobre a sua obra, “Para a compreensão, e a beleza que essa compreensão necessita para ser efectiva, não encontro nenhum autor que o ultrapasse no que diz respeito ao Budismo”. Marco Pallis deixou-nos em 1989.


Bibliografia:

Peaks and Lamas (1939)
The Way and the Mountain (1960)
A Buddhist Spectrum (2004)


Publicações no “Sabedoria Perene”:

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Studies in Comparative Religion

Os primeiros resultados do projecto da World Wisdom de recuperação da primeira e mais importante publicação periódica em língua inglesa dedicada aos estudos da Tradição, a "Studies in Comparative Religion", estão finalmente disponíveis, contendo já um considerável número de artigos disponíveis para consulta.

Esta publicação, fundada em 1963 por Francis Clive-Ross e em actividade durante 25 anos, foi contemporânea de muitos dos mais importantes escritores tradicionalistas, tais como Schuon, Burckhardt, Pallis, Lings, W. N. Perry e muitos outros, os quais eram seus colaboradores assíduos, tendo sido possível manter uma elevada qualidade durante toda a sua existência.

Este projecto, para além de disponibilizar todos os artigos publicados ao longo dos 25 anos de vida da "Studies in Comparative Religion", pretende retomar a sua publicação, estando prevista a edição de novos números a partir do próximo ano.

Para mais informação consultem o site: Studies in Comparative Religion. Mais uma vez está de parabéns a World Wisdom.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Spiritual Perspectives and Human Facts

Este livro de Frithjof Schuon, a sua terceira obra e publicado pela primeira vez em 1953 pela editora Cahiers du Sud, é constituído por um conjunto de meditações sobre a tradição e a civilização moderna, a arte, a vida espiritual, a metafísica e as virtudes espirituais, sendo este último tema alvo de uma extensa discussão. De extrema importância é ainda um capítulo dedicado à comparação entre as perspectivas do Sufismo e do Vedānta.

Esta nova edição da World Wisdom, dirigida por James S. Cutsinger, contém, para além de um conjunto importante de notas que ajudam à compreensão da obra, um apêndice com uma selecção de cartas e textos pessoais escritos por Schuon, os quais são publicados pela primeira vez.

Fiquemos com algumas das palavras de Schuon que prefaciaram a sua obra em 1988.

“Esta colecção de textos, escritos por volta do meio do século – anteriormente a muitos dos restantes livros – difere destes na medida em que, ao invés de se tratarem de artigos, consistem de extractos de cartas, notas das nossas leituras, e reflexões surgindo independentemente de circunstâncias exteriores e organizados posteriormente em forma de capítulos. Sendo assim, Spiritual Perspectives and Human Facts, contém assuntos que não abordámos noutros livros, nomeadamente no que diz respeito ao Cristianismo, ao Vedānta, psicologia espiritual e o simbolismo das cores; (…)”

Procuraremos traduzir alguns dos maravilhosos trechos que abundam neste livro para futuras publicações no "Sabedoria Perene", recomendando-se, no entanto, a leitura integral desta obra de Frithjof Schuon, sobretudo as suas meditações sobre as virtudes.

domingo, 21 de outubro de 2007

Tradição como Função Espiritual

Neste texto é apresentado um resumo das principais ideias contidas num brilhante artigo de Reza Shah-Kazemi, intitulado “Tradition as Spiritual Function: A “Perennialist” Perspective”, o qual foi inicialmente publicado no Volume 7 da Sacred Web e que foi disponibilizado para a Religioperennis.org onde pode ser consultado, recomendando-se vivamente a sua leitura [ler artigo].

O tema abordado neste artigo é, segundo a própria opinião do autor, um dos aspectos fundamentais da tradição religiosa, a função espiritual da tradição, ou seja, os meios com os quais as diferentes tradições religiosas indicam o caminho para a realização espiritual, isto é, a realização interior das verdades espirituais contidas nos seus ensinamentos. Esta função espiritual pode ser referida de várias formas: o “método” que acompanha a “doutrina”, a “praxis” que complementa a teoria, a “actividade” que aprofunda o “pensamento”. É, em resumo, um esforço da vontade para assimilar o que foi conceptualmente apreendido na mente; é um caminho que nos leva da cabeça para o coração. Pode ainda ser referida como “oração”, entendida esta como incluindo todos os meios pelos quais a alma se dirige à “única coisa necessária”, ou seja, petição pessoal, oração canónica, meditação, contemplação, concentração e invocação.

