terça-feira, 13 de maio de 2008

Remembering in a World of Forgetting

De férias e em viagem pelo país onde a saudação nacional “namaste” significa literalmente “saúdo o divino dentro de ti”, o Nepal, decidi levar um livro que não exigisse grandes períodos de concentração, dado que a probabilidade deles existirem era muito reduzida. A escolha pendeu para um dos últimos livros publicados pela World Wisdom, um trabalho de edição elaborado por Mateus Soares de Azevedo e Alberto Vasconcellos Queiroz que reúne um conjunto de 19 curtos ensaios, 9 deles nunca antes publicados, escritos por uma das grandes vozes da Tradição e do Perenialismo, William Stoddart. Este autor é conhecido pela sua esplêndida capacidade de síntese e por ser um dos autores perenialistas com uma linguagem mais acessível, pelo que a escolha parecia ser acertada.

O livro, Remembering in a World of Forgetting – Thoughts on Tradition and Postmodernism, tal como refere um dos editores, Soares de Azevedo, confronta na sua globalidade o facto de que a verdade sobre Deus (o Absoluto), o homem (o relativo) e a salvação (ponte que o Absoluto abre ao relativo) foi totalmente esquecida, vivendo o mundo actual em “esquecimento”, sendo fundamental “relembrar”.

Aquilo que a nossa sociedade actual “esqueceu” e aquilo que é urgente que ela “relembre” são as respostas que Stoddart nos oferece ao longo dos seus ensaios, alertando-nos para a nossa responsabilidade para agir, sendo a primeira obrigação a de relembrar as verdades que se encontram inscritas nos nossos corações. Pois como diz uma antiga tradição Oriental: “Deus está mais próximo de nós que a nossa própria veia jugular”.

Esta obra encontra-se dividida em três partes. A primeira lida com o “esquecimento”, enquanto que as duas restantes com a teoria e a prática do “relembrar”:

I – Forgetting – DECLINE or what we have forgotten
1. Progress or the kali-Yuga?
2. Meaning behind the Absurd
3. Traditional and Modern Civilization
4. Ideologiacal Obstacles to the Spiritual Life
5. Religious and Ethnic Conflict
6. The Flaws of the Evolutionist Hypothesis
7. The Flaws of Democracy

II – Remembering (theory) – TRUTH or what we have to know
8. What is Religion?
9. What is Orthodoxy?
10. What is the Intelect?
11. Frithjof Schuon and the Perennialist School
12. The Masculine and the Feminine
13. The Role of Culture in Education

III – Remembering (practise) – SPIRITUALITY or what we have to do
14. What is Mysticism?
15. The Role of Obedience in Spirituality
16. Spirituality in Islam: Aspects of Islamic Esoterism
17. Spirituality in Christianity: A Visit to Mount Athos
18. Spirituality in Hinduism: A Visit to the Jagadguru
19. Spirituality in Budism: The Meaning of Tantra


A escolha revelou-se acertada pois foi possível encaixar os excelentes ensaios de Stoddart nos curtos tempos livres que surgiam, aliando a beleza das paisagens com a beleza das verdades expostas brilhantemente pelo autor. Aqui fica um exemplo dessa beleza e a promessa de publicar brevemente alguns trechos destes ensaios.

sábado, 26 de abril de 2008

A Palavra Imutável de Deus

Deus ainda fala hoje como falava aos nossos antepassados em dias partidos, antes de existirem tanto directores espirituais como métodos de direcção. A vida espiritual era então uma questão de comunicação imediata com Deus. Não havia sido reduzida a uma arte nem a uma grandiosa e detalhada orientação provida com prósperas regras, instruções e máximas. Isto pode muito bem ser necessário hoje. Mas não o era naqueles dias primeiros, quando as pessoas eram mais directas e não sofisticadas. Tudo o que sabiam era que cada momento importava a sua tarefa designada, a ser cumprida fielmente. Isto era suficiente para as mentes espiritualizadas daqueles tempos. Toda a atenção estava focada no presente, minuto a minuto; qual ponteiro de um relógio que marca os minutos de cada hora cobrindo a distância ao longo da qual tem que viajar. Constantemente inspirado por impulsão divina, encontravam-se imperceptivelmente direccionados no sentido da próxima tarefa que Deus lhes havia preparado em cada hora do dia.

Selecção do texto do padre jesuíta Jean-Pierre de Caussade (1675-1751) “The Sacrament of the Present Moment”, traduzido da republicação deste texto na edição da World Wisdom: For God’s Greater Glory – Gems of Jesuit Spirituality from Louis Lallement, Jean-Pierre de Caussade, and Claude de la Colombière (2006).

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ritos e símbolos

O texto seguinte é uma tradução de um curto texto sobre a ligação entre os rituais e os símbolos escrito por René Guénon e publicado em 1970 na Studies of Comparative Religion. A versão original e anotada pode ser lida em: Studies in Comparative Religion, Vol. 4, No. 3. (Summer, 1970).

***


Todos os elementos constituintes de um rito encerram em si um sentido simbólico, enquanto que o símbolo, por outro lado, na sua forma mais comum como suporte à meditação, tem a função de produzir resultados semelhantes aos obtidos através dos ritos. Podemos ainda acrescentar que os ritos e os símbolos nas suas formas verdadeiramente tradicionais (e aqueles que não o são não são mais do que falsificações ou mesmo paródias) têm origens “não-humanas”, o que resulta na impossibilidade de lhes atribuir um autor ou inventor, não por razões de ignorância como alguns historiadores profanos afirmam(1), mas como consequência natural da sua origem, a qual apenas poderá ser questionada por pessoas totalmente ignorantes da verdadeira natureza da tradição e de tudo aquilo que a ela está integralmente ligado, tais como os ritos e os símbolos.

Se a identidade fundamental dos ritos e dos símbolos for examinada em maior detalhe, é possível verificar que, em primeiro lugar, um símbolo, entendido como uma figuração gráfica, não é mais do que a fixação de um gesto ritual(2). De facto, acontece frequentemente que a representação de um símbolo, para ser adequada, deve ser executada sobre determinadas condições, as quais lhe oferecem todas as características de um verdadeiro rito. Um perfeito exemplo desta ocorrência a um nível inferior, o da magia (a qual não deixa de ser uma ciência tradicional), é ilustrado na preparação de figuras talismã; e num plano que mais nos interessa, o desenho de “yantras” na tradição hindu constitui um exemplo não menos relevante(3).

Mas isto não é tudo, pois a referida concepção do símbolo é demasiado limitada. Na realidade, existem não só símbolos figurativos ou visuais mas também símbolos auditivos. Esta divisão em duas categorias fundamentais apresenta na doutrina hindu as designações de “yantra” e de “mantra”, tal como referido numa outra situação(4). A sua respectiva predominância caracteriza dois tipos diferentes de ritos, relacionados na sua origem com as tradições dos povos sedentários no caso dos símbolos visuais e com os povos nómadas no caso dos auditivos. Esta separação não deve, obviamente, ser entendida com absoluta (razão pela qual se utilizou a palavra predominância), dado que todas as combinações das duas são possíveis como resultado das múltiplas adaptações ocorrentes com a passagem do tempo, as quais deram origem às várias formas tradicionais que chegaram até nós.

Estas considerações mostram claramente a ligação que existe, de uma forma perfeitamente geral, entre ritos e símbolos, a qual é no caso dos “mantras” imediatamente visível. De facto, enquanto os símbolos visuais, depois de representados, mantêm-se ou podem ser mantidos num estado permanente (razão pela qual falámos de um gesto fixo), o símbolo auditivo, por outro lado, apenas é manifestado durante a realização do rito. Esta diferença é, no entanto, atenuada quando é estabelecida uma correspondência entre o símbolo visual e o auditivo, tal como na escrita, o que representa uma verdadeira fixação do som (não o som propriamente dito mas a possibilidade permanente de o reproduzir); e quase seria desnecessário referir que toda a escrita, pelo menos na sua origem, é essencialmente uma figuração simbólica.

O mesmo é válido para a fala, cujo carácter simbólico não é menos inerente à sua natureza. É perfeitamente claro que uma palavra, qualquer que ela seja, nunca poderá ser mais do que um símbolo da ideia que procura expressar. Assim, toda a linguagem, escrita ou falada, é um corpo de símbolos, razão pela qual, apesar de todas as teorias “naturalistas” inventadas para a explicar, ela nunca poderá ser mais do que uma criação humana relativamente artificial ou um mero produto das capacidades individuais do homem.(5)

Entre os símbolos visuais existe também um exemplo de “instantaneidade” significativamente comparável com os símbolos sonoros: este é o caso dos símbolos que não são representados de forma permanente, mas que são apenas utilizados como sinais em ritos iniciáticos (particularmente os “sinais de reconhecimento” referidos em artigos anteriores)(6) e em ritos religiosos mais correntes (o “sinal da cruz” é um exemplo amplamente reconhecido) onde o símbolo se confunde verdadeiramente com o próprio gesto ritual.(7) Em ambos os casos o símbolo “gráfico” é, repetimos, a própria fixação de um gesto ou de um movimento (o movimento ou série de movimentos necessária para a sua representação) e, no caso de símbolos sonoros, o movimento dos órgãos vocais necessário para a sua produção (seja no caso de proferir palavras correntes ou sons musicais) é tanto um gesto como o são todos os outros tipos de movimento corporal, do qual o símbolo nunca poderá ser completamente isolado.(8)

Assim, a noção de gesto nesta forma mais geral (a qual está mais de acordo com o real significado da palavra do que o uso restrito permitido pelo seu uso actual), reúne em si todos estes diferentes casos e permite-nos discernir o seu princípio comum, e este facto tem um significado profundo no domínio metafísico, sobre o qual não nos podemos agora debruçar.

Neste momento, facilmente se compreende que todo o rito é literalmente constituído por um conjunto de símbolos; e estes incluem não só os objectos utilizados ou as figuras representadas, mas também os gestos afectados e as palavras pronunciadas (as últimas, e de acordo com o que dissemos, não sendo mais do que um caso particular dos primeiros) – em resumo, todos, e sem excepção, os elementos de um rito. E, desta forma, todos os elementos têm o valor de símbolos pela sua própria natureza e não virtude de qualquer significado adicional que se possa ter fixado através de circunstâncias exteriores e não inerentes aos mesmos. Insistindo nestes conceitos, pode ser afirmado que os ritos são símbolos “postos em acção”, que todo o gesto ritual é um símbolo “actuado”; esta é apenas outra forma de dizer a mesma coisa, pondo em evidência a característica de um rito que, como toda a acção, é algo que é necessariamente realizado no tempo(9), enquanto que o símbolo propriamente dito pode ser considerado intemporal. Neste sentido, é possível falar de um certa proeminência dos símbolos em relação aos ritos; mas os ritos e os símbolos são fundamentalmente dois aspectos de uma única realidade, e isto não é mais do que a “correspondência” que une todos os níveis da Existência universal, de tal forma que através deles o nosso estado humano pode entrar em comunicação com estados do ser mais elevados.

