domingo, 14 de junho de 2009

A Terra feita nova

A invenção [das letras] irá produzir o esquecimento nas mentes daqueles que as aprenderem a usar, pois deixarão de exercitar a memória. A sua confiança na escrita, produzida por caracteres exteriores que não são parte deles próprios, irá desencorajar o uso da memória que tem em si mesmos. Vocês inventaram um elixir para recordar, não para a memória; e oferecem aos vossos pupilos, não a verdadeira sabedoria, mas a aparência da sabedoria, pois eles irão ler muitas coisas sem ensinamento, e irá parecer que sabem muitas coisas, quando na verdade eles serão em grande parte ignorantes e difíceis de tolerar; não serão sábios mas charlatães”.

Esta são palavras de Platão, citadas por Ananda Coomaraswamy no seu brilhante ensaio “The Bugbear of Literacy”[1], onde procura mostrar, ao seu estilo irrepreensível e luminoso, a importância e primazia da tradição oral em relação à actualmente entronada escrita, e desconstruir o preconceito de que a iliteracia é uma característica de um povo não civilizado.

Para o homem primordial e para as civilizações tradicionais, o homem só sabia verdadeiramente aquilo que sabia de cor – o saber de coração (cordis). É sabido que muitos povos ancestrais sabiam de coração contos e canções que retratavam toda a sua tradição e todos os ensinamentos que moldavam a sua existência, um conhecimento de memória que necessitaria de numerosos volumes para ser vertido em forma escrita. Um desses povos ancestrais era o dos Índios americanos.

Com esta breve introdução, chegamos ao tema desta publicação, a chamada de atenção para um livro maravilhoso recentemente publicado pela World Wisdom, “The Earth Made New – Plains Indian Stories of Creation”, de Paul Goble.


Os povos tradicionais sabiam bem que só se educa através de contos. Joe Medicine Crow, no prefácio a esta obra, refere “na minha juventude, os contadores de estórias que educavam as crianças eram os seus familiares – os avôs e as avós eram os nossos professores. Lembro-me que o meu avô, cujo nome era Yellowtail, era o meu principal professor.” Só assim podiam eles ficar imbuídos do espírito da sua tradição e preservar um modo vida como o expresso nas seguintes palavras de Stanging Bear (Lakota):

“A vida para os Índios é uma de harmonia com a natureza e com as coisas que o rodeiam. O Índio procura adaptar-se à natureza e a compreender, mas não para a conquistar e governar. A vida era algo glorioso, pois um grande contentamento resulta do sentimento de amizade e de familiaridade com os seres vivos que te rodeiam.”

O conto que este livro nos apresenta é um conto da Criação, uma criação que para os Índios está sempre a acontecer, num eterno presente. O livro contém, acompanhado por magnificas ilustrações, uma estória que celebra a criação de uma nova Terra depois do dilúvio.

Os trechos traduzidos e apresentados de seguida procuraram manter a fluidez da estória e mostrar a sua essência. É uma excelente forma de dar água à semente que reside no interior das nossas crianças e deixar que elas, por si mesmas, intuam o que é a Sabedoria Perene.

Reproduzindo ainda as palavras de quem traduziu, "o que mais me comoveu na leitura desta estória para crianças foi a simplicidade profunda da sua mensagem, espelho de uma harmonia natural que reflecte o Espírito do Homem em comunhão com o Mundo."

[1] – The Essential Ananda K. Coomaraswamy, editado por Rama P. Coomaraswamy. World Wisdom, 2004.


A Terra feita nova
Tradução de Noémia Silva

Há muito tempo, existia um outro mundo, um como o nosso; mas a dada altura as montanhas desmoronaram, a terra abriu-se ao meio e a água jorrou de dentro, cobrindo tudo. Nada do velho mundo podia agora ser visto sobre a água: nem o cume dos grandes choupos, nem o topo das montanhas. Era um tempo de chuva, nuvens negras, terror e calamidade.

Os únicos seres vivos eram os peixes, que estavam nas profundezas, os patos, e todos os animais que viviam na água. O ar estava repleto do clamor dos seus lamentos. Nadavam por todo o lado formando uma multidão de seres, chorando cada um na sua voz:

- Fazedor da Terra! Fazedor da Terra! Nós queremos viver! Dá-nos de volta a terra para que possamos ter um sítio onde fazer os nossos ninhos e pôr os nossos ovos!

Sozinho, o corvo voava ao longe afastado da água. Mais alto que as vozes de todas as outras aves ele chamava indignadamente:

- Crau – crau - crau! Crau – crau - crau! Fazedor da Terra, ouve-me. Estou cansado. Dá-me alguma terra para eu possa poisar e descansar, caso contrário morrerei. Crau – crau – crau! Fazedor da terra, ouves-me?

- Eu oiço-te – disse-lhe o Fazedor da Terra.

- Eu te ajudarei – e com as suas palavras o corvo e todos os restantes sentiram coragem.

- Um de vós deve ajudar-me, preciso de lama para fazer terra. Quem mergulha e me traz alguma?

- Eu! – exclamou o pato-real. Esticou o seu pescoço para dentro de água, mas não conseguiu sequer ver o fundo.

O Fazedor da Terra, o Criador, perguntou novamente: - Quem me traz alguma lama?

O castor batendo com a sua larga cauda na água, disse:

- Eu trago-te lama. Mergulhou, e logo de seguida foi seguido pelo mergulhão; mas nenhum deles conseguiu alcançar o fundo.

O Fazedor da Terra perguntou pela quarta vez: - Há alguém que me consiga trazer lama?

- Eu tentarei – disse o pequeno galeirão preto, e mergulhou para longe de vista. Como não voltava, todos pensaram que tinha sido levado pelas águas. Então o Fazedor da Terra, alcançou o fundo das águas e fez emergir o galeirão quase sem vida. Estava exausto para falar, mas havia lama no seu bico!

O Fazedor da Terra recolheu a lama do bico do pequeno galeirão e disse:

- Um de vós deve carregar esta lama.

Todos queriam carregá-la. Ele olhou amorosamente para todos e escolheu a tartaruga.

- Avó Tartaruga, as tuas costas são fortes e tu és cuidadosa. Tu carregarás a lama. Tu serás sempre a minha alegria! As tuas roupas serão gloriosas, e toda a vida virá de dentro de ti.

O Fazedor da Terra, o Criador, trabalhou a lama molhada com suas mãos até ficar seca. Polvilhou a carapaça da tartaruga com a lama e com seu poder a lama cresceu, cresceu até cobrir por completo a Avó Tartaruga e transformar-se na terra que pisamos.

Vem, poisa e descansa – disse ao Corvo – agora todos vós podeis fazer vossos ninhos. E imediatamente as aves e os animais deixaram a água e deram graças ao Fazedor da Terra.

Com o poder da sua imaginação, o Fazedor da Terra empilhou as montanhas e aplanou as planícies, deixou só a água suficiente para encher os rios, os lagos e os pauis. Pintou o chão com tintas de várias cores, vermelho, amarelo e branco. As montanhas cobriu-as com rochas, pinheiros e neve, e as planícies com ervas e flores. A tudo deu o seu próprio cheiro, e compôs a música da chuva a cair e do vento nos pinheiros. E fez raízes e bagas crescer no seu devido lugar, (…)

Colocou cedros nas encostas, e ao longo dos riachos plantou salgueiros (…)

(…) E preencheu a terra com todo o tipo de seres. Sacudiu o robe pintado que vestia e flocos de aves felizes de todas as cores voaram. Elas entendiam-no quando falava. (…) O Fazedor da Terra estendeu o seu robe no chão e, andando devagarinho, arrastou-o por uma ponta e imensos animais de todo o tipo saíram correndo por debaixo dele. Todos o entendiam quando falava (…)

O Fazedor da Terra pensou: - Vou fazer seres de duas pernas e dar-lhes tudo o que fiz. Eles terão cabelo somente no topo das suas cabeças e viverão juntamente com os búfalos.

E assim foi que na sua sabedoria, tirou um pedaço de lama das costas da Avó Tartaruga e a moldou nas suas mãos formando a figura do Homem e da Mulher.

(…)

Ele disse-lhes – Eu sou o vosso Pai e Avô e a terra é a vossa Mãe e Avó. Eu dou-vos a alegria e a maravilha da vida, e tudo à vossa volta para usares ajuizadamente.

(…)

O Fazedor da Terra falou às pessoas:

- Eu prometi ficar sempre perto de vós. Quando precisarem de mim no vosso caminho pela vida, falem comigo. Cantai! Eu estou a ouvir. Vejam as vossas preces subir até mim no fumo dos vossos cachimbos sagrados. Procurem-me nas colinas e nas montanhas. Oiçam-me no Vento e na Água, no Corvo e no Coiote. Eu virei até vós em sonhos e dar-vos-ei a sabedoria do Alce ou da Águia, da Rocha ou do Trovão. Pensem em todos eles, e eles vos ensinarão tudo o que quereis saber. Lembrem-se que só a Terra fica para sempre. Tenham força! Que todos os seres sejam felizes!

No fim, o Fazedor da Terra empilhou grandes montanhas para travar as águas de voltarem a inundar a terra e a engolir a Avó tartaruga. Ele disse ao Búfalo, com os seus fortes cornos curvos e fortes ombros, para empurrar as montanhas. O búfalo é forte e viverá por muito tempo, mas não para sempre! Ele envelhece; todos os anos perderá um cabelo, e em cada uma das quatro idades uma perna se partirá. Quando o búfalo morrer as montanhas desmoronar-se-ão e as águas voltarão a inundar tudo e então…

… O Fazedor da Terra fará um outro mundo.

Rama Coomaraswamy: entre o Catolicismo e a Filosofia Perene

O presente texto dedicado à obra de Rama Coomaraswamy, gentilmente cedido pelo Mateus Soares de Azevedo e o Dr. William Stoddart, foi originalmente publicado em inglês na publicação periódica canadiana “Sacred Web” (N. 18, Janeiro de 2007). A passagem para a língua portuguesa foi efectuada pelo próprio Mateus Soares de Azevedo.

