domingo, 16 de novembro de 2008

O que é a Tradição? – parte III

O presente texto é a última parte da tradução do segundo capítulo “What is Tradition?” da obra absolutamente fundamental de Seyyeid Hossein Nasr “Knowledge and the Sacred”.


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Independentemente de se considerar no seu aspecto exotérico ou esotérico, tradição implica e é indissociável de ortodoxia. A existir algo como verdade, então também existe erro e normas que permitem ao homem distinguir entre eles. Ortodoxia, no seu sentido mais universal, é nada mais do que a verdade em si mesma e em relação com a homogeneidade formal de um universo tradicional específico. A perda do carácter multidimensional da religião e a redução da mesma a um único nível provocou também o estreitamento do entendimento da ortodoxia, a ponto do esotérico e do místico terem sido recorrentemente punidos como não ortodoxos. A ortodoxia tornou-se identificável com mera conformidade e adquiriu um sentido quase pejorativo entre os que se preocupavam com a intelectualidade, e muitos dos desconhecedores sedentos pela ortodoxia no seu sentido mais universal reclamaram-se a si mesmos como heterodoxos vis-à-vis a redutora concepção e formulação dessa ortodoxia que não deixou espaço para o voo libertador do intelecto santificado. O estreitamento do significado do termo ortodoxia não está, na realidade, desligado da perda do significado original da intelectualidade e da sua redução ao racionalismo. Ao contrário, o significado autêntico da intelectualidade não pode senão estar relacionado com ortodoxia.[i]


Se a ortodoxia for entendida no seu sentido mais universal, como a qualidade da verdade no contexto de um universo espiritual e religioso específico e também como a verdade como tal, então precisa ser interpretada em níveis diferentes, tal como a própria tradição. Existem certas doutrinas que são extrinsecamente heterodoxas, vis-à-vis uma tradição universal específica, mas intrinsecamente ortodoxas. Um exemplo seria a Cristandade vista segundo o Judaísmo ou o Budismo segundo o ponto de vista do Hinduísmo. Mesmo dentro de uma tradição singular, uma escola esotérica específica pode aparentar ser não ortodoxa do ponto de vista da dimensão exotérica ou até mesmo segundo o de outra escola esotérica da mesma tradição, tal como se verificou em certas escolas do Budismo Japonês. Em todos estes casos, o conceito de ortodoxia tem uma importância capital no julgamento do carácter dos ensinamentos envolvidos, do ponto de vista tradicional, e é quase sinónimo do tradicional no que concerne à conformidade para com a verdade. Não existe qualquer possibilidade de tradição sem ortodoxia nem de ortodoxia fora da tradição. Mormente, ambas são exclusivas de todas as imitações, aberrações, e desvios de origem puramente humana ou por vezes subhumana, as quais tanto reclamam abertamente serem exteriores às tradições como implicam tais pontos de partida do universo tradicional que tornam impossível a obtenção do acesso às doutrinas, práticas, e àquela presença espiritual única que confere ao homem a possibilidade de ultrapassar o seu ser limitado e atingir a enteléquia que é a sua raison d´être. Em qualquer dos casos, uma árvore é avaliada pelo fruto que sustenta e este princípio é em lado algum mais aplicável do que no julgamento do que é ortodoxo e do que se aparta ou desvia da ortodoxia em todos os níveis da vida religiosa do homem, incluindo não apenas a lei e a moralidade mas também, e especialmente, o domínio do conhecimento e da intelectualidade. A obtenção plena do conhecimento sagrado, incluindo o seu aspecto realizado, está tão relacionada com o conceito chave da tradição como com ortodoxia; e não é possível compreender a significância da tradição sem uma apreciação da sua relação para com a ortodoxia, percebida no seu sentido mais universal.[ii]


Falar da verdade e de ortodoxia no contexto tradicional é, também, falar de autoridade e de transmissão da verdade. Quem ou o que é que determina as verdades religiosas e garante a pureza, regularidade e perpetuidade da tradição? Esta é uma questão chave à qual todas as tradições se dedicaram de diferentes formas. Mormente, estas providenciaram respostas que garantem a autenticidade da tradição sem que tenham recorrido simplesmente a uma solução. Existem tradições que possuem um magisterium e outras uma comunidade sagrada que garante ela mesma a pureza e a continuidade da mensagem.[iii] Algumas enfatizaram a continuidade de uma função sacerdotal e, outras, uma cadeia de transmissão através de instrutores cujas qualificações foram determinadas e definidas pela tradição em questão. Por vezes, foram utilizados vários meios dentro de uma tradição singular, mas a autoridade tradicional permanece inseparável do significado da própria tradição em qualquer dos casos. Existem aqueles que são autoridades em assuntos tradicionais e outros que não o são; existem aqueles que sabem e os que não sabem. Seja em que circunstância for, o individualismo não desempenha nem pode desempenhar um papel na transmissão e na interpretação daquilo que é por definição suprahumano, mesmo que deixe uma vasto campo para a elaboração e interpretação humanas. A autoridade intelectual e espiritual é inseparável daquela realidade que é a tradição e os escritos tradicionais autênticos sempre possuem uma qualidade inata de autoridade.


Similarmente, tradição implica a regularidade da transmissão de todos os seus aspectos, desde a regulação e preceitos legais e de ética até ao conhecimento esotérico. Todos os diferentes meios de transmissão, que incluem transmissão oral, iniciação, transferência de poder, técnicas, conhecimento de mestre para discípulo, e a perpetuação de um perfume espiritual e de uma presença sagrada, estão relacionados e são inseparáveis daquela realidade que é a tradição. Viver no mundo tradicional é respirar num universo em que o homem está relacionado com uma realidade que está para além dele mesmo, e a partir da qual recebe aqueles princípios, verdades, formas, atitudes e outros elementos que determinam a própria textura da existência humana. E esta recepção é tornada possível através da transmissão que traz a realidade da tradição para as vidas dos membros de cada geração em conformidade com as suas capacidades e que destina e garante a perpetuação desta realidade sem a corrupção que caracteriza tudo o que é afectado pela influência debilitadora do tempo e do devir.


A natureza totalitária da tradição é também uma peculiaridade que carece ser realçada. Numa civilização caracterizada como tradicional, nada permanece fora do reino da tradição. Não existe nenhum domínio da realidade que possua o direito a existir fora dos princípios tradicionais ou das suas aplicações. Por conseguinte, a tradição concerne não apenas o conhecimento, mas também o amor e as obras. É a fonte das leis que governam a sociedade, mesmo nos casos em que as leis não derivam directamente da revelação.[iv] É a fundação da ética. Na realidade, a ética não tem qualquer significado fora do quadro estabelecido pela tradição. Também estabelece os princípios e normas para o aspecto político da vida e da sociedade, e a autoridade política está relacionada com a da espiritual apesar da relação entre as duas estar longe de ser uniforme nas diferentes tradições.[v] De igual modo, a tradição determina a estrutura da sociedade aplicando os princípios imutáveis à ordem social, daí resultando estruturas tão divergentes externamente como são o sistema de Castas Hindu e a “democracia dos monges casados” Islâmica, tal como alguns caracterizaram a sociedade teocrática Islâmica, nas quais existe ainda assim uma igualdade perante Deus e perante a Lei Divina, mas obviamente não segundo o sentido quantitativo moderno.[vi]


A Tradição também governa os domínios da arte e da ciência, com os quais lidaremos nos capítulos seguintes, e está especialmente centrada no conhecimento principial ou naquela ciência suprema que é a metafísica e que foi por diversas vezes confundida no Ocidente com filosofia. Sendo a nossa preocupação o conhecimento na sua relação com o sagrado e menos a totalidade dos aspectos da tradição, é necessário pausar aqui e destrinçar os tipos de conhecimento que existem numa civilização tradicional. Para além das várias ciências cosmológicas, existem, tal como já foi referido, três modos de conhecimento que lidam com os princípios que se podem distinguir num mundo tradicional, especialmente aqueles que são governados por uma das religiões Abraâmicas: sendo estas três a filosofia, a teologia, e a gnose ou, num certo contexto, a teosofia. O mundo moderno distingue apenas dois modos ou disciplinas: filosofia e teologia, em vez das três que existem no mundo tradicional de não apenas a Cristandade, mas também do Islão e do Judaísmo.


Na tradição Islâmica, após vários séculos durante os quais as diferentes perspectivas se formaram, surgiu uma situação que demonstra plenamente o papel e a função da filosofia, da teologia e da metafísica ou gnose num contexto tradicional. Existiam escolas tal como a dos Peripatéticos (mashshā’ī) que podiam ser consideradas filosóficas no sentido tradicional. Existiam escolas de teologia (kalām) tais como a dos Mutazilitas, dos Acharitas, dos Maturiditas, dos Ismailitas, e dos Xíitas dos Doze Imãs. Depois existia a gnose ou a metafísica associada com as várias escolas do Sufismo. No que respeita ao mundo Islâmico, também apareceu gradualmente uma escola associada com Suhrawardī e a sua escola da iluminação (al-ishrāq) que era simultaneamente filosófica e gnóstica e que deveria ser chamada, apropriadamente falando, de teosófica,[vii] enquanto que nas terras ocidentais do Islão, contemporâneo com este aparecimento, a filosofia cessou de existir como uma disciplina distinta e tornou-se ligada com a teosofia, por um lado, e com a gnose, por outro. De igual modo, o Judaísmo medieval conseguia distinguir entre os mesmos três tipos de perspectivas intelectuais, representadas por individualidades tais como Judas Halévy, Maimonides, Ibn Gabirol, e Luria. Escusado será dizer, na Cristandade medieval era também possível distinguir entre e teologia de São Bernardo, a filosofia de Alberto Magno e a gnose de Meister Eckhart, para não mencionar Roger Bacon ou de Raymond Lull, que correspondem mais à escola de ishrāq de Suhrawardī do que a qualquer outra se a comparação for feita com a tradição Islâmica.[viii]


Todas as três disciplinas têm um papel e uma função a desempenhar na vida intelectual do mundo tradicional. Existe um aspecto da “filosofia” que é necessário para expor certas ideias teológicas e gnósticas assim como existem elementos da teologia e da gnose que estão presentes em toda a expressão autêntica da filosofia merecedora do nome. Pode-se, na realidade, dizer que todo o grande filósofo é também em certa medida um teólogo e um metafísico, no sentido gnóstico, assim como todo o grande teólogo é em certa medida um filósofo e um gnóstico e cada gnóstico em algum grau um filósofo e teólogo, tal como se verificou nos casos de Ibn ‘Arabi e Meister Eckhart.[ix]


Apesar de, devido à completa depleção do que passa, no mundo moderno, como filosofia da verdade tradicional e do sagrado, autores tradicionais como A. K. Coomaraswamy e F. Schuon e especialmente R. Guénon terem atacado severamente a filosofia no sentido de clarificar o terreno de apresentação da metafísica e de precaver quaisquer distorções ou desvios que pudessem ser causadas pela confusão entre a filosofia profana e o conhecimento sagrado,[x] não há qualquer dúvida que existe tal coisa como a filosofia tradicional ou a filosofia no contexto tradicional.[xi] Apesar de toda a depreciação que o termo filosofia sofreu no mundo moderno, nela ainda ressoa algo da concepção Pitagórica e Platónica da filosofia. É possível ressuscitar o significado desta disciplina e da sua função desde que o carácter sagrado do conhecimento seja estabelecido novamente. Em qualquer dos casos, o mundo intelectual tradicional implica a presença de diferentes dimensões e perspectivas, incluindo o que na tradição Ocidental se chamaria não apenas de teologia e filosofia mas também de gnose e teosofia.[xii] O desaparecimento da gnose na corrente principal do pensamento Ocidental não poderia senão resultar na trivialização do significado da filosofia, a dissolução da substância da teologia e, finalmente, no aparecimento de uma espécie de inversão do conhecimento tradicional, o qual desfilou durante o século passado como “teosofia”.