Segundo os Perenialistas, a oração envolve todos os caminhos que tornam possível o contacto e o assimilar do Absoluto, bem como os meios para nos transcendermos, residindo aqui a importância da Tradição. A Tradição pode ser compreendida como o primeiro ponto de contacto entre a alma e as verdades reveladas por Deus e transmitidas através da tradição; verdades estas que são simultaneamente transcendentes e imanentes e, assim, infinitamente acima e misteriosamente no interior da alma, não estando, no entanto, acessíveis excepto por meio de graças transformativas provenientes das manifestações exteriores da transcendência divina, tendo sido veladas pelo esquecimento, tal como afirmado por todas as grandes tradições.

A “ciência” da Tradição está, assim, directamente relacionada com um recordar espiritual, uma necessidade que é simultaneamente cognitiva e existencial, implicando, não só o relembrar de uma verdade esquecida, mas também o “recordar”, no sentido de reunir as realidades imanentes escondidas no interior da alma com as realidades transcendentes acima dela.

O autor foca de seguida a sua atenção no carácter primordial que os Perenialistas atribuem à Tradição. O aspecto mais importante que é referido está relacionado com o facto daquele carácter primordial não poder ser entendido de uma forma exclusivamente temporal, mas também num sentido “espacial” ou “central”, pois é esta realidade primordial que se acredita ser a substância nuclear de todas as diferentes tradições reveladas. Uma das mais citadas passagens extraídas dos textos sagrados sobre esta realidade interior das religiões é também citada pelo autor, sendo retirada do Corão: “Para cada um de vós prescrevemos uma Lei e um Caminho. E se Deus tivesse desejado Ele teria vos feito apenas uma comunidade. Mas Ele deseja testar-vos com aquilo que Ele vos deu. Por isso, rivalizem entre vós em boas acções. Para Deus é o vosso retorno, e Ele vos informará sobre aquilo que vos distingue.” (V:51).

Esta e outras passagens, não só do Corão mas também de outros textos sagrados de tradições reveladas, providenciam uma base para o entendimento das religiões como sendo várias revelações de apenas uma Realidade última, suportando a ideia da “unidade transcendente das religiões”. No entanto, e ao contrário do entendimento que muitos poderão ter desta ideia, a perspectiva específica dos perenialistas está, não no facto de poderem existir vários caminhos para o cume, mas sim no facto de, para além de assumirem a existência desse cume, lançarem-se na subida que a ele os dirige, traduzindo-se na prática dos elementos mais essenciais da religião de cada um. “Este ênfase, longe de implicar a descoberta de qualquer nova “religião”, pelo contrário, procura aprofundar o compromisso com a actual religião de cada um, respeitando todas os seus requisitos exotéricos, enquanto penetrando nas suas profundezas esotéricas” [sublinhado nosso].

Nesta perspectiva, a especificidade de cada uma das tradições religiosas é garantida, sendo cada uma delas única e irredutível. No entanto, num nível principial, as distinções entre formas dão lugar a realidades universais, preocupando-se a perspectiva metafísica dos perenialistas com a relação entre qualidades particulares e princípios universais.

Voltando à palavra Tradição, o autor cita uma descrição de Marco Pallis em que este considera a Tradição como uma categoria genérica que compreende todas as várias tradições que constituem e transmitem a religio/sophia perennis:

"...onde quer que uma tradição completa exista, isso implicará a presença de quatro coisas, nomeadamente: uma fonte de (…) Revelação; uma corrente de influência ou Graça emitida a partir dessa fonte e transmitida ininterruptamente através de uma variedade de canais; um meio de “verificação”, o qual, quando rigorosamente seguido, conduzirá o sujeito humano para sucessivas posições em que poderá “actualizar” as verdades comunicadas pela Revelação; e finalmente, um corpo formal de tradição – as doutrinas, as artes, as ciências e outros elementos que em conjunto determinam o carácter de uma civilização normal”.

Continuando com as palavras de Marco Pallis e com uma sua expressão, “a voz da sabedoria tradicional”, a qual apela aos seres humanos para terem em consideração as suas imperfeições e as suas possibilidades, o autor diz-nos que a Tradição deve tornar-se viva nas nossas mãos, que devemos ser “metamorfoseados” por ela, e que o início desta metamorfose reside na nossa capacidade de reconhecer que necessitamos dela, que ansiamos urgentemente pelo Absoluto.