Ao longo do texto os autores procuram analisar a preciosa obra deste autor, realçando o mais importante do seu conteúdo e oferecendo uma importante crítica à sua feroz aversão ao Protestantismo.

A obra deste autor, apesar de abordar temas muito complexos e, para muitos, controversos, nomeadamente no que respeita ao Vaticano II, é fundamental para qualquer cristão que pretenda aprofundar o seu conhecimento sobre a doutrina da sua tradição.

Antes de vos deixar o texto, gostaria de deixar um profundo agradecimento aos amigos Mateus e Stoddart pela sua contribuição com este importante texto.


Rama Coomaraswamy: entre o Catolicismo e a Filosofia Perene
William Stoddart e Mateus Soares de Azevedo

Rama Coomaraswamy nasceu em 1929, filho do célebre filósofo e crítico de arte indiano Ananda Kentish Coomaraswamy e de Luisa Runstein. Recebeu sua educação básica na Índia e Inglaterra, antes de começar os estudos universitários, primeiramente em Harvard, EUA, onde se graduou em Geologia, e depois na faculdade de medicina da Universidade de New York, onde se formou em 1959. Em seguida, especializou-se em cirurgia torácica e cardiovascular. Já ao final da vida, devido a problemas de saúde, teve de abandonar a extenuante carreira de cirurgião e se voltou para a psiquiatria; neste campo, tornou-se professor assistente do Albert Einstein College of Medicine de Nova York.

Originário de uma influente família brâmane, recebeu educação religiosa tradicional em Haridwar, uma das mais importantes cidades sagradas da Índia, e foi iniciado com o yajnopavita, o colar sacro. Com a morte de seu pai, em 1947, teve de retornar aos Estados Unidos, onde Ananda Coomaraswamy exercia o cargo de curador do Museu de Belas Artes de Boston. Como era praticamente impossível seguir o Hinduísmo no Ocidente então, ele passou a estudar a doutrina cristã e pediu o batismo na Igreja Católica, aos 22 anos. Em uma correspondência recente, ele explica: “A conversão é um assunto simultaneamente complexo e simples e depende da graça. Como hindu, fui ensinado a amar e servir a Deus; por que não poderia continuar a fazer o mesmo como católico? (...) Tenho uma vivência familiar algo incomum, pois minha família inclui tanto padres jesuítas como monges hindus. Convivi intimamente com hindus, sufis e católicos. Desde minha entrada no Catolicismo, nunca me desviei da fé tradicional e penso que meus escritos dão testemunho de minha ortodoxia.”

Paralelamente à carreira médica, na qual se destaca a colaboração, na Índia, com Madre Tereza de Calcutá, de quem foi também clínico particular, Rama Coomaraswamy manteve um profundo interesse em questões teológicas, como se comprova por seus livros (ver abaixo) e sua colaboração com reputadas publicações na América do Norte e Europa, como Sacred Web, Sophia e Connaissance des Religions. Foi também professor de história eclesiástica do seminário Santo Tomás de Aquino, em Ridgefield, Connecticut, por cinco anos.

Quanto a seu pai, Ananda Coomaraswamy, além de diretor do reputado museu de Boston e autor de dezenas de livros importantes, foi companheiro de Gandhi na luta pela independência da Índia. Foi também o célebre acadêmico que introduziu pioneiramente no mundo de língua inglesa as idéias e visões da escola da Filosofia Perene, cujos fundadores foram o metafísico francês René Guénon (1886-1951) e o filósofo das religiões suíço-alemão Frithjof Schuon (1907-1998).

Essas idéias fascinaram o jovem Rama, mas, na verdade, ele nunca foi capaz de entendê-las e aceitá-las plenamente e, ao final, abandonou-as em grande medida em favor de um apego mais ou menos exclusivo ao Catolicismo. Como resultado dessas duas influências – uma universal e supra-formal, derivada da Filosofia Perene de seu pai, e outra particular e formal, derivada de sua ligação religiosa – sempre houve uma certa tensão ou ambigüidade em seu pensamento.

Suas opiniões e atitudes emergem claramente de seus três principais livros. São eles: The Destruction of the Christian Tradition (1981; 2a. edição 2006), The Problems with the New Mass (1990), and The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (1999). No Brasil, foi publicada uma síntese do primeiro, sob o título de “Ensaios sobre a destruição da tradição cristã” (T.A Queiroz editor, S. Paulo, 1990).

Os dois primeiros constituem a descrição mais abrangente e convincente que há de como o autêntico Catolicismo foi abalado pela revolução do Vaticano II. O terceiro livro é uma exposição única e preciosa da antiga prática da oração jaculatória – isto é, a invocação metódica de um Nome Sagrado.

Com relação aos dois primeiros, infelizmente não podemos evitar uma nota de crítica: há neles tantos ataques ao Protestantismo que às vezes parece que são tanto sobre o Protestantismo como sobre o Catolicismo! As opiniões expostas a este respeito estão em claro contraste com as de Frithjof Schuon, como expressas em seus escritos sobre o tema (especialmente em “The Question of Evangelicalism” e “Christian Divergences”), e isso exige uma breve discussão.

Sem dúvida se pode dizer que é direito de um exoterista católico atacar o Protestantismo, e direito de um exoterista protestante atacar o Catolicismo. Sim, de fato, mas neste ano da graça podíamos esperar que encontrasse outros adversários. Há uma infinidade deles: ateístas, céticos, mofadores, religiosos liberais, “fundamentalistas”, pornógrafos, etc., etc.

Rama Coomaraswamy não compreendeu que, seja o que for que o Protestantismo de Lutero possa ser, não deriva do relativismo ou do individualismo modernos. Lutero amava São Paulo e Santo Agostinho e desprezava o Renascimento secularizante, contra a qual ele se rebelou. De fato, por causa disso, é visto por alguns como um tipo atávico da Idade Média. Sem dúvida, Lutero também rejeitou a Escolástica, de cujo mau uso ele tinha muita experiência.

O Protestantismo não pode ser definido meramente como uma forma truncada e desviada de Catolicismo; truncada e artisticamente empobrecida pode ser, mas é acima de tudo um ângulo de visão diferente (sobre os sacramentos e a salvação) do Catolicismo. Schuon chamou a forma luterana de Cristianismo de “um upâya (termo budista que significa “forma salvífica”, ou “exoterismo salvador”) secundário entre outros upâyas possíveis” – e um upâya não pode ser julgado segundo os critérios de outro upâya.

Schuon chamou Lutero de “fideísta”, “místico” e, a despeito de um número de explosões excessivas e intemperadas, “um homem virtuoso”. Lutero possuía uma convicção e uma sinceridade que testemunhavam seu “zelo pela casa do Senhor”. Ele foi o originador, no século XVI, de uma “adaptação” religiosa que se enraizou firmemente no noroeste da Europa e que dura até os dias de hoje. Tem sido o meio de salvação para inumeráveis almas. Os aspectos essenciais desta “adaptação” são simplificação, interioridade e uma fé total no poder salvador de Deus.

Seja como for, as intermináveis e desnecessárias críticas sarcásticas de Rama Coomaraswamy ao Protestantismo não ajudam em nada. Na maior parte, elas são equivocadas; ocasionalmente, em uma única sentença, há tantas críticas que seriam necessários vários parágrafos de comentários para classificá-las e refutá-las uma a uma! Acima de tudo, elas não são pertinentes ao tema em foco, porque o ponto importante a reter a este respeito é que o Protestantismo não desempenhou papel causal no que diz respeito à revolução do Vaticano II. Os precursores deste último foram o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa, sem esquecer Teilhard de Chardin – e não o pré-moderno Martinho Lutero. Ele foi um reformador, não um revolucionário – uma distinção importante.

Já foi corretamente apontado que o gênio nocivo por trás do Vaticano II foi Teilhard de Chardin – mesmo assim, Rama Coomaraswamy prosseguiu com suas críticas ao Protestantismo, o qual, a despeito de suas repetidas tentativas de implicá-lo na destruição causada pelo Vaticano II, não teve de fato nada com isso! Ironicamente, foi a irrupção do Protestantismo no século XVI que provocou o Concílio de Trento, no qual a então debilitada Igreja Católica pôde colocar a casa em ordem, gabaritando-a assim a manter efetivamente seu testemunho pelos quatro séculos seguintes.

Se é verdade que o Catolicismo pré-Vaticano II manifestava, e já por um período considerável, uma sorte de complexo de inferioridade tanto em relação ao Protestantismo como em face da ciência moderna, pode bem ser que os promotores do concílio desejassem o que consideravam ser uma “protestantização” da missa católica. Não obstante, a iniciativa disso não veio do lado protestante. Sugerir que a presença de uns poucos observadores protestantes no concílio prova que o Protestantismo foi de alguma maneira um causador deste último é absurdo. O Vaticano II aconteceu no começo dos anos 1960 – uma outra época em relação a hoje! – e pode se dizer sem receio de contradição que a esmagadora maioria dos protestantes de todos os matizes nutriam uma profunda ignorância e indiferença em relação a ele. A maior parte deles continua assim. A maioria dos cristãos ortodoxos e dos protestantes acredita que “Roma ainda é Roma”, e são contra ela de qualquer jeito!

Não deixa de ser irônico notar que, para o bem ou para o mal, o estilo agressivo e combativo de Rama Coomaraswamy é similar ao de Lutero!

Pode-se dizer que o ‘exclusivismo’ é natural aos agrupamentos humanos e é um meio ‘tradicional’ de auto-preservação; mas isso deixa fora da conta a natureza sem precedentes de nosso presente situação, na qual todas as religiões são erodidas pelas mesmas forças destrutivas.

Sejamos conscientes disso ou não, o ‘inimigo’ mudou: ele não é mais encontrável nas religiões ou denominações ‘concorrentes’, mas sim nos oponentes, grosseiros ou sutis, de todas as religiões. Isso não diz respeito somente ao esoterismo; a experiência comprova que muitos exoteristas sensíveis têm uma intuição efetiva da nova situação. Os dois livros de Coomaraswamy não os apóiam.

Do lado positivo, - e há muito que é positivo! - estes dois livros contêm informação suficiente sobre a destruição intencional da missa, por parte do Vaticano II, para fazer católicos sérios despertarem e refletirem. Como é reconhecido pela lei canônica desde a Idade Média, obediência não é devida primeiramente ao “papa” (que pode, por heresia, trair sua função e perder sua autoridade), mas sim ao Espírito Santo. A Ortodoxia não está necessariamente aonde o “papa” está; o autêntico papa está onde está a ortodoxia!

Estes dois livros serão de valor decisivo para muitos católicos; acima de tudo, podem ajudá-los a retornar à doutrina válida e a buscar por uma missa válida celebrada por um sacerdote válido. É simplesmente de se lamentar que as obras sejam marcadas por tantas insignificâncias anti-protestantes.

O terceiro livro de Coomaraswamy, The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (“A Invocação do Nome de Jesus – Como praticada na Igreja Ocidental”) é totalmente diferente. Trata-se de uma valiosa apresentação do método espiritual tradicional conhecido como “prece quintessencial”, ou “oração do coração”. Esta via espiritual consiste na repetição metódica, ou invocação, de um Nome Sacro revelado, prática que deriva dos primeiros séculos do Cristianismo, e que persistiu, por toda a Idade Média, até os dias de hoje. Há um rico tesouro de livros sobre tal prática na Igreja Oriental, particularmente em sua tradição monástica, conhecida como Hesicasmo (veja, por exemplo, os livros O Peregrino Russo e A Filocalia). Aqui, ele assume a forma da “oração do publicano”, ou “Oração de Jesus”, isto é, “Senhor Jesus Cristo tem piedade de mim pecador”. Usualmente tal formula é abreviada para dois termos gregos, Christe eleison.

Tomando seu ponto de partida dos ensinamentos de Frithjof Schuon e dos testemunhos de santos e místicos através dos séculos, Rama Coomaraswamy, ao expor tal método de concentração espiritual, descreve tanto sua universalidade – faz referência en passant a práticas budistas e islâmicas – como sua forma especificamente católica, como exemplificado e ensinado por São Bernardino de Siena (século 15) e pela capuchinha italiana Consolata Betrone (1903-1946), entre outros. No Catolicismo, a invocação assume usualmente a forma Jesu-Maria.

Mais importante, Coomaraswamy aponta para a “relação íntima entre a invocação do Nome e o Sacrifício Eucarístico” (p. 20). Ele escreve: “O caráter eucarístico é ainda mais enfatizado no rito tradicional romano. Quando o sacerdote participa da santa comunhão, diz: ‘Tomarei o pão da vida e clamarei o Nome do Senhor; beberei do cálice da salvação e invocarei o Nome do Senhor.’ E é assim que a recepção ‘passiva’ das Santas Espécies pede a resposta ‘ativa’ da invocação.” (p. 24).

“Tão poderoso é o Nome”, ele continua, “que nos transmite graças não dessemelhantes às propiciadas pela própria Eucaristia.... Há um rosário de 33 contas usado com o Nome de Jesus do qual se diz que, na ausência da missa, transmite todas as graças obtidas com a participação nesta última.” (p. 24).

O legado de Rama Coomaraswamy, assim, reside em dois elementos: sua detalhada e autorizada descrição da destruição da doutrina e da missa tradicionais levada a cabo pelo Vaticano II, e sua descrição do papel e importância, nesses últimos dias, da invocação do Santo Nome. Em outras palavras, discernimento implacável em relação às formas exteriores, conjuntamente com a importância da prece do coração. Menção a esta prática evoca as palavras do último papa tradicional, Pio XII: “Não está longe o dia em que os fiéis só poderão celebrar o santo sacrifício da missa no altar secreto do coração”. Na época, muitos pensaram que o santo papa se referia à ameaça de perseguição exterior, mas pode-se dizer que suas proféticas palavras se aplicavam também ao iminente advento de uma liturgia falsificada.

Rama Coomaraswamy expôs de forma vigorosa e articulada estas duas coisas e por isso lhe somos profundamente gratos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O deserto e o silêncio

Os últimos dias têm sido iluminados por um ‘pequeno’ tesouro que vou partilhar nesta publicação. Trata-se do livro “In the Heart of the Desert – The Spirituality of the Desert Fathers and Mothers” da autoria do Padre John Chryssavgis. Neste livro somos como que levados pela mão do Padre Chryssavgis através da mais profunda espiritualidade dos Padres do Deserto. É uma excelente introdução a estes eternos ensinamentos que ecoam do mais profundo dos desertos, aquele que apenas se encontra no interior do nosso ser. Fica ainda a referência a uma edição portuguesa dos ditos destes mestres do deserto, “Ditos e feitos dos Padres do Deserto”, da Assírio & Alvim.




Aquilo que pacientemente se chega a praticar é a virtude do silêncio (hesychia). Obtemos auto-conhecimento através da quietude e do silêncio, através da atenção e da vigilância (nepsis). Quando as palavras são abandonadas chega uma nova percepção. O silêncio desperta-nos de uma percepção néscia, de uma visão obscura.

Abade Bessário, no momento da sua morte, disse: “O monge deve ser como o querubim e o serafim: todo olho!”

Abade Poemen disse: “Sê atento interiormente; e sê atento exteriormente.”

O silêncio é o primeiro dever da vida, o primeiro requisito para a sobrevivência no deserto.

Tendo-se retirado para o deserto, Abade Arsénio… ouviu uma voz que lhe disse: “Arsénio, foge; mantém-te silencioso, sempre em oração. Esta é a fonte de uma vida sem pecado.”

O silêncio é também o primeiro dever do amor (agape), o primeiro requisito para a sobrevivência em comunidade.

Abade Poemen disse: “Alguém pode parecer silencioso, mas se no seu coração condena os outros, então balbucia ininterruptamente. E pode haver outro que fale de manhã à noite e, ainda assim, ser uma pessoa verdadeiramente silenciosa no coração. Essa pessoa nada diz que não seja proveitoso.”

O silêncio é uma via de espera, uma via de observação, e uma via de escuta para com aquilo que se passa dentro de nós e à nossa volta. É uma via de interioridade, de paragem e de exploração das profundezas do coração e do centro da vida. É uma via para penetrar o seu interior, para que no fim não fiquemos sem ele. O silêncio nunca é meramente uma cessação de palavras; isso seria uma definição demasiado restritiva e negativa do silêncio. Pelo contrário, ele é a pausa que mantém unidas – na realidade, dá sentido a – todas as palavras, pronunciadas ou não pronunciadas. O silêncio é a cola que une as nossas atitudes às nossas acções. O silêncio é a totalidade, não o vazio; não é uma ausência, mas a consciência de uma presença. Toda a fuga para o deserto pode ser resumida a esta prioridade e prática de silêncio.

Abade Macário o Grande disse aos irmãos de Cétia: “Fujam, meus irmãos.” Um dos anciões perguntou-lhe: “Para onde podemos fugir para além deste deserto?” Macário colocou o seu dedo nos lábios e disse: “Fujam disto!” E foi para a sua cela, fechou a porta, e sentou se.

Um irmão veio ver o Abade Poemen na segunda semana da Quaresma, e falou-lhe dos seus pensamentos. Ele obteve paz e disse-lhe: “Quase que não vinha hoje.” O ancião perguntou-lhe porquê. O irmão disse-lhe: “Pensei para mim próprio: ‘Talvez ele não me receba por ser a Quaresma.’” Abade Poemen disse-lhe: “não fomos ensinados a fechar as portas de madeira; mas sim as portas das nossas línguas.”




O deserto exterior

A realidade é, obviamente, que tendemos a ser impacientes; tendemos a vaguear; tendemos a interferir no processo. E somos tentados a falar; a quebrar o ensurdecedor silêncio. As palavras são formas de afirmar a nossa existência, de justificar as nossas acções. Falamos de modo a nos desculparmos, em nós e ante os outros; enquanto o silêncio é uma forma de morrer – em nós e na presença de outros. É uma forma de abandonar a vida, sempre no contexto e na esperança de uma nova vida e de ressurreição.

Abade Alónio disse: “Se não me tivesse destruído completamente, não teria sido capaz de me reconstituir e moldar de novo.”

As palavras do Abade Alónio podem parecer muito duras. No entanto, pode ser que através do abandono da vida possamos nos encontrar de novo. Na luta contra aquilo que não somos podemos procurar descobrir aquilo que somos de verdade. A realidade é que tendemos a esquecer quem e o que somos de verdade. Quando recusamos o desafio do silêncio não podemos conhecermo-nos a nós próprios. Não é que sejamos tentados a pensar que somos mais do que somos na realidade; infelizmente, é nessa altura que toleramos ser menos do que somos realmente chamados a ser. O orgulho não é o grande pecado; a grande tragédia é o esquecimento do que somos. É por esta razão que a sabedoria do deserto enfatiza a lembrança da morte; era o outro lado da mesma moeda, que pode ser apelidada de lembrança de Deus.

Quando a morte de Arsénio se aproximava, os irmãos viram-no chorar e perguntaram-lhe: “Estás, de verdade, com medo?” “Na realidade”, respondeu-lhes, “o medo que é meu nesta hora tem estado comigo desde que me tornei um monge.”

No entanto, o silêncio não surge facilmente. Se o silêncio é a linguagem de Deus, a linguagem que falam no Céu, será uma surpresa que façamos tantos erros na interpretação desta linguagem? Nunca poderá ser uma tarefa fácil estar na disposição de nos colocarmos às portas do reino dos céus ou, como o Abade Arsénio, estar à beira da morte.

Era dito do Abade Agatão que durante três anos viveu com uma pedra na boca, até aprender a manter silêncio.

Os Padres do Deserto abraçavam a sua mortalidade; eles estavam confortáveis com a morte. Eles reconheciam a morte como uma outra forma de comunidade, como uma outra forma de se ligarem ao seu vizinho e a Deus como Senhor da vida e da morte. Quantas vezes desejamos enganar a morte; instintivamente procurando a evitar ou lhe escapar. Não queremos enfrentar a mudança, ou a dor, ou a paixão, ou a morte. Na terminologia do deserto, essa seria a tentação de sair da cela. A imagem de “viver a morte” é talvez mais aterrador para nós do que a própria morte. E, por esta razão, procuramos meios para lhe fugir – financeira, tecnológica, médica e emocionalmente. As palavras são parte do nosso ser racional; abandonar as palavras é abrir caminho para o nosso ser espiritual. De qualquer forma, os Padres do Deserto aconselham-nos a estar silenciosos e quietos! Recomendam fechar a porta e sentarmo-nos na cela. Devemos simplesmente esperar, mesmo nas situações em que – na realidade, em particular quando – experimentamos momentos de pânico, de incapacidade, de debilidade, de terror, de morte. Foi isso que eles fizeram. Afinal, para onde podemos ir para além do deserto? Para onde podemos ir após escalar uma coluna de trinta pés, como fizeram os Stilitas da Síria? Para onde podemos ir quando, como o Abade António, nos deslocámos do deserto exterior para o deserto interior do Egipto? Apenas te sentas; ficas; e esperas. Depois, quando chegares ao fim dos teus recursos individuais, uma fonte infinita e eterna poderá ser aberta. Não que a graça divina esteja inicialmente ausente; apenas não é reconhecida enquanto dependemos de nós próprios.

Então, simplesmente aguardas. Aguardas com esperança.



O deserto interior

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Eye of the heart - Nº 3

Está disponível o terceiro número do Eye of the Heart - A Journal of Traditional Wisdom. Salienta-se que este número contém um dos artigos vencedores do Ananda Coomaraswamy Essay Prize, o artigo da Drª Emily Pott - "The Zaqqūm Tree".



Editorial

Spiritual symbolism in the Grimms’ tales - by Samuel D. Fohr

The Bosom of the Father: Notes on the Negative Theology of Clement of Alexandria - by Andrew Itter

A methodology of the Imagination - by Angela Voss

Three short essays in astrophysiology - by Roger Sworder

The Book of the Celestial Cow: A Theological Interpretation - by Edward P. Butler

The Zaqqūm Tree - by Emily Pott

Symbolism as marriage and the symbolism of marriage - by Tom Bree

domingo, 3 de maio de 2009

1º Evento Sabedoria Perene

Foi na passada Quinta-Feira, dia 30 de Abril, que o Sabedoria Perene surgiu pela primeira vez fora deste espaço e fez a primeira apresentação pública do seu projecto com raízes na perspectiva universal de três grandes sábios do séc. XX: René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon, e que procura divulgar a “escola” de pensamento que se tornou conhecida pelas designações de “perenialismo” ou “tradicionalismo”.

Esta possibilidade surgiu da presença do escritor brasileiro Mateus Soares de Azevedo em Portugal, que teve a amabilidade de nos apresentar duas interessantes palestras sobre temas que têm sido alvo de suas recentes pesquisas.


A primeira das palestras proferidas, com o título “Estará esgotado o papel histórico dos Estados Unidos da América?”, apesar de apresentar um carácter mais político, focou de forma extremamente clara os problemas inerentes ao fundamentalismo religioso e as suas nefastas consequências na humanidade, tema aliás que é aprofundado no seu livro “Homens de um livro só”.



Na segunda palestra, “Esoterismo e Exoterismo no Sermão da Montanha”, Mateus Soares de Azevedo apresentou uma breve abordagem sobre um dos temas mais interessantes do Cristianismo, isto é, o carácter eminentemente esotérico da sua mensagem. É interessante referir que Mateus recorreu em diversas ocasiões às palavras do nosso Padre António Vieira.



Foi ainda aproveitada esta oportunidade para divulgar um outro projecto do Sabedoria Perene que já há algum tempo está a ser preparado. Trata-se da criação de uma revista não-periódica de publicação online, a qual visa divulgar alguns dos principais textos publicados no blogue, bem como estabelecer uma plataforma para a publicação de textos de autores de expressão portuguesa dedicados ao estudo da Tradição e da Sophia Perennis. Com efeito, foi desvendado o conteúdo do primeiro número, o qual estará disponível brevemente.


Introdução
A renovação do interesse na Tradição – Whitall N. Perry


Tradição e Sophia Perennis
A Filosofia Perene – Frithjof Schuon
Religio Perennis – Frithjof Schuon
O que é a Tradição – Seyyed Hossein Nasr
Compreender a palavra “Tradição” – Ali Lakhani
Tradição como Função Espiritual – Reza Shah-Kazemi
Carta aberta sobre a Tradição (resumo) – James Cutsinger


Estudos da Tradição
O ponto de partida de René Guénon, parte I – Miguel Conceição
Esoterismo islâmico – René Guénon
Ritos e símbolos – René Guénon
Gnose cristã – Frithjof Schuon
Mulheres de Luz no Sufismo – Sachiko Murata
Sobre a tradução – Ali Lakhani
Religião, Ortodoxia e Intelecto – William Stoddart
Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XX – Mateus Soares de Azevedo
Nembutsu como ‘Lembrança’ – Marco Pallis

In memoriam
René Guénon – Martin Lings
A Tradição Primordial: Um tributo a Ananda Coomaraswamy – Ranjit Fernando
Um sábio para os Tempos: O papel e a obra de Frithjof Schuon – Harry Oldmeadow

Por último, cumpre agradecer a todos os presentes e à Associação Agostinho da Silva, na pessoa do Renato Epifânio, por ter acolhido de forma tão gentil este evento. Não posso ainda terminar sem agradecer profundamente ao Pedro Martins, dos Cadernos de Filosofia Extravagante, por todo o incentivo e apoio na divulgação do evento. Um grande abraço perene a todos.

sábado, 25 de abril de 2009

Palestra e apresentação de livros

No próximo dia 30 de Abril pelas 19h, no espaço da Associação Agostinho da Silva gentilmente cedido pela sua direcção, o escritor Mateus Soares de Azevedo irá apresentar o seu mais recente livro, “Homens de um livro só”, bem como a recente tradução para a língua portuguesa do livro de Frithjof Schuon, “A Transfiguração do Homem”.

Mateus Soares de Azevedo irá ainda proferir duas breves palestras. Na primeira, intitulada “Esoterismo e Exoterismo no Sermão da Montanha”, apresentará uma interpretação “perenialista” de um dos textos mais importantes da tradição cristã.

A segunda prelecção tem, de alguma forma, um carácter mais político-religioso e centra-se na tentativa de resposta à questão "Estará esgotado o papel histórico dos Estados Unidos da América?”. Mateus Soares de Azevedo enquadra a resposta no cenário internacional actual e com a função do fundamentalismo islâmico e do sionismo.


Homens de um livro só”, de Mateus Soares de Azevedo, constitui uma segura introdução para compreender o fenómeno do fundamentalismo, tão difundido e desafiador para os dias de hoje. De forma inédita, apresenta e explica os princípios e as ideias nos quais estão baseados os movimentos fundamentalistas. Oferece também um panorama histórico e geográfico das principais correntes militantes nas diversas religiões. Uma novidade na sua abordagem é a aplicação do conceito de fundamentalismo ao comunismo e à psicanálise, incluindo aí tendências contemporâneas como a dos polemistas anti-religiosos Richard Dawkins e Christopher Hitchens. O leitor encontrará aqui a solução para os diversos enigmas que dificultam a compreensão deste problema vital para a paz e o entendimento entre as várias civilizações mundiais.


A Transfiguração do Homem”, livro de Frithjof Schuon traduzido por Alberto Vasconcellos Queiroz, marca o arranque da editora Sapientia, dedicada à publicação de autores da “Escola Perenialista” tais como Frithjof Schuon, René Guénon, Titus Burckhardt, Ananda Coomaraswamy, Martin Lings, William Stoddart e outros, bem como de obras clássicas da espiritualidade universal. Esta editora é um projecto de Alberto Vasconcellos Queiroz que conta com o apoio de Mateus Soares de Azevedo. O seu objectivo é publicar expressões da Sabedoria pura, intemporal, aquela, precisamente, que se convencionou chamar Sophia perenne ou perennis. Os seguintes extractos elucidam o teor do seu primeiro livro publicado:

“A imagem do homem que nos oferece a psicologia moderna não é somente fragmentária, ela é miserável. Na realidade, o homem está como que suspenso entre a animalidade e a divindade; ora, o pensamento moderno, seja filosófico ou científico, na prática só admite a animalidade.”

“Queremos, ao contrário, corrigir e aperfeiçoar a imagem do homem insistindo em sua divindade; não que queiramos fazer dele um deus, quod absit; buscamos simplesmente dar conta de sua verdadeira natureza, que supera o terrestre e sem a qual ele não tem razão de ser.”

“É isto que acreditamos poder chamar, numa linguagem simbolista, a 'transfiguração do homem'.”

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Apresentação de livros em Lisboa

Actualização

Está confirmada a realização deste evento no dia 30 de Abril.
Brevemente será aqui anunciado o local e a hora.


Caros leitores do Sabedoria Perene,

É com grande entusiasmo que aqui anunciamos a possibilidade do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no blogue extravasar este seu formato virtual e propiciar o encontro dos, porventura poucos, leitores portugueses interessados pelos assuntos que aqui têm vindo a ser paulatinamente expostos.

Com efeito, em resultado de uma inesperada, para nós feliz, deslocação a Lisboa, o ilustre escritor brasileiro Mateus Soares de Azevedo predispôs-se a apresentar publicamente o seu último livro, “Homens de um livro só”, bem como a primeira publicação da editora Sapientia, a tradução por Alberto Queiroz do livro de Frithjof Schuon “A Transfiguração do Homem”, ambos os livros já abordados no Sabedoria Perene.

Mais ainda, existe também a possibilidade de condimentar aquelas apresentações com a discussão sobre dois temas sobre os quais o escritor se tem debruçado recentemente, um primeiro associado ao Esoterismo e ao Exoterismo no Sermão da Montanha e um segundo, com teor algo diferente, relacionado com o esgotamento do papel dos Estados Unidos no cenário internacional e com a função do fundamentalismo islâmico e do sionismo nesse processo (este último tema relacionado com o seu mais recente livro).

A realizar-se, este importante acontecimento poderá ser agendado para o final do dia 30 de Abril. Contudo, consideramos que apenas se justifica encetar diligências para a sua realização caso se garanta um número aceitável de presenças.

Deste modo, pede-se aos eventuais interessados na realização deste evento que nos confirmem com a celeridade possível essa intenção e disponibilidade para a data sugerida, através de um contacto por correio electrónico (mfm.conceicao@gmail.com). Ficaríamos ainda extremamente gratos pela divulgação junto de potenciais interessados no evento.

Esperamos regressar muito brevemente com informação detalhada sobre a localização e hora deste acontecimento.

sábado, 4 de abril de 2009

A Transfiguração do Homem

É com enorme prazer que anuncio no Sabedoria Perene uma óptima notícia proveniente do outro lado do Atlântico. Trata-se do arranque de uma nova editora dedicada à publicação de autores da “escola” perenialista: Frithjof Schuon, René Guénon, Titus Burckhardt, Ananda Coomaraswamy, Martin Lings, William Stoddart e outros, bem como de obras clássicas da espiritualidade universal. Foi baptizada de Sapientia e resulta de um projecto de Alberto Vasconcellos Queiroz que conta com o apoio de Mateus Soares de Azevedo. O seu objectivo é publicar expressões da Sabedoria pura, intemporal, aquela, precisamente, que se convencionou chamar Sophia perenne ou perennis, a nossa Sabedoria Perene.

O primeiro fruto deste projecto já está pronto para ser colhido e não é um fruto qualquer. Para primeira publicação foi escolhido o livro de Frithjof Schuon “A Transfiguração do Homem”, precisamente o seu último livro, traduzido por Alberto Vasconcellos Queiroz.



Fiquemos com alguns extractos que elucidam o teor do livro:

“A imagem do homem que nos oferece a psicologia moderna não é somente fragmentária, ela é miserável. Na realidade, o homem está como que suspenso entre a animalidade e a divindade; ora, o pensamento moderno, seja filosófico ou científico, na prática só admite a animalidade.”

“Queremos, ao contrário, corrigir e aperfeiçoar a imagem do homem insistindo em sua divindade; não que queiramos fazer dele um deus, quod absit; buscamos simplesmente dar conta de sua verdadeira natureza, que supera o terrestre e sem a qual ele não tem razão de ser.”

“É isto que acreditamos poder chamar, numa linguagem simbolista, a 'transfiguração do homem'.”

Sabemos ainda que uma segunda publicação está já a ser preparada, da qual revelamos apenas que será um outro livro do mesmo autor. Para um futuro próximo está pensada a publicação de um livro de Burckhardt e outro de Stoddart. Ficaremos ansiosamente aguardando novas notícias.

O livro pode ser obtido nos sítios da Livraria Cultura e da Estante Virtual, ambos brasileiros. Esperemos que esteja brevemente disponível deste lado do Atlântico.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O dilema de Ésquilo

Certo dia, um dos pais da cidade de Delfos abordou o grande escritor de teatro, Ésquilo, para lhe pedir que escrevesse um novo hino em honra de Apolo para ser usado em ocasiões especiais. Ésquilo deve ter hesitado – a sua resposta foi a alma da hesitação. “Não posso aceitar essa comissão,” respondeu, “apesar da gentileza da sua oferta não se perder em mim. Deixe-me explicar. Há muito tempo, Tynnichos escreveu-vos um hino – um muito reverenciado que ainda hoje usam. Se eu escrevesse um novo hino, este iria sofrer um destino semelhante ao de uma nova estátua de um deus quando é colocada ao lado de velhas e veneradas estátuas. As velhas estátuas podem ser simples na sua mão-de-obra, mas são consideradas divinas. Não, eu não lhe posso escrever um novo hino – mas com grande gáudio me juntarei a si no canto dos antigos!”

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Um sábio para os Tempos: O papel e a obra de Frithjof Schuon [parte II]

Terminamos, com a presente publicação, a tradução do ensaio de Harry Oldmeadow dedicado à vida e à obra de Frithjof Schuon. A primeira parte pode ser lida aqui.


A exposição da Sabedoria esotérica

Antes de nos dedicarmos aos textos de Schuon, gostaria de abordar brevemente a questão que costumam colocar as pessoas com um crescente interesse na tradição. As Verdades sapienciais que, até aos dias de hoje, se mantinham extrinsecamente inexprimíveis e que vinham a ser protegidas pelos poucos capazes de as compreender são, de certa forma, expostas agora ao público em geral. Como é possível que, no período menos religioso e mais ímpio da história humana, as sabedorias esotéricas preservadas pelas tradições religiosas se encontrem mais acessíveis do que em qualquer outra altura?

A erosão das barreiras protectoras que anteriormente protegiam as tradições foi, em parte, causada por factores históricos que são de certa forma “acidentais”. Podemos, a título de exemplo, citar a exposição das Upanishades; aqui, certos desenvolvimentos, como a introdução na Índia de máquinas de impressão baratas, combinado com uma certa imprudência de alguns dos “reformadores” do Hinduísmo, foram o suficiente para subverter o estatuto esotérico destas Escrituras, tornando-as disponíveis a todos. Existem também inúmeros casos onde uma versão distorcida de doutrinas secretas mal compreendidas, tem sido insensatamente e descuidadamente colocada em circulação pública. O versículo Bíblico “Pois não existe nada escondido que não deva ser revelado…” tem, por vezes, sido tomado como uma licença para todo o tipo de excessos na popularização de doutrinas esotéricas. Os avisos de falsos profetas podem muitas vezes ser mais adequados.

No caso de tradicionalistas como Guénon e Schuon, o desvendar de alguns ensinamentos esotéricos foi ponderado e prudente. Que tipo de factores permitiram este desenvolvimento? Em primeiro lugar, verificam-se certas condições cósmicas e cíclicas que resultam numa situação sem precedentes. Ao discutir aquilo que outrora se encontrava escondido na escuridão e que agora está a ser trazido para a luz, Schuon escreve,

Existe, de facto, algo de anormal nesta ocorrência, mas este reside, não no facto da exposição destas verdades, mas sim nas condições gerais da nossa era, a qual marca o fim de um grande período cíclico da humanidade terrestre – o fim de um maha-yuga, de acordo com a cosmologia Hindu – que deve, assim, recapitular ou manifestar mais uma vez, de uma forma ou de outra, tudo o que está incluído no ciclo, em conformidade com o adágio “os extremos tocam-se”; assim, as coisas que são, nelas próprias, anormais, podem tornar-se necessárias em resultado das condições agora referidas.[39]

Em segundo lugar, de um ponto de vista mais expediente,

… deve admitir-se que a confusão espiritual dos nossos tempos atingiu um tal nível que o mal que possa resultar do contacto de certas pessoas com as verdades em questão, é largamente compensado pelas vantagens que outros possam derivar das mesmas verdades.[40]

Schuon relembra-nos do adágio Cabalista que diz que “é melhor divulgar a Sabedoria do que a esquecer.”[41] E em terceiro lugar, existe o facto já mencionado: as doutrinas esotéricas têm, em tempos recentes, sido tão frequentemente “plagiadas e deformadas”, que aqueles que estão em posição de falar com autoridade sobre estes assuntos são obrigados a dar alguma informação sobre o que é o “verdadeiro esoterismo e aquilo que não é.”[42]

De uma outra perspectiva, pode ser dito que a preservação, ou mesmo a própria sobrevivência, dos exoterismos religiosos formais pode depender dos efeitos revivificadores de um esoterismo mais extensivamente compreendido:

O exoterismo é algo de precário em resultado dos seus limites e das suas exclusões: chega um momento na história quando todos os tipos de experiência o obrigam a modificar as suas pretensões de exclusividade, e é aí confrontado com uma escolha: escapar dessas limitações por um caminho de ascensão, no esoterismo, ou por um caminho de descida, num liberalismo mundano e suicida.[43]

Numa altura em que “a incompatibilidade exterior e prontamente exagerada das diferentes religiões retira amplamente o crédito, na mente da maioria dos nossos contemporâneos, a toda a religião”,[44] a revelação da unidade subjacente de todas as religiões assume um carácter de grande urgência. Esta tarefa apenas pode ser cumprida através do esoterismo. A confrontação aberta de diferentes exoterismos, a extirpação das civilizações tradicionais, e a tirania das ideologias seculares e profanas assumem todos um papel na determinação das circunstâncias peculiares em que as necessidades mais imperiosas da era apenas podem ser respondidas através do recurso aos esoterismos tradicionais. Existe talvez uma pequena esperança que, neste ambiente, criado um sistema metafísico adequadamente fundado no qual se afirme a “profunda e eterna solidariedade de todas as formas espirituais”,[45] as diferentes religiões possam ainda “apresentar uma frente singular contra a onda de materialismo e pseudo espiritualismo”.[46]

Os riscos e as ambiguidades presentes na exposição de doutrinas ocultas a uma audiência, em muitos aspectos mal equipada para os compreender, causaram problemas semelhantes a representantes dos esoterismos tradicionais em toda a parte do mundo. Joseph Epes Brown, a título de exemplo, escreve sobre a revelação da sabedoria tradicional Sioux em termos muito próximos aos usados por Schuon:

…nos dias de hoje, os poucos idosos sábios que ainda vivem entre eles dizem que na aproximação do fim de um ciclo, quando em toda à parte o homem se tornou incapaz de compreender e, ainda mais, de se aperceber das verdades a ele reveladas na origem… é permitido e desejável trazer este conhecimento para a luz do dia, pois pela sua própria natureza, a verdade protege-se de ser profanada e, desta forma, é possível que a mesma possa chegar àqueles que são qualificados para a penetrar em profundidade.[47]

Não é acidental que os poucos homens santos entre os Sioux e os tradicionalistas como Schuon abordem este assunto em termos semelhantes.

A obra de Schuon

O trabalho publicado de Schuon forma um imponente corpus e cobre uma espantosa variedade de religiões e assuntos metafísicos sem quaisquer superficialidades e simplificações, espectáveis quando alguém procura abranger um tão vasto terreno.

Os seus trabalhos sobre religiões específicas ganharam o respeito de académicos e praticantes no seio das tradições em questão. Para além de publicar mais de vinte livros, foi igualmente um prolífero autor para publicações periódicas como Études Traditionnelles, Islamic Quarterly, Tomorrow, Studies in Comparative Religion e Sophia Perennis. A maior parte dos seus principais trabalhos, escritos em Francês, encontra-se actualmente traduzida para língua inglesa.[48]

Todos os textos de Schuon são orientados por um inalterável conjunto de princípios metafísicos. Eles não exibem nada de “desenvolvimento” ou “evolução” mas são, pelo contrário, reafirmações dos mesmos princípios, através de diferentes pontos de vista produzidos a partir de fenómenos divergentes. Mais do que nos casos de Guénon e Coomaraswamy, sentimos que a visão de Schuon foi, desde o princípio, completa. O termo “erudição” não é apropriado: não se trata de um questão de aprendizagem literária. Schuon viajou frequentemente, sobretudo antes da guerra, e manteve relações próximas com representantes de todas as principais tradições religiosas. Ele não só sabe “sobre” uma variedade enciclopédica de manifestações religiosas e tradições sapienciais, mas também as compreende de uma forma que, à falta de melhor expressão, apenas podemos designar de intuitiva. Os seus textos nesta área não têm qualquer paralelo.

Todo o trabalho de Schuon está relacionado com a reafirmação dos princípios metafísicos tradicionais, a explicação das dimensões esotéricas da religião, a penetração em formas mitológicas e religiosas, e a crítica de um modernismo que é indiferente ou abertamente hostil aos princípios que constituem a essência de todas as sabedorias tradicionais. Todos os tradicionalistas são, por definição, dedicados à exposição da sophia perennis que reside no coração das diversas religiões e no interior das suas variadas formas. Eles são também dedicados à preservação e iluminação destas formas que dão a cada herança religiosa a sua raison d'etre e garantem a sua integridade formal e, pela mesma razão, confirmam a sua eficácia espiritual. A posição geral de Schuon – ou melhor, a posição à qual Schuon aderiu, pois a “verdade não é e não pode ser um assunto pessoal”[49] – foi definida no seu trabalho, The Transcendent Unity of Religions (1953), um trabalho sobre o qual T.S. Eliot referiu, “Nunca encontrei um trabalho mais impressionante no estudo comparativo da religião Oriental e Ocidental.”[50] Este livro elaborava, de uma forma incomparável, a distinção entre as dimensões exotéricas e o esotéricas das tradições religiosas e, ao desvendar a convergência metafísica de todas as religiões ortodoxas, providenciava uma base coerente e irrefutável para um ecumenismo religioso adequadamente constituído – podemos mesmo dizer a única base possível.

A maior parte do trabalho de Schuon foi explicitamente dirigida para a tradição Islâmica, sobre a qual se tornou interessado quando ainda muito jovem em Paris. O seu interesse no Islão levou-o ao estudo do Árabe, inicialmente com um Judeu Sírio, posteriormente na mesquita de Paris. Por volta de 1930, Schuon visitou várias vezes o Norte de África, passando algum tempo na Argélia onde se tornou discípulo de Shaikh Ahmad Al'Alawi, o sábio Sufi Argelino e fundador da ordem ‘Alawi.[51] Schuon escreveu sobre este santo moderno:

…alguém que representa em si próprio… a ideia que durante centenas de anos tem sido a base dessa civilização [a Islâmica]. Conhecer tal pessoa é como que ficar cara a cara, em pleno século vinte, com um Santo medieval ou um Patriarca Semita.[52]

Quatro dos livros de Schuon focam-se em aspectos da tradição Islâmica: Understanding Islam (1963); Dimensions of Islam (1969); Islam and the Perennial Philosophy (1976); Sufism: Veil and Quintessence (1981). Ambos os livros Christianity/Islam: Essays on Ecumenic Esotericism (1985) e In the Face of the Absolute (1989) exploram aspectos das tradições Cristã e Islâmica. Seyyed Hossein Nasr, ele próprio talvez o mais eminente académico Islâmico no mundo contemporâneo, escreveu sobre o Understanding Islam, “Acredito que este trabalho é o mais surpreendente alguma vez escrito numa língua europeia sobre a razão pela qual os Muçulmanos acreditam no Islão e como o Islão oferece ao homem tudo que ele necessita religiosamente e espiritualmente.”[53] Apesar de todos os trabalhos de Schuon apresentarem um fragrância Sufi, o seu trabalho não se restringiu de forma alguma apenas à herança Islâmica. Dois grandes trabalhos focam o Hinduísmo e o Budismo: Language of the Self (1959) e In the Tracks of Buddhism (1969). Uma versão revista e ampliada foi mais tarde publicada pela World Wisdom Books em 1993 como Treasures of Buddhism, enquanto que o primeiro, infelizmente, há muito que está indisponível. Apesar de não ter dispendido a mesma atenção a outras religiões e tradições mitológicas, existem inumeráveis referências no trabalho de Schuon a todo o tipo de fenómenos religiosos e doutrinas, provenientes de toda a parte do globo.

Schuon e a sua mulher criaram relações de amizade com Índios Americanos em visita a Paris e Bruxelas em 1950. Durante a sua primeira visita à América do Norte em 1959, foram oficialmente adoptados pela família Red Cloud da tribo Lakota, um ramo da nação Sioux da qual surgiu o reverente “curandeiro” Black Elk. Schuon, Coomaraswamy e Joseph Epes Brown foram fundamentais no esforço para preservar a preciosa herança espiritual dos Índios das Planícies.

Os brilhantes textos sobre o tesouro espiritual dos Índios das Planícies foram reunidos, em conjunto com reproduções de algumas das suas pinturas, no livro The Feathered Sun: Plains Indians in Art and Philosophy (1990). De certa forma, pode afirmar-se que este é um dos livros mais “pessoais” de Schuon, composto por referências directas à sua própria experiência. Adicionalmente, não conseguimos imaginar nenhum dos seus predecessores a escrever algo do género. O livro, em texto e imagem, é também permeado pela nostalgia que marca o desaparecimento de uma economia espiritual e um modo de vida de extrema beleza e nobreza. Existe ainda uma peculiar melancolia no facto de Schuon ter sido adoptado em ambas as tribos Crow e Sioux, relembrando a sua resistência heróica face às invasões da “civilização”. Para além do mais, não podemos deixar de ver no próprio Schuon essas mesmas qualidades que ele exaltava nos Índios – “um heroísmo combativo e estóico com uma fundação sacerdotal, que conferia aos Índios das Planícies e da Floresta um tipo de majestade que era simultaneamente aquilina e solar…”.[54]

O amor de Schuon pela Natureza, o qual reverbera através de todo o seu trabalho como uma assombrosa melodia, foi aprofundado durante os dois períodos que ele e a sua mulher estiveram com os Índios das Planícies. “Para Schuon, a natureza virgem transporta uma mensagem de eterna verdade e realidade primordial, e fundir-nos com ela é redescobrir a dimensão da alma que no homem moderno se tornou atrofiada.”[55] Schuon, escrevendo no contexto da receptividade dos Índios Vermelhos para com as lições da natureza, disse o seguinte:

A Natureza selvagem é semelhante à pobreza sagrada e à espiritualidade da juventude; ela é um livro aberto contendo um inesgotável ensinamento de verdade e beleza. É no interior dos seus próprios artifícios que o homem mais facilmente é corrompido, são eles que o tornam cobiçoso e ímpio; perto da natureza virgem, a qual não conhece nem agitação nem falsidade, ele tinha a esperança de se manter contemplativo como a própria Natureza.[56]

Para Schuon, a “eterna mensagem da Natureza constitui um viaticum espiritual de primeira importância”.[57]

Spiritual Perspectives and Human Facts (1954) é uma colecção de ensaios aforísticos, incluindo estudos do Vedanta e de arte sagrada, bem como uma meditação nas virtudes espirituais. A minha mais conspícua memória da primeira vez que li este livro, para além da sensação da sua cristalina beleza, é do convincente contraste que Schuon apresenta entre os princípios que governam toda a arte tradicional e o pretensiosismo, vaidade e brutalidade de muito do que se faz passar por “arte” no mundo pós medieval e que á muito deixou de “exteriorizar, quer ideias transcendentes, quer profundas virtudes”.[58] Os textos de Schuon sobre arte são frequentemente embelezados com extraordinários epigramas. Quem poderá esquecer um tão pungente e revelador como este:

Quando em frente de uma catedral [medieval], uma pessoa sente realmente o seu lugar no centro do mundo; em frente de uma igreja dos períodos da Renascença, do Barroco ou do Rococó, ele apenas se sente na Europa.[59]

Desde de muito novo Schuon foi fascinado pela arte sagrada, especialmente pela do Japão e do Extremo Oriente. Numa, pouco usual, referência pessoal num dos seus trabalhos, ele fala-nos de uma figura de Buddha num museu etnográfico. Era uma representação tradicional em madeira talhada em ouro e flanqueada por duas estátuas dos Bodhisattvas Seishi e Kwannon. O encontro com esta “deslumbrante encarnação da infinita vitória do Espírito” foi resumido por Schuon na frase "veni, vidi, victus sum".[60] Um comentador chamou a atenção para a importância da sua intuição estética ao dar conta da extraordinária compreensão que Schuon tinha das formas religiosas e sociais: “É suficiente para ele ver… um objecto de uma civilização tradicional, para ser capaz de pressentir, através de uma espécie de “reacção em cadeia”, um total conjunto de ideias intelectuais, espirituais e psicológicas”.[61] Isto pode parecer uma afirmação irresponsável, mas aqueles que lerem a obra de Schuon não duvidarão do dom que esta declara.

Gnosis: Divine Wisdom (1959), Logic and Transcendence (1976) and Esoterism and Principle and as Way (1981) têm sobretudo a função de prolongar e explicitar as discussões sobre os princípios metafísicos. O primeiro inclui uma luminosa secção sobre a tradição Cristã, enquanto que o Logic and Transcendence contém a sua mais explícita refutação de algumas das ideologias ateias do Ocidente moderno. A sua acusação dessas filosofias tipicamente modernas de negação e desespero, tais como o relativismo, “concretismo”, existencialismo e psicologismo, traz-nos à mente a espada de Manjusri! As últimas secções do livro tendem para o seu culminar na seguinte passagem:

Em relação à questão de quais são as coisas mais importantes que um homem deve fazer, situado como está neste mundo de enigmas e oscilações, a resposta deve ser que existem quatro afazeres ou quatro jóias a nunca perder de vista: em primeiro lugar, ele deve aceitar a Verdade; em segundo, tê-la continuamente em mente; em terceiro, evitar tudo o que é contrário à Verdade e ter uma permanente consciência da Verdade; e em quarto, alcançar tudo aquilo que está em conformidade com ela.[62]

Schuon sugeriu alguns anos atrás que Logic and Transcendence era o seu trabalho mais representativo e inclusivo. Essa distinção é talvez partilhada com o Esoterism as Principle and as Way, que inclui uma das explicações mais deliberadas da natureza do “esotericismo”,[63] e com o Survey of Metaphysics and Esoterism (1986), o qual é um magistral trabalho de síntese metafísica.

Stations of Wisdom (1961) é dirigido sobretudo para a exploração de certas modalidades religiosas e espirituais mas inclui “Orthodoxy and Intellectuality", um ensaio de grande importância para a compreensão da posição tradicionalista. Light on the Ancient Worlds inclui um vasto número de ensaios sobre assuntos como o “diálogo” Helenismo-Cristianismo, shamanismo, monasticismo e a religio perennis. Os traballhos mais recentes de Schuon são os livros To Have a Center (1990), Roots of the Human Condition (1991), The Play of Masks (1992) e The Transfiguration of Man (1995). Os últimos trabalhos exibem uma majestosa leveza e um estilo cada vez mais sintético e poético. O capítulo referente ao título da primeira destas quatro colecções é talvez a única afirmação de Schuon em relação à “cultura” literária e artística dos últimos duzentos anos. Outros ensaios nestes livros abarcam assuntos como a intelecção, antropologia integral, arte e oração – o último um assunto para o qual Schuon parecia ser cada vez mais atraído nos últimos anos. Echoes of Perennial Wisdom (1992) é uma antologia de aforismos retirados de muitos dos seus trabalhos. O acontecimento mais importante dos últimos anos foi talvez a publicação do livro Road to the Heart (1995), o qual contem quase cem poemas em Inglês. Nestes poemas, os princípios e visões expressas nos trabalhos de Schuon encontram uma voz lírica da mais simples e concisa forma.

Em complemento a estes trabalhos existe um impressionante conjunto de artigos publicados nas revistas já mencionadas. Alguns dos ensaios cardinais foram publicados no livro The Sword of Gnosis (Penguin, 1974). Um evento de especial importância foi a publicação do livro The Essential Writings of Frithjof Schuon (1986), que inclui alguns dos ensaios mais importantes do trabalho de Schuon, em conjunto com vários textos nunca publicados. A antologia foi editada por Seyyed Hossein Nasr, cuja introdução identifica alguns dos temas recorrentes e princípios da obra de Schuon, situando o seu trabalho num contexto inteligível para os leitores que encontram a perspectiva tradicional pela primeira vez. Uma festschrift foi publicada em 1991, Religion of the Heart, em homenagem aos seus oitenta anos, editada por Nasr e William Stoddart, a qual incluiu uma bibliografia dos seus textos.

No livro Understanding Islam, Schuon tem isto a dizer em relação à natureza dos Livros sagrados:

…é sagrado aquilo que, em primeiro lugar, está ligado à ordem transcendente, em segundo lugar, possui o carácter de absoluta certeza e, em terceiro lugar, ilude a compreensão e o poder de investigação da mente humana normal… O sagrado é a presença do centro na periferia, do imóvel no movimento; a dignidade é uma sua expressão essencial, pois na dignidade também o centro se manifesta no exterior; o coração é revelado nos gestos. O sagrado introduz uma qualidade do absoluto no relativo e confere às coisas perecíveis a textura da eternidade.[64]

Sem querer pronunciar uma pretensão extravagante que possa confundir os textos de Schuon com as Escrituras sagradas, não considero excessivo considerar que estas qualidades se encontram manifestadas em toda a sua oeuvre. O penetrante sentido do sagrado, o amor da oração, os símbolos sagrados e os “modos de Presença Divina”, a maravilhosa sensibilidade para “manifestações de teofanias” e “perfumes celestiais”, o discernimento da “transparência metafísica dos fenómenos”, a capacidade de compreender os “princípios no manifestado”, de ver “o raio vertical”, de ver Deus em toda a parte – estas qualidades transbordam na obra de Schuon e constituem um dom providencial e imcomparável para uma era aparentemente determinada em voltar as costas ao sagrado.[65]

Epílogo

Toda a obra de Schuon, particularmente os seus últimos e mais intímos textos, são atravessados por referências à oração. Numa rara entrevista em 1996, quando questionado sobre a sua mensagem para as pessoas em geral, ele respondeu, “Orar. Ser humano significa estar ligado a Deus. A vida não tem qualquer significado sem isto. A oração, e também a beleza, é claro; pois vivemos entre formas e não numa nuvem. A beleza da alma em primeiro lugar, e depois a beleza dos símbolos à nossa volta.”[66] Parece apropriado, assim, terminar com uma passagem de um dos trabalhos iniciais de Schuon, no qual o seu sentido de oração e o seu amor à beleza das formas naturais convergem. É uma passagem que adquire uma adicional nostalgia à luz da recente passagem de Schuon para o seu último leito.

O homem ora e a oração molda o homem. O santo tornou-se ele próprio a oração, o lugar de encontro da terra e do Céu; e dessa forma ele contem o universo e o universo ora com ele. Ele está em todo o lugar onde a natureza ora e ele ora com ela e nela; nos picos que tocam o vazio e a eternidade, numa flor que liberta o seu aroma ou no cantar de um pássaro. Aquele que vive em oração não vive em vão. [67]


NOTAS:

1 - Seyyed Hossein Nasr, Knowledge and the Sacred Crossroad, New York, 1981, p.107.
2 - ibid., p.101.
3 - Ananda Coomaraswamy, "Medieval and Oriental Art" in Coomaraswamy 1: Selected Papers, Traditional Art and Symbolism ed. Roger Lipsey, Princeton University Press, Princeton, 1977, pp.45-46.
4- Frithjof Schuon, Spiritual Perspectives and Human Facts Perennial Books, London, 1987 (nova tradução), p.183.
5 – Ver em particular a introdução de Huston Smith à edição revista de The Transcendent Unity of Religions Quest, Wheaton, 1993, ppix-xxvii, e James Cutsinger, Advice to the Serious Seeker: Meditations on the Teaching of Frithjof Schuon SUNY, Albany, 1997.
6 - Frithjof Schuon, "L'Oeuvre'', citado por Whitall Perry em "Coomaraswamy: The Man, Myth and History", Studies in Comparative Religion 12:3, p.160
7 - Jean-Pierre Laurant, "Le problème de René Guénon", Revue de l'histoire des religions CLXXIX: i, 1971, p.63.
8 - René Guénon, The Reign of Quantity and the Signs of the Times Penguin, Baltimore, 1972, p.11.
9 - René Guénon, "La Demiurge", La Gnose 1909, citado em Marco Bastriocchi, "The Last Pillars of Wisdom" in S. Durai Raja Singam, Ananda Coomaraswamy: Remembering and Remembering Again and Again publicação privada, Kuala Lumpur, 1974, p.351.
10 - Gai Eaton, The Richest Vein Faber & Faber, London, 1949, pp.188-189.
11 – A relação entre a Tradição Primordial e as várias tradições merece clarificação na medida em que, apesar de cada tradição derivar a sua forma geral e as suas principais características de uma Revelação em particular, ela contém (em muitos dos seus aspectos), no entanto, certas características da tradição que a precede.
12 – Ver René Guénon, The Symbolism of the Cross Luzac, London, 1958, pp.x-xi e René Guénon, Crisis of the Modern World Luzac, London, 1945, p.9 & pp.108ff.
13 – Ananda Coomaraswamy, "Eastern Wisdom and Western Knowledge", The Bugbear of Literacy Perennial Books, London, 1979, pp.72-73.
14 – Citado em Gai Eaton, The Richest Vein p.199.
15 – Jacob Needleman no seu "Foreword" to The Sword of Gnosis Penguin, Baltimore, 1974, pp.11-12.
16 - De Frithjof Schuon, "L'Oeuvre", citado em Whitall Perry, "Coomaraswamy: The Man, Myth and History", p160. Para algumas reflexões de Frithjof Schuon sobre Guénon ver "Definitions" na Sophia 1:2 Winter 1995; e as contribuições de Schuon para Les Dossiers H: René Guénon ed. Pierre-Marie Sigaud, L'Age d'Homme, Lausanne, 1984, e L'Herne: René Guénon ed. Jean-Pierre Laurant, Les Editions de l'Herne, Paris, 1985 (que inclui uma carta de Guénon para Schuon, 16th April, 1946).
17 - Ver Jean-Pierre Laurant, "Le problème de René Guénon", pp.62-64.
18 - Whitall Perry, "The Man and His Witness" em S. Durai Raja Singam Ananda Coomaraswamy: Remembering and Remembering Again and Again p.7.
19 - Marco Bastriocchi, "The Last Pillars of Wisdom" em S. Durai Raja Singam Ananda Coomaraswamy: Remembering and Remembering Again and Again p.356.
20 - Whitall Perry, "Coomaraswamy: the Man, Myth and History", p.163.
21 - Roger Lipsey citado em Whitall Perry, "The Bollingen Coomaraswamy Papers and Biography", Studies in Comparative Religion 11:4, p.206.
22 - Coomaraswamy citado em Roger Lipsey, Coomaraswamy; His Life and Work Princeton University Press, Princeton, 1977, p.170.
23 – Ver Whitall Perry, "The Man and the Witness", pp3-7; Marco Pallis, "A Fateful Meeting of Minds", Studies in Comparative Religion 12: 3&4, pp.176-182; e Marco Bastriocchi, "The Last Pillars of Wisdom", pp.350-359.
24 - Whitall Perry, "The Man and the Witness", p.5.
25 - Coomaraswamy referiu ele próprio: “Tenho poucas dúvidas que os meus últimos trabalhos, desenvolvidos a partir e como necessidade dos meus trabalhos iniciais sobre as artes e lidando com a filosofia Indiana e a exegese Védica, é realmente a mais matura e mais importante parte do meu trabalho.” Citado em Roger Lipsey, Coomaraswamy; His Life and Work p.248.
26 – Citado em V.S. Naravane, "Ananda Coomaraswamy: A Critical Appreciation" em S. Durai Raja Singam, Ananda Coomaraswamy: Remembering and Remembering Again and Again p.206.
27 - P.L. Reynolds, René Guénon: His Life and Work, p.6.
28 - Gai Eaton, The Richest Vein Faber & Faber, London, 1949, p.199.
29 - Whitall Perry, "The Man and the Witness", p.7.
30 - Coomaraswamy em S. Durai Raja Singam Ananda Coomaraswamy: Remembering and Remembering Again and Again p.223.
31 - Frithjof Schuon, Metaphysician and Artist World Wisdom Books, Bloomington, p.2. Ver também Whitall Perry, "The Revival of Interest in Tradition" em The Unanimous Tradition ed. Ranjit Fernando, Sri Lanka Institute of Traditional Studies, Colombo, 1991, pp.14-16.
32 - Bernard Kelly, "Notes on the Light of the Eastern Religions" em Religion of the Heart pp.160-161.
33 - J. Tourniac, Propos sur René Guénon Paris 1973, p16, citado em P.L. Reynolds, p13. (Tradução: “Outro escritor, M. Frithjof Schuon, por seu lado, desenvolveu a exegese espiritual das formas tradicionais numa série de trabalhos diferentes dos de Guénon, trabalhos de maior coloração – esta palavra não é excessiva, pois a beleza e o jogo colorido tem um papel evidente no trabalhos de F. Schuon – mais “Cristão” que os de Guénon que essencialmente pretendem definir os mecanismos dos princípios invariáveis.”)
34 - Seyyed Hossein Nasr, Prefácio em Frithjof Schuon Islam and the Perennial Philosophy p.viii.
35 - Marco Pallis, The Way and the Mountain Peter Owen, London, 1960, p.78.
36 - Whitall Perry, "The Man and the Witness", p.7.
37 - Whitall Perry, "The Revival of Interest in Tradition", p.15.
38 - C.F. Kelley, Meister Eckhart on Divine Knowledge Yale University Press, New Haven, 1977, p.xiv.
39 - Frithjof Schuon, The Transcendent Unity of Religions p.xxxiii.
40 - ibid.
41 - Frithjof Schuon, The Transfiguration of Man World Wisdom Books, Bloomington, 1995, p.10.
42 - Frithjof Schuon, The Transcendent Unity of Religions p.xxxiv.
43 - Frithjof Schuon, Esoterism as Principle and as Way Perennial Books, London, 1980, p.19.
44 - Frithjof Schuon, The Transcendent Unity of Religions pp.xxxiii-iv.
45 - ibid.
46 - Frithjof Schuon, Gnosis: Divine Wisdom Perennial Books, London, 1979, p.12. Ver também Whitall Perry A Treasury of Traditional Wisdom Allen & Unwin, London, 1971, footnote p.22.
47- Joseph Epes Brown, The Sacred Pipe University of Oklahoma Press, 1953, p.xii. (Esta passagem foi omitida na edição da Penguin.) Ver também Schuon's "Human Premises of a Religious Dilemma" no Sufism, Veil and Quintessence pp.97-113.
48 – Para uma completa bibliografia dos textos de Schuon's até 1990 ver Religion of the Heart pp.299-327.
49 - Frithjof Schuon, Light on the Ancient Worlds p34
50 – Citado por Huston Smith naiIntrodução ao The Transcendent Unity of Religions pix.
51 – Ver Martin Lings, A Sufi Saint of the Twentieth Century University of California Press, Berkeley, 1971, e Michel Valsan: "Notes on the Shaikh al-'Alawi, 1869-1934", Studies in Comparative Religion 6:1, 1971.
52 - Schuon citado em M. Lings A Sufi Saint p.116. Tem um retrato comovedor do Shaikh por Schuon, p.160.
53 - Ver Seyyed Hossein Nasr, Ideals and Realities of Islam Allen & Unwin, London, 1973, p.10. Nasr não foi menos generoso na recomendação dos seus últimos trabalhos. Ver o seu Prefácio no livro de Schuon Dimensions of Islam Allen & Unwin, London, 1969, e Islam and the Perennial Philosophy World of Islam, London, 1976, e a sua Introdução ao The Essential Writings of Frithjof Schuon.
54 - Frithjof Schuon, The Feathered Sun pp.39-40.
55 - ibid., p.6.
56 - Frithjof Schuon, Light on the Ancient Worlds Perennial Books, London, 1965, p.84.
57 - Frithjof Schuon, The Feathered Sun: Plains Indians in Art and Philosophy World Wisdom Books, Bloomington, 1990, p.13.
58 - Frithjof Schuon, Spiritual Perspectives and Human Facts p.36.
59 - Frithjof Schuon, The Transcendent Unity of Religions footnote p.65.
60 - Frithjof Schuon, In the Tracks of Buddhism Allen & Unwin, London, 1968, p.121.
61 - Frithjof Schuon, Metaphysician and Artist p.1.
62 - Frithjof Schuon, Logic and Transcendence Harper & Row, New York, 1975, pp.265-266.
63 – Os tradutores de Schuon usam frequentemente a palavra "esoterismo"; Eu preferi a palavra "esotericismo". O comentário de Schuon sobre Logic and Transcendence é documentado na crítica de Whitall Perry em Studies in Comparative Religion 9:4, 1975, p.250.
64 - Frithjof Schuon, Understanding Islam Allen & Unwin, London, 1976, p.48.
65 – As frases citadas são de Schuon e são retiradas de fragmentos de correspondência publicada em The Transfiguration of Man p.113.
66 - Deborah Casey, "The Basis of Religion and Metaphysics: An Interview with Frithjof Schuon", The Quest 9:2, Summer 1996, pp.77-78.
67 - Frithjof Schuon, Spiritual Perspectives and Human Facts p.223.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Publicações periódicas

Recebi nas últimas semanas as recentes publicações da Sophia Journal e da Sacred Web e não queria deixar de dar aqui o alerta. Aproveito ainda para fazer o mesmo do segundo número da Eye of the Heart, esse já do final do ano que passou.

A Common Word Between Us and You: Theological Motives and Expectations
by Ghazi bin Muhammad

A Common Word Between Us and You: The Open Letter

A Common Word for the Common Good
by the Archbishop of Canterbury Dr. Rowan Williams

The Word of God -- The Bridge between Him, You, and Us
by Seyyed Hossein Nasr

God as "The Loving" in Islam
by Reza Shah-Kazemi

Seeking Common Ground between Muslims and Christians -- The Vatican Conference
by Ibrahim Kalin

We and You -- Let Us Meet in God's Word
by Seyyed Hossein Nasr

Address of His Holiness Benedict XVI
To Participants in the Seminar Organized by the "Catholic-Muslim Forum"

First Seminar of the Catholic-Muslim Forum
Final Declaration
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Cultural Symbiosis and the Role of Religion in the Contemporary World:
An Islamic Perspective
by Osman Bakar

The Virgin Mary in the Mihrabs of Bosnia
by Rusmir Mahmutćehajić

Editorial: Striving for “Wholeness” in the Kali Yuga
by M. Ali Lakhani

Outward and Inward Dimensions in Judaism, Christianity and Islam, and Perspectives on Initiation
by Rodney Blackhirst

From Marco Pallis to Thubden Tendzin: A Son of Tibet Returns
by Joseph A. Fitzgerald

Chivalry, East and West: Its Historical Corruption and Eternal Essence
by Charles Upton

Thou art “Dhat”
by Zachary Markwith

Esoteric Interpretation in Isma’ilism
by ‘Abd al-Hakeem Carney

“Corn is Life”: Agriculture, Spiritual Life, and Economic Change among the Hopi
by Peter Moore

When Worldviews Collide: Points of Departure for Islamic Thought and Scientific Thought
by John Herlihy

Book Reviews:


Conversations with Wendell Berry
Edited by Morris Allen Grubbs
Reviewed by M. Ali Lakhani

Who is the Earth? How to See God in the Natural World
by Charles Upton
Reviewed by M. Ali Lakhani




Eye of the Heart

Editorial

The Western Monastic Art of Lectio Divina
by Fr Michael Casey OCSO

Keys to the Bible
by Frithjof Schuon

Metaphysical symbols and their function in theurgy
by Algis Uždavinys

The reconstruction of time in the Vedic fire altar
by Adrian Snodgrass

The Trinitarian Mystery of Gaudīya Vaisnavism
by Klaus Klostermaier

Abrahamic symbolisms of the number 72
by Timothy Scott

Creation, Originality and Innovation in Sufi Poetry
by Patrick Laude