quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conhecereis a Verdade

Conhecereis a Verdade e a Verdade vos tornará livres (Jo 8,32)


É este o mote orientador da singular selecção e edição de textos realizada pelo nosso bom amigo Mateus Soares de Azevedo na publicação Ye Shall Know The Truth: Christianity and The Perennial Philosophy. Fazemos também nossas as palavras encontradas por alguns proeminentes tradicionalistas para descrever esta criteriosa e significativa compilação de artigos sobre o cristianismo e a filosofia perene:

"Santo Agostinho disse: 'Aquilo que hoje se chama de religião Cristã também existiu entre os Antigos, e não esteve ausente da humanidade desde os tempos da sua origem até ao tempo em que Cristo se tornou carne. A verdadeira religião, a qual já existia, passou a ser chamada de Cristianismo'. É mérito desta extraordinária antologia que, extraída das melhores fontes, nos possamos relembrar que o Cristianismo e a Philosophia Perennis (Filosofia Perene) falam numa mesma voz, a voz do Eterno." (Jean-Baptiste Aymard, co-autor de Frithjof Schuon: Life and Teachings)

"Esta compilação de ensaios aponta para o coração esotérico e gnóstico dos ensinamentos Cristãos, enquanto realça as formas tradicional, escritural e litúrgica através das quais este coração animou a Igreja e os seus fiéis. Este volume é por conseguinte um muito-necessário antídoto para a miopia fundamentalista e para a imoderação modernista: este volume rompe concepções exteriores e convencionais do Cristianismo enquanto sustenta a profundidade espiritual e a integridade sagrada da dádiva de Cristo ao mundo." (Patrick Laude, Georgetown University, autor de Singing the Way: Insights in Poetry and Spiritual Transformation)

"Relativamente à importância contemporânea sobre a qual o livro oferece algumas perspectivas encorajadoras está a questão das relações entre o Cristianismo e o Islão. Também aqui o editor exumou contribuições que, muitas vezes de formas inesperadas, projectam uma luz significativa." (William Stoddart, extracto do preâmbulo da obra)

"Não conheço antologia comparável que trate especificamente a tradição Cristã. A selecção de contribuições individuais para o volume é de primeira qualidade." (Alberto Martín, autor de Por el Camino de Santiago: reflexiones sobre filosofia, arte e espiritualidade)

Conteúdo da antologia:

Forward – William Stoddart
Introduction – Mateus Soares de Azevedo

I. Foundations
1. The Question of Evangelicalism – Frithjof Schuon
2. The Veil of the Temple: A Study of Christian Initiation – Marco Pallis
3. Mysticism – William Stoddart

II. Spirituality
4. The Power of the Name: The Jesus Prayer in Orthodox Spirituality – Bishop Kallistos Ware
5. The Rosary as Spiritual Way – Jean Hani
6. The Virgin – James S. Cutsinger

III. Sacred Art
7. The Royal Door – Titus Burckhardt
8. Shakespeare in the Light of Sacred Art – Martin Lings
9. Theology of the Icon – Jean Biès
10. Are the Crafts an Anachronism? – Brian Keeble

IV. Comparative Religion
11. Paths that Lead to the Same Summit – Ananda K. Coomaraswamy
12. A Christian Approach to the Non-Christian Religions: All Truth is of the Holy Spirit – Bernard Kelly
13. The Christians of Moorish Spain – Duncan Townson
14. The Bishop of Tripoli – Duke Alberto Denti di Pirajno
15. The Monk and the Caliph – Angus Macnab

V. The Universality of the Christian Mystics
16. Saint Bernard – René Guénon
17. Characteristics of Voluntaristic Mysticism – Frithjof Schuon
18. Sages and Saints of Our Epoch in the Light of the Perennial Philosophy – Mateus Soares de Azevedo

VI. The Modern Deviation
19. The Abolition of Man – C. S. Lewis
20. The End of Tradition – Rama P. Coomaraswamy
21. The Dragon that Swallowed St. George – Whitall N. Perry
22. Christendom and Conservatism – Titus Burckhardt

Acknowledgments
Notes on Contributors
Biographical Notes
Index

sábado, 24 de outubro de 2009

Divulgação: Dança Tradicional


"De acordo com os livros sagrados da Índia, a dança tem uma origem divina.