Este aspecto é precisamente um dos mais sensíveis para o homem moderno, a asserção de que estamos num estado sub-humano e que precisamos de sofrer as transformações estipuladas pela sabedoria tradicional, de acordo com um método espiritual. Outra dificuldade para a mente irrequieta do moderno traduz-se no sentimento geral de: se as verdades últimas estão no interior da nossa alma, porque é que temos de seguir uma revelação e os seus requisitos formais? A resposta dada pela perspectiva perenialista é a de que, se cada indivíduo fosse capaz de realizar essas verdades últimas apenas com os seus próprios recursos, então essas verdades que teriam sido oferecidas à humanidade por Deus seriam redundantes; e quem a este argumento responde que apenas alguns terão essa capacidade para dispensar os meios cedidos pelo Absoluto, considerando-os como possíveis e não exclusivos, a resposta perenialista é que esse indivíduo se estaria a auto-denominar um santo. O autor volta a analisar este aspecto mais à frente, pelo que vamos também continuar, levantando a pergunta “o que devo fazer” para responder à “voz da sabedoria tradicional”? As seguintes palavras de Marco Pallis voltam a servir de guia:

“O primeiro passo (…) será tipicamente um passo negativo; (…) uma renúncia á vida governada pelas preocupações profanas, de forma a procurar o conhecimento que resulta do ego parar de se considerar divino. Para nos prepararmos para a missão que temos pela frente, sentimo-nos obrigados a respeitar uma disciplina não criada por nós; e isto é precisamente o que as prescrições exteriores das religiões nos oferecem, sendo o seu propósito controlar o nosso ser ao longo da estadia terrena (…) tratada de forma inteligente, uma lei religiosa não precisa de ser perturbante; mas de qualquer forma a sua dureza e a sua suavidade deverão ser aceites como parte de um todo orgânico tradicional”.

Subjectivamente, esta importante submissão, derivada da humildade e que Pallis designa por “uma disciplina não criada por nós”, está longe de poder ser associada a um conformismo, devendo, pelo contrário, ser entendida como um meio de modéstia pessoal, um esforço profundamente enraizado para viver de acordo com os princípios e regras fielmente transmitidas pela tradição. Este caminho, esta obediência para com a autoridade religiosa, é visto pelas várias tradições como um pré-requisito necessário para qualquer início num percurso de transformação e auto transcendência, antecipando a extinção do egotismo que marca o verdadeiro nascimento da vida divina.

Objectivamente, os rituais – mesmo a um nível exotérico – quando praticados, põem em movimento um momento espiritual em direcção ao Absoluto. Relembra-nos o autor que Guénon insistiu repetidamente que o impacto dos rituais das religiões é rigorosamente objectivo e que esses rituais são canais de graças independentes do grau de receptividade ou conhecimento de quem os pratica:

“A repetição destas fórmulas [rituais] procuram produzir uma harmonização dos diferentes elementos do ser e causar vibrações que, pelas repercussões que atravessam a imensa hierarquia de estados, são capazes de abrir vias de comunicação com os estados mais elevados, o que é em geral o propósito essencial e primordial de todos os rituais”.

É óbvio que existem profundas diferenças entre os rituais exotéricos e esotéricos, no entanto, segundo a perspectiva perenialista, não existe qualquer possibilidade de separar os dois, alertando‑nos para quem oferece um Sufismo sem Islão, um Tantrismo Tibetano sem Budismo, uma Oração de Jesus sem Cristianismo, etc.. É, de facto, uma das grandes tentações do mundo moderno, a de dispensar os elementos formais das religiões, ignorando a “superstrutura” e desligando-a da “infraestrutura” mística, a qual pode ser perseguida segundo os desejos pessoais. O autor apresenta um exemplo característico desta tendência, o autor Fritz Staal, dedicando-se durante alguns parágrafos à demonstração do quanto as ideias deste são opostas à perspectiva perenialista.

Um outro papel absolutamente fundamental da tradição no caminho do conhecimento místico está relacionado com os grandes perigos que este acarreta para as nossas mentes presas no esquecimento, no orgulho e na pretensão. É precisamente neste caminho que a tradição espiritual e um aconselhamento preciso são imperativos, sendo indispensável um guia que já tenha atravessado o caminho, um guia que já tenha sido guiado por outros, numa corrente de autoridade espiritual transmitida e originária na revelação, a qual garante à tradição o seu poder e eficácia sagrada. Este caminho místico, garantido pelas elevadas “funções espirituais” da tradição, envolvem uma iniciação, um “segundo nascimento”, uma total entrega para com os meios sagrados que permitem a travessia das formas exotéricas para a essência esotérica de uma determinada tradição, travessia esta que deverá ser efectuada sobre a estrutura protectora da tradição revelada.