Apesar de que a essência da tradição seja eterna presença in divinis, a sua manifestação histórica pode tanto desaparecer completamente do plano terrestre como tornar-se parcialmente inacessível ou “perdida”. Nem toda a tradição é uma tradição viva. A tradição Egípcia, por exemplo, que é uma das mais notáveis conhecidas ao homem, não pode ser praticada nem vivida ainda que tenham sobrevivido as suas formas de arte, símbolos, e mesmo uma certa presença de um tipo mais psicológico do que espiritual a ela pertencente. Aquela vida espiritual que avigorava e animava o corpo terrestre da tradição, partiu para a permanência da origem de todas as religiões e a tradição não pode ser dita como estando tão viva como pode, deixemos dizer, o Hinduísmo ou o Islão. Também existem certas tradições que estão apenas parcialmente acessíveis ou “vivas” no sentido de que apenas estão disponíveis determinadas das suas dimensões ou ensinamentos. Neste caso, existe sempre a possibilidade do rejuvenescimento e regeneração do que foi perdido ou esquecido, porquanto as raízes e os canais de transmissão da tradição se mantenham intactos. Similarmente, as civilizações criadas pelas várias tradições podem tornar-se enfraquecidas, decair, ou morrer sem que decaiam ou morram a religião e certos aspectos da tradição que fez nascer a civilização em questão. Tal é, na realidade, o caso das civilizações tradicionais da Ásia de hoje, as quais decaíram em diferentes graus enquanto as tradições que as fizeram nascer permanecem vivas.


Relativamente aos símbolos tradicionais, uma vez que eles têm a sua raiz no mundo arquetipal do Espírito, é possível ressuscitá-los desde que exista uma tradição viva que possa absorver símbolos, imagens, e até mesmo doutrinas de outro mundo tradicional, sendo que esta absorção implica muito mais do que mero empréstimo histórico.[xiii] Em qualquer dos casos, símbolos e ideias de tradições não vivas ou alienígenas não podem ser adoptados ou absorvidos legitimamente noutro mundo que não seja ele próprio tradicional, como tantos atentam fazer no mundo moderno. Aquele que tenta executar tal processo independentemente da tradição está a fazer nada menos do que a usurpação da função de um profeta ou daquele a quem os Muçulmanos chamam o Mahdī e os Hindus o Chavkravartin. A adopção de qualquer elemento de outra tradição deve seguir as leis e princípios que determinam o modo de existência da tradição que está a adoptar os elementos em questão. Caso contrário, a adopção de elementos, mesmo de uma origem com carácter tradicional, pode resultar na difusão de forças de dissolução que podem provocar grandes lesões ou mesmo a destruição de uma tradição já viva, para não falar de organizações de origem puramente humana que jogam com forças muito para além do seu horizonte de conhecimento ou poder de controlo.[xiv]


Estes e outros numerosos perigos, obstáculos, e precipícios, com que se depara o homem moderno que decidiu viver apenas do pão, forçaram aqueles que visavam ressuscitar o ponto de vista tradicional no mundo moderno a expressar a sua oposição categórica ao modernismo, o qual não identificam de todo com o mundo contemporâneo como tal mas com a revolta contra o Céu que se iniciou na Renascença no Ocidente e que presentemente invadiu praticamente a totalidade do mundo. Noutros tempos, teria sido possível falar sobre o que constitui a tradição sem discutir as forças do secularismo mas tal possibilidade não existe num mundo já influenciado e, do ponto de vista tradicional, contaminado pelo modernismo. Falar da tradição é estar preocupado com a verdade e por conseguinte com o erro, e estar perante a necessidade de avaliar o mundo moderno à luz daquelas verdades que constituem os próprios princípios da tradição. A oposição inflexível dos autores tradicionalistas ao modernismo decorre primeiramente e sobretudo da sua dedicação à verdade tradicional e depois da compaixão e caridade para com uma humanidade enredada num mundo tecido com os fios de meias-verdades e de erros.


Nos dias de hoje o criticismo contra o mundo moderno e o modernismo tornaram-se um lugar-comum, desde o trabalho de poetas até mesmo às análises de sociólogos.[xv] Mas a oposição da tradição ao modernismo, que é total no que respeita aos princípios, não deriva da observação de factos e de fenómenos ou do diagnóstico dos sintomas da enfermidade. Baseia-se num estudo das causas que trouxeram a doença. A tradição opõe-se ao modernismo porque considera as premissas sobre as quais o modernismo se baseia como sendo erradas e falsas em princípio.[xvi] Não negligencia o facto de que algum elemento de um sistema filosófico moderno possa ser verdade ou que alguma instituição moderna possa possuir características positivas ou ser boa. Na realidade, a falsidade ou o mal completos não podiam existir já que todo o modo de existência implica algum elemento daquela verdade e bondade que na sua pureza pertencem à Fonte de toda a existência.


Aquilo que a tradição critica no mundo moderno é a visão do mundo como um todo, as premissas, as fundações que, do seu ponto de vista, são falsas a ponto de que qualquer bem que apareça neste mundo seja acidental e não essencial. Poder-se-á dizer que os mundos tradicionais são essencialmente bons e acidentalmente maus, e que o mundo moderno é essencialmente mau e acidentalmente bom. A tradição é por conseguinte oposta ao modernismo em princípio. Deseja assassinar o mundo moderno[xvii] no sentido de criar um mundo normal. O seu objectivo não é destruir o que é positivo mas remover o véu de ignorância que permite que o ilusório aparente como real, o negativo como positivo e o falso como verdadeiro. A tradição não se opõe a tudo o que existe no mundo hoje e, de facto, recusa-se a comparar tudo o que existe hoje com o modernismo. Apesar de tudo, ainda que sejam dados epítetos tais a esta era como a o da era do espaço ou o da era atómica porque o homem viajou até à lua ou dividiu o átomo, de igual modo e através da mesma lógica poder-se-ia ter chamado era dos monges, já que os monges continuam a existir juntamente com os astronautas. O facto desta era não ser chamada a era do monasticismo mas antes do espaço é em si o fruto do ponto de vista modernista que equipara o modernismo com o mundo contemporâneo, enquanto a tradição distingue contundentemente entre os dois, procurando destruir o modernismo não com o propósito de destruir o homem contemporâneo mas para o salvar da prossecução do caminho cujo fim não pode ser se não a perdição e a destruição. Deste ponto de vista, a história do homem Ocidental durante os últimos cinco séculos é uma anomalia na longa história da raça humana, tanto no Oriente como no Ocidente. Ao opor-se ao modernismo em princípio e de maneira categórica, aqueles que seguem o ponto de vista tradicional desejam apenas possibilitar ao homem Ocidental a união com o resto da raça humana.[xviii]


A ênfase dos autores tradicionais contemporâneos sobre o Este ou o Oriente deve-se na verdade à situação histórica em que o modernismo e a rebelião contra a tradição emergiram no Ocidente. Mais precisamente, a tradição abarca ambos o Oriente e o Ocidente uma vez que derivam de não outra que a “Abençoada Oliveira” ou eixo central da existência cósmica a que o Corão se refere ao declarar não pertencer ao Oriente nem ao Ocidente.[xix] É verdade que durante este século aqueles que falaram da tradição enalteceram os três maiores universos espirituais do Este, considerando o Oriente Longínquo, a Índia e o mundo Islâmico, com as suas características distintas e os seus diferentes pontos de interpenetração. Também é verdade que alguns pensaram até que civilização tradicional significa simplesmente civilização Oriental. Mas mesmo neste século, desde que um trabalho como East and West de R. Guénon foi escrito, muitas foram as mudanças na própria Ásia que dão ainda mais razão em não identificar a tradição apenas com o Oriente geográfico, embora o que é tradicional ainda sobreviva mais no Oriente do que no Ocidente geográficos e apesar destes termos não terem perdido completamente o seu sentido geográfico.[xx]


Enquanto a histórica trágica destas décadas se desenrola, contudo, torna-se cada vez mais necessário identificar a tradição do Este ou Oriente que pertencia à geografia sagrada, e que é simbólica em vez de literal. O Oriente é a fonte da luz, o ponto onde o dia se rompe e o sol se ergue arremessando a sua luz sobre os horizontes, removendo a escuridão e lançando o calor que vivifica. O Oriente é a Origem, bem como o ponto para onde nos voltamos ao longo da jornada na vida, o ponto sem o qual não haveria orientação, sem o qual a vida se tornaria desordem e caos e a nossa jornada um caminhar sinuoso no labirinto daquilo a que os Budistas chamam de existência samsárica. A Tradição identifica-se com este Oriente. Esta, igualmente, advém da Origem e providencia orientação para a vida humana. Providencia um conhecimento que é de uma vez Oriental e iluminante, um conhecimento que é combinado com amor tal como a luz do sol se combina com o calor, um conhecimento que parte do Precinto do Sagrado e que conduz ao Sagrado.


Na medida em que as sombras da terra do sol poente cobrem o espaço habitado pela espécie humana e que o Oriente geográfico se torna devastado pelas várias formas do modernismo, nessa medida o Oriente transforma-se num pólo sustentado no coração e na alma dos seres humanos onde quer que eles estejam. Na medida em que o Oriente físico deixa de ser, pelo menos externamente, a terra da tradição tal como o foi ao longo de milénios,[xxi] nessa medida a tradição alastra-se uma vez mais para o “Ocidente Longínquo” preparando simbolicamente o terreno para o dia em que “o Sol se erguerá no Ocidente.” Identificar a tradição com o Oriente nos dias de hoje é identificá-la com aquele Oriente que é o local do nascer do Sol do nosso próprio ser, o ponto que é de uma vez o centro e a origem do homem, o centro que ilumina e santifica e sem o qual a existência humana, tanto a nível individual como colectivo, se torna como um círculo sem centro, um mundo privado da luminosidade iluminadora e vivificadora do Sol nascente.