Parvati inventou a graciosa dança «lasya» e o seu esposo Shiva-Nâtarâja, o rei da dança, rivalizou com ela com o modo viril «tandava». O espectáculo encantou todos os deuses, os quais pediram a Brahma, o Criador, que revelasse alguns elementos deste conhecimento entre os homens.

Brahma ensinou-os ao sábio Bharata, que os codificou num tratado em sanskrito: o Nâtya-Shâstra, há cerca de 2000 anos. Refere-se, geralmente, que terá sido escrito entre o séc. II a. C. e o séc. II d. C. O sábio Bharata é, sem dúvida, um ser mítico: o seu nome, segundo os historiadores modernos, será composto pela primeira sílaba das palavras «bhâva», «râga», e «tâla», que significam: emoção, melodia e ritmo, as três qualidades essenciais da dança na Índia.

O Nâtya-Shâstra, considerado como o quinto Veda, é uma obra enciclopédica que reúne todos os conhecimentos relativos à dança, ao canto, à música, à poética, à recitação e à arte do teatro.

Diferentes regiões da Índia desenvolveram o seu próprio estilo clássico. O Bharata Natyam, no sul, é um dos mais antigos. Tendo permanecido fiel às regras enunciadas no Nâtya-Shâstra, dividiu-se em vários ramos, tais como a célebre escola de Pandanallur (aldeia situada perto de Tanjore, Tamil Nadu). Saído desta escola, o mestre Natyakalanidi Meenakshi Sundaram Pillai foi uma figura essencial na renovação desta dança nos anos 40. Ele é descendente dosquatro irmãos Tanjore (Quarteto Tanjore Brothers) que fixaram a forma do recital de Bharata Natyam tal como o podemos ver hoje em dia, do Alaripu ao Tillana. Entre os seus discípulos, é de referir Ram Gopal, que se destacou pela sua carreira internacional, bem como o casal U.S.Krishna Rao e Chandra Bhaga Devi, célebres pelos seus escritos e composições.
"

Retirado de Tarikavalli.com


Mais informação:

domingo, 11 de outubro de 2009

Palavras Trovão

É geralmente aceite que o homem é capaz de acreditar sem compreender; no entanto, temos menos presente a possibilidade inversa, isto é, que ele possa compreender sem acreditar, algo que nos surge como uma contradição, uma vez que a fé aparenta ser necessária apenas para aqueles que não compreendem. No entanto, a hipocrisia não é apenas a dissimulação de quem se mostra melhor do que verdadeiramente é; ela também se manifesta na desproporção entre a certeza e o comportamento e, neste sentido, os homens são na sua maioria mais ou menos hipócritas, na medida em que proclamam admitir verdades que não mais do que muito debilmente põem em prática. No plano da simples crença, crer sem actuar em consonância com os ditames do que se acredita corresponde, no plano intelectual, a uma compreensão sem fé e sem vida; pois acreditar de verdade implica uma identificação com a verdade aceite, seja qual for o nível desta aderência. A piedade está para a crença religiosa como a fé operativa está para a compreensão doutrinal ou, podemos acrescentar, como a santidade está para a verdade.

Frithjof Schuon – Logic and Transcendence

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sabedoria invencível

Ao longo do percurso trilhado pelos caminhantes que anseiam subir a montanha da Sabedoria e alcançar o seu cume, a Verdade, uma das dificuldades que surge com maior frequência é a constante tendência para a dispersão; é como se alguém nos tivesse explicado o caminho e nós, deslumbrados com a abundância e variedade de tudo o que o rodeia, o tivéssemos subitamente esquecido e nos encontrássemos perdidos sem saber em que direcção retomar a caminhada. Este desvio tem graves consequências e, por vezes, implica um regresso ao ponto de partida, altura em que é necessária uma grande determinação para nos lançarmos de novo ao nosso derradeiro objectivo.

Esta tendência pode surgir manifestada nos próprios hábitos de leitura e pela preferência dada a obras de grande complexidade, muitas vezes sem grande profundidade, nas quais o desafio intelectual que é a sua compreensão e a informação obtida pela sua leitura, se confundem com aquilo que verdadeiramente importa. Tornamo-nos numa espécie de idólatras do conhecimento. É bem sabido que conhecimento não é sabedoria; e é esta última o objectivo da nossa caminhada. Podemos, sem grande risco de faltar à verdade, afirmar que há muito que este é um dos graves problemas das nossas universidades e meios intelectuais.