Em resumo, os perenialistas defendem que qualquer esforço individual para substituir a tradição religiosa na busca do Absoluto nunca será mais do que um acto de tolice individual ou, pior ainda, de auto engano. Os principais inimigos a ultrapassar na vida espiritual não são os “demónios” externos, mas sim os internos, os pecados congénitos do orgulho e do individualismo, sendo este último o mais difícil de superar. O indivíduo é tão incapaz de superar o individualismo como uma pessoa é incapaz de fugir da sua própria sombra.

É precisamente nesta batalha que uma inteligente e total submissão para com uma autêntica orientação e autoridade tradicional se tornam fundamentais, sem elas a tarefa de dissolver todas as coagulações da alma produzidas pelos venenos do egotismo e individualismo seria virtualmente impossível. Esta alteração alquímica a efectuar na alma, esta solve et coagula, passa assim pela “dissolução” dos nós subjectivos e individualistas, e a fixação dos elementos da verdade, obtidos por meios que são objectivos e supra-individuais.

O orgulho é um dos obstáculos principais da vida espiritual, o sentido ilusório de auto-suficiência que é a raiz de todo o fracasso de nos transcendermos. A negação da necessidade de recorrer e abraçar os meios oferecidos pelas tradições reveladas é uma expressão – explícita ou implícita – do individualismo.

Estas ideias devem ser assimiladas em profundidade, tornando-se parte do nosso ser, para que as suas verdades supra-formais se possam tornar “realidade”. O total e activo compromisso com uma disciplina contemplativa no seio de uma tradição revelada é inequivocamente o suporte mais efectivo para esta assimilação.

Finalmente, é essencialmente a oração que nos torna receptivos para a pureza da vida divina; para a presença sagrada à luz da qual todas as imperfeições da alma se tornam aparentes e pelas graças da qual elas são ultrapassadas.

A seguinte passagem de Schuon com que o autor termina o seu artigo, expressa a intenção fundamental que orienta o discurso dos perenialistas e que tão brilhantemente Reza Shah-Kazemi descreveu neste seu trabalho:

“Todas as grandes experiências espirituais concordam neste ponto: não existe medida comum entre os meios postos em operação e o resultado. “Com o homem isto é impossível, mas com Deus todas as coisas são possíveis”, diz o Evangelho. De facto, o que separa o homem da Realidade divina é a mais ténue das barreiras: Deus está infinitamente perto do homem mas o homem está infinitamente longe de Deus. Esta barreira é uma montanha para o homem; o homem está perante uma montanha que terá de ser removida com as suas próprias mãos. Ele escava a terra em vão, a montanha mantém-se; no entanto, se o homem avança sem escavar, em nome de Deus, a montanha desaparece. Ela nunca existiu.”

Espírito Índio

"Não pertubes nenhum homem sobre a sua religião - respeita-o na sua visão do Grande Espírito, e exige dele o mesmo respeito com a nossa. Trata com respeito as coisas que ele considera sagradas. Não forces a tua religião a ninguém".

Wabasha e Red Jacket,
Seneca

Retirado e traduzido de “Indian Spirit”, editado por Michael Oren Fitzgerald & Judith Fitzgerald. Publicado por World Wisdom, Inc., 2006.


Black Bird - Oglala Lakota

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Esoterismo [2]

Continuamos com as palavras de Frithjof Schuon sobre significado da palavra esoterismo.

***

O esoterismo é aquilo que desvenda a relatividade de algo aparentemente absoluto ou o absoluto de algo aparentemente relativo. Visto do alto, o carácter de absoluto de uma dada forma revela os seus limites, enquanto que a contingência existencial de um determinado fenómeno revela, pelo contrário, o carácter de absoluto da sua essência, de uma forma tal em que um único elemento sagrado, depois de perder o carácter formal de absoluto que lhe é atribuído pela perspectiva exotérica, assume um novo carácter de absoluto, ou mais correctamente, revela-o, nomeadamente o do arquétipo que manifesta. O Evangelho aparenta ser absoluto enquanto se impõe aos Cristãos como a única palavra de Deus; mas a visão esotérica das coisas permite-nos, por um lado, descobrir os limites deste totalitarismo e, por outro lado, discernir neste mesmo Evangelho o carácter absoluto da Palavra Divina como tal, a palavra a partir da qual todas as Revelações derivam. [Frithjof Schuon - Logic and Transcendence, The Problem of Qualifications]


