domingo, 28 de março de 2010
Palavras Trovão
terça-feira, 23 de março de 2010
Revista Sabedoria Perene - Número 2
Editorial
Doutrina tradicional da arte
Revista Sabedoria Perene - Número 2
quarta-feira, 17 de março de 2010
Anúncio - Revista Sabedoria Perene 2
Editorial
Exposição tradicional da arte
quinta-feira, 11 de março de 2010
A Dança de Shiva

As canções que são cantadas e os passos variados,
A forma assumida pelo nosso Gurupara Dançante –
Descobre isto dentro de ti, e então as tuas amarras desaparecerão.”
“Quando aí repousam, eles (os Yogis que atingem o mais alto cume da paz) perdem-se de si próprios e tornam-se inactivos… Onde os inactivos residem é o puro Espaço. Onde os inactivos se movimentam é a Luz. O que os inactivos sabem é o Vedânta. O que os inactivos encontram é o sono profundo em que estão imersos.”
Eu fiz um do meu coração,
Para que Tu, a Negra, do campo da cremação a caçadora,
Possas dançar a Tua dança eterna.
Nada mais está no meu coração, ó Mãe;
Dia e noite resplandece a pira funerária;
As cinzas dos mortos, por todo o lado espalhadas,
Eu preservei contra a Tua chegada,
Com a Mahakala, conquistadora da morte, sob os teus pés
Entrarás tu, dançando a Tua dança rítmica,
terça-feira, 9 de março de 2010
Princípios e critérios da arte universal
segunda-feira, 1 de março de 2010
A Porta Real
* * *

Foi construída, entre os anos 1140 e 1150, a passagem tripartida na frente ocidental da catedral de Chartres. Esta sempre foi chamada de Porta Real, porque as figuras erectas nas jambas em parte representam reis e rainhas do Antigo Testamento.
O estilo desta porta é ainda romanesco no seu equilíbrio repousado e, contudo, é já gótico na medida em que o repouso das suas partes já não descarrega para a terra, mas para cima, como se essas partes subissem ao alto à semelhança de chamas imóveis a arder. As formas ainda são austeras e encerradas em si próprias; entregam-se tão pouco à luz incerta que muda constantemente do amanhecer ao anoitecer, como aos movimentos incertos da alma humana. Áreas claras e escuras são criadas por superfícies lisas e ásperas (elas próprias caneladas, entalhadas ou quebradas por ornamentos), com um efeito algo semelhante a cores, e na realidade, a dada altura, estiveram de facto revestidas com ouro e com outras cores. O revestimento original já desapareceu, mas um ainda subsistente esmalte – uma leve e melódica suavidade a encerrar a crueza da pedra – cobre as superfícies e as articulações.
Do ponto de vista do seu significado mais profundo, as imagens da triplicada Porta Real representam a mais completa expressão de doutrina que alguma vez foi incorporada nas paredes e nos apoios de uma passagem. Cristo aparece três vezes, cada vez no meio de um tímpano: por cima da entrada do lado direito, vemo-lo recentemente descido à terra, sentado no regaço de Sua Mãe entronizada; por cima da entrada do lado esquerdo, Ele ascende ao Céu, rodeado por anjos; e no tímpano central, Ele revela-se a Si mesmo na Sua eterna majestade. A Natividade parece indicar a natureza humana de Cristo, e a Ascensão a Sua natureza Divina; mas a referência imediata é simplesmente à Sua vinda e ida, ao facto de que Ele é o alfa e o ómega da existência terrena, dois extremos entre os quais permanece Sua eterna majestade, tal como o momento presente entre ontem e amanhã. Estes são os três diferentes significados da Porta – a Porta que é Cristo Ele mesmo.
A parte inferior da passagem integral representa a terra, e a parte superior o Céu. Assim é porquanto as figuras nas jambas da porta, ainda que os seus nomes sejam desconhecidos, são certamente representantes do Antigo Testamento, e os antepassados terrestres da Encarnação Divina. À semelhança da Encarnação, eles suportam o Céu dos tímpanos. Entre estes domínios inferior e superior, e interrompido apenas pelas próprias portas de entrada, percorre a delicada fiada de capitéis, nos quais todos os principais incidentes na vida de Cristo são sucessivamente retratados: é como a linha de demarcação entre dois mundos.