Estas reflexões surgem naturalmente quando temos a felicidade de ter nas mãos duas preciosas obras que manifestam o oposto desta tendência. Obras que abordam pura e simplesmente o que é essencial. Schuon afirmava que “la essence de la connaissance et la connaissance de l’essence”, e esta essência é a Sabedoria que ansiamos atingir.

Inadvertidamente, chamamos-lhe por vezes capacidade de síntese, quando na verdade se trata de algo bem superior, algo que irrompe do sabido e do vivido, do realizado. Um dos mestres desta capacidade de “redução” à essência é William Stoddart, de quem já aqui apresentámos um livro. Desta vez chamamos a atenção para dois pequenos livros que consistem em criteriosas selecções de excertos e citações, sobretudo de fontes tradicionais de todas as grandes tradições da humanidade.

Um desses livros é o “Invincible Wisdom – Quotations from the Scriptures, Saints, and Sages of All Times and Places”. Nesta antologia de ditos, máximas e aforismos, a ideia que guiou o seu autor foi a recolha de preciosas pérolas que reflectissem valores espirituais profundos e permanentes; nas palavras do autor, “uma sucinta, mas poderosa, afirmação ‘da Verdade, do Bem e do Belo’”.

Esta afirmação não poderia deixar de reflectir os dois pólos da forma como nos é revelada, o Rigor e a Misericórdia. Aqui ficam alguns exemplos para que sintam a fragrância da Verdade que emana das palavras seleccionadas por William Stoddart.


Não cuideis que vim a meter paz na terra; não vim a meter paz, senão a espada. (Mateus 10:34)

E se o cego ao cego guiar, ambos na cova cairão. (Mateus 15:14)

Não são os seus olhos que estão cegos, mas os seus corações. (Alcorão 22:46)

*

Está na natureza do bem que ele se comunique. (Santo Agostinho 354-430)

Diz-se que um dia Ânanda, o amado discípulo de Buddha, saudou o seu mestre e lhe disse: “Ó Mestre, metade da vida sagrada é amizade com a beleza, associação com a beleza, comunhão com a beleza.”
“Não digas tal coisa Ânanda!” respondeu o mestre. “Não é metade da vida sagrada, é a totalidade da vida sagrada.”
(Samyutta Nikâyâ)

* * *

A segunda compilação de William Stoddart é o belíssimo livro “What do the Religions say about Each Other? – Christians Attitudes towards Islam and Islamic Attitudes towards Christianity”. Neste caso o autor concentra-se nas duas tradições religiosas actualmente mais relevantes no Ocidente e procura, recorrendo a exemplos escolhidos a partir das suas formas tradicionais, esclarecer e mostrar ao leitor as verdadeiras atitudes e relações que estas duas religiões mantiveram entre si ao longo dos séculos.

E Pedro abriu a sua boca e disse: “Em verdade, entendo que Deus não mostra parcialidade, e que todo aquele em qualquer nação que O tema, e faça o que é correcto, é aceite por Ele”. (Actos dos Apóstolos 10:34-35)

Em verdade, fizemos surgir um Mensageiro em todas as Nações, proclamando: serve Deus e evita falsos deuses. (Alcorão 16:36)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Arte e beleza [2]

A beleza é o espelho da alegria e da verdade. Sem o elemento de “alegria” subsiste apenas a forma despida – geométrica, rítmica ou de qualquer outro tipo; e sem o elemento de “verdade” subsiste apenas um contentamento totalmente subjectivo – um luxo, se preferirmos. A beleza situa-se entre a forma abstracta e o prazer cego, ou melhor, combina-os de forma a impregnar a verdadeira forma de prazer e o verdadeiro prazer de forma.

A beleza é a cristalização de um determinado aspecto da alegria universal; ela é algo ilimitado expresso por um limite.

Por um lado, a beleza é sempre mais do que o que dá, mas por outro, ela dá sempre mais do que é: no primeiro sentido a essência revela-se como aparência, no segundo a aparência comunica a essência.