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[i] “…Ortodoxia é o princípio da homogeneidade formal apropriada para qualquer perspectiva espiritual; é portanto um aspecto indispensável de toda a intelectualidade genuína”- Schuon, Stations of Wisdom, trad. G. E. H. Palmer, Londres, 1961.
[ii] É de muito interesse que o termo ortodoxia não seja utilizado nas línguas Orientais nem mesmo no Árabe dominado pelo Islão, o qual sustenta tantas parecenças com a Cristandade. Quando se estuda a tradição Cristã percebe-se, contudo, quão essencial é este termo para a descrição dos vários aspectos do próprio Islão e, diga-se, quão enganador é quando os orientalistas chamam de não ortodoxo o Shī’ism e o Sufismo porquanto ambos pertencem à totalidade da ortodoxia Islâmica, bem como à ortoprática. Ver Nars, Ideals and Realities of Islam, caps. 5 e 6.
[iii] No Islão Sunita, a ummah ela própria protege a pureza e a continuidade da tradição; logo o princípio de ijmā ou concenso, o qual foi interpretado como o consenso dos escolásticos religiosos (‘ulamā’) e também como a comunidade como um todo. No Islão Shī’ite, a função de preservação da tradição é desempenhada pelo próprio Imã. Ver ‘Allāmah Tabātabā’ī, Shī’ite Islam, trad. S. H. Nasr, London and Albany (N.Y.), 1975, pp. 173ff.
[iv] No Judaísmo e no Islão a lei é uma parte integral da religião e deriva directamente da revelação. É portanto tradicional por definição. Mesmo na Cristandade, a qual não revelou uma lei, a lei que foi adoptada pela civilização Cristã na Idade Média das leis Romana e convencional era mesmo assim tradicional, ainda que, devido à menos directa relação desta lei para com a fonte da revelação Cristã, se tenha tornado mais fácil rejeitar os aspectos sociais da civilização Cristã durante as revoltas contra a tradição Cristã do que teria sido possível no Islão ou no Judaísmo.
[v] Ver R. Guénon, Autorité spirituelle et pouvoir temporel, Paris, 1929 ; A. K. Coomaraswamy, Spiritual Authority and Temporal Power in the Indian Theory of Government, New Haven, 1942; S. H. Nasr, “Spiritual and Temporal Authority in Islam”, em Islamic Studies, Beirut, 1967, pp. 6-13.
[vi] Existem vários trabalhos notáveis sobre a tradição no seu aspecto social em línguas Europeias tais como G. Eaton, The King of the Castle: Choice and Responsibility in the Modern World, Londres, 1977; M. Pallis, “The Active Life,” no seu The Way and the Mountain, Londres, 1960, pp. 36-61; A. K. Coomaraswamy, The Religious Basis of the Forms of the Indian Society, Nova Iorque, 1946; R. Guénon, Introducing to the Study of the Hindu Doctrines, Pt. 3, caps. 5 e 6; e F. Schuon, Castes and Race, trad. Marco Pallis e Macleod Matheson, Londres, 1981.
[vii] Para um discussão sobre estas perspectivas intelectuais no Islão ver Nasr, Islam Life and Thought.
[viii] Em séculos posteriores a “teosofia” associou-se com Boehme e a sua escola de certa forma substituiu a metafísica dos sábios Cristãos anteriores. O termo “teosofia”, ainda que de origem Grega, não se tornou comum na vida intelectual Cristã antes da Renascença.
[ix] “Il est impossible de nier que le plus illustres soufis, tout en étant ‘gnostiques’ par définition, furent en même temps un peu théologiens et un peu philosophes, ou que les grandes théologiens furent à la fois un peu philosophes et un peu gnostiques, ce dernier mot devenant s’entendu dans sons sense propre et non sectaire. “ Schuon, Le Soufism, voile et quintessence, Paris, 1980, p. 105.
[x] Existe alguma diferença no modo como a filosofia foi criticada pelos autores tradicionais, sendo a critica de Schuon mais ténue e sombreada do que a de Guénon, o qual visando esclarecer o contexto de exposição e apresentação das doutrinas tradicionais se opôs categoricamente à filosofia (à excepção do Hermetismo) e identificou toda a filosofia com o pensamento profano. Ver Guénon, Introduction, pt. 2, cap. 8. A apreciação mais positiva de Schuon pela filosofia, na qual distingue entre filosofia tradicional e racionalismo moderno, pode ser encontrada em muitos dos seus últimos escritos , esp. “Sur les traces de la notion de la philosophie,” no seu Le Soufisme, pp. 97-107.
[xi] Ver A. K. Coomaraswamy, “On the Pertinence of Philosophy,” em Contemporary Indian Philosophy, ed. S. Radhakrishnan, Londres, 1936, pp. 113-34; relativamente ao que concerne a tradição Islâmica ver S. H. Nasr, “The Meaning and Role of ‘Philosophy’ in Islam,” em Studia Islamica 36 (1973): 57-80.
[xii] Sobre o significado de teosofia ver “Theosophie” por A. Faivre, em Encyclopedia universalis.
[xiii] “Quando se sonda o arquétipo, a origem última da forma, apercebemo-nos então que está ancorado no mais elevado, não no menos…. Aquele que se deslumbra com um símbolo formal poder permanecer vivo não apenas por milénios, mas que, como deveremos ainda aprender, pode brotar novamente para a vida depois de um intervalo de milhares de anos, deveria recordar-se a si próprio que o poder do mundo espiritual, que forma uma parte do símbolo, é de duração eterna.”De W. Andrae, Die Ionische Säule; Bauform oder Symbol?, Berlim, 1933, pp. 65-66, citado por A. K. Coomaraswamy, The Vedas: Essays in Translation and Exegesis, Londres, 1976, p. 146.
[xiv] Sobre esta matéria ver Guénon, The Reign of Quantity and the Signs of Times, trad. Lord Northbourne, Baltimore, 1973.
[xv] Se há um século atrás era necessário ler T. S. Eliot para se tomar consciência do carácter patético da condição espiritual do homem moderno, nos dias de hoje existem numerosos estudantes da sociedade humana que tomaram consciência de que existe algo de profundamente errado com as premissas sobre as quais o modernismo se baseia e que procuraram estudar a sociedade moderna a partir deste ponto de vista. Ver, por exemplo, os bem conhecidos trabalhos de P. Berger tais como The Homeless Mind: Modernization and Consciousness, Nova Iorque, 1973; e os de I. Illich, Celebrations of Awareness, Nova Iorque, 1970; idem, Energy and Equity, Londres, 1974; idem, Tools for Conviviality, Nova Iorque, 1973; e idem, Tradition and Revolution, Nova Iorque, 1971.
Existem muitos outros criticismos da tecnologia, da ciência, da ordem social, etc., por outras individualidades importantes tais como L. Mumford, J. Ellul, e Th. Roszak. Roszak registou na realidade muitos destes criticismos de vários aspectos do mundo moderno no seu Where the Wasteland Ends, The Unfinished Animal, e Person/Planet, Nova Iorque, 1980.
Apesar da aparência de tais trabalhos, contudo, é surpreendente que os proponentes do modernismo que domina um mundo que se orgulha de ser crítico esteja em tamanha falha em termos de espírito crítico quando se trata de examinar aquelas premissas e suposições sobre as quais a visão modernista do mundo se baseia. “O passado, do qual sai a tradição, é relativizado [pelos relativizadores modernos] em termos desta ou daquela análise socio-histórica. O presente, contudo, permanece estranhamente imune à relativização. Por outras palavras, os escritores do Novo Testamento são vistos como afligidos com uma consciência falsa enraizada no seu tempo, mas o analista contemporâneo toma a consciência do seu tempo como uma bênção intelectual imiscível. Os utilizadores da electricidade e do rádio são intelectualmente colocados acima do Apóstolo Paulo.” P. Berger, A Rumor of Angels: Modern Society and the Rediscovery of the Supernatural, Nova Iorque, 1969, p. 51.
[xvi] Sobre o criticismo tradicional do mundo moderno ver R. Guénon, The Crisis of the Modern World, trad. M. Pallis e R. Nicholson, Londres, 1975; e A. K. Coomaraswamy, “Am I My Brother’s Keeper?” no seu The Bugbear of Literacy.
[xvii] Referindo-se ao seu encontro com autores tradicionais, J. Needleman escreve, “Estes saíram para a matança. Para eles, o estudo das tradições espirituais era uma espada com a qual se destrói as ilusões do homem contemporâneo.” Needleman (ed., The Sword of Gnosis, Baltimore, 1974, p. 9.
[xviii] “Quando olhamos para os corpos humanos, aquilo que notamos habitualmente são as suas características da superfície, que obviamente diferem marcadamente. Entretanto, no interior as espinhas que suportam estas fisionomias heterogéneas são estruturalmente muito semelhantes. Passa-se o mesmo com as visões de conjunto do homem. Diferem externamente mas internamente é como se uma ‘geometria invisível’ tivesse estado a trabalhar em toda a parte para conformá-las a uma Verdade única.
A única excepção notável somos nós próprios: a nossa Ocidental e contemporânea visão de conjunto difere na sua própria alma daquilo que poderia de outra forma ser chamado de ‘a unanimidade humana’… Se sucedermos na sua correcção [a leitura errada da ciência moderna] poderemos reintegrar a raça humana.” H. Smith, Forgotten Truth, Nova Iorque, 1976, pp. Ix-x.
[xix] O bem conhecido “Verso da Luz” é como se segue: “Allah é a Luz dos céus e da terra. A similitude da Sua luz é como um nicho no qual está uma lamparina. A lamparina está num vidro. O vidro é como se fosse uma estrela. (Esta lamparina) alumia a partir de uma árvore abençoada, uma oliveira nem do Este nem do Oeste, cujo azeite quase brilharia para fora (de si próprio) ainda que fogo algum lhe tocasse. Luz sobre luz, Allah guia para a Sua luz quem Ele quer. E Allah fala à humanidade em alegorias, pois Allah é Conhecedor de todas as coisas.” Corão XXIV; 35 – trad. Pickthall.
[xx] Goethe, que leu o Corão quando tinha vinte e três anos, escreveu (no seu Aus dem Nachlass):
So der Westen wie der Osten
Gehen Reines die zu kosten
Lass die Grillen, lass die Schale
Setza dich zum grossen Mahle.
[xxi] Tal como já foi mencionado, o alastramento do modernismo pelo Oriente geográfico destruiu em certa medida as civilizações tradicionais de várias partes do mundo, mas isto não significa que a dimensão sapiencial das tradições Orientais em ambos os seus aspectos doutrinais e operativos, que são de especial importância para este estudo, tenham sido destruídas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A Lei de Manu

De um modo algo acidental, a conclusão da leitura do livro Introduction to Hindu Dharma e a decisão de o recomendar neste espaço, coincidiu com a necessidade, por razões distintas, de voltar a um livro de René Guénonaqui referido, Introdução ao estudo das doutrinas Hindu, nomeadamente a um capítulo, a Lei de Manu, em que a definição de dharma é analisada e discutida pelo autor. Rapidamente, tomei a decisão de me dedicar à sua tradução, para que esta complementasse, de certa forma, a apresentação do referido livro. Aqui fica uma primeira versão.


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A Lei de Manu


Como um exemplo do tipo de ideia apta a provocar confusão nas mentes Ocidentais, e que se deve à ausência de um termo equivalente no seu próprio vocabulário, podemos citar a concepção traduzida pela palavra Sânscrita dharma; os orientalistas têm proposto variadas traduções para a palavra, mas a maior parte destas são apenas aproximações grosseiras ou mesmo completamente erradas, em resultado sobretudo da usual confusão dos pontos de vista a que nos referimos anteriormente. Assim, a palavra dharma é por vezes traduzida por ‘religião’, apesar do ponto de vista religioso ser aqui inaplicável; adicionalmente, deverá ser claramente compreendido que não é a concepção de uma doutrina, erradamente considerada como religiosa, que esta palavra designa. Por outro lado, se for uma questão de cumprimento de rituais, os quais não são, da mesma forma, de carácter religioso, estes são descritos na sua totalidade pela palavra karma, cujo significado mais geral é ‘acção’, mas que aqui é considerada num sentido especial e como que técnico. Para aqueles que pretendem a todo o custo ver uma religião na tradição Hindu, existiria ainda aquilo que acreditam ser um aspecto moral, e é especialmente este que eles designariam como dharma; desta forma, de acordo com as circunstâncias, várias interpretações mais ou menos secundárias têm surgido, como ‘virtude’, ‘justiça’, ‘mérito’, e ‘dever’, todas estas exclusivamente ideias morais e, por essa mesma razão, sem expressar de forma alguma a ideia em questão. O ponto de vista moral, sem o qual estas ideias não têm qualquer significado, não pertence à Índia; já insistimos suficientemente neste ponto, e inclusivamente já referimos que até o Budismo, apesar de talvez se poder considerar que o possa ter introduzido, nunca fez qualquer avanço desse tipo ao longo do caminho do sentimentalismo. Adicionalmente, podemos ainda referir que estas mesmas ideias não são todas igualmente essenciais para o próprio ponto de vista moral; isto é, existem algumas delas que não são comuns a todas as concepções morais: por exemplo, a ideia de dever ou de obrigação está ausente na maior parte dos antigos códigos de moralidade, entre outros, pode-se referir o dos Estóicos, e apenas recentemente, especialmente a partir de Kant, esta adquiriu um papel tão preponderante. Uma coisa importante de referir em relação a este aspecto, e uma vez que é uma das mais frequentes origens de erro, é que ideias ou pontos de vista que se tornaram habituais tendem, por essa mesma razão, a parecer essenciais; é por essa razão que são feitas tentativas para as introduzir nas interpretações de todo o tipo de concepções, inclusivamente naquelas mais remotas no tempo e no espaço, apesar de muitas vezes não ser necessário recuar muito no tempo para descobrir a sua verdadeira fonte.

