quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sophia Journal - Verão 2009

Está disponível o mais recente número da publicação periódica SOPHIA – The Journal of Traditional Studies. Este número tem, por várias razões, um carácter muito especial para nós. Em primeiro lugar, nele consta um ensaio do nosso amigo Mateus Soares de Azevedo, o que por si só seria um motivo de grande satisfação. No entanto, e para além disso, este mesmo ensaio teve a sua primeira publicação no Sabedoria Perene, onde pode ser lido na sua língua original, a bela língua portuguesa. Como se tudo isto não fosse bastante, todos os enamorados por esta língua, de ambos os lados do Atlântico, rejubilarão ao relembrar que neste maravilhoso texto de Mateus Soares de Azevedo é mencionada uma importante figura da nossa cultura, o Padre António Vieira. Para concluir, não posso deixar de referir que na sua passagem por Portugal em Abril, Mateus Soares de Azevedo apresentou na Associação Agostinho da Silva a sua interpretação do Sermão da Montanha.


The Spiritual Dimension of the Muslim Heritage
by Seyyed Hossein Nasr

The Test of the Veil
by Tom Cheetham

Sketching the Perennial Religion
by Patrick Laude

Children of Abraham
by Ernest C. McClain

Elixir of the Heart:Love as the First and Final Emotion
by John Herlihy

The Purposes of Time
by Charles D. Christopher

Shaykh Ahmadou Bamba’s Nonviolent Jihad of the Pen
by Michelle Kimball

Esoterism and Exoterism in the Sermon on the Mount
by Mateus Soares de Azevedo

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Jardim

"Make our path pleasant as a garden,
And be Thou, O Holy One, our goal!"

- Jalāl-ad-Dīn Rumi

"Torna o nosso caminho tão aprazível quanto um jardim,
E que sejas Tu, Senhor, o nosso destino!”

(tradução livre da versão em língua inglesa)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sacred Web 23

Está disponível o 23º número da revista Sacred Web, editada por Ali Lakhani.

Editorial: The Secularization of Faith in the Modern World
by M. Ali Lakhani

Unsolved Problems of Evolution
by Robert Bolton

The Vision of Existence in Hua-yen Buddhism
by Atif Khalil

Threads of Black and Gold: The History, Symbolism and Significance of Weaving
by John Herlihy

Esoteric Hermeneutics: The Role of Tradition in the Writings of Mircea Eliade and René Guénon
by Julian Droogan

Towards a Definition of “Initiation”
by Timothy Scott

Book Reviews:

The Corbin Trilogy
By Tom Cheetham
Reviewed by M. Ali Lakhani

The Sage Learning of Liu Zhi: Islamic Thought in Confucian Terms
By Sachiko Murata, William C. Chittick, and Tu Weiming

The Underlying Order and Other Essays
By Kathleen Raine
Edited and with an Introduction by Brian Keeble
Reviewed by M. Ali Lakhani

Invincible Wisdom: Quotations from the Scriptures, Saints, and Sages of All Times and Places
Compiled by William Stoddart
Reviewed by Samuel Bendeck Sotillos

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A origem do belo

Nada é tornado belo sem a presença e a participação da Beleza, qualquer que seja a via ou modo como é obtida (…) Através da Beleza toda as coisas belas se tornam belas.
Platão

Deus é belo, e Ele ama a beleza.
Maomé

Quando alguém se aproxima do Maravilhoso não sabe se a arte é o Tao ou se o Tao é a arte.
Hui Tsung

Os homens que amam o corpo nunca terão a visão da Beleza e do Bem. Meu filho, tão gloriosa é a beleza daquilo que não tem forma nem cor!
Hermes

Sempre que, no decurso de uma caçada, o caçador vermelho se depara com uma cena sublime ou de extraordinária beleza – uma nuvem negra de trovoada com um arco-íris radiante sobre a montanha, uma alva cascata no coração de um desfiladeiro verdejante; uma vasta pradaria tingida pelo rubro de um pôr-do-sol – ele pausa por um instante numa atitude de adoração.
Ohiyesa

Eles chamam-lhe o “unificador do belo,” pois tudo o que é belo se reúne a ele. Todas as coisas belas se reúnem naquele que sabe isto.
Chândogya Upanishad


em Withall N. Perry, “The Spiritual Ascent: A Compendium of the World's Wisdom" (Fons Vitae, 2008).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Arte e beleza

Como já deve ser do conhecimento dos leitores do Sabedoria Perene, durante os próximos meses que coincidirão com a preparação do próximo número da revista, vamos dar especial ênfase à arte, mais precisamente à visão que dela tiveram ou têm aqueles que se dedicam ao estudo da Tradição.

Alguns dos textos que vão surgir no próximo número já foram aqui publicados, nomeadamente os ensaios de Burckhardt e Keeble, bem como uma primeira parte do brilhante ensaio de A. Coomaraswamy; e outros, ou partes deles, irão continuar a ser publicados neste espaço.

Quero expressar a minha gratidão a todos os que têm enviado felicitações pela publicação da revista Sabedoria Perene; elas são sem dúvida uma grande motivação para a continuidade deste trabalho.

Finalmente, em antecipação ao que constituirá, em grande parte, a ambiência deste espaço nos próximos meses, deixo-vos algumas palavras de Schuon sobre a arte e a beleza.


Em primeiro lugar, é importante compreender que o propósito da arte não é, a priori, a indução de emoções estéticas, mas sim transmitir, em conjunto com estas, uma mensagem espiritual mais ou menos directa e, assim, sugestões que emanam da verdade libertadora e que a ela fazem retornar. Por definição a arte pertence à ordem formal, e quem diz perfeição de forma diz beleza; afirmar que a arte dispensa a beleza, sob o pretexto que o seu derradeiro fito é espiritual, é tão falso quanto afirmar o oposto, isto é, que a beleza é o único objectivo de uma obra de arte. A beleza envolve essencialmente um receptáculo e um conteúdo: em relação ao receptáculo, ele é representado pela conformidade com as leis da harmonia, ou a regularidade de estrutura, enquanto que o conteúdo é uma manifestação do “Ser” ou do “Conhecimento”, ou ainda da “Beatitude”, ou mais precisamente de uma combinação variada dos três elementos; são precisamente estes conteúdos que determinam a priori o receptáculo. Falar “pura e simplesmente” de beleza com um sentido pejorativo é uma contradição de termos, pois a beleza não pode senão manifestar a verdade ou um aspecto ou modo da mesma; se a harmonia sensível “liberta” à sua maneira e em determinadas condições, isto deve-se ao facto de ser verdade.