Frithjof Schuon - Spiritual Perspectives and Human Facts

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sophia Journal - Verão 2009

Está disponível o mais recente número da publicação periódica SOPHIA – The Journal of Traditional Studies. Este número tem, por várias razões, um carácter muito especial para nós. Em primeiro lugar, nele consta um ensaio do nosso amigo Mateus Soares de Azevedo, o que por si só seria um motivo de grande satisfação. No entanto, e para além disso, este mesmo ensaio teve a sua primeira publicação no Sabedoria Perene, onde pode ser lido na sua língua original, a bela língua portuguesa. Como se tudo isto não fosse bastante, todos os enamorados por esta língua, de ambos os lados do Atlântico, rejubilarão ao relembrar que neste maravilhoso texto de Mateus Soares de Azevedo é mencionada uma importante figura da nossa cultura, o Padre António Vieira. Para concluir, não posso deixar de referir que na sua passagem por Portugal em Abril, Mateus Soares de Azevedo apresentou na Associação Agostinho da Silva a sua interpretação do Sermão da Montanha.


The Spiritual Dimension of the Muslim Heritage
by Seyyed Hossein Nasr

The Test of the Veil
by Tom Cheetham

Sketching the Perennial Religion
by Patrick Laude

Children of Abraham
by Ernest C. McClain

Elixir of the Heart:Love as the First and Final Emotion
by John Herlihy

The Purposes of Time
by Charles D. Christopher

Shaykh Ahmadou Bamba’s Nonviolent Jihad of the Pen
by Michelle Kimball

Esoterism and Exoterism in the Sermon on the Mount
by Mateus Soares de Azevedo

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Jardim

"Make our path pleasant as a garden,
And be Thou, O Holy One, our goal!"

- Jalāl-ad-Dīn Rumi

"Torna o nosso caminho tão aprazível quanto um jardim,
E que sejas Tu, Senhor, o nosso destino!”

(tradução livre da versão em língua inglesa)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sacred Web 23

Está disponível o 23º número da revista Sacred Web, editada por Ali Lakhani.

Editorial: The Secularization of Faith in the Modern World
by M. Ali Lakhani

Unsolved Problems of Evolution
by Robert Bolton

The Vision of Existence in Hua-yen Buddhism
by Atif Khalil

Threads of Black and Gold: The History, Symbolism and Significance of Weaving
by John Herlihy

Esoteric Hermeneutics: The Role of Tradition in the Writings of Mircea Eliade and René Guénon
by Julian Droogan

Towards a Definition of “Initiation”
by Timothy Scott

Book Reviews:

The Corbin Trilogy
By Tom Cheetham
Reviewed by M. Ali Lakhani

The Sage Learning of Liu Zhi: Islamic Thought in Confucian Terms
By Sachiko Murata, William C. Chittick, and Tu Weiming

The Underlying Order and Other Essays
By Kathleen Raine
Edited and with an Introduction by Brian Keeble
Reviewed by M. Ali Lakhani

Invincible Wisdom: Quotations from the Scriptures, Saints, and Sages of All Times and Places
Compiled by William Stoddart
Reviewed by Samuel Bendeck Sotillos

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A origem do belo

Nada é tornado belo sem a presença e a participação da Beleza, qualquer que seja a via ou modo como é obtida (…) Através da Beleza toda as coisas belas se tornam belas.
Platão

Deus é belo, e Ele ama a beleza.
Maomé

Quando alguém se aproxima do Maravilhoso não sabe se a arte é o Tao ou se o Tao é a arte.
Hui Tsung

Os homens que amam o corpo nunca terão a visão da Beleza e do Bem. Meu filho, tão gloriosa é a beleza daquilo que não tem forma nem cor!
Hermes

Sempre que, no decurso de uma caçada, o caçador vermelho se depara com uma cena sublime ou de extraordinária beleza – uma nuvem negra de trovoada com um arco-íris radiante sobre a montanha, uma alva cascata no coração de um desfiladeiro verdejante; uma vasta pradaria tingida pelo rubro de um pôr-do-sol – ele pausa por um instante numa atitude de adoração.
Ohiyesa

Eles chamam-lhe o “unificador do belo,” pois tudo o que é belo se reúne a ele. Todas as coisas belas se reúnem naquele que sabe isto.
Chândogya Upanishad


em Withall N. Perry, “The Spiritual Ascent: A Compendium of the World's Wisdom" (Fons Vitae, 2008).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Arte e beleza

Como já deve ser do conhecimento dos leitores do Sabedoria Perene, durante os próximos meses que coincidirão com a preparação do próximo número da revista, vamos dar especial ênfase à arte, mais precisamente à visão que dela tiveram ou têm aqueles que se dedicam ao estudo da Tradição.