Tendo referido estes aspectos sobre as falsas interpretações mais comummente encontradas, procuraremos mostrar, da forma mais clara possível, aquilo que deve ser verdadeiramente entendido por dharma. Tal como indica o significado da sua raiz verbal dhri, da qual deriva, esta palavra, no seu sentido mais geral, denota simplesmente ‘modo de ser’; é, de certa forma, a natureza essencial de um ser, compreendendo o somatório das suas qualidades ou características particulares, e determinando, em virtude das tendências ou disposições que implica, o modo pelo qual este ser se deve conduzir, seja de uma forma geral, seja em relação a cada circunstância particular. A mesma ideia pode ser aplicada não apenas a um único ser mas também a uma colectividade organizada, a uma espécie, a todos os seres incluídos num ciclo cósmico ou estado de existência, ou mesmo a toda a ordem do Universo; a um nível ou outro, significa, assim, conformidade com a natureza essencial dos seres, o qual é realizado na hierarquia ordenada em que todos os seres têm o seu lugar, e é também, em consequência, o equilíbrio fundamental ou harmonia integral resultante desta disposição hierárquica, o que é nada mais do que precisamente o que a ideia de ‘justiça’ significa quando liberta do seu carácter especificamente moral.

Considerada desta forma, como um princípio de ordem e, dessa forma, como uma organização e disposição inerente, quer seja a um ser, quer seja a um grupo de seres, dharma pode ser considerada, num certo sentido, como oposto a karma, a qual é simplesmente a acção através da qual esta disposição se irá manifestar exteriormente, admitindo sempre que a acção é normal, ou por outras palavras, admitindo que se conforma com a natureza dos seres e dos estados de existência a que estes pertencem, bem como com as relações resultantes em consequência. Nestas circunstâncias, aquilo que é adharma, ou contrário ao dharma, não é ‘pecado’ no sentido teológico da palavra, nem é “mau” no sentido moral, uma vez que estas palavras são igualmente desconhecidas para a mente Hindu; é apenas ‘não-conformidade’ com a natureza dos seres, desequilíbrio, rotura da harmonia, destruição ou perturbação das relações hierárquicas. Sem dúvida, na ordem universal, o somatório total de todos os desequilíbrios particulares resulta sempre no equilíbrio total, o qual nada pode destruir; mas a cada instante, considerado separadamente e por si próprio, o desequilíbrio é possível e concebível, e onde quer que ocorra na ordem social ou outra, não existe absolutamente qualquer necessidade de lhe atribuir algo com carácter moral ou defini-lo como algo que é contrário, na sua própria esfera, à ‘lei de harmonia’ que governa simultaneamente a ordem humana e cósmica. O significado de ‘lei’ assim definido e, tendo o cuidado de a distinguir de todas as aplicações particulares e derivativas que podem dela resultar, pode ser aceite como uma tradução de dharma, sem dúvida imperfeita, mas menos inexacta do que outros termos emprestados das línguas Ocidentais; deve ser enfatizado mais uma vez que, no entanto, não é uma lei moral que está aqui em questão; da mesma forma, as noções de lei científica e lei social ou judicial referem-se, por definição, apenas a casos especiais.

A ‘lei’ pode, por transposição analógica, ser considerada em princípio como uma ‘vontade universal’, a qual, no entanto, não permite que subsista na sua concepção nada de pessoal, nem, por razões ainda mais fortes, nada de antropomórfico. A expressão desta vontade em cada estado de existência manifestada é designada por Prajāpati ou ‘Senhor de seres produzidos’; e em cada ciclo cósmico particular, esta mesma vontade é manifestada como o Manu que oferece a cada ciclo a sua lei própria. Manu não deve, assim, ser tomado como o nome de uma personagem mítica, lendária ou história; é, na realidade, o nome de um princípio, o qual pode ser definido, de acordo com o significado da raiz verbal manas, como uma ‘inteligência cósmica’ ou ‘pensamento que reflecte a ordem universal’. Por outro lado, este princípio é ainda considerado como um protótipo do homem, o qual é designado por manava enquanto considerado, essencialmente, como um ‘ser pensante’, caracterizado pela posse de manas, a faculdade mental ou racional; o conceito de Manu é, desta forma, equivalente, pelo menos em certos aspectos, ao que outras tradições, em especial a Cabala Judaica e o esoterismo Islâmico, referem como Homem Universal, ou ao que os Taoistas designam por ‘o Rei’. Já vimos atrás que o nome Vyāsa não se refere a um homem mas sim a uma função; nesse caso, no entanto, a função é, de uma forma geral, histórica, enquanto Manu representa uma função cósmica que apenas se pode tornar histórica quando aplicada especificamente à ordem social, mas sem este facto pressupor, por si mesmo, qualquer tipo de ‘personificação’. De facto, a lei de Manu, para qualquer ciclo ou colectividade, não é mais do que a observância das relações hierárquicas naturais existentes entre os seres sujeitos às condições especiais daquele ciclo ou colectividade, em conjunto com todo o corpo de preceitos normalmente associados. Não propomos aprofundar aqui no aspecto dos ciclos cósmicos, sobretudo porque seriam necessárias longas explicações para tornar a teoria plenamente inteligível; iremos simplesmente referir que a relação entre estes não é cronológica mas sim lógica e causal, cada ciclo sendo determinado na sua totalidade pelo ciclo precedente e determinando, por sua vez, o ciclo seguinte, através de uma contínua produção governada pela ‘lei da harmonia’ que estabelece a analogia fundamental entre todos os modos de manifestação universal.

Quando se trata da sua aplicação à esfera social, a ‘lei’, a qual toma nesse momento o seu sentido jurídico específico, pode ser formulado num shāstra ou código que, enquanto expressão da ‘vontade cósmica’ a um determinado nível, é referida como Manu ou, mais precisamente, a Manu do actual ciclo; mas é evidente que esta atribuição não torna Manu o autor da shāstra, pelo menos não no seu sentido vulgar em que algo puramente humano se diz ser o trabalho de um determinado autor. Aqui, mais uma vez, tal como no caso dos textos Védicos, não existe uma origem histórica definitivamente atribuível e, inclusivamente, como já explicámos, a questão de tal origem não tem qualquer consequência do ponto de vista doutrinal. No entanto, é de notar uma distinção importante entre os dois casos: enquanto os textos Védicos são descritos pelo termo shruti, denotando o resultado de uma inspiração directa, o dharma-shāstra pertence apenas à classe dos textos tradicionais designados por smriti, cuja autoridade tem um carácter menos fundamental; entre os textos desta classe estão também incluídos os Purānas e os Itihāsas, os quais os académicos Ocidentais consideram ser apenas poemas mitológicos ou épicos, não compreendendo o profundo simbolismo que os torna algo bem diferente do que entendemos vulgarmente por ‘literatura’. Fundamentalmente, a distinção entre shruti e smriti é equivalente à diferença entre a pura e directa intuição intelectual e a consciência reflexiva de ordem racional, a primeira aplicável exclusivamente ao domínio dos princípios metafísicos, e a última exercendo a sua actividade sobre os objectos de conhecimento no plano individual, tal como é necessariamente o caso quando estão em questão aplicações de ordem social ou outras. Apesar deste aspecto, a autoridade tradicional do dharma-shāstra não deriva, de forma alguma, dos autores humanos cuja tarefa foi a sua formulação, sem dúvida inicialmente na forma oral, e mais tarde na forma escrita, razão pela qual estes autores foram mantidos desconhecidos e inidentificáveis; a sua autoridade deriva exclusivamente do facto deste representar a verdadeira expressão da lei de Manu, ou seja, da sua conformidade com a ordem natural das existências para as quais está destinada governar.

Introduction to Hindu Dharma

Este maravilhoso livro, Introduction to Hindu Dharma, editado por Michael Fitzgerald para a World Wisdom, oferece-nos a oportunidade de compreender o autêntico Hinduísmo directamente a partir das palavras de um dos mais reverenciados líderes espirituais do Hinduísmo do século XX. Referimo-nos a Sua Santidade o 68º Jagadguru, Sri Chandrasekharendra Saraswathi Swamigal, grande sábio da tradição de Shankara.

Sri Swaminathan (nascido em Villipuram a 20 de Maio de 1984) foi levado para Kalavai com a idade de 13 anos para ser iniciado na ordem ascética e ordenado como o 68th Acharya da Kanchi Kamakoti Mutt. Era afeiçoadamente apelidado de "Mahaswamigal" e "Deus andante" e tinha como principais preocupações a preservação dos Vedas, da tradição e do dharma. As suas exposições sobre o Vedanta, os sastras, e os deveres de dharma atraíram académicos e leigos de toda a parte do mundo.

Esta obra resulta de uma selecção efectuada a partir de mais de 2000 discursos e abrange uma grande variedade de temas, entre os quais a oração e a virtude, a verdade metafísica Hindu, e o conflito entre o dharma tradicional Hindu e a modernidade, tendo o mérito de, não só apresentar este sábio Hindu, como também introduzir o seu legado espiritual para o mundo Ocidental na forma de uma insubstituível introdução ao Hinduísmo no mundo de hoje.



É sem dúvida um livro maravilhoso, ilustrado com mais de 100 fotografias retiradas ao longo dos 100 anos de vida do Jagadguru, o que torna a sua leitura verdadeiramente inspiradora. Fica aqui a recomendação.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Conhece-te a ti próprio

A filosofia vulgar iria consumir imenso tempo. Eu agora não tenho tempo livre para essas questões; queres que te diga porquê? Tenho que me conhecer primeiro, tal como diz a inscrição Délfica; ser curioso sobre coisas que não me dizem respeito, enquanto ainda em ignorância de mim próprio, seria ridículo. [Platão - Fedro]

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A Filosofia Perene

O seguinte texto é uma tradução do ensaio de Frithjof Schuon publicado inicialmente no livro "The Unanimous Tradition: Essays on the Essencial Unity of All Religions", editado por Fernando Ranjit e traduzido por William Stoddart, e recentemente incluído no livro "The Underlying Religion - An Introduction to the Perennial Philosophy", editado por Martin Lings e Clinton Minnar.


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O termo philosophia perennis, correntemente utilizado desde a Renascença e à qual os neo-escolásticos deram bastante uso, significa a totalidade das verdades primordiais e universais – e, por essa razão, dos axiomas metafísicos – cuja formulação não pertence a nenhum sistema em particular. Da mesma forma, poderíamos nos referir a uma religio perennis, designando-se através deste termo a essência de todas as religiões; isto significa a essência de todas as formas de adoração, todas as formas de oração e de todos os sistemas de moralidade, tal como a sophia perennis é essência de todos os dogmas e de todas as expressões de sabedoria. Preferimos o termo sophia em relação ao de philosophia, pela simples razão que o segundo termo é menos directo e porque invoca associações com um sistema de ideias totalmente profano e demasiadas vezes aberrante.

A chave para a eterna sophia é a pura intelecção ou, por outras palavras, o discernimento metafísico. “Discernir” é “separar”: separar o Real e o ilusório, o Absoluto e o contingente, o Necessário e o possível, Ātmā e Māyā. A acompanhar o discernimento, em forma de complemento e de um modo operativo, está a concentração, a qual une: isto significa tornar-se completamente consciente – a partir do ponto inicial da terrena e humana Māyā – do Ātmā, o qual é simultaneamente absoluto e infinito.

De acordo com alguns dos Pais da Igreja, “Deus tornou-se homem para que o homem se possa tornar Deus”; uma fórmula audaciosa e elíptica que poderíamos parafrasear ao estilo do Vedānta, dizendo que o Real se tornou ilusório para que o ilusório se pudesse tornar real; Ātmā tornou-se Māyā para que Māyā compreende-se Ātmā. Esta é a verdadeira definição de Revelação e do Revelador; de Dharma e do Avātara.