Retirado e traduzido de “Art from the Sacred to the Profane: East and West” de Frithjof Schuon, editado por Catherine Schuon. Publicado por World Wisdom, Inc., 2007.

domingo, 21 de junho de 2009

Revista Sabedoria Perene – Número 1

É com enorme satisfação que, precisamente na altura em que o blogue completa dois anos de existência, anunciamos finalmente a disponibilidade do primeiro número da revista Sabedoria Perene.

O texto publicado de seguida é o editorial deste primeiro número que pode ser obtido aqui.



EDITORIAL

A revista agora apresentada é o resultado de um trabalho desenvolvido, ao longo dos dois últimos anos, no espaço em linha que agora partilha o nome com esta publicação. No entanto, ela é o fruto de uma intuição mais antiga. Com efeito, mais de década e meia passou desde o momento em que as palavras de René Guénon e Frithjof Schuon começaram a produzir os seus efeitos de solve et coagula numa mente e numa alma tão afastadas do sagrado como a maioria das muitas que vagueiam alienadas por este mundo em ruínas. Recorrendo a uma excelente analogia de Cutsinguer, as suas obras providencialmente colocadas à minha disposição foram como o arado que revolve a terra para que o oxigénio a alimente e a torne fértil.

Desse precioso instante até ao momento em que escrevo estas palavras, muitos foram os caminhos tortuosos percorridos, as desilusões e os desgostos vividos, até que, de um modo subtil, uma certeza se apoderou de mim e as dúvidas começaram a dar lugar a intuições da Verdade. Para tal, muito contribuíram as precisas e preciosas definições metafísicas de René Guénon, poderosos antídotos para os muitos preconceitos e falsas ideologias que nos são impostas desde tenra idade. Esta certeza rapidamente deu lugar a muitas outras dúvidas, mas estas com carácter positivo.

Logo nas primeiras palavras vindas a público deste projecto, escolhidas para a introdução do blogue Sabedoria Perene, foi referido que este nasceu sobretudo de um processo de busca pessoal da Verdade. Não obstante, já nessa altura existia um desejo latente de divulgar em Portugal a corrente de pensamento conhecida por “tradicionalismo” ou “perenialismo”. Não vou abordar aqui o seu significado, pois este brotará naturalmente da leitura dos diversos ensaios incluídos neste primeiro número da Sabedoria Perene.

Com efeito, é precisamente esse o principal objectivo deste primeiro número, e a grande maioria dos ensaios incluídos procuram apresentar diferentes, embora convergentes, pontos de vista sobre esta corrente ou escola de pensamento. Esta intenção é sobretudo cumprida no bloco de artigos da revista agrupados sob o título “Tradição e Sophia Perennis”, no qual se procurou clarificar de forma inequívoca os significados destas duas expressões. Apesar da excelência de todos os ensaios aí apresentados, não se pode deixar de salientar a inclusão do famoso “O que é a Tradição?” do ilustre Seyyeid Hossein Nasr e o maravilhoso texto de Reza Shah-Kazemi sobre a função espiritual da Tradição, onde expõe longa e claramente a perspectiva perenialista em relação à filiação religiosa, às vias espirituais e à oração. De semelhante importância são os já consagrados artigos de Schuon sobre a Filosofia Perene e a Religio Perennis.

Ao chegar a este bloco de textos, o leitor interessado já terá lido o ensaio seleccionado para “Introdução” à revista. Este importante texto, escrito há quase duas décadas, não só nos introduz a muitos dos temas chave do pensamento perenialista, como nos apresenta brilhantemente os seus três principais intérpretes e fundadores, René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon.

São precisamente estes três sábios, cujo advento o mundo moderno não conseguiu evitar, os ‘alvos’ do bloco “In memoriam” que antecipa o encerramento deste primeiro número. Procurar-se-á manter esta forma de conclusão em futuros números, prestando homenagem às grandes iluminárias desta corrente de pensamento que procura fazer emergir da escuridão este mundo dessacralizado.

Antes deste bloco irá o leitor encontrar ainda “Estudos da Tradição”, um conjunto mais heterogéneo de artigos que procura apresentar e expor ensinamentos, métodos espirituais, simbolismo e outras facetas das tradições religiosas do mundo; objectivo aliás partilhado com a própria revista. Apesar de não serem abordadas todas as tradições religiosas, o considerável número de brilhantes estudos de vários aspectos dessas tradições oferece uma maravilhosa amostra do dedicado trabalho de homens e mulheres que partilham um modo especial de olhar e aceitar a Realidade. Destaca-se o artigo gentilmente cedido por Mateus Soares de Azevedo, com o qual se cumpre um dos objectivos desta revista, a publicação de artigos originais de autores de língua portuguesa.

No último bloco deste número, denominado “Fragmentos de espiritualidade”, são oferecidas algumas pérolas de sabedoria espiritual de várias tradições da humanidade, aquelas que como partilhei uma vez no blogue, fazem brotar “subtis lágrimas, … quando o corpo e a alma são invadidos por Essa Infinitude que não cabe em parte alguma”.

Na abordagem das diversas tradições reveladas da humanidade em futuros números da Sabedoria Perene, que se pretende iniciada no contexto de cada uma delas, não faltarão estudos relativos às artes tradicionais e às ciências que delas brotaram. Essa abordagem ou abordagens tradicionais que se procurarão desvendar nos artigos seleccionados, resultam do recurso às metodologias consagradas nessas mesmas tradições, como por exemplo, a Hermeneia (Grega), a Nirukta (Hinduísmo), a Lectio Divina (Cristianismo), as práticas cabalísticas como a gematria, notariqon, e temura, e as ciências islâmicas das letras, ilm alhuruf.

O leitor menos conhecedor dos ensinamentos oferecidos pelos três grandes pensadores que deram origem a esta corrente de pensamento compreenderá, ao percorrer os preciosos ensaios constantes nesta compilação, que esta revista é sobretudo direccionada para aqueles que reconhecem uma verdade fundamental na “unidade transcendente das religiões” e que buscam a via do conhecimento (da pura gnose). Ela dirige-se ao homem como um todo, “feito à imagem de Deus”, e ao seu Intelecto, o qual não existe sem a presença do Amor e da Beleza que abrem as portas para o Sagrado. “A beleza é o esplendor da Verdade”, diz Frithjof Schuon.

Apresentado de forma sumária o presente número da Sabedoria Perene, interessa revelar alguns dos objectivos para números futuros. Em primeiro lugar, é intenção dos editores que esta venha a ter um carácter temático. Assim, no próximo número será dada especial ênfase à arte, bem como à sua ligação ao símbolo. Para um número seguinte está prevista uma abordagem da crise do mundo moderno e dos problemas ambientais.