NOTAS

1 – Se por desejo de uma melhor solução eles não são levados a considerá-los como um produto de um tipo de “consciência colectiva” que, mesmo se existisse, seria de qualquer forma incapaz de produzir coisas de uma ordem transcendente, tais como estes.
Em relação a este aspecto aquilo que dissemos a respeito do designado folclore no nosso artigo sobre o Santo Graal pode ser referido (ver Studies in Comparative Religion, Winter 1969, pp. 2-3).
2 – Estas considerações relacionam-se directamente com aquilo que designámos por “teoria dos gestos” e a que referimos em variadas ocasiões sem, no entanto, ter sido possível tratar o assunto até à presente situação.
3 – O “quadro” das Lojas na antiga maçonaria, o qual era um verdadeiro “yantra”, pode ser ligado a este. Os ritos associados à construção de monumentos para fins tradicionais podem também ser citados como um exemplo, pois este tipo de monumentos tem um carácter simbólico.
4 – Ver o capítulo sobre “Caim e Abel” no Reino da Quantidade e os Sinais do Tempo.
5 – Desnecessário será dizer que a distinção entre “línguas sagradas” e “línguas profanas” só surge secundariamente; com as línguas, tal como nas artes e nas ciências, o seu carácter profano é apenas o resultado da sua degeneração, a qual pode surgir mais cedo e mais facilmente no caso das línguas em resultado do seu uso mais geral e corrente. Ver La Science des Lettres em Symboles de la Science sacrée.
6 – Sons que servem o mesmo propósito, como por exemplo palavras passe, caem naturalmente na categoria de símbolos sonoros.
7 – Uma espécie de caso intermédio é aquele das figuras simbólicas que são traçadas no início de um rito ou numa fase preparatória para este, e apagadas assim que estiver terminado; este é o caso de muitas “yantras”, e costumava ser assim com o “quadro” das Lojas Maçónicas. A prática não representa uma mera precaução contra a curiosidade profana, o que como explicação é demasiado simplista; deverá ser entendida em primeiro lugar como uma consequência imediata da íntima ligação entre os símbolos e os ritos, de tal forma que os primeiros não têm causa para subsistência visível sem os últimos.
8 – Note-se especialmente em relação a este aspecto o papel preconizado nos ritos dos gestos designados na tradição hindu por “mudrās”, os quais formam uma verdadeira linguagem de movimentos e atitudes; o “apertar de mãos” usado como “meio de reconhecimento” em organizações iniciáticas no Ocidente e no Oriente é, na verdade, um caso especial de “mudrās”.
9 – Em sânscrito a palavra “karma”, cujo primeiro significado é o de “acção” em geral, é também utilizada num sentido “técnico” para significar “acção ritual” em particular; aquilo que expressa directamente é, nesse sentido, as mesmas características do rito que estamos aqui a referir.

domingo, 9 de março de 2008

O “ponto de partida” de René Guénon - Parte I

Preâmbulo

O texto apresentado de seguida corresponde à primeira publicação de um trabalho em desenvolvimento que será publicado periodicamente neste espaço. Este consiste num resumo de algumas das principais ideias presentes em dois dos primeiros trabalhos de René Guénon e que se considerou ajustado designar por “ponto de partida”.

As obras consultadas integram a colecção integral da obra de René Guénon publicada recente pela Sophia Perennis, editora que disponibilizou pela primeira vez em língua inglesa e de uma forma sistematizada a obra completa do autor. As traduções para a língua inglesa das obras em análise neste estudo foram efectuadas por outros dois grandes pensadores e perenialistas, Marco Pallis e Martin Lings, ambos importantes tradicionalistas.

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Parte I – Questões preliminares
Introdução

O presente trabalho visa apresentar um resumo do que consideramos ser um ponto de partida para o estudo da Tradição. Este designado “ponto de partida”, estabelecido por René Guénon em dois dos seus trabalhos iniciais, viria a servir como introdução e criação das bases fundamentais para a adequada compreensão dos seus trabalhos subsequentes, onde expôs longamente os aspectos mais profundos de diversas doutrinas metafísicas.

Aqueles trabalhos iniciais foram publicados pela primeira vez na década de trinta, nomeadamente, o seu primeiro livro “Introdução ao estudo das doutrinas Hindu”, publicado em 1921 quando tinha a idade de 35 anos, e o seu quarto livro “Este & Oeste” publicado três anos mais tarde. Para os desconhecedores da obra deste autor, refira-se que no intervalo entre a publicação destas duas obras de referência, Guénon publicou outras duas extensas obras denunciando os erros da escola teosófica e do espiritismo (“Teosofia: História de uma pseudo-religião” e “O erro espiritista”).

Em relação à primeira obra referida salienta-se que serão abordadas apenas as suas duas primeiras partes, debruçando-se as restantes à exposição das doutrinas da tradição Hindu e à sua interpretação pelos ocidentais, não cabendo estes temas no âmbito do presente texto.

Assim, e seguindo a estrutura dos seus trabalhos, aborda-se numa primeira parte um conjunto de questões que, na sua opinião, moldaram o desenvolvimento da actual mentalidade ocidental, analisando-se na segunda parte os principais aspectos do pensamento oriental, desenvolvendo-se nesta altura conceitos fundamentais como os de Tradição, Metafísica, Teologia, Simbolismo, Antropormofismo, Pensamento Metafísico e Pensamento Filosófico, Esoterismo, Exoterismo e Realização Metafísica.

Na terceira parte, penetrando na sua segunda obra em análise, serão discutidos em profundidade um conjunto de aspectos a que o autor designou de “ilusões ocidentais”, concluindo na quarta parte com o estudo das possibilidades existentes para a criação de ligações entre o Oriente e o Ocidente.

Interessa salientar um aspecto de extrema importância e que deverá estar sempre presente na mente dos leitores, o facto das obras em análise terem sido escritas há mais de oitenta anos, tendo a face do mundo sofrido importantes modificações desde essa altura. Efectivamente, assistiu-se nas últimas décadas a uma vertiginosa contaminação da cultura do oriente pela cultura ocidental, quer no Próximo e Médio Oriente, quer mesmo no Extremo Oriente, onde a China revolucionária quase destruiu na totalidade da sua própria tradição, para citar apenas um exemplo.

Estes acontecimentos, apesar de não corresponderem às piores suspeitas de Guénon em relação ao estado em que encontraríamos o mundo actual, revelam o carácter profético das suas duras críticas ao mundo moderno, verificando-se o catastrófico alastrar da deterioração do Intelecto humano a todas as civilizações que partilham o planeta.

Este, Oeste e a sua divergência

Comecemos por esclarecer como entende o autor as denominações de Este e Oeste, mais propriamente, as de Oriente e Ocidente. De uma forma geral, Guénon considera o Oriente como essencialmente a Ásia, e associa o Ocidente à Europa, mais concretamente à mentalidade Europeia ou Ocidental. No entanto, Guénon não confina a mentalidade Europeia ao espaço físico da Europa como continente; na realidade, o conceito de uma mentalidade da raça Europeia é considerado como um todo, independentemente da parte do mundo em que a mesma se possa ter fixado, como por exemplo na América ou na Austrália.

A designação de raça não poderá, no entanto, ser entendida como uma raça primária na forma vulgarmente utilizada, sendo inquestionável o facto do povo Europeu ser constituído por uma grande diversidade de raças e etnias perfeitamente identificáveis. Ainda assim, é da mesma forma verdade que existem suficientes características comuns para permitir uma clara distinção deste povo dos restantes, e é neste contexto que o autor utiliza a designação de raça Europeia. Esta é, naturalmente, menos estável e fixa do que uma raça pura e é por essa razão muito propensa para absorver ou ser absorvida por características étnicas de outras raças, Contudo, esta raça Europeia desenvolveu uma mentalidade muito própria ao longo da história, relegando claramente as diferenças existentes para um plano secundário.

Adiantando algumas das características que distinguem a mentalidade Europeia das restantes, Guénon aponta a Grécia e, mais especificamente, as influências Greco‑romanas, como a principal contribuição para a sua formação. Refere o autor que a influência grega se materializou sobretudo na ciência e na filosofia, enquanto que a influência romana se manifestou de uma forma mais social do que intelectual, em especial nas noções de estado, de lei e das instituições. Do ponto de vista religioso, há ainda que referir a importância da influência Judaica.

Como contraste à mentalidade Europeia característica do Ocidente, no Oriente é impossível falar de uma raça Oriental ou Asiática, mesmo admitindo todas as reservas consideradas para a possibilidade de aceitar o conceito de uma raça Europeia. Aqui é possível distinguir várias raças diferentes mais ou menos puras, as quais apresentam características perfeitamente definidas e constituem civilizações notavelmente distintas.

Numa primeira e imediata análise, sobressai a desproporcionalidade entre as entidades designadas por Oriente e Ocidente, já que não existe qualquer equivalência nem simetria entre as duas. Guénon equipara esta diferença à relação geográfica existente entre a Europa e a Ásia, constituindo a primeira um simples prolongamento da última, considerando, da mesma forma, que o Ocidente é de facto uma ramificação que cresceu a partir do tronco principal, pelo que constitui uma divergência.

Para entender esta divergência, é necessário começar por constatar que as diferenças crescentes entre o Ocidente e o Oriente se deveram exclusivamente a alterações ocorridas no Ocidente, mantendo-se o Oriente relativamente imutável. De facto, foram os Europeus que, desde do final do séc. XVII e principio do séc. XVIII, começaram a professar o “progresso” e o “evolucionismo” e passaram a considerar esta imutabilidade das civilizações orientais como um sinal de inferioridade, quando deveria ser, na opinião de Guénon e na nossa, considerada como um sinal de equilíbrio. Assim, pretendendo-se representar num diagrama a divergência em análise, será incorrecto considerar duas linhas afastando-se de um eixo em direcções opostas. De uma forma mais correcta, o Oriente seria o eixo, enquanto que o Ocidente seria representado como uma linha partindo desse mesmo eixo e afastando-se continuamente, tal como na analogia do ramo que nasce do tronco de uma árvore.

Esta afirmação pode ser atestada não só pelo facto da civilização ocidental, tal como conhecemos, retirar grande parte da sua intelectualidade do conhecimento oriental, mas também admitindo, ao contrário do normalmente assumido, que a própria civilização Grega deve grande parte da sua cultura ao Egipto, à Fenícia, à Caldeia, à Pérsia e mesmo à Índia. Guénon argumenta ainda que, perante a evidência de que o “grande” nunca pode ser gerado a partir do “pequeno”, o facto de uma civilização tomar de empréstimo aspectos de outras revela inevitavelmente a categoria à qual cada uma delas pertence.