Alguns dos textos que vão surgir no próximo número já foram aqui publicados, nomeadamente os ensaios de Burckhardt e Keeble, bem como uma primeira parte do brilhante ensaio de A. Coomaraswamy; e outros, ou partes deles, irão continuar a ser publicados neste espaço.

Quero expressar a minha gratidão a todos os que têm enviado felicitações pela publicação da revista Sabedoria Perene; elas são sem dúvida uma grande motivação para a continuidade deste trabalho.

Finalmente, em antecipação ao que constituirá, em grande parte, a ambiência deste espaço nos próximos meses, deixo-vos algumas palavras de Schuon sobre a arte e a beleza.


Em primeiro lugar, é importante compreender que o propósito da arte não é, a priori, a indução de emoções estéticas, mas sim transmitir, em conjunto com estas, uma mensagem espiritual mais ou menos directa e, assim, sugestões que emanam da verdade libertadora e que a ela fazem retornar. Por definição a arte pertence à ordem formal, e quem diz perfeição de forma diz beleza; afirmar que a arte dispensa a beleza, sob o pretexto que o seu derradeiro fito é espiritual, é tão falso quanto afirmar o oposto, isto é, que a beleza é o único objectivo de uma obra de arte. A beleza envolve essencialmente um receptáculo e um conteúdo: em relação ao receptáculo, ele é representado pela conformidade com as leis da harmonia, ou a regularidade de estrutura, enquanto que o conteúdo é uma manifestação do “Ser” ou do “Conhecimento”, ou ainda da “Beatitude”, ou mais precisamente de uma combinação variada dos três elementos; são precisamente estes conteúdos que determinam a priori o receptáculo. Falar “pura e simplesmente” de beleza com um sentido pejorativo é uma contradição de termos, pois a beleza não pode senão manifestar a verdade ou um aspecto ou modo da mesma; se a harmonia sensível “liberta” à sua maneira e em determinadas condições, isto deve-se ao facto de ser verdade.

Retirado e traduzido de “Art from the Sacred to the Profane: East and West” de Frithjof Schuon, editado por Catherine Schuon. Publicado por World Wisdom, Inc., 2007.

domingo, 21 de junho de 2009

Revista Sabedoria Perene – Número 1

É com enorme satisfação que, precisamente na altura em que o blogue completa dois anos de existência, anunciamos finalmente a disponibilidade do primeiro número da revista Sabedoria Perene.

O texto publicado de seguida é o editorial deste primeiro número que pode ser obtido aqui.



EDITORIAL

A revista agora apresentada é o resultado de um trabalho desenvolvido, ao longo dos dois últimos anos, no espaço em linha que agora partilha o nome com esta publicação. No entanto, ela é o fruto de uma intuição mais antiga. Com efeito, mais de década e meia passou desde o momento em que as palavras de René Guénon e Frithjof Schuon começaram a produzir os seus efeitos de solve et coagula numa mente e numa alma tão afastadas do sagrado como a maioria das muitas que vagueiam alienadas por este mundo em ruínas. Recorrendo a uma excelente analogia de Cutsinguer, as suas obras providencialmente colocadas à minha disposição foram como o arado que revolve a terra para que o oxigénio a alimente e a torne fértil.

Desse precioso instante até ao momento em que escrevo estas palavras, muitos foram os caminhos tortuosos percorridos, as desilusões e os desgostos vividos, até que, de um modo subtil, uma certeza se apoderou de mim e as dúvidas começaram a dar lugar a intuições da Verdade. Para tal, muito contribuíram as precisas e preciosas definições metafísicas de René Guénon, poderosos antídotos para os muitos preconceitos e falsas ideologias que nos são impostas desde tenra idade. Esta certeza rapidamente deu lugar a muitas outras dúvidas, mas estas com carácter positivo.