O esoterismo pode ser entendido como a “religião da inteligência”: isto significa que este opera com o intelecto – e não apenas com o sentimento e a vontade – e que, consequentemente, o seu conteúdo é tudo o que a inteligência pode alcançar, e que apenas ela pode alcançar.* O “sujeito” do esoterismo é o Intelecto e o seu “objecto” é, ipso facto, a Verdade total, nomeadamente – expressa em termos Vedânticos – a doutrina de Atma e Maya; e aquele que diz Atma e Maya, diz Jnana, conhecimento directo, intuição intelectual.
(* Está longe da verdade que todo o esoterismo histórico é esoterismo puro; uma exegese colorida por um sistema confessional ou totalmente envolvido num misticismo subjectivo está longe de uma verdadeira gnose. Por outro lado, está longe de ser o caso de que tudo o que é colocado na categoria de esoterismo o seja na realidade; acontece demasiadas vezes que diversos autores, ao abordar este conceito, não façam a devida distinção entre o que é genuíno e o que é falso, entre a verdade e o erro, em consonância com os dois pecados do nosso tempo, os quais são a substituição da inteligência pela psicologia e a confusão entre o psíquico e o espiritual.) [Frithjof Schuon - To Have a Center, Intelligence and Character]

Reza Shah-Kazemi

Reza Shah-Kazemi (Ph.D. em Religião Comparada na Universidade de Kent) é investigador auxiliar no Instituto de Estudos Islâmicos em Londres.

É o autor do livro “Paths to Transcendence: According to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart”. Shah-Kazemi contribuiu ainda para as seguintes obras: “Paths to the Heart”, “Islam, Fundamentalism, and the Betrayal of Tradition: Essays by Western Muslim Scholars”, sendo ainda o autor do ensaio: A Sacred Conception of Justice: Imam ‘Ali’s Letter to Malik al-Ashtar, incluído na obra "The Sacred Foundations of Justice in Islam".


Mais informação:

The Institute of Ismaili Studies


Publicações no “Sabedoria Perene”:

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Knowledge and the Sacred

Este livro é sem dúvida uma das obras fundamentais dedicadas à exposição e análise das tradições sagradas e da própria Tradição. A magistralidade desta obra levou Huston Smith, um dos mais prestigiados autores ligados ao estudo das religiões do mundo, a escrever as seguintes palavras: “Em relação ao livro em análise, se o seu autor é um fenómeno, este seu livro é um evento. (…) Historiadores intelectuais irão no futuro considerar esta obra comparável com a tradução para Latim de Aristóteles por William of Moerbeke no século XIII, a de Platão do séc. XV por Marsiglio Ficino ou os Ensaios sobre Budismo Zen de D.T. Suzuki em 1927, sendo um marco de uma nova fase de compreensão multi-cultural”.

Esta obra de Seyyed Hossein Nasr resulta das lições dadas na Universidade de Edimburgo, tendo sido o primeiro não Ocidental a ser convidado para leccionar as prestigiadas Gifford Lectures naquela Universidade desde que as mesmas foram instituídas em 1889.

Neste trabalho, Nasr procura ressuscitar a qualidade sagrada do conhecimento e reavivar a verdadeira tradição intelectual do Ocidente com o auxílio das tradições do Oriente ainda vivas. O livro está dividido em dez capítulos, cada um deles verdadeiras obras-primas:

1. Conhecimento e a sua Dessacralização
2. O que é a Tradição
3. A redescoberta do Sagrado: O reavivar da Tradição
4. Scientia Sacra
5. Homem, Pontífice e Prometeico
6. O Cosmos como Teofania
7. Eternidade e a Ordem Temporal
8. Arte Tradicional como Fonte de Conhecimento e Graça
9. Conhecimento Principial e a Multiplicidade de Formas Sagradas
10. Conhecimento do Sagrado como Entrega

Algumas das publicações no “Sabedoria Perene” foram extraídas deste magnífico livro, sendo certo que muitas mais surgirão, sendo as palavras de Nasr uma verdadeira fonte de conhecimento e inspiração.