Em segundo lugar, é nosso desejo que a revista inclua, para além de traduções, artigos originais escritos por autores lusófonos. Este objectivo foi alcançado logo neste primeiro número com a contribuição de Mateus Soares de Azevedo, o que não deixa de ser um óptimo prenúncio para o futuro. Os editores apresentam assim o convite para o envio de trabalhos que desenvolvam os temas propostos recorrendo às metodologias e abordagens tradicionais que sobressaem destas páginas.

Para concluir este editorial refere-se um aspecto da maior importância. Interessa ao leitor saber que as traduções aqui apresentadas são da exclusiva responsabilidade dos tradutores e que não foram alvo de revisão por parte dos autores dos respectivos artigos. Deverá também ter presente que, apesar do esforço dispensado na sua revisão, as traduções são fruto de uma dedicação pessoal e não de um trabalho profissional, pelo que não estarão certamente livres de conter erros ou de exigir mais talento. Pede-se a complacência do leitor, por certo exigente, e deixa-se a promessa de uma entrega total e busca de aperfeiçoamento. No fundo, por imperfeita que seja, esta é uma oferta do fundo do Coração a todos aqueles que procuram a Verdade. A complexa arte de tradução, como brilhantemente apresenta Ali Lakhani num dos artigos que integram a revista é, na verdade, um acto de entrega total, ela “é, em ultima análise, a arte de auto-interpretação. É identificar a fonte de toda a criatividade com a Origem e a sua localização no interior do Centro espiritual de nós próprios. Este Centro espiritual de cada um, para o qual e a partir do qual tudo o que existe está conectado como que através de uma rede sagrada, é o Coração.”

Miguel Conceição
Lisboa, 12 de Junho de 2009

Revista Sabedoria Perene – Número 1

(clique sobre a imagem para descarregar "pdf")


Editorial

Apresentação

Introdução

A renovação do interesse na TradiçãoWhitall N. Perry

Tradição e Sophia Perennis

A Filosofia PereneFrithjof Schuon
Religio PerennisFrithjof Schuon
O que é a Tradição?Seyyed Hossein Nasr
Compreender a palavra “Tradição”Ali Lakhani
A função espiritual da Tradição: uma perspectiva perenialistaReza Shah-Kazemi
Carta aberta sobre a Tradição (resumo) – James Cutsinger

Estudos da Tradição

O ponto de partida de René Guénon, parte IMiguel Conceição
Esoterismo islâmicoRené Guénon
Ritos e símbolosRené Guénon
Gnose cristãFrithjof Schuon
Mulheres de Luz no Sufismo – Sachiko Murata
Sobre a traduçãoAli Lakhani
Religião, Ortodoxia e IntelectoWilliam Stoddart
Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XXMateus Soares de Azevedo
Nembutsu como ‘Lembrança’Marco Pallis

In memoriam

René GuénonMartin Lings
A Tradição Primordial: Um tributo a Ananda CoomaraswamyRanjit Fernando
Um sábio para o nosso tempo: O papel e a obra de Frithjof SchuonHarry Oldmeadow

Fragmentos de espiritualidade

Pitágoras – São Simeão, o Novo Teólogo – Padres Jean-Pierre de Caussade e Loius
Lallement – Frithjof Schuon – Black Elk – Bhagavan Sri Ramana Maharshi – Jalâluddîn Rumi


Fontes dos textos

Breves notas sobre os autores

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domingo, 14 de junho de 2009

A Terra feita nova

A invenção [das letras] irá produzir o esquecimento nas mentes daqueles que as aprenderem a usar, pois deixarão de exercitar a memória. A sua confiança na escrita, produzida por caracteres exteriores que não são parte deles próprios, irá desencorajar o uso da memória que tem em si mesmos. Vocês inventaram um elixir para recordar, não para a memória; e oferecem aos vossos pupilos, não a verdadeira sabedoria, mas a aparência da sabedoria, pois eles irão ler muitas coisas sem ensinamento, e irá parecer que sabem muitas coisas, quando na verdade eles serão em grande parte ignorantes e difíceis de tolerar; não serão sábios mas charlatães”.

Esta são palavras de Platão, citadas por Ananda Coomaraswamy no seu brilhante ensaio “The Bugbear of Literacy”[1], onde procura mostrar, ao seu estilo irrepreensível e luminoso, a importância e primazia da tradição oral em relação à actualmente entronada escrita, e desconstruir o preconceito de que a iliteracia é uma característica de um povo não civilizado.

Para o homem primordial e para as civilizações tradicionais, o homem só sabia verdadeiramente aquilo que sabia de cor – o saber de coração (cordis). É sabido que muitos povos ancestrais sabiam de coração contos e canções que retratavam toda a sua tradição e todos os ensinamentos que moldavam a sua existência, um conhecimento de memória que necessitaria de numerosos volumes para ser vertido em forma escrita. Um desses povos ancestrais era o dos Índios americanos.

Com esta breve introdução, chegamos ao tema desta publicação, a chamada de atenção para um livro maravilhoso recentemente publicado pela World Wisdom, “The Earth Made New – Plains Indian Stories of Creation”, de Paul Goble.


Os povos tradicionais sabiam bem que só se educa através de contos. Joe Medicine Crow, no prefácio a esta obra, refere “na minha juventude, os contadores de estórias que educavam as crianças eram os seus familiares – os avôs e as avós eram os nossos professores. Lembro-me que o meu avô, cujo nome era Yellowtail, era o meu principal professor.” Só assim podiam eles ficar imbuídos do espírito da sua tradição e preservar um modo vida como o expresso nas seguintes palavras de Stanging Bear (Lakota):

“A vida para os Índios é uma de harmonia com a natureza e com as coisas que o rodeiam. O Índio procura adaptar-se à natureza e a compreender, mas não para a conquistar e governar. A vida era algo glorioso, pois um grande contentamento resulta do sentimento de amizade e de familiaridade com os seres vivos que te rodeiam.”

O conto que este livro nos apresenta é um conto da Criação, uma criação que para os Índios está sempre a acontecer, num eterno presente. O livro contém, acompanhado por magnificas ilustrações, uma estória que celebra a criação de uma nova Terra depois do dilúvio.

Os trechos traduzidos e apresentados de seguida procuraram manter a fluidez da estória e mostrar a sua essência. É uma excelente forma de dar água à semente que reside no interior das nossas crianças e deixar que elas, por si mesmas, intuam o que é a Sabedoria Perene.