Logo nas primeiras palavras vindas a público deste projecto, escolhidas para a introdução do blogue Sabedoria Perene, foi referido que este nasceu sobretudo de um processo de busca pessoal da Verdade. Não obstante, já nessa altura existia um desejo latente de divulgar em Portugal a corrente de pensamento conhecida por “tradicionalismo” ou “perenialismo”. Não vou abordar aqui o seu significado, pois este brotará naturalmente da leitura dos diversos ensaios incluídos neste primeiro número da Sabedoria Perene.

Com efeito, é precisamente esse o principal objectivo deste primeiro número, e a grande maioria dos ensaios incluídos procuram apresentar diferentes, embora convergentes, pontos de vista sobre esta corrente ou escola de pensamento. Esta intenção é sobretudo cumprida no bloco de artigos da revista agrupados sob o título “Tradição e Sophia Perennis”, no qual se procurou clarificar de forma inequívoca os significados destas duas expressões. Apesar da excelência de todos os ensaios aí apresentados, não se pode deixar de salientar a inclusão do famoso “O que é a Tradição?” do ilustre Seyyeid Hossein Nasr e o maravilhoso texto de Reza Shah-Kazemi sobre a função espiritual da Tradição, onde expõe longa e claramente a perspectiva perenialista em relação à filiação religiosa, às vias espirituais e à oração. De semelhante importância são os já consagrados artigos de Schuon sobre a Filosofia Perene e a Religio Perennis.

Ao chegar a este bloco de textos, o leitor interessado já terá lido o ensaio seleccionado para “Introdução” à revista. Este importante texto, escrito há quase duas décadas, não só nos introduz a muitos dos temas chave do pensamento perenialista, como nos apresenta brilhantemente os seus três principais intérpretes e fundadores, René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon.

São precisamente estes três sábios, cujo advento o mundo moderno não conseguiu evitar, os ‘alvos’ do bloco “In memoriam” que antecipa o encerramento deste primeiro número. Procurar-se-á manter esta forma de conclusão em futuros números, prestando homenagem às grandes iluminárias desta corrente de pensamento que procura fazer emergir da escuridão este mundo dessacralizado.

Antes deste bloco irá o leitor encontrar ainda “Estudos da Tradição”, um conjunto mais heterogéneo de artigos que procura apresentar e expor ensinamentos, métodos espirituais, simbolismo e outras facetas das tradições religiosas do mundo; objectivo aliás partilhado com a própria revista. Apesar de não serem abordadas todas as tradições religiosas, o considerável número de brilhantes estudos de vários aspectos dessas tradições oferece uma maravilhosa amostra do dedicado trabalho de homens e mulheres que partilham um modo especial de olhar e aceitar a Realidade. Destaca-se o artigo gentilmente cedido por Mateus Soares de Azevedo, com o qual se cumpre um dos objectivos desta revista, a publicação de artigos originais de autores de língua portuguesa.

No último bloco deste número, denominado “Fragmentos de espiritualidade”, são oferecidas algumas pérolas de sabedoria espiritual de várias tradições da humanidade, aquelas que como partilhei uma vez no blogue, fazem brotar “subtis lágrimas, … quando o corpo e a alma são invadidos por Essa Infinitude que não cabe em parte alguma”.

Na abordagem das diversas tradições reveladas da humanidade em futuros números da Sabedoria Perene, que se pretende iniciada no contexto de cada uma delas, não faltarão estudos relativos às artes tradicionais e às ciências que delas brotaram. Essa abordagem ou abordagens tradicionais que se procurarão desvendar nos artigos seleccionados, resultam do recurso às metodologias consagradas nessas mesmas tradições, como por exemplo, a Hermeneia (Grega), a Nirukta (Hinduísmo), a Lectio Divina (Cristianismo), as práticas cabalísticas como a gematria, notariqon, e temura, e as ciências islâmicas das letras, ilm alhuruf.