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O erro decisivo do materialismo e do agnosticismo é a incapacidade para ver que as experiências diárias da nossa vida são de uma forma imensurável inferiores à estatura da nossa inteligência humana. Se os materialistas estivessem correctos, esta inteligência seria um luxo inexplicável; sem o Absoluto, a capacidade para a conceber não teria uma causa. A verdade do Absoluto coincide com a própria substância do nosso espírito; as várias religiões actualizam objectivamente aquilo que está contido na nossa mais profunda subjectividade. A Revelação é no macrocosmos aquilo que a intelecção é no microcosmos; o Transcendente é imanente no mundo, de outra forma o mundo não existiria, e o Imanente é transcendente em relação ao individual, de outra forma não o poderia suplantar.

Aquilo que dissemos em relação ao alcance da inteligência humana também se aplica à vontade, no sentido que a livre vontade prova a transcendência do seu objectivo essencial, para o qual o homem foi criado e pelo qual o homem é homem; o ser humano é proporcional a Deus, e é apenas em Deus e através Dele que ele é totalmente livre.

Poderíamos fazer uma observação análoga para o caso da alma humana; a nossa alma prova Deus pelo facto de ser proporcional à natureza divina, e é o assim por compaixão, amor desinteressado, generosidade – e, por essa razão, em última análise, por objectividade, a capacidade para se transcender; é isto, precisamente, que caracteriza a inteligência e a vontade do homem.

E é nestas fundações da natureza humana – imagem da natureza divina – que a religio perennis tem a sua raiz.

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A expressão doutrinal mais directa da sophia perennis é sem dúvida o Advaita Vedānta, com as suas noções de Ātmā, de Māyā, e de Tat tvam asi; mas esta doutrina é também encontrada, de uma forma ou de outra, mesmo que em alguns casos apenas esporadicamente, nos esoterismos sapienciais de todas as grandes religiões, e isto tem necessariamente de assim ser uma vez que em qualquer religião normal – e, assim, intrinsecamente ortodoxa – é ela própria uma expressão indirecta e simbólica da eterna sophia.

Citámos atrás uma fórmula patrística que resume o Cristianismo e ao mesmo tempo expressa a religio perennis: “Deus tornou-se homem para que o homem se possa tornar Deus.” No Islão, o ênfase não está no mistério da Manifestação Divina; está na Unidade Divina e, assim, na Realidade Divina, juntamente com as consequências que esta essencialmente compreende; a expressão fundamental deste facto está no seu testemunho de fé: “Não existe divindade (= realidade) excepto a (única) Divindade (= Realidade).” No Islão, o que salva não é, em primeiro lugar, a Manifestação Divina; é a aceitação, através da inteligência, da Unidade Divina, e posteriormente o facto de retirar daí todas as consequências.

Discernir o Real; concentrar-nos nele, ou mais precisamente, no mais possível dele que nos é acessível; e depois conformar a moralidade à sua natureza; este é o Caminho, o único que existe. No Cristianismo, o Real está como que absorvido – com vista à salvação do homem – na sua Manifestação humana, Cristo; a concentração é realizada através da união com Ele, sem esquecer os sacramentos que conferem as correspondentes graças; a conformidade moral exige humildade e caridade, e nesta perspectiva, o Cristianismo não pode ser distinguido de qualquer outra perspectiva espiritual, excepto pela coloração sentimental específica que atribui a estas virtudes.

Quanto ao Judaísmo, este é peculiar pelo facto de pôr toda a ênfase em Deus como o parceiro do Seu Povo Escolhido, sendo a Lei a ligação entre as duas partes; podemos dizer também que é o último que recebe toda a ênfase, uma vez que está situado entre Deus e Israel; se Israel é o Povo de Deus, Deus pela Sua parte é o Deus de Israel, o pacto sendo firmado pela Lei de Sinai. O drama entre Deus e o seu Povo reflecte o drama entre Ātmā e Māyā, com toda a sua ambiguidade e toda a sua glória final, do ponto de vista duplo de ritmos cósmicos e da Apocatástase.

Completamente diferente das religiões Semitas e mesmo das religiões Arianas é o Budismo, apesar de ele próprio nascer num meio Ariano e teísta: nesta perspectiva, o Absoluto­‑Infinito não toma a forma de uma divindade objectiva que é ao mesmo tempo transcendente, imanente e omnipotente, mas aparece unicamente – pelo menos a priori – sob os aspectos de um estado interior que na realidade está para além todos os estados imagináveis, sendo, precisamente, o Estado absoluto e infinito. O conceito de Nirvāna, apesar de claramente não-teísta, não é “ateísta” uma vez que implica a noção de Absoluto, Infinito e Realidade Perfeita, os quais não podem ser o vazio, excepto em aparência e em comparação com o mundo das formas e das paixões. De outro ponto de vista, Nirvāna é objectivado na forma do Buddha, o que nos transporta de volta para a fórmula patrística já citada, e a qual podemos parafrasear nos seguintes termos: o Nirvāna (o “Estado Divino”) tornou-se Samsāra (= o mundo) para que o Samsāra se possa tornar Nirvāna; o Nirvāna tornado Samsāra não é mais do que o Buddha, o qual é na prática Deus como Logos ou Avātara.

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A própria expressão philosophia perennis, e o facto da maioria daqueles que a utilizaram eram Tomistas, e por essa razão Aristotélicos, levanta a questão sobre qual é, neste contexto, o valor da sabedoria Grega, sobretudo porque esta é geralmente apresentada como um mero sistema de pensamento humano. Em primeiro lugar, por sabedoria Grega referimo-nos, não apenas a uma qualquer filosofia da Antiguidade Clássica, mas essencialmente ao Platonismo com as suas raízes Pitagóricas e o seu prolongamento com Plotino; neste sentido, pode até ser aceite o Aristotelismo, mas na condição expressa que esta seja combinada – como no espírito dos filósofos Muçulmanos – com o Platonismo no seu sentido mais lato, do qual é, dessa forma, como que uma dimensão particular mais ou menos secundária. Por esta razão, devemos ter em consideração o seguinte, que é essencial: a sabedoria Grega pressupõe, por um lado, a iniciação nos Mistérios, e por outro, a prática das virtudes; basicamente, pertence à gnose – ao jñāna dos Hindus – mesmo quando lida com coisas que não têm qualquer ligação com o conhecimento; claramente, o Aristotelismo não é um jñāna, mas, de qualquer forma, deriva de uma perspectiva desta ordem.

O Aristotelismo é uma metafísica que cometeu o erro de se abrir ao mundo, em direcção às ciências, em direcção à experiência, mas a qual não é menos logicamente válida para tudo isso, enquanto que o Platonismo contempla o Céu, os arquétipos, os valores eternos.

Se por um lado o espírito Grego – através do Aristotelismo mas também e sobretudo através dos sofistas e dos cépticos – deu origem à aberração que é a profana e racionalista filosofia, também providenciou – sobretudo através do Platonismo – elementos que foram significativamente úteis, não só para as várias teologias de origem Semita, mas também às especulações esotéricas que as acompanharam e que a elas se sobrepõem; não devemos esquecer que para alguns Sufis, Platão goza de um prestígio digno de um profeta, e que Mestre Eckhart se referiu a ele como “aquele grande pastor” que “descobriu o caminho antes de Cristo ter nascido”.

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Situado num sentido nas antípodes da filosofia Grega – e alguns ficarão certamente surpreendidos que lhes façamos referência – estão as variadas e muito desiguais tradições que podem ser classificadas sobre o epíteto do xamanismo. Por um lado, esta corrente tradicional, testemunha tardia da Tradição Primordial, deu origem à antiga religião da China, e a partir daí às suas duas cristalizações complementares, o Confucionismo e o Taoísmo; é a esta corrente que todas as antigas religiões Mongóis pertencem, o Xintoísmo, o Bön e as religiões de Genghis Khan.

Por outro lado, esta mesma corrente é manifestada no xamanismo dos Índios da América, apesar de com formas muito diferentes das assumidas na Ásia; mas o xamanismo Americano tem um aspecto comum com o da Ásia – e, além do mais, é um aspecto que caracteriza todo o xamanismo Hiperbóreo – nomeadamente o facto de ser fundado no culto dos fenómenos da natureza e, assim, numa espécie de “panteísmo” imanente, por outras palavras, visualizando a natureza virgem como a Manifestação do Principio Divino, e não de outra forma.

Obviamente, o interesse do xamanismo não reside no seu abuso de magia e de oráculos; ele reside no facto de ter a sua raiz na natureza virgem e no seu sentido primordial do sagrado, e da “primordialidade” das suas expressões de culto, incluindo o fenómeno característico de “auto-profetismo”, a partir do qual, para além do mais, a função do xamã deriva por exteriorização. A Escritura sagrada do xamanismo está contida, não num livro, mas nos símbolos da natureza, por um lado, e na substância da alma, por outro, a alma reflectindo e prolongando o mundo externo; daqui resulta que se, por um lado, os dogmas desta religião estão expressos pelos sinais da natureza que nos rodeiam, por outro, a alma tem acesso aos mistérios na medida que for capaz de, moralmente e espiritualmente, se libertar das aparências e entrar em contacto com a sua própria essência supernatural. Tudo isto é verdade em princípio e virtualmente, e não deverá resultar no esquecimento da degeneração de vastos sectores do xamanismo; mas não são os factos humanos acidentais que nos interessam aqui, mas sim o princípio visualizado e a sua realidade fundamental.

Estes sobreviventes da Tradição Primordial contêm uma mensagem que se dirige a cada homem consciente da vocação humana, e esta é uma consciência do carácter sagrado do santuário universal constituído pela natureza virgem, a qual inclui tanto a mais modesta flor como as estrelas; é também a consciência da imanência, nas profundezas do coração, de uma e total Revelação. Mas esta verdade seria reduzida a nada na prática sem a seguinte, a qual o xamanismo não nos pode dar, nomeadamente que a religio perennis, como Doutrina integral e Caminho de salvação, é inerente nas grandes e intrinsecamente ortodoxas tradições da humanidade, e que é nelas que devemos procurar e não noutro local.

domingo, 7 de setembro de 2008

Jean Borella

Jean Borella nasceu em Nancy a 21 de Maio de 1930, recebeu uma educação católica de sua mãe francesa e pai italiano, aviador militar de carreira que faleceu em 1937 na sequência de um acidente de aviação. Graduou-se em filosofia em 1953 e sucedeu a Georges Valin no ensino de filosofia na Universidade de Nancy, onde leccionou sobre metafísica e história da filosofia até 1995. Dirigiu a revista Conaissance des Religions (1991-1993) e publicou diversos artigos relacionados com o pensamento católico e com outros assuntos. Jean Borella aderiu à doutrina Platonista e à perspectiva metafísica do vedanta que Georges Valin lhe havia revelado. Foi também profundamente influenciado pelos escritos de René Guénon, ainda que tenha seguido de forma crítica a visão daquela personalidade no que se refere ao Cristianismo. Homem erudito e dedicado à oração, Jean Borella personifica a antítese do “cristão moderno” e reabilita o princípio de um conhecimento metafísico e de uma capacidade “naturalmente sobrenatural da inteligência” no aprofundamento da verdade.


Bibliografia

Autor:
La charité profanée, Editions Dominique Martin Morin. (anciennement Edt du Cèdre, 1979).
Le sens du surnaturel, Ad Solem, Genève 1996 (édition revue et augmentée ; 1er édition. 1986, La Place Royale) ; trad. Anglaise, T § T Clark, Edimbourg, 1998).
Traité du signe symbolique, L’Age d’Homme (édition revue et corrigée du Mystère du signe, maisonneuve et Larose, 1989).
La crise du symbolisme religieux, L’Age d’Homme, 1990 ; trad. Roumaine, Institutul European, Iasi, 1995.
Esotérisme guénonien et mystère chrétien, L’Age d’Homme, 1997 ; trad. Italienne et anglaise en cours.
Symbolisme et réalité, Ad Solem, 1997 ; trad. Italienne, Servitium Editrice, Gorle, 2000.
Penser l’analogie, Ad Solem, Genève 2000.
The secret of the Christian Way. A contemplative Ascent through the Writings of Jean Borella, edited and translated by John Champoux with a Foreword by Wolfgang Smith, State University of New York Press, Albany, 2001.
Le poème de la Création. Traduction de la Genèse 1-3, Ad Solem, 2002.