No entanto, recuperando a analogia utilizada para ilustrar a divergência do Ocidente a partir do Oriente, é fundamental apontar os erros inerentes a qualquer esquematização da realidade, nomeadamente através da representação de um contínuo aumento da divergência desde a antiguidade até ao presente. Na realidade, refere o autor que têm existido abrandamentos nesta divergência e importantes influências do Oriente no Ocidente, tais como os do período Alexandrino, a contribuição dos árabes para o pensamento europeu durante a Idade Média e as influências proveniente da Índia. Por outro lado, o autor salienta também que a divergência ganhou novo fulgor com a Renascença, verificando-se que o aclamado “renascer” trouxe com ele a morte de muitas outras coisas, sobretudo a nível intelectual, culminando com a Revolução Francesa e a rejeição de toda a tradição.

Civilizações e suas relações

Abordemos de seguida um aspecto essencial presente nos capítulos introdutórios do primeiro trabalho de Guénon e ao qual atribuiu a designação de “erro clássico”, consistindo este na predisposição para atribuir a origem de toda a civilização aos Gregos e aos Romanos, considerando o autor que a causa para esta atitude só poderá ser o resultado da sua civilização não remontar muito para além desses povos, sendo grande parte deles derivada. Adicionalmente, a ideia da existência de uma civilização num sentido absoluto contribui para este equívoco, ideia esta agravada pela extrema dificuldade que os ocidentais têm em aceitar a existência de outras civilizações totalmente diferentes e muito mais antigas. Por conseguinte, a tão aclamada “evolução da civilização”, não é mais do que o desenvolvimento de uma civilização em particular a partir da sua origem relativamente recente.

A civilização grega, tal como eles próprios o admitiam, foi largamente influenciada pelos Orientais, sendo a sua grande originalidade a sua forma de expressão, sobretudo a materializada na sua capacidade dialéctica. No entanto, a sua aptidão para examinar cada questão interminavelmente, sobre todos os aspectos e em grande detalhe, obtendo conclusões relativamente insignificantes, revelam uma certa “miopia intelectual”, a qual viria a ser uma das características dos ocidentais modernos.

Na realidade, a inovação do povo grego constituiu uma degeneração e resultou numa individualização dos conceitos que provovou a substituição do puramente intelectual pelo racional, e do metafísico pelo científico e filosófico. Pouca importância se deve atribuir ao facto de os Gregos poderem ter sido mais bem sucedidos do que outros na adaptação de certas formas de conhecimento para uso prático, ou se deduziram consequências deste género enquanto outros o não fizeram; a verdade é que eles assumiram uma forma menos pura e desinteressada do conhecimento. A sua inclinação para a “prática”, no sentido mais geral do termo, acabou por marcar o destino da civilização ocidental, sendo esta inclinação absolutamente predominante nos tempos modernos.

Regra geral, pode-se afirmar que os Ocidentais manifestam uma muito reduzida aptidão natural para a metafísica, facto este facilmente verificável nas próprias línguas ocidentais. Por outro lado, os Orientais mostram um forte desinteresse pelas aplicações do conhecimento, cultivando sobretudo o conhecimento dos princípios universais. Estas diferenças traduzem‑se na separação entre o ‘conhecimento’ Oriental e a ‘pesquisa’ Ocidental.

Assim, o facto dos Orientais nunca se terem dedicado a certos ramos específicos da ciência não é, de forma alguma, um sinal de inferioridade mas, pelo contrário, a consequência da adopção de uma perspectiva intelectual. São precisamente os modos diferentes como a actividade mental humana é utilizada que caracterizam as diferentes civilizações, indicando a direcção escolhida para o seu desenvolvimento. Aqui reside a explicação para a ilusão do progresso entre aqueles que, conhecendo apenas um tipo de civilização, não apresentam a capacidade para conceber uma forma de desenvolvimento diferente da sua, acreditando ser a sua a única possível e não sendo capazes de perceber que um desenvolvimento num dos sentidos pode ser largamente contrabalançado por um retrocesso no outro.

Dificuldades de cronologia e linguística

Passemos agora a uma breve análise de algumas das dificuldades associadas à compreensão das civilizações Orientais. Uma dessas dificuldades á a relacionada com questões cronológicas, as quais estão entre as mais complexas de resolver, alertando Guénon para a tendência dos seus contemporâneos em lhes atribuir importância excessiva e de as procurarem resolver recorrendo aos métodos usuais.

Alerta-nos Guénon que a reclamação de originalidade intelectual, mesmo entre os Ocidentais, é uma tendência bastante moderna, desconhecida, por exemplo, durante a Idade Média, quando a ideias puras e as doutrinas tradicionais não eram a propriedade de um qualquer indivíduo e as personalidades dos seus expositores ou intérpretes não tinha a menor importância. Adicionalmente, em alguns casos, como por exemplo na Índia, o sistema cronológico utilizado, ou algo que possamos considerar próximo de tal, era baseado em números simbólicos, os quais não podem ser interpretados como o número de anos. Estes não representam períodos históricos mas períodos cósmicos, muito semelhante à cronologia bíblica.

Muitas vezes desprezado é ainda o facto de que a datação de um documento descoberto, independente da forma como é obtida, não constitui por si mesmo uma prova de que esse documento não é muito mais antigo. Não só poderá ocorrer uma descoberta posterior de versões mais antigas como, na realidade, é pouco provável que qualquer civilização que tenha sobrevivido até ao nosso tempo tenha deixado textos abandonados para serem descobertos pelos nossos arqueólogos, como acontece com civilizações extintas. Por outro lado, no caso das civilizações já desaparecidas, o mais razoável será admitir que grande parte dos documentos se tenham perdido pelas mais diversas razões e que tenham sido substituídos ao longo do tempo e à medida que iam envelhecendo, sendo substituídos por outros mais recentes.

Outro aspecto de extrema importância muitas vezes esquecido pelos adeptos do “método histórico” prende-se com o facto dos ensinamentos orais precederem, em todo a parte, os escritos, e que o primeiro dos métodos de ensino foi muito provavelmente o único durante longos períodos de tempo. De um modo geral, um texto tradicional não é mais do que a documentação, numa data relativamente recente, de um ensinamento originalmente transmitido oralmente e do qual raramente o próprio autor pode ser identificado.

O último aspecto focado por Guénon, apesar de não ser propriamente cronológico, está relacionado com as questões em análise. Este consiste nas dificuldades em localizar as antigas civilizações, não só em termos temporais, mas também espaciais, dificuldades estas associadas a movimentos migratórios realizados em diferentes períodos, nada nos garantindo que os textos dos actuais descendentes das antigas civilizações tenham a sua origem nos locais onde estes agora vivem. Existem vários casos com evidências deste tipo, ainda que seja o hábito dos nossos investigadores não referir as dúvidas associadas às suas teorias.

Abandonando as questões cronológicas, passemos à análise das dificuldades linguísticas, considerada por Guénon como a mais séria das relacionadas com a correcta interpretação das doutrinas Orientais e que está directamente associada aos diferentes modos de pensamento. De facto, sendo o objectivo da linguagem o expressar os modos de pensamento, quando se procura expressar certas ideias ou conceitos em línguas ocidentais, as quais não estão dotadas de termos adequados e são, sobretudo, pouco habilitadas para expressar conceitos metafísicos, as dificuldades tornam-se praticamente incontornáveis.

Qualquer expressão de um pensamento é intrinsecamente imperfeita pois limita a sua concepção ao enclausuramento numa forma definida, a qual nunca poderá ser completamente adequada, tal como uma concepção ultrapassa sempre em conteúdo qualquer sua expressão. Isto ainda se aplica com ainda mais fundamento quando se tratam de concepções metafísicas, as quais requerem uma devida abertura para o inexprimível e têm na sua própria essência a abertura da porta para ilimitadas possibilidades.

Assim, a única possibilidade de passar certos conceitos de uma linguagem para outra menos adequada será a compreensão do conceito na sua expressão original, através da identificação, na medida do possível, com o modo de pensamento original, recorrendo posteriormente à sua interpretação, o qual, para ser inteligível, deverá ser um comentário e não uma tradução pura e simples. Desta forma, a real dificuldade reside na assimilação mental necessária para atingir este objectivo, sobretudo quando se tratam de ensinamentos que nos chegaram apenas de forma escrita ou simbólica, não acompanhados da tradição oral há muito perdida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

René Guénon

René Guénon (1886-1951) nasceu na cidade de Blois em França. É considerado como o homem que deu origem à escola de pensamento que viria a ser denominada de Tradicionalista, sendo os seus livros verdadeiros clássicos na sua área, continuando ainda hoje a ter um forte impacto nos meios intelectuais do Ocidente e Oriente.

O conteúdo do seu trabalho pode ser dividido em quatro temas principais: a doutrina metafísica, os princípios tradicionais, o simbolismo tradicional e a crítica do mundo moderno.

Para muitos, as suas análises foram o caminho mais efectivo a seguir para ver através das muitas pseudo-religiões que proliferaram no início do século xx. Os seus textos contribuíram para que muitas pessoas descobrissem que deveriam procurar caminhos iniciáticos verdadeiramente tradicionais, ajudando-as a discernir entre o Real e o ilusório.

René Guénon reintroduziu numa Europa cada vez mais secularizada e afastada das suas fundações espirituais tradicionais as certezas intelectuais da metafísica. Este feito foi conseguido na sua maior parte na sua grande obra “L'Homme et son devenir selon le Vêdânta”. A sua grande crítica ao mundo moderno foi desenvolvida ao longo de duas obras, “La crise du monde moderne” e “Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps”.

Guénon manteve correspondência ao longo de muitos anos com outros importantíssimos Tradicionalistas/Perenialistas, Ananda Coomaraswamy e Frithjuf Schuon.

René Guénon faleceu no Cairo, pátria adoptada dos seus últimos anos, em 1951.