Reproduzindo ainda as palavras de quem traduziu, "o que mais me comoveu na leitura desta estória para crianças foi a simplicidade profunda da sua mensagem, espelho de uma harmonia natural que reflecte o Espírito do Homem em comunhão com o Mundo."

[1] – The Essential Ananda K. Coomaraswamy, editado por Rama P. Coomaraswamy. World Wisdom, 2004.


A Terra feita nova
Tradução de Noémia Silva

Há muito tempo, existia um outro mundo, um como o nosso; mas a dada altura as montanhas desmoronaram, a terra abriu-se ao meio e a água jorrou de dentro, cobrindo tudo. Nada do velho mundo podia agora ser visto sobre a água: nem o cume dos grandes choupos, nem o topo das montanhas. Era um tempo de chuva, nuvens negras, terror e calamidade.

Os únicos seres vivos eram os peixes, que estavam nas profundezas, os patos, e todos os animais que viviam na água. O ar estava repleto do clamor dos seus lamentos. Nadavam por todo o lado formando uma multidão de seres, chorando cada um na sua voz:

- Fazedor da Terra! Fazedor da Terra! Nós queremos viver! Dá-nos de volta a terra para que possamos ter um sítio onde fazer os nossos ninhos e pôr os nossos ovos!

Sozinho, o corvo voava ao longe afastado da água. Mais alto que as vozes de todas as outras aves ele chamava indignadamente:

- Crau – crau - crau! Crau – crau - crau! Fazedor da Terra, ouve-me. Estou cansado. Dá-me alguma terra para eu possa poisar e descansar, caso contrário morrerei. Crau – crau – crau! Fazedor da terra, ouves-me?

- Eu oiço-te – disse-lhe o Fazedor da Terra.

- Eu te ajudarei – e com as suas palavras o corvo e todos os restantes sentiram coragem.

- Um de vós deve ajudar-me, preciso de lama para fazer terra. Quem mergulha e me traz alguma?

- Eu! – exclamou o pato-real. Esticou o seu pescoço para dentro de água, mas não conseguiu sequer ver o fundo.

O Fazedor da Terra, o Criador, perguntou novamente: - Quem me traz alguma lama?

O castor batendo com a sua larga cauda na água, disse:

- Eu trago-te lama. Mergulhou, e logo de seguida foi seguido pelo mergulhão; mas nenhum deles conseguiu alcançar o fundo.

O Fazedor da Terra perguntou pela quarta vez: - Há alguém que me consiga trazer lama?

- Eu tentarei – disse o pequeno galeirão preto, e mergulhou para longe de vista. Como não voltava, todos pensaram que tinha sido levado pelas águas. Então o Fazedor da Terra, alcançou o fundo das águas e fez emergir o galeirão quase sem vida. Estava exausto para falar, mas havia lama no seu bico!

O Fazedor da Terra recolheu a lama do bico do pequeno galeirão e disse:

- Um de vós deve carregar esta lama.

Todos queriam carregá-la. Ele olhou amorosamente para todos e escolheu a tartaruga.

- Avó Tartaruga, as tuas costas são fortes e tu és cuidadosa. Tu carregarás a lama. Tu serás sempre a minha alegria! As tuas roupas serão gloriosas, e toda a vida virá de dentro de ti.

O Fazedor da Terra, o Criador, trabalhou a lama molhada com suas mãos até ficar seca. Polvilhou a carapaça da tartaruga com a lama e com seu poder a lama cresceu, cresceu até cobrir por completo a Avó Tartaruga e transformar-se na terra que pisamos.

Vem, poisa e descansa – disse ao Corvo – agora todos vós podeis fazer vossos ninhos. E imediatamente as aves e os animais deixaram a água e deram graças ao Fazedor da Terra.

Com o poder da sua imaginação, o Fazedor da Terra empilhou as montanhas e aplanou as planícies, deixou só a água suficiente para encher os rios, os lagos e os pauis. Pintou o chão com tintas de várias cores, vermelho, amarelo e branco. As montanhas cobriu-as com rochas, pinheiros e neve, e as planícies com ervas e flores. A tudo deu o seu próprio cheiro, e compôs a música da chuva a cair e do vento nos pinheiros. E fez raízes e bagas crescer no seu devido lugar, (…)

Colocou cedros nas encostas, e ao longo dos riachos plantou salgueiros (…)

(…) E preencheu a terra com todo o tipo de seres. Sacudiu o robe pintado que vestia e flocos de aves felizes de todas as cores voaram. Elas entendiam-no quando falava. (…) O Fazedor da Terra estendeu o seu robe no chão e, andando devagarinho, arrastou-o por uma ponta e imensos animais de todo o tipo saíram correndo por debaixo dele. Todos o entendiam quando falava (…)

O Fazedor da Terra pensou: - Vou fazer seres de duas pernas e dar-lhes tudo o que fiz. Eles terão cabelo somente no topo das suas cabeças e viverão juntamente com os búfalos.

E assim foi que na sua sabedoria, tirou um pedaço de lama das costas da Avó Tartaruga e a moldou nas suas mãos formando a figura do Homem e da Mulher.

(…)

Ele disse-lhes – Eu sou o vosso Pai e Avô e a terra é a vossa Mãe e Avó. Eu dou-vos a alegria e a maravilha da vida, e tudo à vossa volta para usares ajuizadamente.

(…)

O Fazedor da Terra falou às pessoas:

- Eu prometi ficar sempre perto de vós. Quando precisarem de mim no vosso caminho pela vida, falem comigo. Cantai! Eu estou a ouvir. Vejam as vossas preces subir até mim no fumo dos vossos cachimbos sagrados. Procurem-me nas colinas e nas montanhas. Oiçam-me no Vento e na Água, no Corvo e no Coiote. Eu virei até vós em sonhos e dar-vos-ei a sabedoria do Alce ou da Águia, da Rocha ou do Trovão. Pensem em todos eles, e eles vos ensinarão tudo o que quereis saber. Lembrem-se que só a Terra fica para sempre. Tenham força! Que todos os seres sejam felizes!

No fim, o Fazedor da Terra empilhou grandes montanhas para travar as águas de voltarem a inundar a terra e a engolir a Avó tartaruga. Ele disse ao Búfalo, com os seus fortes cornos curvos e fortes ombros, para empurrar as montanhas. O búfalo é forte e viverá por muito tempo, mas não para sempre! Ele envelhece; todos os anos perderá um cabelo, e em cada uma das quatro idades uma perna se partirá. Quando o búfalo morrer as montanhas desmoronar-se-ão e as águas voltarão a inundar tudo e então…

… O Fazedor da Terra fará um outro mundo.