Em colaboração:
Saint Thomas d’Aquin, Commentaire de l’Epître aux Romains, trad., annotation et tables par Dom Jean Eric Stroobant de Saint-Eloy et Jean Borella, Cerf, 1999.
Saint Thomas d’Aquin, Commentaire de la Ier Epître aux Corinthiens, Cerf, 2003.

Não publicados:
Fausses évidences et vérités de bon sens : Un philosophe catholique face au monde moderne.

Outros:
« Intelligence spirituelle et Surnaturel » in Eric Vatré, La Droite du Père, Enquête sur la Tradition catholique aujourd’hui, Trédaniel, 1994.
« Comment définir la Tradition », in Arnaud Guyot-Jeanin, Enquête sur la Tradition, Trédaniel, 1994.
« Spre o teorie a unitatil religilor » in Bogdan Mihai Mandache, Teofania Interiora. Dialoguri cu teologi catolici contemporani, Editura Presa Buna, Iasi, 1996.

Prefácios:
Abbé Henri Stéphane, Introduction à l’ésotérisme chrétien I, Editions Dervy.
Patricia Douglas Viscomte, La quête de Raphaël, Editions Fideliter.
Georges Vallin, Lumières du Non-dualisme, Presses Universitaires de Nancy.

Posfácios:
Abbé Henri Stéphane, Introduction à l’ésotérisme chrétien II ; « De l’ésotérisme chrétien », Edition Dervy.

Estudos:
« Gnose et gnosticisme chez René Guénon » (Les dossiers H : René Guénon, L’Age d’Homme, 1984).
« Du symbole selon René Guénon » ( Les cahiers de l’Herne : René Guénon, 1985).


Publicações no "Sabedoria Perene":

Caminhando através dos segredos de S. Tiago e de J. Borella

Caminhando através dos segredos de S. Tiago e de J. Borella


Como uma criança que nasce e descobre que tem pés para firmar na terra e que está capacitada para caminhar, também os autores deste espaço o pretendem fazer em direcção da Verdade, utilizando este espaço virtual para mapear, ainda que de forma certamente imperfeita, esse mesmo percurso.

Assim, resultaram reunidas as condições ideias para materializar de algum modo o referido percurso e pedalar ao longo de um dos muitos caminhos de peregrinação que conduzem a Santiago de Compostela, permeando pelo coração da Galiza e acumulando visitas a alguns dos mais emblemáticos marcos distribuídos ao longo da distância transmutadora que separa o peregrino de Santiago de Compostela e que lhe guia o coração pelos sinais e símbolos utilizados na arte e na arquitectura, pela natureza e, bem assim, pela tradição impregnada no mesmo caminho celeste que reflecte sobre a Terra o outro caminho – o ‘Caminho de Santiago’, que tantos outros homens ao longo de tantos outros séculos também percorreram.


Tendo presente que o Caminho de Santiago, contrariamente a outras formas de culto religioso em que a presença física num determinado local é um objectivo em si, é particularmente uma peregrinação cristã interna (logo esotérica), cada uma das pedaladas que materializavam o caminho externo foram poderosa, sábia e bondosamente potenciadas pelo livro “O Segredo do Caminho Cristão - Uma Ascensão Contemplativa Através dos Escritos de Jean Borella, editado e traduzido por G. John Champoux e publicada em 2001 pela State University of New York Press.



Esta obra que nos permitiu capturar o ambiente envolvente do caminho e penetrar pelo nosso interior, apresenta a seguinte organização:

Foreword (Wolfgang Smith)
Preface/acknowlegements (G. John Champoux)
Prologue: The Gnosis with a True Name

The First Stage: Contemplating God Through His Vestiges in the Universe
1. Trinity and Creation

The Second Stage: Contemplating God in His Vestiges in the Sense World
2. The Inevitable “Failure” of Nicholas of Cusa
3. The Essence of the Symbol

The Third Stage: Contemplating God through His Image Stamped upon Our Natural Powers
4. The Constitution of Man According to the New Testament

The Fourth Stage: Contemplating God in His Image Reformed by the Gifts of Grace
5. Love and Gnosis in the Crucified Mediator
6. The Human Ternary and the Opening of the Heart in the Old Testament

The Fifth Stage: Contemplating the Divine Unity through Its Primary Name which Is Being
7. Love of Self and Love of God

The Sixth Stage: Contemplating the Most Blessed Trinity in Its Name which is Goog
8. The Trinitarian Functions of the Hypostases

The Seventh Stage: The Sabbath of Rest and Ecstasy
9. The essence and Forms of the “Body of Christ”
10. The “Body of Christ” and the Work of Salvation
11. The Metaphysics of the Eternal Exposition

Endnotes
Select Bibliography
Name and Theme Index
Scriptural Index



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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tributo de Martin Lings a René Guénon

A tradução apresentada na presente publicação corresponde a um texto transcrito de uma lição dada por Martin Lings no Outono de 1994 no Instituto do Príncipe de Gales em Londres, patrocinada pela Temenos Academy. Este texto foi publicado no Número 1 - Volume 1 do Sophia Journal em 1995.


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No que diz respeito ao início da vida de René Guénon o nosso conhecimento é muito limitado devido à sua extrema reticência. A sua objectividade, a qual é um aspecto da sua grandeza, fê-lo compreender os males do subjectivismo e individualismo no mundo moderno, o que o impeliu, talvez em demasia, na direcção oposta; evitando de todas as formas falar sobre si próprio. Desde a sua morte, têm sido escritos livros atrás de livros e os seus autores têm, sem dúvida, sentido uma enorme frustração por serem incapazes de descobrir diversas coisas e, em resultado, livros atrás de livros contêm erros factuais.


Aquilo que sabemos é que nasceu em Blois, França, em 1886, e que era o filho de um arquitecto; teve uma educação tradicional Católica e era um excelente aluno em filosofia e matemática. Mas com a idade de 21 ele já estava em Paris, no mundo do ocultismo, o qual estava em grande agitação naquela altura, por volta de 1906-08. E os perigos daquele mundo foram talvez nele contrabalançados pelo facto de ser mais aberto a amplas perspectivas. Por volta desta altura, em Paris, entrou em contacto com alguns Hindus da escola Advaita Vedanta, um dos quais o iniciou na sua própria linha Shivaita de espiritualidade. Não temos detalhes da altura ou local e parece que ele nunca falou sobre esses Hindus nem parece ter mantido o contacto após um ou dois anos. Mas aquilo que aprendeu com eles encontra-se nos seus livros e os seus encontros com eles foram claramente providenciais. Estes contactos devem ter sido extremamente intensos enquanto duraram. Os seus livros são precisamente aquilo que era e é necessário como antídoto para a crise do mundo moderno.


Pela altura em que tinha quase 30 anos, a sua inteligência fenomenal permitiu-lhe ver exactamente o que estava errado no Ocidente moderno, e essa mesma inteligência tinha-lo trazido para fora dele totalmente. Eu próprio me lembro desse mundo no qual e para o qual Guénon escreveu os seus primeiros livros, na primeira década a seguir à Primeira Grande Guerra, um mundo monstruoso tornado impenetrável pela euforia: a Primeira Grande Guerra tinha sido a guerra para acabar com a guerra. Agora nunca mais haveria uma outra guerra; e a ciência tinha provado que o homem era descendente do macaco, isto é, ele tinha progredido dos primatas, e agora este progresso iria continuar sem nada que o impedisse; tudo iria tornar-se melhor, melhor e melhor. Eu estava na escola nessa altura e lembro-me de ser ensinado estas coisas, com apenas uma hora por semana a ser ensinado o oposto nas aulas de religião. Mas a religião no mundo moderno já tinha há muito sido encostada a um canto. Desse canto ela protestava conta a euforia, mas sem resultado.


Hoje a situação é consideravelmente pior e consideravelmente melhor. Ela é pior porque os seres humanos degeneraram ainda mais. Podemos ver bem mais faces maldosas do que se viam nos anos 20, se tal me é permitido dizer, ou, pelo menos, é essa a minha impressão. Ela é melhor porque já não existe qualquer euforia. O edifício do mundo moderno está a cair em ruína. Grandes fissuras estão a surgir por toda a parte, através das quais se pode penetrar como nunca foi possível. Mas é ainda pior porque a Igreja, ansiosa para não ficar atrás dos tempos, se tornou cúmplice da modernidade.


Mas para voltar aos anos 20, lembro-me de um político proclamar, como alguém se atreveria actualmente, “Estamos agora na manhã gloriosa do mundo.” E nesta mesma altura, escreveu Guénon deste maravilhoso mundo, “É como se um organismo com a sua cabeça cortada continuasse a viver uma vida, intensa e desordenada.” (retirado de Este e Oeste publicado a primeira vez em 1924).


Parece que Guénon não manteve contactos adicionais com o Hindus e sem dúvida eles regressaram à Índia. Entretanto, ele foi iniciado numa ordem Sufi, a qual seria a sua casa espiritual para o resto da sua vida. De entre os males que viu à sua volta ele era muito preocupado com o preconceito anti-religioso que era particularmente comum entre os designados intelectuais Franceses. Ele tinha a certeza que algumas dessas pessoas eram, no entanto, virtualmente inteligentes e seriam capazes de responder à verdade se esta lhes fosse claramente exposta. Este preconceito anti‑religioso surgiu porque os representantes da religião tinham gradualmente se tornado menos inteligentes e mais e mais centrados em considerações sentimentais. Especialmente na Igreja Católica, onde a divisão da comunidade em clero e leigos era sempre enfatizada, um leigo tinha de confiar na Igreja, não sendo sua função pensar sobre coisas espirituais. Os homens leigos inteligentes colocariam questões a padres que não teriam capacidade de responder e que se refugiariam na ideia que a inteligência e o orgulho estavam intimamente ligados. E, assim, não é difícil ver como este preconceito extremamente anti-religioso surgiu especialmente em França.


Guénon colocou-se então a seguinte questão: Uma vez que estas pessoas rejeitaram o Cristianismo, serão elas capazes de aceitar a verdade quando expressa nos termos Islâmicos do Sufismo, os quais estão proximamente relacionados com os Cristãos em vários aspectos? Ele decidiu que elas não seriam, que diriam que era outra religião; que tinham tido religião a mais. No entanto, O Hinduísmo, a religião viva mais antiga, é à superfície muito diferente, quer do Cristianismo, quer do Islamismo, e, assim, ele decidiu confrontar o mundo Ocidental com a verdade tendo por base o Hinduísmo. Foi com este fim que escreveu a sua geral Introdução ao Estudo das Doutrinas Hindu. O livro foi publicado em 1921, seguido em 1925 por aquela que é talvez a sua maior obra, O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta.


Ele não poderia ter escolhido uma melhor forma para a sua mensagem de verdade para o Ocidente, pois o Hinduísmo tem uma objectividade que resulta de ter sido revelada ao homem numa era remota em que ainda não existia a necessidade de estabelecer uma distinção entre o esoterismo e o exoterismo, e essa objectividade significa que a verdade não teve de ser velada. Ainda na Antiguidade Clássica os Mistérios, ou seja, o esoterismo, eram apenas para alguns. No Hinduísmo, no entanto, eles eram a norma e as mais elevadas verdades podiam ser faladas de forma directa. Não havia a questão de “Não lances as tuas pérolas aos porcos” e “Não dês coisas sagradas aos cães”. As religiões irmãs do Hinduísmo, por exemplo, as religiões da Grécia e de Roma, há muito que tinham desaparecido. Mas graças ao sistema de castas, tendo os Brahmins como salvaguarda da religião, temos hoje um Hinduísmo que ainda se encontra vivo e que ao longo deste século produziu flores de santidade.