Bibliografia:

Em Françês

Introduction générale à l'Étude des doctrines hindoues, Éditions Trédaniel, Paris, 1921
Le Théosophisme, histoire d'une pseudo-religion, Éditions Traditionnelles, Paris, 1921
L'Erreur spirite, Éditions Traditionnelles, Paris, 1923
Orient et Occident, Éditions Trédaniel, Paris, 1924
L'Ésotérisme de Dante, Éditions GALLIMARD, Paris, 1925
L'Homme et son devenir selon le Vêdânta, Éditions Traditionnelles, Paris, 1925
La crise du monde moderne, Éditions GALLIMARD, Paris, 1927
Le Roi du Monde, Éditions GALLIMARD, 1927, Paris
Autorité spirituelle et pouvoir temporel, Éditions Trédaniel, Paris, 1929
Saint Bernard, Éditions Traditionnelles, Paris, 1929
Le Symbolisme de la Croix, Éditions Trédaniel, Paris, 1931
Les États multiples de l'Etre, Éditions Trédaniel, Paris, 1932
La Métaphysique orientale, Éditions Traditionnelles, Paris, 1939,
Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, Éditions GALLIMARD, Paris, 1945
La Grande Triade, Éditions GALLIMARD, Paris, 1946
Les Principes du Calcul infinitésimal, Éditions GALLIMARD, Paris, 1946
Aperçus sur l'Initiation, Éditions Traditionnelles, Paris, 1946
Initiation et Réalisation spirituelle, Éditions Traditionnelles, Paris, 1952
Aperçus sur l'ésotérisme chrétien, Éditions Traditionnelles, Paris, 1954
Symboles de la Science sacrée, Éditions GALLIMARD, Paris, 1962
Études sur la franc-maçonnerie et le compagnonnage, vol.1, Éditions Traditionnelles, Paris, 1964,
Études sur la franc-maçonnerie et le compagnonnage, vol.2, Éditions Traditionnelles, Paris, 1965,
Études sur l'Hindouisme, Éditions Traditionnelles, Paris, 1967
Formes traditionnelles et cycles cosmiques, Éditions Gallimard, Paris, 1970
Aperçus sur l'ésotérisme islamique et le taoïsme, Éditions Gallimard, Paris, 1973
Mélanges, Éditions GALLIMARD, Paris, 1976
Comptes rendus, Éditions Traditionnelles, Paris, 1986
Articles et Comptes-Rendus (tome 1), Éditions Traditionnelles, Paris, 2002
Écrits pour REGNABIT, ARCHÉ, Paris, 1999
PSYCHOLOGIE Notes de cours de philosophie (1917-1918) attribuées à René Guénon, ARCHÉ, Paris, 2001

Em Inglês

East and West, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Crisis of the Modern World, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Esoterism of Dante, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Great Triad, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Initiation and Spiritual Realization, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Insights into Christian Esoterism, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Insights into Islamic Esoterism and Taoism, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Introduction to the Study of the Hindu Doctrines, Sophia Perennis, Hillsdale NY
King of the World, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Man and His Becoming According to the Vedanta, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Metaphysical Principles of the Infinitesimal Calculus, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Miscellanea, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Multiple States of the Being, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Perspectives on Initiation, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Reign of Quantity and the Signs of the Times, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Spiritist Fallacy, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Spiritual Authority and Temporal Power,Sophia Perennis, Hillsdale NY
Studies in Freemasonry and Compagnonnage, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Studies in Hinduism, Sophia Perennis, Hillsdale NY
The Symbolism of the Cross, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Symbols of Sacred Science, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Theosophy, the History of a Pseudo-Religion, Sophia Perennis, Hillsdale NY
Traditional Forms and Cosmic Cycles, Sophia Perennis, Hillsdale NY

Em Português

Crise do Mundo Moderno, tradução de F. Guedes Galvão. São Paulo, 1948. Martins Editor
Crise do Mundo Moderno, tradução de António Carlos Carvalho, 1977. Vega. Colecção Janus
Problemas sobre Iniciação, 1990. Adrião – Victor Manuel
Rei do Mundo, 1982. Edições 70. Colecção Esfinge. Minerva
Reino da Quantidade e os Sinais do Tempo, 1989. Dom Quixote. Colecção Tradição
A Grande Tríade, 1989. Editora Pensamento. São Paulo
A Metafísica Oriental, 1983. Speculum. São Paulo
Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus, 1989. Michel Veber. São Paulo
Símbolos da Ciência Sagrada, 1984. Editora Pensamento. São Paulo
Esoterismo de Dante e São Bernardo, tradução de António Carlos Carvalho, 1978. Editorial Vega
Oriente e Ocidente, 1992. Edição Particular. Tradução de Maria Helena L.S. Rieper. São Paulo Simbolismo da Cruz, 1996. Edição Particular. Tradução de Luís Augusto Bicalho Kehl. São Paulo
O Homem e seu Devir Segundo o Vedanta, 1996 Edição Particular. Tradução de Luís Augusto Bicalho Kehl. São Paulo


Biografias:

Paul Chacornac, The Simple Life of René Guénon
Robin Waterfield, René Guénon and the Future of the West


Mais informação:

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Sobre a simplicidade sagrada

Verdadeira simplicidade consiste em ter, como Deus, um pensamento único, e esse pensamento tem que ser agradar a Deus em todas as coisas. Os vícios opostos à simplicidade lançam-nos para um estado de multiplicidade. Estes vícios operam de três maneiras particulares.

1) No que se refere às nossas paixões; para as gratificar multiplicamos os nossos pensamentos e desejos, agindo não com o fito simples de honrar Deus, mas por outros motivos tantos. Logo saltam as nossas desconfianças, as nossas suspeições, dissimulações, encobrimentos, invenções subtis, precauções, refinamentos, distinções, etc.

2) No que se refere aos outros, sobre os quais temos os nossos julgamentos, interpretações, conjecturas, inquirições, questionamentos, etc.

3) No que se refere às reflexões sobre nós próprios, para a nossa própria satisfação: reflexões sobre o passado, sobre o presente, sobre o futuro; sobre as nossas boas obras, para tomarmos prazer nelas; sobre as nossas más obras, para escusá-las ou desperdiçar inúteis arrependimentos sobre elas; para formular resoluções vãs respeitantes ao futuro.

Tudo isto é contrário à verdadeira simplicidade; mas fechamos o portão a todas estas faltas, quando a mente está somente ocupada com o simples pensamento de agradar a Deus.

Trecho de “The Spiritual Teaching of Father Loius Lallement”, compilado pelos discípulos daquele padre jesuíta (1587-1635) em 1694 e recentemente republicados em mais uma edição da World Wisdom: For God’s Greater Glory – Gems of Jesuit Spirituality from Louis Lallement, Jean-Pierre de Caussade, and Claude de la Colombière (2006).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Sobre a tradução

Volta a este espaço uma tradução de um editorial da revista Sacred Web escrito por Ali Lakhani. Não posso deixar de ficar surpreendido com a forma como este autor aborda os temas, fundindo o simples e o complexo, levantando o véu sobre conceitos de difícil compreensão, recorrendo à análise profunda de temas comuns. Este editorial foi publicado no nº 13 da Sacred Web e versa sobre um tema muito caro a este espaço, a tradução. Espero que apreciem este texto tanto como eu o apreciei.

Uma tradução pressupõe a existência de um “original” ou de um protótipo, consistindo a arte do tradutor na capacidade de se manter fiel a esse mesmo protótipo. No pensamento tradicional, o conceito de “original” refere-se sempre à Origem, ou seja, à realidade Absoluta, a qual é simultaneamente a fonte da realidade fenomenológica (e, desta forma, superior a ela) e a sua impressão (e, desta forma, ao seu nível). Assim, toda a existência teve a sua origem no Absoluto, sendo dele uma expressão.

O termo “existência” (etimologicamente derivado de ex-stare, fora da unidade) implica uma projecção a partir de uma norma, o Absoluto. O Absoluto expressa a existência de duas formas: através da singularidade e da universalidade. A singularidade é a relativização do Absoluto através da sua diferenciação extrínseca, em virtude do Absoluto ser livre para expressar a sua infinidade, enquanto que a universalidade é a igualdade intrínseca desta diferenciação, em virtude do Absoluto ser necessariamente Uno. A singularidade da existência não é, no entanto, contraditória com a unicidade do Absoluto, tal como a universalidade da existência não é contraditória com a unidade do Absoluto – esta não contradição é explicada pelo facto do Absoluto exibir diferentes atributos em diferentes planos.

O Absoluto, apesar de transcendente, desenvolve-se nos múltiplos planos em que participa como imanência. Estes planos inferiores desdobram-se sequencialmente a partir do plano mais elevado, do subtil para o grosseiro, da essência para a forma. Neste processo de desenvolvimento, o superior traduz-se no inferior através do símbolo, a partir do qual o inferior participa no superior.

A existência é um palimpsesto. Cada vida e cada geração representam um texto diferente, escrito na mesma Página e com a tinta da mesma Pena. Apesar da história de cada indivíduo ser única, a história em si é a mesma: é a expressão da mesma passagem, de prefiguração, projecção e retorno. Apesar do tempo exprimir esta passagem de forma unívoca para cada um de nós, a geografia desta passagem é intrinsecamente a mesma: ela ocorre no interior do espaço da Única-subsistência, o ser divino do Absoluto. Cada história individual é, assim, uma tradução da própria história.

“A vida procura padrões” (Plotino) porque a Unicidade do Absoluto forja a vida através de padrões. O Infinito traduz o Absoluto e a existência traduz o Infinito. Todos nós somos traduções das vidas de outros. Cada um de nós abriga no seu interior a marca do Absoluto, o potencial para alcançar a perfeição. É um único Centro aquele que nos liga a todos. Perder o trilho desta ligação intrínseca e desta capacidade para atingir a perfeição, é perder o padrão da ordem e, assim, sucumbir perante o caos. Apenas a partir do Centro a ordem pode ser entendida.

Traduzir é atribuir significado, o qual é uma epifania, a manifestação do sublime. O homem está, na sua essência, numa constante busca pelo sublime. As próprias palavras são inadequadas para transmitir o objecto desta busca, a qual está para além do horizonte dos meros conceitos. Este reside nas regiões mais profundas de nós próprios e nos cantos mais recônditos da natureza. Por muito que nos esforcemos para o pronunciar, estaremos sempre destinados ao insucesso, porque aquilo que se procura pronunciar é verdadeiramente inefável, atraindo apenas o silêncio, o silêncio do êxtase. Nesse silêncio, ele é mais do que mero conhecimento, mais ainda do que a própria existência: nesse silêncio, o nosso eu pode sentir a sua alma incendiar-se com a beleza, inflamar-se com a maravilhosa intimidade com tudo o que vive e com o qual partilha a mais profunda ligação. Este é o sublime estado de graça associado à compreensão da Verdade como Presença (o satchitananda do Vedanta), o estado de unicidade e comunhão a que todas as tradições religiosas se referem como o reino do espírito.

A tradição ensina-nos que não somos aquilo que aparentamos ser: somos espíritos dotados de um corpo, “sombras de glória perdida”, como descritos por Wordsworth. Apesar do ser humano não poder ser separado da sua estrutura divina, a sua existência é, no entanto, uma “continuidade descontínua”, um “Véu Cósmico” de esquecimento e, assim, apenas através de vigilância espiritual podemos evitar que o mundo nos corroa a alma. A tradição entende o mundano como uma tradução do espiritual, e o objectivo da religião, a qual liga o humano ao divino, é precisamente despertar-nos para a presença do espírito, num mundo que está “demasiadamente em nós”. “Pois o homem fechou-se nele próprio até que apenas conseguisse ver através de estreitas fendas na sua gruta”, como constatou William Blake, reconhecendo que a percepção humana tende para a opacidade, reduzindo o espírito à matéria, o Intelecto à mera razão, o Coração ao ego, e o transcendente e maravilhosa fonte da existência a meros trabalhos mecânicos do universo. Esta visão humana separativa é espiritualmente moribunda:


O que quer que esteja aqui está lá.
O que quer que esteja lá está aqui.
Ele obtém morte após morte
Quem é que vê aqui alguma diferença.

(Katha Upanishad, 4:10)

Ela compele a vontade para o carnal e a inteligência para o orgulho, infernizando a alma.


Por outro lado, a visão unificadora do Intelecto, estando fundada no Absoluto, é salvífica: funciona através da visão interpretativa que religa a imagem ao seu protótipo, o humano ao divino. O olho do Intelecto entende a Verdade como Presença, “a gota de água no Oceano, e o Oceano na gota de água”. A sua visão é transformativa porque “quando a Rosa floresce, o Jardim está em toda a parte”. Saber é, assim, ver; no entanto, a visão espiritual não é apenas subjectiva (limitada apenas à opinião experimental do observador), nem apenas objectiva (reduzida a um conceito ou abstracção), ela é participativa, fundindo o sujeito e o objecto numa visão unitária e comprometida: “O olho com que vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê” (Eckhart). O conhecimento espiritual (gnose) é assim ontológico. Está inscrito e ressoa nas regiões mais profundas no nosso ser. Por esta razão se afirma que “a metafísica afirma a identidade fundamental entre ser e conhecer” (Guénon).

A tradição ensina que o Absoluto Se traduziu no Centro espiritual do homem e, por essa razão, “conhecer-se a si próprio é conhecer a Realidade”. As verdades metafísicas são ontologicamente evidentes porque o “Reino de Deus está no interior”: “o Coração dos fiéis contém Deus”. O Coração, o Centro espiritual de cada um de nós, é simultaneamente o Centro que está em toda a parte. Apreender é participar metafisicamente naquilo que apreendemos. Isto implica o envolvimento do Coração naquilo que se apreende. Assim, saber é também amar. É a integração do conhecer e do amar no Coração que identifica o Coração com o Absoluto. Desta forma, existe uma qualidade eucarística na “iluminação”: a existência é metafisicamente transparente e invoca a Presença do Si Divino, o qual não é mais do que o Si Absoluto que reside no Coração puro dos fiéis.

Em termos metafísicos, a tradução pode ser então entendida como uma passagem do conhecer para o ser, através do amor, e a transmutação do ser em Presença da Verdade através do símbolo. Nas palavras de Frithjof Schuon: “amar é aquilo que permite que a compreensão chegue ao ser, ou seja, aquilo que nos liga ontologicamente à Verdade e que, dessa forma, nos abre para a magia transformativa do Símbolo”. Existem dois pontos nesta frase que gostaria de enfatizar.

Em primeiro lugar, em metafísica, o ontológico é logicamente anterior ao cognitivo. O ser precede o saber, para o qual o saber retorna. O conhecimento é um atributo (não necessariamente, mas suficientemente) do ser, e não inversamente como no caso da fórmula Cartesiana (‘cogito ergo sum’) que, compreendida neste sentido inverso, é um dos maiores erros da filosofia moderna. Por outras palavras, a implícita dicotomia Cartesiana da mente e da matéria, é desprezada no pensamento tradicional em favor de uma visão em que a matéria é uma tradução do espiritual, de uma forma em que a mente participa na matéria através do símbolo, o que resulta em que a matéria seja metafisicamente transparente ou traduzível em termos espirituais.

Em segundo lugar, a arte interpretativa do tradutor não é representativa mas simbólica: representar é apenas ilustrar, enquanto que simbolizar é transportar. O objectivo não é retratar mas transmitir. A tradução, entendida metafisicamente, acarreta uma dimensão ontológica de participação no sujeito que vai para além o mero acto de ilustrar ou imitar. Funcionando uma tradução como uma ponte entre a Origem e a nossa distância a ela, uma tradução fiel pode ser entendida como uma eliminação dessa distância ou como uma redução desse espaço até ao limite: assim, paradoxalmente, transcender o espaço é abrir uma nova dimensão de espaço, a qual é livre e sem limites. Este é um dos significados da hadith: “Na minha comunidade existem pessoas que irão entrar no Paraíso com almas semelhantes às dos pássaros.”

As trajectórias da gnose são a ascensão através do conhecimento da Verdade (o pólo objectivo da realidade, representado pelo Absoluto), e a descida do ser para a Presença (o pólo subjectivo da realidade, representado pelo Homem Universal). O Homem Universal (ou a santidade) é, assim, uma tradução do Absoluto (ou do divino), tal como a Verdade é o protótipo da Presença. A fidelidade do tradutor ao protótipo é função da receptividade do tradutor ao texto original. Na medida em que o texto fala para, ou ressoa no interior do tradutor, podemos dizer que o tradutor participa no texto através do acto da tradução. Aquilo que é envolvido por parte do tradutor é simultaneamente um exercício das suas capacidades (na busca do significado e da sua expressão) e um acto de entrega (uma abertura para com a musa da tradução). Este esforço dialéctico e graça correspondem às trajectórias de ascensão através do conhecimento (ou da ignição do Intelecto para a iluminação) e de descida através do ser (ou da vitalização do espírito em santidade), referidas anteriormente. Sem esta participação não poderá existir fidelidade na tradução. Como uma semente plantada nas areias geladas do Inverno, a Verdade reside no interior do coração gelado do homem. Por esta razão, a tradição ensina-nos que o conhecimento espiritual é o processo de intuir aquilo que foi enterrado, de descobrir o que foi velado, recolhendo o que foi disperso, ou relembrando o que foi desmembrado. Isto envolve, quer um esforço de receptividade (abrindo as pálpebras do Coração), quer a graça da luz (a luz que sustenta a Presença divina: “uma luz que brilha nela própria em silenciosa quietude” escreve Eckhart).

Existem dois erros a ser evitados na arte da tradução: um é uma abstracção do significado do texto que leve à total perca da qualidade de ressonância com o original, enquanto que o outro é o ignorar do seu significado, sacrificando-o em detrimento da novidade, em nome da expressão criativa. Metafisicamente, estes erros correspondem à redução da realidade aos pólos objectivos e subjectivos, respectivamente. Ao isolar o pólo objectivo, a realidade é abstraída ou reduzida a fantasia. A abstracção da realidade cria um monstro de falsas utopias, nas quais a ressonância da teofania sagrada é meramente “externa”, rapidamente sacrificada por ideais fantasiados e utópicos. Desta forma, na tradição, o ideal não é uma mera abstracção (ou ilusão), mas sim uma realidade ontológica do protótipo divino, o qual deve ser entendido simultaneamente como Verdade e Presença. Assim, Frithjof Schuon refere:

"Nada é mais falso do que a convencional oposição entre “idealismo” e “realismo”, a qual insinua que o “ideal” não é “real”, e o inverso; como se um ideal situado fora da realidade não tivesse o mais pequeno valor, ou como se a realidade estivesse sempre situada a um nível inferior aquilo que se designe por “ideal”. Qualquer um que defenda este ponto de vista está a pensar em termos quantitativos e não qualitativos."

O segundo erro é uma forma de hipertrofia. Ao isolar o pólo subjectivo, a realidade é desconectada do seu Princípio basilar. Assemelha-se ao idolatrar o calçado, confundindo-o com o chão que este pisa. Desligado das suas raízes espirituais, a realidade torna-se subjectiva, sacrificando o sentido moral e cognitivo pelas preferências pessoais, o que resulta, na ausência de um Centro e Origem espiritual, no materialismo. O materialista esquece que não pode existir qualquer originalidade (ou valor criativo) fora da sua ligação à Origem, nem ordem (ou significado) fora da sua ligação ao Centro.

A tradução é, em ultima análise, a arte de auto-interpretação. É identificar a fonte de toda a criatividade com a Origem e a sua localização no interior do Centro espiritual de nós próprios. Este Centro espiritual de cada um, para o qual e a partir do qual tudo o que existe está conectado, como que através de uma rede sagrada, é o Coração. Assim, pode-se afirmar que não existe fidelidade na tradução excepto quando esta brota a partir do Coração. Este é o critério para a autenticidade: evitar a falsa atribuição de originalidade a outra coisa senão a Origem, reconhecendo a sua identidade com o mais profundo do nosso ser, esse Espírito ilimitado e inextinguível que eternamente Se verte em Si mesmo numa expressão de constante e infinita misericórdia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

M. Ali Lakhani

M. Ali Lakhani formou-se na Universidade de Cambridge antes de fixar residência em Vancouver, Canadá, onde pratica advocacia há 25 anos. Em 1998, fundou o periódico tradicionalista Sacred Web, com o objectivo de identificar os princípios primeiros da metafísica tradicional e promover a sua aplicação às circunstâncias contingentes da modernidade. Este periódico bi-anual tem vindo a publicar contribuições dos mais prestigiados tradicionalistas, sendo considerado pelo Professor Nars, como um dos mais importantes periódicos em língua inglesa, a par com o Sophia Journal, dedicado ao estudo da Tradição.

Editou e contribuiu para o livro The Sacred Foundations of Justice in Islam, tendo ainda contribuído com um trabalho seu no livro da World Wisdom The Betrayal of Tradition: Essays on the Spiritual Crisis of Modernity.


Publicações no “Sabedoria Perene”:

The Golden Chain

Este fantástico livro revela-nos o verdadeiro significado de filosofia, aqui entendida como uma prática sagrada e um método experimental para a percepção do Real. Como diz Platão, a filosofia é uma preparação para a morte (Fedro) e o seu objectivo é que nos tornemos como Deus (Teeteto).

Esta antologia de textos da Tradição Pitagórica e Platónica, editada por Algis Uždavinys para a World Wisdom, contrasta em importantes aspectos com o actual entendimento do que é a filosofia em geral. De facto, o autor considera a filosofia, neste caso a filosofia antiga, como essencialmente uma forma de vida, inseparável de uma prática espiritual e de acordo com os mitos cosmogónicos e os rituais sagrados. Para os antigos filósofos, a tarefa a cumprir consistia na contemplação da ordem cósmica e da sua beleza, vivendo em harmonia com esta ordem, procurando, no entanto, transcender as limitações impostas pela experiência sensorial e pela razão discursiva, despertando a luz divina que residia no seu interior. Para eles, a teoria nunca era considerada com um fim nela própria, sendo antes posta ao serviço da prática, entendida em termos de uma transformação “alquímica” e elevação da alma através de rituais de purificação e cultivação das virtudes.

Outro aspecto contrastante com a visão dos historiadores modernos de ciência e filosofia que sobressai desta antologia, é o facto destes filósofos se considerarem os herdeiros ou estudantes de civilizações Orientais muito mais antigas. Platão, por exemplo, estaria aparentemente muito em dívida para com a designada tradição Órfica (parcialmente baseada em influências Indianas e Egípcias) e à tradição oral Pitagórica. Na realidade, os Platónicos acreditavam numa revelação oferecida aos sábios antigos e teólogos, ou seja, a poetas e hierofantes divinamente inspirados. Esta revelação primordial era entendida como inalterável, não podendo existir nada de novo em relação à metafísica e às verdades divinas. O termo “Golden Chain”, imagem Homérica de uma corrente a ligar o Céu e a Terra, era usada na escola de Atenas de Syrianus e Proclus para descrever a ligação vertical inquebrável com os primeiros princípios, e a sucessão horizontal, ou histórica, dos mestres qualificados ou intérpretes. Esta corrente era simultaneamente uma corrente de teofania, de manifestação ou descida, e uma escada de ascensão.

A filosofia, tal como entendida por Proclus e outros Neoplatónicos era, assim, algo muito distante de um treino da razão ou de um desporto da mente emersa em dúvidas. Ela era o “nicho de profecia”, combinando a filosofia discursiva com a prática espiritual com o objectivo de atingir a iluminação, a visão directa da verdade e a união com os princípios divinos. Nas suas Gifford Lectures, S.H. Nars refere que: “a eventual redescoberta nos dias de hoje do carácter sagrado do conhecimento conduziria, antes de qualquer outra coisa, a uma redescoberta da sabedoria Grega de Platão, Plotino e outros sábios Greco-Alexandrinos, bem como dos escritos do Hermetismo, não como simplesmente filosofia humana mas como doutrinas sagradas de inspiração divina, comparáveis mais com as darsanas Hindus do que com as escolas filosóficas tal como actualmente entendidas”.

Nesta antologia, estes aspectos da filosofia irão desvendar-se por eles próprios e nas palavras dos grandes sábios da filosofia Helénica. Os textos escolhidos foram agrupados em quatro partes, começando por se apresentar vários relatos da vida de Pitágoras deixados por escritores Helénicos e Bizantinos mais recentes. Com a escolha destes relatos procura-se, mais do que com uma preocupação histórica, apresentar as bases arquétipas e mitológicas da tradição Platónica, bem como importantes conteúdos hermenêuticos. Na segunda parte são apresentados excertos de textos Pitagóricos, frequentemente desprezados pelos académicos modernos simplesmente porque os seus reais autores ou editores viveram em alturas posteriores às reclamadas, ignorando o facto de na antiguidade, um “autor” ser considerado como auctoritas, sendo usual usar-se o nome da escola, a qual estava associada a nomes arquétipos, tais como Hermes, Salomão ou Pitágoras.

A terceira e quarta parte contêm trechos seleccionados das obras de Platão e de autores devotos ao Neoplatonismo Helénico, desde Plotino e Porfírio até Damascius, focando essencialmente os vários aspectos da hermenêutica da metafísica Platónica e da mitologia sagrada, bem como da ética e teurgia filosófica.

A redescoberta desta antiga sabedoria Helénica permite-nos ver a importância crucial das doutrinas Neoplatónicas na formação do pensamento tradicional Cristão, Judaico e Islâmico, sentindo-se a tradição Pitagórica e Platónica como um dos pilares intelectuais da sophia perennis.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ananda Coomaraswamy

Ananda Kentish Coomaraswamy nasceu em 1877, filho de um dos líderes do Sri Lanka, Sir Mutu Coomaraswamy, e de uma aristocrata pertencente à família Kent de Inglaterra, Elizabeth Lay Bibi. Depois de se licenciar com louvor em Geologia pela Universidade de Londres, tornou-se - com a idade de 25 anos – director do Observatório Mineralógico do Ceilão (Sri Lanka). Contudo, os seus interesses rapidamente se direccionaram para as artes e para o artesanato da região, os quais interpretava à luz dos princípios metafísicos que lhes estavam subjacentes com grande mestria. Em 1917, o Dr. Coomaraswamy estabeleceu-se nos EUA onde se tornou Curador de Arte Indiana e Islâmica do Boston Museum of Fine Arts, estabelecendo uma vasta colecção de artefactos orientais e leccionando sobre o seu significado simbólico e metafísico. O encontro com os escritos seminais do autor Tradicionalista René Guénon serviu de confirmação e de reforço para a sua visão segundo a perspectiva da filosofia perene, ou “verdade transcendente das religiões” – a visão de que todas as religiões autenticas enviadas do Céu são caminhos que conduzem ao mesmo pico. Deste período em diante, o Dr. Coomaraswamy começou a compor os seus maturos – e sem dúvida os mais profundos – trabalhos, expondo de forma notável a perspectiva da filosofia perene através do seu conhecimento sem paralelo sobre as artes, o artesanato, a mitologia, as culturas, o folclore, os simbolismos e as religiões do Oriente e do Ocidente. Em 1947, havia planeado reformar-se da sua função de curador do Boston Museam of Fine Arts e regressar à Índia com o intuito de completar uma nova tradução dos Upanishads e optar pela renúncia ao mundo (sannyasa). Estes planos, contudo, não se chegaram a consumar devido à sua repentina e precipitada morte.


Alguns dos seus principais trabalhos:

The Dance of Siva
History of Indian and Indonesian Art
Hinduism and Buddhism,The Living Thoughts of Gotama the Buddha
Am I My Brothers Keeper?
Figures of Speech or Figures of Thought
What is Civilization
Time and Eternity, South Asia Books
The Transformation of Nature in Art
Origin of the Buddha Image
Elements of Buddhist Iconography


Uma importante antologia do seu trabalho foi editada por Roger Lipsey nas “Princeton University Press Bollingen series” (actualmente esgotada):

Traditional Art and Symbolism
Ananda Kentish Coomaraswamy
Metaphysics
His Life and Work


Os seus últimos textos não publicados, dedicados sobretudo à filosofia Grega, foram editados em 2004 pela Fons Vitae:

Guardians of the Sun-Door: Late Iconographic Essays


Publicações no “Sabedoria Perene”:

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Versos Dourados de Pitágoras

Os Versos Dourados de Pitágoras foram usados por Iamblichus na introdução da sua obra “Sobre o Pitagorismo” e por Hierocles nos seus comentários aos mesmos. Apesar de existirem diferentes opiniões sobre a sua autoria, eles expressam a sabedoria da escola Pitagórica e contém os princípios básicos da sua filosofia, ou da Filosofia, servindo como marcas iniciais para o caminho a seguir para a assimilação final com Deus, através da prática e da contemplação da Verdade, sendo os deuses particulares não mais que formas da suprema Divindade.

A presente tradução pessoal foi efectuada a partir do livro “The Golden Chain – An Anthology of Pythagorean and Platonic Philosophy”, com selecções e edição de Algis Uždavinys, na qual se encontra reproduzida a versão inglesa de Kenneth Sylvan Guthrie (Pythagoras Source Book and Library, Platonist Press, 1919).

Que sejam estes os nossos princípios para o Novo Ano.


***

Em primeiro lugar honra os deuses imortais, como manda a lei;
De seguida respeita o seu juramento e depois os ilustres heróis;
Venera de seguida as divindades na terra, cumprindo os seus rituais;
Honra de seguida os teus pais e todos os teus familiares.
Entre os outros faz do mais virtuoso teu amigo!
Preza fazer uso dos seus suaves discursos, e
aprende a partir das suas boas acções;
Mas não te alieneis dos teus adorados camaradas por fúteis ofensas,
Suporta tudo o que conseguires, pois o poder está ligado à necessidade.
Interioriza isto bem no teu coração: deves controlar os teus hábitos;
Primeiro no estômago, depois no sono, e depois no luxo e na raiva.
Aquilo que te envergonha, não faças aos outros nem a ti próprio.
A maior dever é honrar o “eu”.
Permite que a justiça seja praticada nas palavras tal como nas acções;
Depois cria o hábito, nunca desrespeitador a agir;
Nem nunca esquecendo que a morte está destinada a todos;
E que as posses aqui adquiridas, aqui serão deixadas;
Qualquer que seja o infortúnio que os deuses te tenham destinado
Suporta, o que quer que te atinja, com paciência e sem lamentos;
O seu alívio, da forma que possas, é permitido,
Mas reflecte que tal infortúnio o Destino não dá aos de bem.
O discurso das pessoas é variado, por vezes bom, outras vezes maldoso;
Assim, não permitas que te assuste, nem que te desvie do teu propósito.
Se falsas calúnias chegarem aos teus ouvidos, suporta-as com paciência;
No entanto, aquilo que te digo cumpre-o fielmente:
Não deixes que ninguém com o seu discurso ou acções te iluda
para fazer ou dizer o que não é correcto.
Pensa antes de agir, para que nada errado daí resulte;
Agir sem pensar é o que fazem os tolos;
Procura fazer apenas aquilo de que mais tarde não te arrependas.
Não faças nada para além do teu conhecimento,
Procura, no entanto, saber o que precisas:
e assim a tua vida crescerá em felicidade.
Não negligencies a saúde do corpo;
Controla a comida e a bebida, e todo o exercício do corpo.
Por controlo, entendo evitar aquilo que mais tarde te trará dor.
Segue modos limpos de vida, mas não os luxuriosos;
Evita todas as coisas que provoquem inveja.
No momento inadequado, nunca sejas pródigo, como se não soubesses
proceder da forma adequada,
Nem te mostres avarento, pois uma medida adequada é sempre a melhor.
Faz apenas aquilo que não prejudique os outros, e delibera antes de agir.
Nunca permitas que o sono vença os teus olhos cansados;
Sem que três vezes tenhas revisto as tuas acções do dia:
Onde é que pequei? O que fiz? Que dever negligenciei?
Tudo, do princípio ao fim, revê; e se erraste lamenta no teu espírito,
Regozijando de tudo o que foi bom.
Com zelo e esforço isto repete; e aprende a repetir com alegria.
Assim, avança devotamente nos caminhos da virtude divina.
E isto tenho como certo, e juro por aquele que nas nossas almas
colocou o Quaternário Sagrado,
A nascente da eterna Natureza.
Nunca inicies uma tarefa sem teres pedido a bênção dos Deuses.
Se a estes ensinamentos te manteres fiel, brevemente reconhecerás
nos Deuses e nos homens mortais
A verdadeira natureza da existência, como tudo passa e retorna.
Nessa altura verás o que é verdadeiro,
como a Natureza no seu todo é igual.
Para que não esperes por aquilo que não vale a pena esperar,
para que nada te escape.
Encontrarás homens cuja tristeza eles próprios criaram;
Infelizes que não vêem o Bem que está tão próximo, que nada ouvem;
Poucos sabem como se ajudar em alturas de infortúnio.
Este é o Destino que cega a humanidade; em círculos,
Aproxima-te e orienta-os na sua eterna infelicidade;
Pois eles são seguidos por um desesperante companheiro,
a desunião com eles próprios;
Discreto, procura não o despertar, e afasta-te sempre dele!
Zeus, liberta-os de tão colossais sofrimentos,
Ou mostra a cada um o Génio, o qual é o seu guia!
No entanto, não temas, pois os mortais são divinos de raça,
Para quem a Natureza sagrada tudo revelará e demonstrará;
E para quando o receberes, guarda bem o que te ensino;
Curando a tua alma, estarás seguro de todo o mal.
Evita comidas proibidas; reflecte no que isto contribui
para a pureza
e redenção da tua alma. Reflecte bem sobre todas estas coisas:
Deixa que a razão*, a oferta divina, seja o teu mais elevado guia;
E aí estarás separado do corpo, erguido no éter,
Serás imperecível, uma divindade, não mais um mortal.