Rama Coomaraswamy: entre o Catolicismo e a Filosofia Perene

O presente texto dedicado à obra de Rama Coomaraswamy, gentilmente cedido pelo Mateus Soares de Azevedo e o Dr. William Stoddart, foi originalmente publicado em inglês na publicação periódica canadiana “Sacred Web” (N. 18, Janeiro de 2007). A passagem para a língua portuguesa foi efectuada pelo próprio Mateus Soares de Azevedo.

Ao longo do texto os autores procuram analisar a preciosa obra deste autor, realçando o mais importante do seu conteúdo e oferecendo uma importante crítica à sua feroz aversão ao Protestantismo.

A obra deste autor, apesar de abordar temas muito complexos e, para muitos, controversos, nomeadamente no que respeita ao Vaticano II, é fundamental para qualquer cristão que pretenda aprofundar o seu conhecimento sobre a doutrina da sua tradição.

Antes de vos deixar o texto, gostaria de deixar um profundo agradecimento aos amigos Mateus e Stoddart pela sua contribuição com este importante texto.


Rama Coomaraswamy: entre o Catolicismo e a Filosofia Perene
William Stoddart e Mateus Soares de Azevedo

Rama Coomaraswamy nasceu em 1929, filho do célebre filósofo e crítico de arte indiano Ananda Kentish Coomaraswamy e de Luisa Runstein. Recebeu sua educação básica na Índia e Inglaterra, antes de começar os estudos universitários, primeiramente em Harvard, EUA, onde se graduou em Geologia, e depois na faculdade de medicina da Universidade de New York, onde se formou em 1959. Em seguida, especializou-se em cirurgia torácica e cardiovascular. Já ao final da vida, devido a problemas de saúde, teve de abandonar a extenuante carreira de cirurgião e se voltou para a psiquiatria; neste campo, tornou-se professor assistente do Albert Einstein College of Medicine de Nova York.

Originário de uma influente família brâmane, recebeu educação religiosa tradicional em Haridwar, uma das mais importantes cidades sagradas da Índia, e foi iniciado com o yajnopavita, o colar sacro. Com a morte de seu pai, em 1947, teve de retornar aos Estados Unidos, onde Ananda Coomaraswamy exercia o cargo de curador do Museu de Belas Artes de Boston. Como era praticamente impossível seguir o Hinduísmo no Ocidente então, ele passou a estudar a doutrina cristã e pediu o batismo na Igreja Católica, aos 22 anos. Em uma correspondência recente, ele explica: “A conversão é um assunto simultaneamente complexo e simples e depende da graça. Como hindu, fui ensinado a amar e servir a Deus; por que não poderia continuar a fazer o mesmo como católico? (...) Tenho uma vivência familiar algo incomum, pois minha família inclui tanto padres jesuítas como monges hindus. Convivi intimamente com hindus, sufis e católicos. Desde minha entrada no Catolicismo, nunca me desviei da fé tradicional e penso que meus escritos dão testemunho de minha ortodoxia.”

Paralelamente à carreira médica, na qual se destaca a colaboração, na Índia, com Madre Tereza de Calcutá, de quem foi também clínico particular, Rama Coomaraswamy manteve um profundo interesse em questões teológicas, como se comprova por seus livros (ver abaixo) e sua colaboração com reputadas publicações na América do Norte e Europa, como Sacred Web, Sophia e Connaissance des Religions. Foi também professor de história eclesiástica do seminário Santo Tomás de Aquino, em Ridgefield, Connecticut, por cinco anos.

Quanto a seu pai, Ananda Coomaraswamy, além de diretor do reputado museu de Boston e autor de dezenas de livros importantes, foi companheiro de Gandhi na luta pela independência da Índia. Foi também o célebre acadêmico que introduziu pioneiramente no mundo de língua inglesa as idéias e visões da escola da Filosofia Perene, cujos fundadores foram o metafísico francês René Guénon (1886-1951) e o filósofo das religiões suíço-alemão Frithjof Schuon (1907-1998).

Essas idéias fascinaram o jovem Rama, mas, na verdade, ele nunca foi capaz de entendê-las e aceitá-las plenamente e, ao final, abandonou-as em grande medida em favor de um apego mais ou menos exclusivo ao Catolicismo. Como resultado dessas duas influências – uma universal e supra-formal, derivada da Filosofia Perene de seu pai, e outra particular e formal, derivada de sua ligação religiosa – sempre houve uma certa tensão ou ambigüidade em seu pensamento.

Suas opiniões e atitudes emergem claramente de seus três principais livros. São eles: The Destruction of the Christian Tradition (1981; 2a. edição 2006), The Problems with the New Mass (1990), and The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (1999). No Brasil, foi publicada uma síntese do primeiro, sob o título de “Ensaios sobre a destruição da tradição cristã” (T.A Queiroz editor, S. Paulo, 1990).

Os dois primeiros constituem a descrição mais abrangente e convincente que há de como o autêntico Catolicismo foi abalado pela revolução do Vaticano II. O terceiro livro é uma exposição única e preciosa da antiga prática da oração jaculatória – isto é, a invocação metódica de um Nome Sagrado.

Com relação aos dois primeiros, infelizmente não podemos evitar uma nota de crítica: há neles tantos ataques ao Protestantismo que às vezes parece que são tanto sobre o Protestantismo como sobre o Catolicismo! As opiniões expostas a este respeito estão em claro contraste com as de Frithjof Schuon, como expressas em seus escritos sobre o tema (especialmente em “The Question of Evangelicalism” e “Christian Divergences”), e isso exige uma breve discussão.

Sem dúvida se pode dizer que é direito de um exoterista católico atacar o Protestantismo, e direito de um exoterista protestante atacar o Catolicismo. Sim, de fato, mas neste ano da graça podíamos esperar que encontrasse outros adversários. Há uma infinidade deles: ateístas, céticos, mofadores, religiosos liberais, “fundamentalistas”, pornógrafos, etc., etc.

Rama Coomaraswamy não compreendeu que, seja o que for que o Protestantismo de Lutero possa ser, não deriva do relativismo ou do individualismo modernos. Lutero amava São Paulo e Santo Agostinho e desprezava o Renascimento secularizante, contra a qual ele se rebelou. De fato, por causa disso, é visto por alguns como um tipo atávico da Idade Média. Sem dúvida, Lutero também rejeitou a Escolástica, de cujo mau uso ele tinha muita experiência.

O Protestantismo não pode ser definido meramente como uma forma truncada e desviada de Catolicismo; truncada e artisticamente empobrecida pode ser, mas é acima de tudo um ângulo de visão diferente (sobre os sacramentos e a salvação) do Catolicismo. Schuon chamou a forma luterana de Cristianismo de “um upâya (termo budista que significa “forma salvífica”, ou “exoterismo salvador”) secundário entre outros upâyas possíveis” – e um upâya não pode ser julgado segundo os critérios de outro upâya.