Um dos pontos a ser referido em primeiro lugar é a questão da distinção que deve ser feita ao nível divino e que é feita em todos os esoterismos, não podendo ser feita exotericamente, ou seja, nas religiões dadas actualmente às massas – a distinção entre o Absoluto e o início, a partir daí, da relatividade. O Absoluto que é Um, Infinito, Eterno, Imutável, Indeterminado, Incondicionado, é representado no Hinduísmo pela monossílaba Aum, e é designado por Atmâ, que significa o Si, e Brahma, a qual é uma palavra neutra que serve para enfatizar que está para além de toda a dualidade, tal como o masculino e feminino. E é também designado por Tat (Aquilo), tal como no Sufismo, onde o Absoluto é por vezes designado por Huwa (Ele). Depois, temos o que corresponde em outras religiões ao Deus pessoal, Ishvara, o que corresponde já ao início da relatividade, uma vez que diz respeito à manifestação, o termo que os Hindus usam para a criação, e a criação é claramente o inicio da dualidade – Criador e criado. Ishvara está ao nível divino, no entanto, é o princípio da relatividade.


Em todo o esoterismo encontramos a mesma doutrina. Mestre Eckhart encontrou dificuldades com a Igreja porque insistiu em fazer a distinção entre Deus e Divindade [Godhead] – Gott und Gottheit. Ele usou o segundo termo para o Absoluto, isto é, para o Absoluto Absoluto, e usou o segundo termo para o Absoluto relativo. Podia ter sido o oposto, mas ele precisava de fazer alguma distinção. No Sufismo, falamos da Essência Divina e nos Nomes Essenciais de Deus, tais como O Uno, A Verdade, O Todo-Sagrado, O Vivo, O Infinitamente Bom, al-Rahmân, o qual contem as raízes de todo o bem e o qual é também um nome da Essência Divina. Abaixo disso existem os Nomes das Qualidades, como o Criador, o Misericordioso, no sentido daquele que tem Misericórdia pelos outros, e isso é claramente o início de uma dualidade. Em todos os esoterismos esta distinção é feita mesmo ao nível da Divindade. Ela não pode existir abaixo do esoterismo porque resultaria na ideia de dois Deuses; uma divisão na Divindade seria excessivamente perigosa nas mãos da massa de fiéis. A Unidade Divina tem que ser mantida a todo o custo.


Guénon, no seu livro, traça com toda a claridade a hierarquia do universo a partir do Absoluto, do Deus pessoal, até ao logos criado, isto é, buddhi, que é a palavra que significa intelecto e que tem três aspectos – Brahmâ (desta vez a palavra é masculina), Vishnu e Shiva. Falando apenas da hierarquia dos universos, estes devas (esta é linguisticamente a mesma palavra que a palavra Latina deus), têm o nível do que designaríamos por arcanjos. O Hinduísmo é, no entanto, tão subtil que apesar de serem criados eles podem ser invocados como Nomes do Absoluto porque descendem do Absoluto e regressam ao Absoluto. Eles podem ser invocados no sentido do Brahmâ Absoluto, no sentido de Atmâ, no sentido de Aum.


A doutrina Hindu, tal como o Génesis, fala de duas águas. O Corão fala de dois oceanos, as águas superiores e as águas inferiores. As águas superiores representam o aspecto mais elevado do mundo criado, isto é, do mundo manifestado, correspondendo aos diferentes níveis nos quais existem os diferentes paraísos. É tudo parte do próximo mundo do ponto de vista deste mundo. As águas inferiores representam o mundo do corpo e da alma, e tudo é uma manifestação do Absoluto.


Em O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta, Guénon, após traçar a manifestação do homem e mostrar com todo o detalhe qual é a sua natureza, procede mostrando como, de acordo com a doutrina Hindu, o homem pode regressar à sua fonte absoluta. Acaba com a suprema possibilidade de unidade com o Absoluto, uma unidade que já se encontra presente. Um rapaz Brahmin com a idade de oito anos é iniciado pelo seu pai e as palavras murmuradas aos seus ouvidos, “Tu és Aquilo” [Thou art That], sendo o significado de tu és o Absoluto, tat vam asi. Isto mostra o quanto estamos longe da religião tal como é compreendida no mundo moderno. Mas essa verdade, que no Sufismo é designada por o segredo, al-sirr, está necessariamente em todo o esoterismo nos tempos actuais, caso contrário não mereceria o nome de esoterismo.


Outro aspecto do Hinduísmo que serve de veículo perfeito para a mensagem de Guénon é a amplitude da sua estrutura. Nas religiões mais recentes, é como que a Providência tivesse encaminhado a humanidade para um vale cada vez mais estreito: a abertura é a mesma mas a perspectiva horizontal é cada vez mais estreita porque o homem não consegue receber mais do que apenas uma parte. A doutrina Hindu do samsâra, ou seja, da eterna corrente de inúmeros mundos que foram manifestados, e dos quais o universo é constituído, originaria todo o tipo de distracções. De qualquer forma, quando estamos a falar de um Absoluto, Divindade Eterna, a ideia que essa Infinitude produziu apenas um único mundo ao manifestar-se não satisfaz a inteligência. A doutrina do samsâra por outro lado, satisfaz, mas os mundos que foram manifestados são inumeráveis.


Outro ponto a este respeito é o facto do Hinduísmo possuir uma surpreendente versatilidade. Ele depende em primeiro lugar da Revelação Divina. Os Vedas e os Upanishades são revelados; o Bhagavad Gita é geralmente considerado como revelado mas não a totalidade do Mahâbhârata, o épico “inspirado” a que pertence o Gita. No Hinduísmo, esta distinção entre revelação, sruti, e inspiração, smriti, é assinalada claramente, tal como o é no Judaísmo e no Islão: O Pentateuco, ou seja, os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, foram revelados a Moisés, o Livro dos Salmos a David, o Corão a Maomé. Isto é algo que, de uma maneira geral, os Cristãos não compreendem. Eles têm dificuldade em entender, no Antigo Testamento por exemplo, a diferença entre o Pentateuco e os Livros dos Reis e as Crónicas, os quais são apenas história sagrada, sem dúvida inspirada, mas de forma alguma revelada. Para os Cristão a revelação é Jesus Cristo, a Palavra feita carne; o conceito da “Palavra feita livro”, a qual é uma revelação paralela, não entra na sua perspectiva.


O Hinduísmo tem ainda os avatâras, e isso um Cristão pode compreender, ou seja, as manifestações, as descidas, da Divindade. É claro que o Cristianismo não reconhece as descidas dos avatâras Hindus, pois para o Cristão comum apenas existiu uma única descida e essa foi o próprio Cristo, mas o Hinduísmo reconhece a descida como uma possibilidade inexaurível e nomeia dez avatâras que ajudaram a manter a vitalidade da religião até aos dias actuais. O nono avatâra, o qual é chamado de avatâra estrangeiro, é o próprio Buda, apesar de aparecer na índia, ele não foi para os Hindus mas claramente para o mundo Oriental. A amplitude do Hinduísmo é também visível na sua prefiguração do exoterismo, o qual é o reconhecimento das Três Vias. Estas são ainda Vias de retorno a Deus – as três margas – a via do conhecimento, a via do amor, e a via da acção – três vias que correspondem às inclinações e afinidades de diferentes seres humanos.


Outro aspecto que torna os termos Hindus tão ajustados para passar aos Europeus a sua mensagem, é que eles têm, como Arianos, uma afinidade com o Hinduísmo, pois as suas raízes estão nas religiões da Antiguidade Clássica, as quais são religiões irmãs do Hinduísmo; a sua estrutura era claramente semelhante à do Hinduísmo. É claro que elas degeneraram em completa decadência e estão agora desaparecidas. No entanto, a nossa herança reside nelas e Guénon oferece-nos a possibilidade de uma misteriosa renascença num sentido puramente positivo através da sua mensagem da verdade em termos Hindus. Esta afinidade não deve ser, no entanto, exagerada, e Guénon nunca, tanto quanto sabemos, aconselhou a ninguém que não fosse Hindu que se tornasse Hindu.


A sua mensagem foi sempre uma mensagem de estrita ortodoxia num esoterismo, mas ao mesmo tempo de igual reconhecimento de todas as outras ortodoxias, mas este propósito não era de forma alguma académico. O seu motto foi vincit omnia veritas, a Verdade conquista tudo, mas implicitamente o seu motto era “Procura e encontrarás, bate e a porta te será aberta”. Implícito nos seus textos está a certeza que eles aparecerão providencialmente para aqueles que forem qualificados para receber a sua mensagem e os impelirão a procurar e, dessa forma, descobrir um caminho.


Guénon estava consciente de ter uma função e sabia o que pertencia à sua função e o que não pertencia. Ele sabia que não era a sua função ter discípulos; ele nunca teve nenhum. A sua função era ensinar como preparação para uma via em que as pessoas pudessem encontrar por elas próprias, e esta preparação implicava preencher as lacunas provocadas pela educação moderna. A primeira destas lacunas é a incapacidade de compreender o significado do transcendente e o significado da palavra intelecto em consequência, uma palavra que continuou a ser utilizada, mas que no sentido tradicional da palavra, correspondente ao Sânscrito buddhi, foi simplesmente esquecida no mundo ocidental. Guénon insistiu nos seus textos em dar a esta palavra o seu verdadeiro significado, o qual é a percepção das realidades transcendentes, a faculdade que pode ver as coisas do próximo mundo, e os seus prolongamentos na alma são aquilo que pode ser designado por intuições intelectuais, as quais são as luzes preliminares que antecedem o momento da intelecção total.


Ficamos com a impressão de que Guénon deve ter tido uma iluminação intelectual numa idade muito jovem. Ele deve ter pressentido directamente verdades espirituais com o intelecto no seu verdadeiro sentido. Ele preencheu as lacunas explicando o significado dos ritos, o significado dos símbolos, a hierarquia dos mundos. Na educação moderna o próximo mundo é deixado totalmente de fora, enquanto que na Idade Média os estudantes eram ensinados sobre a hierarquia das faculdades e, correspondentemente, da hierarquia do universo.


Vamos agora por uns instantes falar a um nível mais pessoal, mas talvez possa não ser sem interesse. Quando li os livros de Guénon no princípio dos anos trinta foi como se tivesse sido atingido por um relâmpago e compreendi que aquilo era a verdade. Eu nunca tinha visto a verdade exposta da forma como o foi na mensagem de Guénon, que existiam várias religiões e que todas deveriam ser tratadas com reverência; elas eram muito diferentes porque eram destinadas a pessoas diferentes. Fazia todo o sentido e era ao mesmo tempo para a glória de Deus porque qualquer pessoa com um nível de inteligência razoável, quando ensinada aquilo que nos ensinavam na escola, teria inevitavelmente que perguntar: então e o resto do mundo? Porque é que as coisas eram geridas desta forma? Porque é que a verdade foi dada em primeiro lugar apenas aos Judeus, a um só povo? E depois foi ordenado que o Cristianismo fosse espalhado pelo mundo, mas porquê tão tarde? E nos tempos antigos? Estas questões nunca eram respondidas, mas quando li Guénon eu soube que aquilo que ele dizia era a verdade e que eu teria que fazer algo em relação a isso.


Escrevi a Guénon. Traduzi um dos seus primeiros livros, Este e Oeste, para o Inglês, e mantive correspondência com ele em relação à tradução. Em 1930, Guénon deixou Paris após a morte da sua mulher e foi para o Cairo onde viveu durante vinte anos até à sua morte, em 1951. Uma das minhas primeiras ideias ao ler os livros de Guénon foi enviar cópias ao meu melhor amigo que tinha estudado comigo em Oxford, pois sabia que ele teria a mesma reacção que eu. Ele regressou ao Ocidente e seguiu o mesmo caminho que eu já tinha encontrado, um caminho do tipo do referido por Guénon nos seus livros. Depois, ao precisar de trabalho, aceitou um lugar de professor na Universidade do Cairo, e enviei-lhe o número da caixa postal de Guénon. Guénon era extremamente reservado e não dava a sua morada a ninguém; ele queria desaparecer. Ele tinha inimigos em França e suspeitava que eles o queriam atacar através de magia. Eu não tenho a certeza disto mas sei que Guénon tinha imenso receio de ser atacado por certas pessoas e desejava manter-se desaparecido, afundar-se no mundo Egípcio onde estava, o mundo do Islão. Assim, o meu amigo teve que esperar muito tempo até que Guénon tivesse aceitado encontrar-se com ele. Quando finalmente se encontraram Guénon afeiçoou-se imediatamente a ele e disse-lhe que podia ir a sua casa sempre que desejasse.