O leitor menos conhecedor dos ensinamentos oferecidos pelos três grandes pensadores que deram origem a esta corrente de pensamento compreenderá, ao percorrer os preciosos ensaios constantes nesta compilação, que esta revista é sobretudo direccionada para aqueles que reconhecem uma verdade fundamental na “unidade transcendente das religiões” e que buscam a via do conhecimento (da pura gnose). Ela dirige-se ao homem como um todo, “feito à imagem de Deus”, e ao seu Intelecto, o qual não existe sem a presença do Amor e da Beleza que abrem as portas para o Sagrado. “A beleza é o esplendor da Verdade”, diz Frithjof Schuon.

Apresentado de forma sumária o presente número da Sabedoria Perene, interessa revelar alguns dos objectivos para números futuros. Em primeiro lugar, é intenção dos editores que esta venha a ter um carácter temático. Assim, no próximo número será dada especial ênfase à arte, bem como à sua ligação ao símbolo. Para um número seguinte está prevista uma abordagem da crise do mundo moderno e dos problemas ambientais.

Em segundo lugar, é nosso desejo que a revista inclua, para além de traduções, artigos originais escritos por autores lusófonos. Este objectivo foi alcançado logo neste primeiro número com a contribuição de Mateus Soares de Azevedo, o que não deixa de ser um óptimo prenúncio para o futuro. Os editores apresentam assim o convite para o envio de trabalhos que desenvolvam os temas propostos recorrendo às metodologias e abordagens tradicionais que sobressaem destas páginas.

Para concluir este editorial refere-se um aspecto da maior importância. Interessa ao leitor saber que as traduções aqui apresentadas são da exclusiva responsabilidade dos tradutores e que não foram alvo de revisão por parte dos autores dos respectivos artigos. Deverá também ter presente que, apesar do esforço dispensado na sua revisão, as traduções são fruto de uma dedicação pessoal e não de um trabalho profissional, pelo que não estarão certamente livres de conter erros ou de exigir mais talento. Pede-se a complacência do leitor, por certo exigente, e deixa-se a promessa de uma entrega total e busca de aperfeiçoamento. No fundo, por imperfeita que seja, esta é uma oferta do fundo do Coração a todos aqueles que procuram a Verdade. A complexa arte de tradução, como brilhantemente apresenta Ali Lakhani num dos artigos que integram a revista é, na verdade, um acto de entrega total, ela “é, em ultima análise, a arte de auto-interpretação. É identificar a fonte de toda a criatividade com a Origem e a sua localização no interior do Centro espiritual de nós próprios. Este Centro espiritual de cada um, para o qual e a partir do qual tudo o que existe está conectado como que através de uma rede sagrada, é o Coração.”

Miguel Conceição
Lisboa, 12 de Junho de 2009

Revista Sabedoria Perene – Número 1

(clique sobre a imagem para descarregar "pdf")


Editorial

Apresentação

Introdução

A renovação do interesse na TradiçãoWhitall N. Perry

Tradição e Sophia Perennis

A Filosofia PereneFrithjof Schuon
Religio PerennisFrithjof Schuon
O que é a Tradição?Seyyed Hossein Nasr
Compreender a palavra “Tradição”Ali Lakhani
A função espiritual da Tradição: uma perspectiva perenialistaReza Shah-Kazemi
Carta aberta sobre a Tradição (resumo) – James Cutsinger

Estudos da Tradição

O ponto de partida de René Guénon, parte IMiguel Conceição
Esoterismo islâmicoRené Guénon
Ritos e símbolosRené Guénon
Gnose cristãFrithjof Schuon
Mulheres de Luz no Sufismo – Sachiko Murata
Sobre a traduçãoAli Lakhani
Religião, Ortodoxia e IntelectoWilliam Stoddart
Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XXMateus Soares de Azevedo
Nembutsu como ‘Lembrança’Marco Pallis

In memoriam

René GuénonMartin Lings
A Tradição Primordial: Um tributo a Ananda CoomaraswamyRanjit Fernando
Um sábio para o nosso tempo: O papel e a obra de Frithjof SchuonHarry Oldmeadow

Fragmentos de espiritualidade

Pitágoras – São Simeão, o Novo Teólogo – Padres Jean-Pierre de Caussade e Loius
Lallement – Frithjof Schuon – Black Elk – Bhagavan Sri Ramana Maharshi – Jalâluddîn Rumi


Fontes dos textos

Breves notas sobre os autores

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