[* - o Intelecto, não a razão como entendida actualmente]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Mulheres de Luz no Sufismo

O texto apresentado de seguida, da autoria de Sachiko Murata, foi inicialmente apresentado em 1999 no Congresso Internacional sobre a Mística Feminina, realizada em Ávila, Espanha. A versão a partir da qual foi efectuada esta tradução parcial foi a revista e publicada no Vol. 12 da Sacred Web.

Neste ensaio, Sachiko Murata aborda sobretudo a receptividade humana para com a luminosidade divina, recorrendo à exposição da natureza metafísica das relações de género em termos daquilo que os Sufistas denominaram de “ciência da religião”, em oposição à “ciência do corpo”.

Ao longo do texto, a autora aborda ainda de forma bastante profunda a simbologia do feminino e do masculino, sendo facilmente identificáveis paralelismos com outras tradições, como por exemplo o Yin e Yang da tradição chinesa. Julgo ser este, assim, um óptimo contributo para a compreensão do conceito metafísico de complementaridade das polaridades, presente no pensamento tradicional.

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O que quero aqui abordar é um outro lado da realidade feminina, o da sua ligação com a realidade da “luz”, a qual é um dos mais importantes nomes Corânicos de Deus. De acordo com o Corão, “Deus é a luz dos céus e da terra”. Aquilo que gostaria de sugerir é a razão pela qual a feminidade é essencialmente luminosa; por outras palavras, porque é que reflecte directamente a luz divina que preenche o universo. Resumindo, pretendo analisar aquilo que pode ser apelidado de “a luz da mulher” e como as mulheres – e os homens – se podem tornar “mulheres de luz”.

Irei começar por citar um dos mais famosos Sufistas da história, Râbi’a, uma santa que morreu durante o oitavo século, ou seja, no segundo século de existência do Islão. Râbi’a tem sido reconhecida como uma das figuras mais importantes do início da história do Islamismo, existindo vários livros sobre ela no Ocidente. Os seus ensinamentos são frequentemente citados por diversos Sufistas, sendo universalmente respeitada como um dos grandes mestres espirituais do início da tradição Islâmica. Um dos seus mais curtos ditos que chegaram até nós é o seguinte: “Tudo tem o seu fruto, e o fruto do reconhecimento é oferecer-se a Deus.”

Estas breves palavras resumem a sabedoria do Sufismo. Aludem ainda para a “luz da mulher.” No entanto, de forma a compreender como tanto conhecimento pode estar contido em tão poucas palavras, temos de olhar atentamente para o dito e reflectir nas várias referências que faz para o Corão e para as palavras do Profeta.

Iniciemos a nossa análise com a palavra “reconhecimento” (ma’rifa). O que pretende dizer Râbi’a ao utilizar esta palavra, “o fruto do reconhecimento é oferecer-se a Deus”? A palavra Árabe é normalmente traduzida como “conhecimento” ou “gnose” mas, especialmente na sua forma verbal, é mais provável que signifique “reconhecimento”, isto é, relembrar conhecimento. Podemos ainda obter alguma ajuda para a compreensão do que nos quer transmitir Râbi’a de um dito de Maomé repetidamente citado pelos Sufistas nas suas obras. É habitualmente traduzido da seguinte forma: “Aquele que se conhece a si próprio conhece o seu Senhor”, ou “conheceu o seu Senhor”. Eu traduziria da seguinte forma: “Aquele que se reconhece a si próprio, reconheceu o Senhor”. Entendo que o significado destas palavras é o de que todos aqueles que verdadeiramente obtêm o conhecimento de si próprio, e que verdadeiramente relembram o conhecimento que têm do seu verdadeiro “eu”, terão verdadeiramente atingido o reconhecimento de Deus.

Quando Râbi’a disse, “o fruto do reconhecimento é avançar em direcção a Deus”, teria certamente esta frase do Profeta em mente. Assim, com a palavra “reconhecimento”, ela pretendia dizer verdadeiro conhecimento e consciência do “eu” e de Deus. Em relação ao “oferecer se” (iqbâl), ela teria sem dúvida em mente o uso desta palavra no Corão. A melhor forma de compreender o seu significado será, provavelmente, através da análise da história de Moisés e da sarça em chamas. O Corão diz-nos que Moisés ficou assustado depois de ter atirado o seu bastão ao chão e deste se ter transformado numa serpente. Deus disse-lhe, “Moisés, oferece-te e não temas. Certamente estás entre os que estão seguros” (28:31).

Em resumo, ao usar a palavra “oferecer-se”, Râbi’a sugere que aqueles que reconhecem Deus avançarão em Sua direcção, serão abraçados por Ele, e serão libertos de todo o receio. Depois de terem sido libertos do medo, eles estarão seguros. Estarão, assim, entre aqueles a que o Corão se refere como awliyâ ou “amigos” de Deus: “Seguramente os amigos de Deus – eles não terão qualquer medo nem se afligirão” (10:62).

Um segundo dito do Profeta contextualiza ainda mais as palavras de Râbi’a. De facto, acredito que ela estivesse a reafirmar este dito profético por outras palavras. O profeta disse: “Conhecimento sem prática é como uma árvore que não dá frutos”. Quando Râbi’a afirma que “Tudo tem o seu fruto, e o fruto do reconhecimento é oferecer-se a Deus”, ela está a referir-se ao conhecimento e prática que foram delineados pelo Corão, pelo Profeta e pelos seus companheiros. O objectivo de todo o conhecimento religioso é reconhecer Deus, e o objectivo de toda a prática é de oferecer-se a Deus, encontrá-Lo, tornar se Seu amigo e viver sem receio. A prática correcta corresponde à imitação do Profeta seguindo a Shariah (a lei revelada) e cumprindo a Sunna, o modelo exemplar que ele estabeleceu durante a sua vida.

Resumindo, Râbi’a afirma que, comandando as pessoas a perseguir o conhecimento, o Corão e o Profeta estão a dizer-lhes para procurarem e reconhecerem Deus nelas próprias e em todas as coisas, e para obterem total consciência do que estão a reconhecer; e, ordenando-as a praticar, dizem-lhes para se oferecerem sinceramente a Deus e para abandonarem todas as distracções deste mundo. Isto, afirmo, é praticamente a definição de Sufismo, uma vez que aponta para a concentração única em Deus que todos os verdadeiros Sufistas procuram atingir, uma concentração que combina um adequado conhecimento da natureza das coisas com uma adequada actividade.

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Vou agora abordar a questão da “luz”. É necessário começar por referir que na tradição Islâmica, e sobretudo na versão focada desta tradição conhecida como Sufismo, nada pode ser compreendido enquanto não situado em relação a Deus. Deus é a Realidade criadora do universo e o ponto de referência absoluto. Se não compreendemos como algo está relacionado com esta Realidade Última, então é porque não a compreendemos. Ou melhor, não a reconhecemos por aquilo que é. Assim que “reconhecermos” o que é, tal implicará “oferecer-se a Deus”, como Râbi’a o afirma.

Usando a terminologia Islâmica, existem duas formas básicas para a compreensão ou dois tipos de conhecimento. Tal como se diz ter afirmado o Profeta: “O conhecimento é de dois tipos – conhecimento do corpo e conhecimento da religião.” O conhecimento do corpo é o conhecimento comum que obtemos através do nossos próprios meios. Permite que nos orientemos para o mundo nos termos do mundo. O outro tipo de conhecimento permite que nos orientemos em direcção a Deus. O primeiro tem uma utilidade temporária, de nada nos servindo após a morte. Quando o Profeta disse que o conhecimento exige a prática como seu fruto, ele referia-se ao verdadeiro conhecimento da natureza das coisas e à prática verdadeira, ou seja, aquela que traz benefícios permanentes ao ser humano e não apenas temporários. Os verdadeiros benefícios e os verdadeiros frutos só podem ser obtidos através do segundo tipo de conhecimento, o conhecimento da religião.

Se questionássemos Râbi’a ou qualquer outro Sufista sobre as “mulheres de luz”, eles começariam por falar sobre a luz do ponto de vista do conhecimento da religião. Eles nos diriam para não nos preocuparmos tanto com o conhecimento do corpo que nos mantém ocupados com os nossos preconceitos sobre a sociedade e a psicologia, e com os nossos próprios conceitos como os de “justiça” e “igualdade”. Eles nos diriam que se querermos compreender as mulheres, ou se queremos compreender os homens, devemos pedir a Deus que permita que nos reconheçamos a nós próprios e que reconheçamos o nosso Senhor. Devemos orar a Deus com as Palavras de Maomé, “Deus, mostra-nos as coisas como são”. Todos os seres humanos, quer sejam homens, quer sejam mulheres, tem o mesmo objectivo na vida. Este objectivo é conhecer a Luz suprema e ser iluminado por ela.

Para reconhecer a Luz suprema é necessário que nos reconheçamos a nós próprios. Temos de saber quem somos e como estamos situados em relação à Realidade Última. “Aquele que se reconhecer a ele próprio reconhece o seu Senhor”. De forma a conhecer Deus como Luz, é necessário que nos reconheçamos como luz. Numa famosa oração do Profeta é dito:

Deus, coloca no meu coração uma luz, na minha audição uma luz, na minha visão uma luz, na minha mão direita uma luz, na minha mão esquerda uma luz, à minha frente uma luz, atrás de mim uma luz, sobre mim uma luz, sob mim uma luz, e faz de mim uma luz.

Nesta oração, o Profeta pede a Deus que lhe mostre a luz que ele possui nele próprio porque ele foi criado a partir da Luz Suprema. Só quando encontrarmos luz em nós próprios podemos reconhecer Deus como Luz.

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Regressemos agora ao tema da “mulher”. O que é que estabelece a relação entre a mulher e a luz, de tal forma que possamos falar de “mulheres de luz”. Em termos do Sufismo, tal mulher seria alguém que teria sido em tal medida transformada por conhecimento e prática que Deus lhe teria dado luz no seu coração, na sua audição, na sua visão, etc., tendo Deus a “feito uma luz”.

Uma forma de compreender o que são as “mulheres” é as conceptualizar em relação aos seus opostos. Assim, as mulheres podem ser compreendidas em relação aos homens, e os homens em relação às mulheres. Quais são então as qualidades e atributos contrastantes que nos permitem distinguir as mulheres dos homens?

Regra geral, o pensamento Islâmico entende a masculinidade como uma qualidade de actividade, controlo, autoridade, domínio, força, poder e grandeza. A feminidade manifesta as qualidades complementares – receptividade, aquiescência, submissão, entrega, fraqueza, cedência, humildade.

Quando Deus é entendido em oposição ao mundo, Ele é tipicamente caracterizado em termos de atributos masculinos, uma vez que ele é omnipotente e tem controlo total sobre todas as coisas. Em contraste, quando o mundo é caracterizado em relação a Deus, este é entendido em termos de qualidades femininas, pois não tem nada para além de receptividade. Este não pode ter qualquer actividade própria, apenas pode receber de Deus. Isto não é o mesmo que dizer que não tem actividade, mas sim que apenas obtém actividade através da aquisição das actividades do Senhor, o qual é o único Actor. Quando as criaturas de Deus recebem a actividade do Senhor e estão cientes da sua recepção, nessa altura podem ser os Seus servos perfeitos, agindo como Deus quer que eles ajam.

É claro que Deus tem em Si próprio qualidades masculinas e femininas, Ele é masculino quando é o Irado, o Severo, o Poderoso, o Tirador de Vidas, o Humilhador. Por outro lado, Ele é feminino quando é o Misericordioso, o Tranquilo, o Receptivo, o Dador de Vida.

Tal como Deus é descrito em termos de uma polaridade de atributos masculinos e femininos, o mesmo acontece frequentemente com o universo. O Céu é ascensor, dominante, controlador e masculino. A terra corresponde a descida, é subserviente, receptiva e feminina.

Muitas passagens poderiam ser citadas a partir de obras Sufistas que descrevem o universo como conjuntos de pares contrastantes ordenados de uma forma hierárquica de Deus para o mundo. Nestas descrições, o atributo mais elevado e dominante é representado como masculino, enquanto que o atributo inferior e receptivo é representado como feminino. No entanto, o género de algo não é fixo, uma vez que muda na medida em que o vemos como receptivo para algo mais elevado ou activo em direcção ao inferior (e.g., o céu é feminino em relação a Deus mas masculino em relação à terra).

Da mesma forma, os ensinamento psicológicos Islâmicos – os quais correspondem a descrições do ser humano saudável e completo – utilizam o imaginário do masculino e do feminino para descrever a natureza do “eu” humano. O “eu” ou alma é entendido como constituído por vários níveis, cada um destes com uma relação particular com os restantes. Usualmente, o “eu” é descrito como um microcosmo espelhando a estrutura vertical do macrocosmo.

Quando a alma é entendida como uma hierarquia de níveis, o seu nível mais elevado é o intelecto, e este, na terminologia Islâmica, é uma “luz”. O Profeta disse, “A primeira coisa que Deus criou foi a minha luz,” e disse ainda, “A primeira coisa que Deus criou foi o Intelecto”. Os Sufistas designam esta primeira luz como o “Primeiro Intelecto” e a “Realidade Maometana”, e consideram-no o protótipo do universo e da alma individual, do microcosmo e do macrocosmo. O paralelismo com a doutrina Cristã do Logos é comummente referido.

Quando o Profeta pediu a Deus para que Ele “faça dele uma luz”, ele pedia a Deus que fizesse com que a luz dos mais altos níveis do seu ser, o intelecto, dominasse sobre todos os restantes níveis inferiores do seu ser, incluindo o seu corpo. Quando ele pediu a Deus que colocasse uma luz no seu coração, na sua visão, na sua audição, e em todos as partes do seu corpo, ele pedia a Deus que lhe revelasse a luz essencial da sua própria realidade, a qual foi a primeira coisa criada por Deus. O Profeta mostra a todos os seres humanos, os quais foram criados da mesma luz essencial, que eles apenas podem atingir a sua própria perfeição e reconhecer-se verdadeiramente a si próprios, se a luz escondida da sua própria essência fluir a partir do seu centro e conquistar a sua escuridão.

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Outro famoso dito profético sugere algo sobre a natureza da luz que o Profeta pede a Deus que brilhe sobre ele. Estas são as palavras que explicam o que acontece quando o servo realiza todas as suas tarefas através do reconhecimento do seu ou da sua vassalagem para com Deus. Quando o servo se oferece a Deus através da prática que Deus lhe exige, este acto faz descer o amor de Deus. Nesta haddith, o Profeta releva-nos que Deus diz, “Quando Eu amo o Meu servo, Eu sou a audição pela qual ele ouve, a visão pela qual ele vê, a mão com que ele segura e os pés com que ele caminha.”

É importante não esquecer que estas palavras são proferidas por Deus, a Luz dos céus e da terra. Quando Deus ama o Seu servo, o servo é preenchido com a luz de Deus. Quando Deus preenche o Seu servo com a sua luz, o servo ouve com a luz de Deus, vê com a luz de Deus, caminha com a luz de Deus, segura com a luz de Deus. Por outras palavras, Deus colocou uma luz nos seus olhos, uma luz nos seus ouvidos, uma luz em todas as partes do seu corpo e transformou-o numa luz.

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Para conhecer a natureza da luz é necessário reflectir um pouco sobre o seu oposto, a escuridão. A Luz das luzes é Deus, e luz é inteligência, entendimento, e a fonte de toda essa percepção e compreensão. Daqui se deduz que “escuridão” é a ausência de Deus, a ausência de inteligência e a ausência de percepção e compreensão. No entanto, nada pode estar totalmente ausente da presença de Deus ou destas qualidades, caso contrário não existiria. Isto significa que o único oposto de Deus é a própria inexistência, o que não existe. Assim, Deus não tem oposto. Por outras palavras, não existe algo como “absoluta escuridão”. No entanto, existe algo como “absoluta luz”, Deus.

Se não existe escuridão absoluta, existe, no entanto, muita “escuridão relativa”. Todos nós sentimos escuridão relativa a maior parte do tempo. É a ignorância, a falta de entendimento, a inconsciência, estupidez, fealdade e o mal, tão obviamente em nós e nos outros.

Eu sugeri aquilo que uma “mulher de luz” poderá ser, mas poderemos falar também de uma “mulher da escuridão”? É claro que podemos. Não existe qualquer garantia que uma mulher – ou um homem – irá revelar a luminosidade divina. Na terminologia Islâmica, falar de “mulheres de escuridão” seria discutir a receptividade ao mal, ou a qualidade de aquiescência onde ela não deveria existir. Receptividade para com a luz é positivo, mas a receptividade para com a escuridão é a fonte de toda a ignorância e fealdade.

Em resumo, não pretendo sugerir que o pensamento Islâmico entende o princípio feminino como necessariamente luminoso. Na sua essência é luminoso, mas pode ser pervertido e obscurecido. Da mesma forma, o princípio masculino é essencialmente luminoso podendo, no entanto, ser pervertido e obscurecido.

Se considerarmos o feminino e o masculino em termos dos critérios mais comuns, ou seja, em termos da “ciência do corpo”, veremos que, quer um quer o outro, podem ser bons ou maus, dependendo dos padrões que adoptarmos para o nosso julgamento. Tudo depende do critério que escolhemos. A este nível, tudo é uma mescla obscura de luz e escuridão, sem quaisquer padrões que permitam distinguir entre a luz real e a escuridão real.

No entanto, os Sufistas preferem considerar o feminino e o masculino em termos da “ciência da religião”, ou em termos do verdadeiro reconhecimento. Só assim podem falar do bem e do mal, da luz e da escuridão, em termos reais. Deste ponto de vista, a luz da mulher aparece em todas as coisas do universo que manifestam a luz de Deus através da sua submissão à actividade criativa de Deus. Nesta perspectiva, todas as coisas são mulheres luminosas, uma vez que todas as coisas se submeteram a Deus e O servem como Seus servos. Ser um servo de Deus é ser uma mulher perante Deus. Quando o mundo é entendido simplesmente como uma criatura de Deus, não existem mulheres de escuridão, pois tudo é um sinal de Deus, uma manifestação do poder criador de Deus.

Ao nível humano, no entanto, é necessário distinguir entre “mulheres de luz” e “mulheres de escuridão”. Mulheres de luz são todos os seres humanos, homens ou mulheres, que se submetem livremente aos ensinamentos e vias de Deus. Mulheres de escuridão são todos os seres humanos, homens ou mulheres, que se submetem livremente a qualquer coisa que os afaste de Deus.

Ao usar o termo “submissão”, tenho em mente a palavra árabe islâm. No Corão, existem dois tipos básicos de muçulmanos, ou seja, dois tipos básicos de criaturas submissas a Deus. Por um lado, todas as coisas criadas são muçulmanas, uma vez que todas são Suas criaturas. O Corão diz, “Para Deus se submeteu [islâm] todas as coisas nos céus e na terra” (3:83). Por outro lado, as únicas criaturas que merecem ser apelidadas de muçulmanas são os seres humanos que livremente se submetem a Deus seguindo um dos 124 000 profetas enviados por Deus à raça humana.

Assim, na terminologia do Corão, ser um verdadeiro muçulmano implica a submissão livre a Deus e receptividade para com a Sua luz orientadora. A primeira coisa solicitada a alguém que queira ser verdadeiramente muçulmano é que aceite livremente que é uma “mulher”, no sentido da palavra que tenho usado. Não podemos ser totalmente humanos sem nos rendermos totalmente a Deus, ou seja, não podemos ser totalmente humanos sem actualizarmos a luz da feminidade. Através da entrega a Deus, “oferecemo-nos” a Deus e afastamo-nos de toda a escuridão da feminidade, a qual aumenta quando nos oferecemos ao mundo e não a Deus.

Visto em termos da sua natureza criada, todos os seres humanos são “femininos” antes de terem quaisquer outras qualidades, o que equivale a dizer que eles são inicialmente entregues e submissos ao comando criador de Deus. Como todas as restantes coisas, eles chegaram a Deus como servos e obedecem Lhe em absoluto. As dificuldades surgem na nossa condição humana quando não conseguimos ver que somos por natureza mulheres, ou quando pretendermos ser homens quando na realidade somos mulheres. Em relação a Deus, todos os seres humanos devem escolher ser mulheres. A forma de alcançar este objectivo é reconhecer a nossa própria receptividade e natureza por aquilo que é.

Assim que reconhecermos a nossa natureza feminina, teremos reconhecido o domínio e a autoridade do nosso Senhor. Só assim podemos compreender a hadith sobre o reconhecimento do “eu” como significando o seguinte: “Quem reconhecer a feminidade do seu próprio “eu”, reconheceu a masculinidade do Senhor”. Quem sabe que ele ou ela é na verdade uma mulher, compreendeu que Deus é a origem de todo o poder e autoridade e que apenas Deus merece ser apelidado de “senhor”, “mestre”, e “homem”.

Como comentário final, vou voltar ao dito de Rabi’â com o qual comecei. “Tudo tem o seu fruto, e o fruto do reconhecimento é oferecer-se a Deus.” Rabi’â está simplesmente a dizer que quando as pessoas se reconhecem a elas próprias por aquilo que verdadeiramente são, elas não terão outra alternativa senão oferecer-se a Deus, uma vez que Deus é a origem dos seus “eus” e de todas as coisas. Elas não terão outra alternativa senão renderem-se a Deus de livre vontade. Mas, ao fazê-lo, cada uma delas, homem ou mulher, serão uma mulher de luz.