Schuon chamou Lutero de “fideísta”, “místico” e, a despeito de um número de explosões excessivas e intemperadas, “um homem virtuoso”. Lutero possuía uma convicção e uma sinceridade que testemunhavam seu “zelo pela casa do Senhor”. Ele foi o originador, no século XVI, de uma “adaptação” religiosa que se enraizou firmemente no noroeste da Europa e que dura até os dias de hoje. Tem sido o meio de salvação para inumeráveis almas. Os aspectos essenciais desta “adaptação” são simplificação, interioridade e uma fé total no poder salvador de Deus.

Seja como for, as intermináveis e desnecessárias críticas sarcásticas de Rama Coomaraswamy ao Protestantismo não ajudam em nada. Na maior parte, elas são equivocadas; ocasionalmente, em uma única sentença, há tantas críticas que seriam necessários vários parágrafos de comentários para classificá-las e refutá-las uma a uma! Acima de tudo, elas não são pertinentes ao tema em foco, porque o ponto importante a reter a este respeito é que o Protestantismo não desempenhou papel causal no que diz respeito à revolução do Vaticano II. Os precursores deste último foram o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa, sem esquecer Teilhard de Chardin – e não o pré-moderno Martinho Lutero. Ele foi um reformador, não um revolucionário – uma distinção importante.

Já foi corretamente apontado que o gênio nocivo por trás do Vaticano II foi Teilhard de Chardin – mesmo assim, Rama Coomaraswamy prosseguiu com suas críticas ao Protestantismo, o qual, a despeito de suas repetidas tentativas de implicá-lo na destruição causada pelo Vaticano II, não teve de fato nada com isso! Ironicamente, foi a irrupção do Protestantismo no século XVI que provocou o Concílio de Trento, no qual a então debilitada Igreja Católica pôde colocar a casa em ordem, gabaritando-a assim a manter efetivamente seu testemunho pelos quatro séculos seguintes.

Se é verdade que o Catolicismo pré-Vaticano II manifestava, e já por um período considerável, uma sorte de complexo de inferioridade tanto em relação ao Protestantismo como em face da ciência moderna, pode bem ser que os promotores do concílio desejassem o que consideravam ser uma “protestantização” da missa católica. Não obstante, a iniciativa disso não veio do lado protestante. Sugerir que a presença de uns poucos observadores protestantes no concílio prova que o Protestantismo foi de alguma maneira um causador deste último é absurdo. O Vaticano II aconteceu no começo dos anos 1960 – uma outra época em relação a hoje! – e pode se dizer sem receio de contradição que a esmagadora maioria dos protestantes de todos os matizes nutriam uma profunda ignorância e indiferença em relação a ele. A maior parte deles continua assim. A maioria dos cristãos ortodoxos e dos protestantes acredita que “Roma ainda é Roma”, e são contra ela de qualquer jeito!

Não deixa de ser irônico notar que, para o bem ou para o mal, o estilo agressivo e combativo de Rama Coomaraswamy é similar ao de Lutero!

Pode-se dizer que o ‘exclusivismo’ é natural aos agrupamentos humanos e é um meio ‘tradicional’ de auto-preservação; mas isso deixa fora da conta a natureza sem precedentes de nosso presente situação, na qual todas as religiões são erodidas pelas mesmas forças destrutivas.

Sejamos conscientes disso ou não, o ‘inimigo’ mudou: ele não é mais encontrável nas religiões ou denominações ‘concorrentes’, mas sim nos oponentes, grosseiros ou sutis, de todas as religiões. Isso não diz respeito somente ao esoterismo; a experiência comprova que muitos exoteristas sensíveis têm uma intuição efetiva da nova situação. Os dois livros de Coomaraswamy não os apóiam.

Do lado positivo, - e há muito que é positivo! - estes dois livros contêm informação suficiente sobre a destruição intencional da missa, por parte do Vaticano II, para fazer católicos sérios despertarem e refletirem. Como é reconhecido pela lei canônica desde a Idade Média, obediência não é devida primeiramente ao “papa” (que pode, por heresia, trair sua função e perder sua autoridade), mas sim ao Espírito Santo. A Ortodoxia não está necessariamente aonde o “papa” está; o autêntico papa está onde está a ortodoxia!

Estes dois livros serão de valor decisivo para muitos católicos; acima de tudo, podem ajudá-los a retornar à doutrina válida e a buscar por uma missa válida celebrada por um sacerdote válido. É simplesmente de se lamentar que as obras sejam marcadas por tantas insignificâncias anti-protestantes.

O terceiro livro de Coomaraswamy, The Invocation of the Name of Jesus – as practiced in the Western Church (“A Invocação do Nome de Jesus – Como praticada na Igreja Ocidental”) é totalmente diferente. Trata-se de uma valiosa apresentação do método espiritual tradicional conhecido como “prece quintessencial”, ou “oração do coração”. Esta via espiritual consiste na repetição metódica, ou invocação, de um Nome Sacro revelado, prática que deriva dos primeiros séculos do Cristianismo, e que persistiu, por toda a Idade Média, até os dias de hoje. Há um rico tesouro de livros sobre tal prática na Igreja Oriental, particularmente em sua tradição monástica, conhecida como Hesicasmo (veja, por exemplo, os livros O Peregrino Russo e A Filocalia). Aqui, ele assume a forma da “oração do publicano”, ou “Oração de Jesus”, isto é, “Senhor Jesus Cristo tem piedade de mim pecador”. Usualmente tal formula é abreviada para dois termos gregos, Christe eleison.

Tomando seu ponto de partida dos ensinamentos de Frithjof Schuon e dos testemunhos de santos e místicos através dos séculos, Rama Coomaraswamy, ao expor tal método de concentração espiritual, descreve tanto sua universalidade – faz referência en passant a práticas budistas e islâmicas – como sua forma especificamente católica, como exemplificado e ensinado por São Bernardino de Siena (século 15) e pela capuchinha italiana Consolata Betrone (1903-1946), entre outros. No Catolicismo, a invocação assume usualmente a forma Jesu-Maria.

Mais importante, Coomaraswamy aponta para a “relação íntima entre a invocação do Nome e o Sacrifício Eucarístico” (p. 20). Ele escreve: “O caráter eucarístico é ainda mais enfatizado no rito tradicional romano. Quando o sacerdote participa da santa comunhão, diz: ‘Tomarei o pão da vida e clamarei o Nome do Senhor; beberei do cálice da salvação e invocarei o Nome do Senhor.’ E é assim que a recepção ‘passiva’ das Santas Espécies pede a resposta ‘ativa’ da invocação.” (p. 24).

“Tão poderoso é o Nome”, ele continua, “que nos transmite graças não dessemelhantes às propiciadas pela própria Eucaristia.... Há um rosário de 33 contas usado com o Nome de Jesus do qual se diz que, na ausência da missa, transmite todas as graças obtidas com a participação nesta última.” (p. 24).

O legado de Rama Coomaraswamy, assim, reside em dois elementos: sua detalhada e autorizada descrição da destruição da doutrina e da missa tradicionais levada a cabo pelo Vaticano II, e sua descrição do papel e importância, nesses últimos dias, da invocação do Santo Nome. Em outras palavras, discernimento implacável em relação às formas exteriores, conjuntamente com a importância da prece do coração. Menção a esta prática evoca as palavras do último papa tradicional, Pio XII: “Não está longe o dia em que os fiéis só poderão celebrar o santo sacrifício da missa no altar secreto do coração”. Na época, muitos pensaram que o santo papa se referia à ameaça de perseguição exterior, mas pode-se dizer que suas proféticas palavras se aplicavam também ao iminente advento de uma liturgia falsificada.

Rama Coomaraswamy expôs de forma vigorosa e articulada estas duas coisas e por isso lhe somos profundamente gratos.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O deserto e o silêncio

Os últimos dias têm sido iluminados por um ‘pequeno’ tesouro que vou partilhar nesta publicação. Trata-se do livro “In the Heart of the Desert – The Spirituality of the Desert Fathers and Mothers” da autoria do Padre John Chryssavgis. Neste livro somos como que levados pela mão do Padre Chryssavgis através da mais profunda espiritualidade dos Padres do Deserto. É uma excelente introdução a estes eternos ensinamentos que ecoam do mais profundo dos desertos, aquele que apenas se encontra no interior do nosso ser. Fica ainda a referência a uma edição portuguesa dos ditos destes mestres do deserto, “Ditos e feitos dos Padres do Deserto”, da Assírio & Alvim.




Aquilo que pacientemente se chega a praticar é a virtude do silêncio (hesychia). Obtemos auto-conhecimento através da quietude e do silêncio, através da atenção e da vigilância (nepsis). Quando as palavras são abandonadas chega uma nova percepção. O silêncio desperta-nos de uma percepção néscia, de uma visão obscura.

Abade Bessário, no momento da sua morte, disse: “O monge deve ser como o querubim e o serafim: todo olho!”

Abade Poemen disse: “Sê atento interiormente; e sê atento exteriormente.”

O silêncio é o primeiro dever da vida, o primeiro requisito para a sobrevivência no deserto.

Tendo-se retirado para o deserto, Abade Arsénio… ouviu uma voz que lhe disse: “Arsénio, foge; mantém-te silencioso, sempre em oração. Esta é a fonte de uma vida sem pecado.”

O silêncio é também o primeiro dever do amor (agape), o primeiro requisito para a sobrevivência em comunidade.

Abade Poemen disse: “Alguém pode parecer silencioso, mas se no seu coração condena os outros, então balbucia ininterruptamente. E pode haver outro que fale de manhã à noite e, ainda assim, ser uma pessoa verdadeiramente silenciosa no coração. Essa pessoa nada diz que não seja proveitoso.”

O silêncio é uma via de espera, uma via de observação, e uma via de escuta para com aquilo que se passa dentro de nós e à nossa volta. É uma via de interioridade, de paragem e de exploração das profundezas do coração e do centro da vida. É uma via para penetrar o seu interior, para que no fim não fiquemos sem ele. O silêncio nunca é meramente uma cessação de palavras; isso seria uma definição demasiado restritiva e negativa do silêncio. Pelo contrário, ele é a pausa que mantém unidas – na realidade, dá sentido a – todas as palavras, pronunciadas ou não pronunciadas. O silêncio é a cola que une as nossas atitudes às nossas acções. O silêncio é a totalidade, não o vazio; não é uma ausência, mas a consciência de uma presença. Toda a fuga para o deserto pode ser resumida a esta prioridade e prática de silêncio.

Abade Macário o Grande disse aos irmãos de Cétia: “Fujam, meus irmãos.” Um dos anciões perguntou-lhe: “Para onde podemos fugir para além deste deserto?” Macário colocou o seu dedo nos lábios e disse: “Fujam disto!” E foi para a sua cela, fechou a porta, e sentou se.

Um irmão veio ver o Abade Poemen na segunda semana da Quaresma, e falou-lhe dos seus pensamentos. Ele obteve paz e disse-lhe: “Quase que não vinha hoje.” O ancião perguntou-lhe porquê. O irmão disse-lhe: “Pensei para mim próprio: ‘Talvez ele não me receba por ser a Quaresma.’” Abade Poemen disse-lhe: “não fomos ensinados a fechar as portas de madeira; mas sim as portas das nossas línguas.”




O deserto exterior

A realidade é, obviamente, que tendemos a ser impacientes; tendemos a vaguear; tendemos a interferir no processo. E somos tentados a falar; a quebrar o ensurdecedor silêncio. As palavras são formas de afirmar a nossa existência, de justificar as nossas acções. Falamos de modo a nos desculparmos, em nós e ante os outros; enquanto o silêncio é uma forma de morrer – em nós e na presença de outros. É uma forma de abandonar a vida, sempre no contexto e na esperança de uma nova vida e de ressurreição.

Abade Alónio disse: “Se não me tivesse destruído completamente, não teria sido capaz de me reconstituir e moldar de novo.”

As palavras do Abade Alónio podem parecer muito duras. No entanto, pode ser que através do abandono da vida possamos nos encontrar de novo. Na luta contra aquilo que não somos podemos procurar descobrir aquilo que somos de verdade. A realidade é que tendemos a esquecer quem e o que somos de verdade. Quando recusamos o desafio do silêncio não podemos conhecermo-nos a nós próprios. Não é que sejamos tentados a pensar que somos mais do que somos na realidade; infelizmente, é nessa altura que toleramos ser menos do que somos realmente chamados a ser. O orgulho não é o grande pecado; a grande tragédia é o esquecimento do que somos. É por esta razão que a sabedoria do deserto enfatiza a lembrança da morte; era o outro lado da mesma moeda, que pode ser apelidada de lembrança de Deus.

Quando a morte de Arsénio se aproximava, os irmãos viram-no chorar e perguntaram-lhe: “Estás, de verdade, com medo?” “Na realidade”, respondeu-lhes, “o medo que é meu nesta hora tem estado comigo desde que me tornei um monge.”

No entanto, o silêncio não surge facilmente. Se o silêncio é a linguagem de Deus, a linguagem que falam no Céu, será uma surpresa que façamos tantos erros na interpretação desta linguagem? Nunca poderá ser uma tarefa fácil estar na disposição de nos colocarmos às portas do reino dos céus ou, como o Abade Arsénio, estar à beira da morte.

Era dito do Abade Agatão que durante três anos viveu com uma pedra na boca, até aprender a manter silêncio.

Os Padres do Deserto abraçavam a sua mortalidade; eles estavam confortáveis com a morte. Eles reconheciam a morte como uma outra forma de comunidade, como uma outra forma de se ligarem ao seu vizinho e a Deus como Senhor da vida e da morte. Quantas vezes desejamos enganar a morte; instintivamente procurando a evitar ou lhe escapar. Não queremos enfrentar a mudança, ou a dor, ou a paixão, ou a morte. Na terminologia do deserto, essa seria a tentação de sair da cela. A imagem de “viver a morte” é talvez mais aterrador para nós do que a própria morte. E, por esta razão, procuramos meios para lhe fugir – financeira, tecnológica, médica e emocionalmente. As palavras são parte do nosso ser racional; abandonar as palavras é abrir caminho para o nosso ser espiritual. De qualquer forma, os Padres do Deserto aconselham-nos a estar silenciosos e quietos! Recomendam fechar a porta e sentarmo-nos na cela. Devemos simplesmente esperar, mesmo nas situações em que – na realidade, em particular quando – experimentamos momentos de pânico, de incapacidade, de debilidade, de terror, de morte. Foi isso que eles fizeram. Afinal, para onde podemos ir para além do deserto? Para onde podemos ir após escalar uma coluna de trinta pés, como fizeram os Stilitas da Síria? Para onde podemos ir quando, como o Abade António, nos deslocámos do deserto exterior para o deserto interior do Egipto? Apenas te sentas; ficas; e esperas. Depois, quando chegares ao fim dos teus recursos individuais, uma fonte infinita e eterna poderá ser aberta. Não que a graça divina esteja inicialmente ausente; apenas não é reconhecida enquanto dependemos de nós próprios.

Então, simplesmente aguardas. Aguardas com esperança.



O deserto interior

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Eye of the heart - Nº 3

Está disponível o terceiro número do Eye of the Heart - A Journal of Traditional Wisdom. Salienta-se que este número contém um dos artigos vencedores do Ananda Coomaraswamy Essay Prize, o artigo da Drª Emily Pott - "The Zaqqūm Tree".



Editorial

Spiritual symbolism in the Grimms’ tales - by Samuel D. Fohr

The Bosom of the Father: Notes on the Negative Theology of Clement of Alexandria - by Andrew Itter

A methodology of the Imagination - by Angela Voss

Three short essays in astrophysiology - by Roger Sworder

The Book of the Celestial Cow: A Theological Interpretation - by Edward P. Butler

The Zaqqūm Tree - by Emily Pott

Symbolism as marriage and the symbolism of marriage - by Tom Bree

domingo, 3 de maio de 2009

1º Evento Sabedoria Perene

Foi na passada Quinta-Feira, dia 30 de Abril, que o Sabedoria Perene surgiu pela primeira vez fora deste espaço e fez a primeira apresentação pública do seu projecto com raízes na perspectiva universal de três grandes sábios do séc. XX: René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon, e que procura divulgar a “escola” de pensamento que se tornou conhecida pelas designações de “perenialismo” ou “tradicionalismo”.

Esta possibilidade surgiu da presença do escritor brasileiro Mateus Soares de Azevedo em Portugal, que teve a amabilidade de nos apresentar duas interessantes palestras sobre temas que têm sido alvo de suas recentes pesquisas.


A primeira das palestras proferidas, com o título “Estará esgotado o papel histórico dos Estados Unidos da América?”, apesar de apresentar um carácter mais político, focou de forma extremamente clara os problemas inerentes ao fundamentalismo religioso e as suas nefastas consequências na humanidade, tema aliás que é aprofundado no seu livro “Homens de um livro só”.



Na segunda palestra, “Esoterismo e Exoterismo no Sermão da Montanha”, Mateus Soares de Azevedo apresentou uma breve abordagem sobre um dos temas mais interessantes do Cristianismo, isto é, o carácter eminentemente esotérico da sua mensagem. É interessante referir que Mateus recorreu em diversas ocasiões às palavras do nosso Padre António Vieira.



Foi ainda aproveitada esta oportunidade para divulgar um outro projecto do Sabedoria Perene que já há algum tempo está a ser preparado. Trata-se da criação de uma revista não-periódica de publicação online, a qual visa divulgar alguns dos principais textos publicados no blogue, bem como estabelecer uma plataforma para a publicação de textos de autores de expressão portuguesa dedicados ao estudo da Tradição e da Sophia Perennis. Com efeito, foi desvendado o conteúdo do primeiro número, o qual estará disponível brevemente.


Introdução
A renovação do interesse na Tradição – Whitall N. Perry


Tradição e Sophia Perennis
A Filosofia Perene – Frithjof Schuon
Religio Perennis – Frithjof Schuon
O que é a Tradição – Seyyed Hossein Nasr
Compreender a palavra “Tradição” – Ali Lakhani
Tradição como Função Espiritual – Reza Shah-Kazemi
Carta aberta sobre a Tradição (resumo) – James Cutsinger


Estudos da Tradição
O ponto de partida de René Guénon, parte I – Miguel Conceição
Esoterismo islâmico – René Guénon
Ritos e símbolos – René Guénon
Gnose cristã – Frithjof Schuon
Mulheres de Luz no Sufismo – Sachiko Murata
Sobre a tradução – Ali Lakhani
Religião, Ortodoxia e Intelecto – William Stoddart
Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XX – Mateus Soares de Azevedo
Nembutsu como ‘Lembrança’ – Marco Pallis

In memoriam
René Guénon – Martin Lings
A Tradição Primordial: Um tributo a Ananda Coomaraswamy – Ranjit Fernando
Um sábio para os Tempos: O papel e a obra de Frithjof Schuon – Harry Oldmeadow

Por último, cumpre agradecer a todos os presentes e à Associação Agostinho da Silva, na pessoa do Renato Epifânio, por ter acolhido de forma tão gentil este evento. Não posso ainda terminar sem agradecer profundamente ao Pedro Martins, dos Cadernos de Filosofia Extravagante, por todo o incentivo e apoio na divulgação do evento. Um grande abraço perene a todos.