No Verão de 1939 fui visitar o meu amigo ao Cairo e enquanto lá estava a guerra começou. Eu tinha aulas para dar na Lituânia nessa altura e, uma vez que não podia regressar, fui forçado a ficar no Egipto. O meu amigo, que por essa altura se tinha tornado como que membro da família de Guénon, recolhendo o seu correio e ajudando-o em muitas outras coisas, levou-me a conhecer Guénon. Um ano depois estava a andar a cavalo no deserto com o meu amigo quando o seu cavalo fugiu com ele e o matou em resultado de um acidente. Nunca esquecerei o momento em que tive de ir dar a notícia a Guénon. Quando o fiz ele chorou durante uma hora. Não tive opção senão tomar o lugar do meu amigo. Eu já tinha sido posto à vontade para frequentar a sua casa e muito rapidamente me tornei como que parte da família. Foi obviamente um enorme privilégio. A mulher de Guénon não sabia ler e apenas falava Árabe. Rapidamente aprendi Árabe e consegui falar com ela. Era um casamento muito feliz. Eles estavam casados há sete anos e não tinham qualquer filho e Guénon, que já estava a ficar com alguma idade – ele era bastante mais velho que ela – não tinha tido filhos com a sua primeira mulher, razão pela qual foi inesperado quando eles começaram a ter filhos. Tiveram ao todo quatro filhos. Eu visitava Guénon praticamente todos os dias. Fui a primeira pessoa a ler o Reino da Quantidade, o único livro que escreveu enquanto estava com ele pois os outros livros já tinham sido todos escritos. Ele deu-me a ler capítulo a capítulo. Tive ainda a oportunidade de lhe dar o meu próprio primeiro livro, The Book of Certainty, o qual lhe dei igualmente capítulo a capítulo. Foi um grande privilégio conhecer tal pessoa.


Durante este tempo uma questão muito importante foi resolvida. Os Hindus com quem Guénon havia estabelecido contacto em Paris tinham lhe dado uma ideia errada, uma ideia não estritamente Hindu, sobre o Budismo. O Hinduísmo reconhece o Buddha como o nono avatâra de Vishnu apesar de alguns Hindus manterem a ideia que ele não era um avatâra, que ele era apenas um kshatriya revoltado, um membro da casta real, contra os Brahmins e foi esta ideia que Guénon aceitou. Consequentemente ele escreveu sobre o Budismo como se este não fosse uma das grandes religiões do mundo. Ananda Coomaraswamy, Frithjof Schuon e Marco Pallis decidiram em conjunto procurar elucidar Guénon sobre esta questão. Guénon mostrou-se muito aberto a ser persuadido e em 1946 levei Marco Pallis a ver Guénon e como resultado ele aceitou que estava enganado e que os erros deveriam ser corrigidos nos seus livros. Marco Pallis começou a mandar-lhe listas com as páginas que precisavam de ser corrigidas.


Guénon praticamente não saía de casa excepto quando nos vinha visitar. Eu mandava um carro para o apanhar e ele vinha visitar-nos com a sua família cerca de duas vezes por ano. Nessa altura vivíamos perto das pirâmides fora de Cairo. Saí com ele apenas uma vez quando fomos visitar a mesquita de Sayyidnâ Husayn perto de al‑Azhar. Ele tinha uma presença incrível; era fantástico ver o respeito com que ele era tratado. À medida que entrou na mesquita ouvia-se as pessoas sussurrar de todo o lado dizendo “Allâhumma salli ‘alâ Sayyianâ Muhammad,” ou seja, “Que Deus faça chover bênções sobre o profeta Maomé”, o que é uma forma de expressar grande reverência a alguém. Ele tinha uma presença luminosa e os seus maravilhosos olhos, uma das suas mais impressionantes características, retiveram o seu lustre até numa idade muito avançada.


Ao nível do seu livro sobre o Vedanta temos o livro que escreveu sobre símbolos, intitulado Símbolos Fundamenteais: A Linguagem Universal da Ciência Sagrada, publicado após a sua morte a partir dos artigos que foi escrevendo para a revista Études Traditionelles. Era maravilhoso ler estes artigos à medida que apareciam mês após mês, mas este livro transporta-nos de volta para os tempos pré-históricos, tal como no O Homem e o Seu Devir de acordo com o Vedanta, mas numa forma mais abrangente. Tudo é obviamente um símbolo, não poderia existir se não fosse um símbolo, mas os símbolos fundamentais são aqueles que expressam eloquentemente aspectos da Verdade Suprema e do Caminho Supremo. Por exemplo, um destes aspectos do Caminho e da Verdade é aquilo que é designado por “eixo do mundo”, eixo que atravessa de todos os estados elevados a partir do centro deste estado. Este é o significado do que é designado por Árvore da Vida. A Árvore da Vida é simbolizada por várias árvores particulares: o carvalho, o freixo, a figueira e outras em todo o mundo. O eixo é o próprio Caminho, o caminho de retorno ao Absoluto. É igualmente simbolizado por objectos criados pelo homem: a escada, o mastro, armas como a lança, e o pilar central de edifícios. Como os arquitectos sabem, muitos edifícios são construídos em torno de um eixo central que, na realidade não está lá, não se encontra materializado. Muitas vezes nas casas tradicionais a lareira é o centro da casa e a chaminé a partir da qual o fumo sobe é outra figura do eixo. E coisas que são normalmente horizontais podem ser igualmente símbolos do eixo: uma ponte também é um símbolo do eixo do mundo. Veja-se o título de Pontífice, o fazedor da ponte, o qual é dado a mais elevada autoridade espiritual da Igreja – a ponte, que é a ponte entre o Céu e a terra.


Outro símbolo fundamental é o rio. Existem três aspectos associados ao rio: a passagem do rio simboliza a passagem deste mundo para um mundo mais elevado, sempre, mas depois existe o próprio rio. Existe a dificuldade de subir contra o curso do rio o que simboliza as dificuldades do caminho espiritual, de regressar à nossa fonte contra a corrente. Existe também o simbolismo de movimento na outra direcção, a do oceano, de regressar finalmente ao oceano; este é outro símbolo do Caminho. No seu livro, entre muitos outros símbolos, Guénon aborda o simbolismo da montanha, da gruta, do ciclo temporal. No ciclo temporal, os solstícios de verão e do inverno são os portões dos deuses de acordo com o Hinduísmo. Os portões dos deuses do solstício de inverno, no signo de Capricórnio; os portões dos ancestrais no solstício de verão, no signo de Caranguejo.


Como referi, Guénon não gostava de falar sobre si próprio e eu respeitei a sua reticência, nunca lhe coloquei questões e acho que ele apreciava isso. Resumindo o que era a sua função, pode-se dizer que a esta era, num mundo cada vez mais abundante de heresia e pseudo-religião, relembrar ao homem do século vinte a necessidade de ortodoxia, a qual pressupõe, em primeiro lugar, a intervenção divina, e em segundo lugar, uma tradição que transmita fielmente de geração em geração aquilo que o Céu revelou. Neste sentido, estamos extremamente em dívida para com ele por ter restaurado ao mundo a palavra ortodoxia com todo o rigor do seu significado original, ou seja, rectidão de opinião, uma rectidão que compele o homem inteligente não só a rejeitar a heresia, mas também a reconhecer a validade de todas aquelas fés que estão conforme os critérios com os quais essas fés dependem para a sua ortodoxia.


Na base desta universalidade, a qual é muitas vezes conhecida como religio perennis, foi também função de Guénon lembrar-nos que as grandes religiões do mundo não são apenas meios para a salvação do homem, mas que frequentemente estão para além disso, mesmo durante esta vida, duas possibilidades esotéricas que correspondem àquilo que era conhecido na Antiguidade Greco-Romana como mysteria pava e mysteria magna, os “Grandes Mistérios” e os “Pequenos Mistérios”. O primeiro é o caminho de retorno à perfeição primordial perdida na queda. O segundo, que pressupõe o primeiro, é o caminho da gnosis, o cumprimento do preceito “conhece-te a ti próprio”. Este fim último é designado no Cristianismo por deificatio, no Hinduísmo, por yoga, união e moksha, libertação, no Budismo, por nirvana, isto é, extinção de tudo o que é ilusório. E no misticismo Islâmico, isto é, no Sufismo, por tahaqquq, o que significa realização tendo sido referido por um sheikh Sufi como auto-realização em Deus. Os Mistérios, e especialmente os Grandes Mistérios, são explicitamente ou implicitamente o tema central dos escritos de Guénon, mesmo na Crise do Mundo Moderno e no Reino da Quantidade. Ele demonstra que os problemas em questão tiveram a sua origem na perda da dimensão dos mistérios, isto é, da dimensão dos mistérios do esoterismo. Ele encontra a origem de todos os problemas do mundo moderno no esquecimento dos mais elevados aspectos da religião. Ele estava consciente de ser um pioneiro, e vou terminar simplesmente com uma citação de algo que ele disse de si próprio, “Tudo o que fizermos ou dissermos servirá para oferecer aqueles que vierem posteriormente as facilidades que nós próprios não tivemos. Aqui como em todo o lado, é o início do trabalho que é o mais difícil.”

Martin Lings

Martin Lings nasceu em Lancashire, em Inglaterra, em 1909 e efectuou os seus estudos na Universidade de Oxford, formando-se em literatura Inglesa. Depois de ensinar Inglês na Polónia, foi nomeado para professor na Universidade de Kaunas na Lituânia, onde ficou até ao ano de 1939. Ensinou literatura Inglesa no Cairo, em especial Shakespeare. Em 1955, já regressado ao seu país natal, foi nomeado curador da Biblioteca Árabe, posteriormente da Biblioteca Oriental, da Biblioteca de Londres, posto que manteve até à sua reforma em 1973. Recebeu o seu Doutoramento da Universidade de Londres em 1959.

Martin Lings foi um dos principais impulsionadores da “escola” Tradicionalista ou Perenealista, bem como um aclamado autor, editor, tradutor, académico e poeta, cujo trabalho se focou na relação entre Deus e o homem através da doutrina religiosa, as escrituras, o simbolismo, a literatura e a arte. Foi um perspicaz metafísico e ensaísta, estudioso das grandes religiões da humanidade, mais conhecido, no entanto, pelos seus textos dedicados ao Islão e à sua tradição esotérica, o Sufismo.

Martin Lings deixou este mundo a 12 de Maio de 2005, com a idade de noventa e seis anos, na sua casa no sul de Inglaterra.


Principais trabalhos:

The Book of Certainty: The Sufi Doctrine of Faith, Vision, and Gnosis;
A Moslem Saint of the Twentieth Century: Shaikh Ahmad Al-Alawi: His Spiritual Heritage and Legacy;
Ancient Beliefs and Modern Superstitions;
Shakespeare in the Light of Sacred Art;
The Elements, and Other Poems;
The Heralds, and Other Poems;
What is Sufism?
The Quranic Art of Calligraphy and Illumination;
Muhammad: His Life Based on the Earliest Sources;
The Eleventh Hour: The Spiritual Crisis of the Modern World in the Light of Tradition and Prophecy;
Symbol and Archetype: A Study of the Meaning of Existence;
Mecca: From Before Genesis Until Now;
Sufi Poems: A Mediaeval Anthology;
A Return to the Spirit: Questions and Answers


Publicações no “Sabedoria Perene”: