O presente texto dedicado à obra de Rama Coomaraswamy, gentilmente cedido pelo Mateus Soares de Azevedo e o Dr. William Stoddart, foi originalmente publicado em inglês na publicação periódica canadiana “Sacred Web” (N. 18, Janeiro de 2007). A passagem para a língua portuguesa foi efectuada pelo próprio Mateus Soares de Azevedo.
Ao longo do texto os autores procuram analisar a preciosa obra deste autor, realçando o mais importante do seu conteúdo e oferecendo uma importante crítica à sua feroz aversão ao Protestantismo.
A obra deste autor, apesar de abordar temas muito complexos e, para muitos, controversos, nomeadamente no que respeita ao Vaticano II, é fundamental para qualquer cristão que pretenda aprofundar o seu conhecimento sobre a doutrina da sua tradição.
Antes de vos deixar o texto, gostaria de deixar um profundo agradecimento aos amigos Mateus e Stoddart pela sua contribuição com este importante texto.

Rama Coomaraswamy: entre o Catolicismo e a Filosofia Perene
William Stoddart e Mateus Soares de Azevedo
Rama Coomaraswamy nasceu em 1929, filho do célebre filósofo e crítico de arte indiano Ananda Kentish Coomaraswamy e de Luisa Runstein. Recebeu sua educação básica na Índia e Inglaterra, antes de começar os estudos universitários, primeiramente em Harvard, EUA, onde se graduou em Geologia, e depois na faculdade de medicina da Universidade de New York, onde se formou em 1959. Em seguida, especializou-se em cirurgia torácica e cardiovascular. Já ao final da vida, devido a problemas de saúde, teve de abandonar a extenuante carreira de cirurgião e se voltou para a psiquiatria; neste campo, tornou-se professor assistente do Albert Einstein College of Medicine de Nova York.
Originário de uma influente família brâmane, recebeu educação religiosa tradicional em Haridwar, uma das mais importantes cidades sagradas da Índia, e foi iniciado com o yajnopavita, o colar sacro. Com a morte de seu pai, em 1947, teve de retornar aos Estados Unidos, onde Ananda Coomaraswamy exercia o cargo de curador do Museu de Belas Artes de Boston. Como era praticamente impossível seguir o Hinduísmo no Ocidente então, ele passou a estudar a doutrina cristã e pediu o batismo na Igreja Católica, aos 22 anos. Em uma correspondência recente, ele explica: “A conversão é um assunto simultaneamente complexo e simples e depende da graça. Como hindu, fui ensinado a amar e servir a Deus; por que não poderia continuar a fazer o mesmo como católico? (...) Tenho uma vivência familiar algo incomum, pois minha família inclui tanto padres jesuítas como monges hindus. Convivi intimamente com hindus, sufis e católicos. Desde minha entrada no Catolicismo, nunca me desviei da fé tradicional e penso que meus escritos dão testemunho de minha ortodoxia.”
Paralelamente à carreira médica, na qual se destaca a colaboração, na Índia, com Madre Tereza de Calcutá, de quem foi também clínico particular, Rama Coomaraswamy manteve um profundo interesse em questões teológicas, como se comprova por seus livros (ver abaixo) e sua colaboração com reputadas publicações na América do Norte e Europa, como Sacred Web, Sophia e Connaissance des Religions. Foi também professor de história eclesiástica do seminário Santo Tomás de Aquino, em Ridgefield, Connecticut, por cinco anos.
Quanto a seu pai, Ananda Coomaraswamy, além de diretor do reputado museu de Boston e autor de dezenas de livros importantes, foi companheiro de Gandhi na luta pela independência da Índia. Foi também o célebre acadêmico que introduziu pioneiramente no mundo de língua inglesa as idéias e visões da escola da Filosofia Perene, cujos fundadores foram o metafísico francês René Guénon (1886-1951) e o filósofo das religiões suíço-alemão Frithjof Schuon (1907-1998).
Essas idéias fascinaram o jovem Rama, mas, na verdade, ele nunca foi capaz de entendê-las e aceitá-las plenamente e, ao final, abandonou-as em grande medida em favor de um apego mais ou menos exclusivo ao Catolicismo. Como resultado dessas duas influências – uma universal e supra-formal, derivada da Filosofia Perene de seu pai, e outra particular e formal, derivada de sua ligação religiosa – sempre houve uma certa tensão ou ambigüidade em seu pensamento.
Suas opiniões e atitudes emergem claramente de seus três principais livros. São eles: The Destruction of the Christian Tradition (1981; 2a. edição 2006), The Problems with the New Mass (1990), and The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (1999). No Brasil, foi publicada uma síntese do primeiro, sob o título de “Ensaios sobre a destruição da tradição cristã” (T.A Queiroz editor, S. Paulo, 1990).
Os dois primeiros constituem a descrição mais abrangente e convincente que há de como o autêntico Catolicismo foi abalado pela revolução do Vaticano II. O terceiro livro é uma exposição única e preciosa da antiga prática da oração jaculatória – isto é, a invocação metódica de um Nome Sagrado.
Com relação aos dois primeiros, infelizmente não podemos evitar uma nota de crítica: há neles tantos ataques ao Protestantismo que às vezes parece que são tanto sobre o Protestantismo como sobre o Catolicismo! As opiniões expostas a este respeito estão em claro contraste com as de Frithjof Schuon, como expressas em seus escritos sobre o tema (especialmente em “The Question of Evangelicalism” e “Christian Divergences”), e isso exige uma breve discussão.
Sem dúvida se pode dizer que é direito de um exoterista católico atacar o Protestantismo, e direito de um exoterista protestante atacar o Catolicismo. Sim, de fato, mas neste ano da graça podíamos esperar que encontrasse outros adversários. Há uma infinidade deles: ateístas, céticos, mofadores, religiosos liberais, “fundamentalistas”, pornógrafos, etc., etc.
Rama Coomaraswamy não compreendeu que, seja o que for que o Protestantismo de Lutero possa ser, não deriva do relativismo ou do individualismo modernos. Lutero amava São Paulo e Santo Agostinho e desprezava o Renascimento secularizante, contra a qual ele se rebelou. De fato, por causa disso, é visto por alguns como um tipo atávico da Idade Média. Sem dúvida, Lutero também rejeitou a Escolástica, de cujo mau uso ele tinha muita experiência.
O Protestantismo não pode ser definido meramente como uma forma truncada e desviada de Catolicismo; truncada e artisticamente empobrecida pode ser, mas é acima de tudo um ângulo de visão diferente (sobre os sacramentos e a salvação) do Catolicismo. Schuon chamou a forma luterana de Cristianismo de “um upâya (termo budista que significa “forma salvífica”, ou “exoterismo salvador”) secundário entre outros upâyas possíveis” – e um upâya não pode ser julgado segundo os critérios de outro upâya.
Schuon chamou Lutero de “fideísta”, “místico” e, a despeito de um número de explosões excessivas e intemperadas, “um homem virtuoso”. Lutero possuía uma convicção e uma sinceridade que testemunhavam seu “zelo pela casa do Senhor”. Ele foi o originador, no século XVI, de uma “adaptação” religiosa que se enraizou firmemente no noroeste da Europa e que dura até os dias de hoje. Tem sido o meio de salvação para inumeráveis almas. Os aspectos essenciais desta “adaptação” são simplificação, interioridade e uma fé total no poder salvador de Deus.
Seja como for, as intermináveis e desnecessárias críticas sarcásticas de Rama Coomaraswamy ao Protestantismo não ajudam em nada. Na maior parte, elas são equivocadas; ocasionalmente, em uma única sentença, há tantas críticas que seriam necessários vários parágrafos de comentários para classificá-las e refutá-las uma a uma! Acima de tudo, elas não são pertinentes ao tema em foco, porque o ponto importante a reter a este respeito é que o Protestantismo não desempenhou papel causal no que diz respeito à revolução do Vaticano II. Os precursores deste último foram o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa, sem esquecer Teilhard de Chardin – e não o pré-moderno Martinho Lutero. Ele foi um reformador, não um revolucionário – uma distinção importante.
Já foi corretamente apontado que o gênio nocivo por trás do Vaticano II foi Teilhard de Chardin – mesmo assim, Rama Coomaraswamy prosseguiu com suas críticas ao Protestantismo, o qual, a despeito de suas repetidas tentativas de implicá-lo na destruição causada pelo Vaticano II, não teve de fato nada com isso! Ironicamente, foi a irrupção do Protestantismo no século XVI que provocou o Concílio de Trento, no qual a então debilitada Igreja Católica pôde colocar a casa em ordem, gabaritando-a assim a manter efetivamente seu testemunho pelos quatro séculos seguintes.
Se é verdade que o Catolicismo pré-Vaticano II manifestava, e já por um período considerável, uma sorte de complexo de inferioridade tanto em relação ao Protestantismo como em face da ciência moderna, pode bem ser que os promotores do concílio desejassem o que consideravam ser uma “protestantização” da missa católica. Não obstante, a iniciativa disso não veio do lado protestante. Sugerir que a presença de uns poucos observadores protestantes no concílio prova que o Protestantismo foi de alguma maneira um causador deste último é absurdo. O Vaticano II aconteceu no começo dos anos 1960 – uma outra época em relação a hoje! – e pode se dizer sem receio de contradição que a esmagadora maioria dos protestantes de todos os matizes nutriam uma profunda ignorância e indiferença em relação a ele. A maior parte deles continua assim. A maioria dos cristãos ortodoxos e dos protestantes acredita que “Roma ainda é Roma”, e são contra ela de qualquer jeito!
Não deixa de ser irônico notar que, para o bem ou para o mal, o estilo agressivo e combativo de Rama Coomaraswamy é similar ao de Lutero!
Pode-se dizer que o ‘exclusivismo’ é natural aos agrupamentos humanos e é um meio ‘tradicional’ de auto-preservação; mas isso deixa fora da conta a natureza sem precedentes de nosso presente situação, na qual todas as religiões são erodidas pelas mesmas forças destrutivas.
Sejamos conscientes disso ou não, o ‘inimigo’ mudou: ele não é mais encontrável nas religiões ou denominações ‘concorrentes’, mas sim nos oponentes, grosseiros ou sutis, de todas as religiões. Isso não diz respeito somente ao esoterismo; a experiência comprova que muitos exoteristas sensíveis têm uma intuição efetiva da nova situação. Os dois livros de Coomaraswamy não os apóiam.
Do lado positivo, - e há muito que é positivo! - estes dois livros contêm informação suficiente sobre a destruição intencional da missa, por parte do Vaticano II, para fazer católicos sérios despertarem e refletirem. Como é reconhecido pela lei canônica desde a Idade Média, obediência não é devida primeiramente ao “papa” (que pode, por heresia, trair sua função e perder sua autoridade), mas sim ao Espírito Santo. A Ortodoxia não está necessariamente aonde o “papa” está; o autêntico papa está onde está a ortodoxia!
Estes dois livros serão de valor decisivo para muitos católicos; acima de tudo, podem ajudá-los a retornar à doutrina válida e a buscar por uma missa válida celebrada por um sacerdote válido. É simplesmente de se lamentar que as obras sejam marcadas por tantas insignificâncias anti-protestantes.
O terceiro livro de Coomaraswamy, The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (“A Invocação do Nome de Jesus – Como praticada na Igreja Ocidental”) é totalmente diferente. Trata-se de uma valiosa apresentação do método espiritual tradicional conhecido como “prece quintessencial”, ou “oração do coração”. Esta via espiritual consiste na repetição metódica, ou invocação, de um Nome Sacro revelado, prática que deriva dos primeiros séculos do Cristianismo, e que persistiu, por toda a Idade Média, até os dias de hoje. Há um rico tesouro de livros sobre tal prática na Igreja Oriental, particularmente em sua tradição monástica, conhecida como Hesicasmo (veja, por exemplo, os livros O Peregrino Russo e A Filocalia). Aqui, ele assume a forma da “oração do publicano”, ou “Oração de Jesus”, isto é, “Senhor Jesus Cristo tem piedade de mim pecador”. Usualmente tal formula é abreviada para dois termos gregos, Christe eleison.
Tomando seu ponto de partida dos ensinamentos de Frithjof Schuon e dos testemunhos de santos e místicos através dos séculos, Rama Coomaraswamy, ao expor tal método de concentração espiritual, descreve tanto sua universalidade – faz referência en passant a práticas budistas e islâmicas – como sua forma especificamente católica, como exemplificado e ensinado por São Bernardino de Siena (século 15) e pela capuchinha italiana Consolata Betrone (1903-1946), entre outros. No Catolicismo, a invocação assume usualmente a forma Jesu-Maria.
Mais importante, Coomaraswamy aponta para a “relação íntima entre a invocação do Nome e o Sacrifício Eucarístico” (p. 20). Ele escreve: “O caráter eucarístico é ainda mais enfatizado no rito tradicional romano. Quando o sacerdote participa da santa comunhão, diz: ‘Tomarei o pão da vida e clamarei o Nome do Senhor; beberei do cálice da salvação e invocarei o Nome do Senhor.’ E é assim que a recepção ‘passiva’ das Santas Espécies pede a resposta ‘ativa’ da invocação.” (p. 24).
“Tão poderoso é o Nome”, ele continua, “que nos transmite graças não dessemelhantes às propiciadas pela própria Eucaristia.... Há um rosário de 33 contas usado com o Nome de Jesus do qual se diz que, na ausência da missa, transmite todas as graças obtidas com a participação nesta última.” (p. 24).
O legado de Rama Coomaraswamy, assim, reside em dois elementos: sua detalhada e autorizada descrição da destruição da doutrina e da missa tradicionais levada a cabo pelo Vaticano II, e sua descrição do papel e importância, nesses últimos dias, da invocação do Santo Nome. Em outras palavras, discernimento implacável em relação às formas exteriores, conjuntamente com a importância da prece do coração. Menção a esta prática evoca as palavras do último papa tradicional, Pio XII: “Não está longe o dia em que os fiéis só poderão celebrar o santo sacrifício da missa no altar secreto do coração”. Na época, muitos pensaram que o santo papa se referia à ameaça de perseguição exterior, mas pode-se dizer que suas proféticas palavras se aplicavam também ao iminente advento de uma liturgia falsificada.
Rama Coomaraswamy expôs de forma vigorosa e articulada estas duas coisas e por isso lhe somos profundamente gratos.