Que as figuras nas jambas pareçam tão altas e delgadas significa que elas próprios são os “pilares da igreja”, às quais S. Paulo se refere nas Escrituras. Durand de Mende escreve: “Os pilares da Igreja são os bispos e os doutos eclesiásticos que mantêm a Igreja erecta (…)”. Estritamente falando, as jambas e as figuras com elas associadas representam uma espécie de ante-câmara, precisamente como faz o Antigo Testamento em relação ao Novo. Numa porta de passagem semelhante, em Le Mans, esta divisão entre ante-câmara e corpo principal da igreja é clara: os pilares da parede frontal estão todos decorados com personalidades do Antigo Testamento, enquanto as jambas propriamente ditas estão decoradas com estátuas dos Apóstolos. Apenas os últimos pertencem ao “corpo” da Igreja.
(...)
O homem medieval mantinha sempre a ordem mais profunda das coisas em mente.
O tímpano da porta central é mais largo e mais alto do que os do lado direito e do lado esquerdo e tem apenas duas zonas, enquanto os das portas laterais têm três. No tímpano do lado direito, as imagens sucessivas da mãe humana, da apresentação sacrificial no templo, e da Rainha Celeste, estão posicionadas cada qual em cima da outra; no tímpano do lado esquerdo, onde Cristo ascende, uma hoste de anjos, à semelhança de múltiplos relâmpagos saídos de uma nuvem tempestuosa, descendem sobre os discípulos reunidos abaixo.
No tímpano da porta principal, a imagem da eterna majestade de Cristo, a qual foi retratada em tantas portas de igrejas Romanescas, encontra a sua mais harmoniosa representação. É possível inscrever todas as figuras geométricas neste tímpano; será sempre em consonância com a ordenação das cinco figuras e com a onda de movimentos que saem para fora da figura central e que regressam a ela. Entre a curva das arquivoltas e a auréola em forma de amêndoa que envolve Cristo – estas formas que separam e reúnem – um fôlego ou respiração avança e recua, dando à imagem integral a sua vida.
Cristo está rodeado pelas quatro criaturas descritas por Ezequiel e João: o leão, o touro, a águia e o homem alado. Estes são interpretados como os protótipos eternos dos quatro evangelistas e a sua fantástica forma animal serve para elevar a representação antropomórfica da Divindade no seu meio a um nível supra-humano.
Na arquivolta mais interna das três, anjos rodeiam a majestade de Cristo, e os vinte e quatro anciãos do Apocalipse, que aparecem nas duas arquivoltas exteriores, erguem os olhos para Ele. No lintel, os doze apóstolos apresentam-se em grupos de três, e à sua direita e esquerda estão duas testemunhas proféticas, talvez Elias e Henoc, que estão para regressar no fim do tempo.
Porque é que o nascimento de Cristo está retratado sobre a entrada do lado direito, que fica a sul do eixo principal da igreja, e a ascensão de Cristo sobre a entrada do lado esquerdo, a norte do eixo principal, dado que o norte e o sul, segundo a interpretação litúrgica, correspondem respectivamente ao Antigo e ao Novo Testamento? Presumivelmente a posição física das portas encerra uma alusão ao antigo símbolo cósmico da januae coeli, as duas portas dos céus, conhecidas para o período Romano tardio. O Céu tem duas portas, nomeadamente os dois solstícios; através da “porta do Inverno”, o “novo sol” entra no mundo, e através da “porta do Verão”, a plenitude da luz deixa o mundo. Segundo uma visão antiga das coisas, mencionada por Platão, os deuses entram neste mundo pela primeira porta, e saem dele pela segunda. A localização do solstício de Inverno, que ocorre durante a época de Natal, fica nos céus do sul, e a localização do solstício de Verão nos do norte; pareceria que a ordem representativa na porta ocidental da Catedral de Chartres é uma referência directa a isto: através da porta a sul a Luz Divina descende ao mundo; pela do norte regressa ao invisível. Entre os dois portões do Céu permanece o eixo imutável do mundo; a isto corresponde a porta central.
(...)
Na ciência medieval, é menos uma questão de conhecer muitas coisas, do que de ter uma visão “integral” da existência. O seu método foi concebido para tudo menos para a investigação do mundo material e para o avanço da tecnologia. Ao contrário: possuía os meios para abrir o olho espiritual à beleza das proporções matemáticas, e o ouvido espiritual à música das esferas.
Quando hoje dizemos “forma”, referimo-nos apenas aos aspectos visíveis e mensuráveis das coisas, especialmente aos seus contornos espaciais. Para os mestres medievais, por outro lado – para os académicos e, num certo sentido, também para os artistas – “forma” era o somatório das propriedades ou qualidades essenciais de uma coisa; era o que constituía a unidade interior do objecto manifestado. “As formas das coisas,” escreve Thierry de Chartres, “estão, fora e para além da matéria, contidas no Espírito Divino. Aí, na sua plenitude simples e imutável, existe a verdadeira forma. Mas aquelas que, de uma certa e não totalmente explicável maneira, estão impregnadas na matéria, são por assim dizer efémeras e não são formas no verdadeiro sentido. Elas são apenas algo semelhante a reflexos ou representações de verdadeiras formas.”
Por conseguinte, a verdadeira forma não é nem limitável nem mutável; é antes como um raio do Espírito criativo que, descendendo na matéria, empresta-lhe forma passageiramente. Uma analogia para isto é a criação artística: assim como o artista pode mais ou menos completamente, dependendo da sua humildade, imprimir num material a imagem espiritual que carrega dentro de si, também a essência de uma coisa se pode manifestar mais ou menos perfeitamente nessa coisa particular.
Esta forma de olhar para as coisas é geralmente chamada de platónica, e por isso os homens que ensinavam em Chartres no início do século XII – tais como Bernard, Gilbert de la Porée, Guilherme de Conques, e Thierry (que, exactamente na altura em que a Porta Real estava a ser construída, era chanceler da escola da catedral) – eram todos platonistas. Seria contudo injusto atribuir simplesmente o seu pensamento a uma escola filosófica; nos seus trabalhos há um elemento que transcende o pensamento como tal, há nomeadamente uma contemplação espiritual genuína que, apesar de estar longe de depender de palavras, tem todavia que fazer uso delas para se comunicar a si mesma.
De acordo com o ponto de vista platónico, toda a existência emana hierarquicamente da Fonte Divina una, que não é nem diminuída nem alterada por esse facto. Pode esta perspectiva ser reconciliada com a história da criação relatada na Bíblia? Existe de facto uma contradição entre encarar uma luz que brilha porque está na sua natureza brilhar (e que não se consegue conceber de mais nenhum modo do que a brilhar), e encarar um acto criador que, num determinado momento, chama à existência algo que não estava lá previamente. Os mestres de Chartres perguntaram-se a eles mesmos esta questão e também responderam a ela. Quando, com Guilherme de Conques, se olha para o tempo ele mesmo como algo criado, a aparente contradição desaparece. Antes da criação do mundo, Deus não estava no tempo: ele estava na Eternidade, que fica para além de todo o tempo, no eterno Agora. Não se pode dizer que Deus criou o mundo num dado tempo, pois o tempo ele mesmo começou com o mundo; do ponto de vista deste mundo, a existência (que brilha ou irradia para diante a partir de Deus) aparece como se tivesse começado no tempo. Numa tal ponte de ligação de duas imagens aparentemente incompatíveis, pode-se ver o carácter mais do que meramente mental da contemplação espiritual.
A arte da Porta Real, na sua inimitável e inultrapassável reconciliação de distância estelar e proximidade viva, é nascida do mesmo espírito.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Titus Burckhardt e a Escola Perenialista

***
Na era da ciência moderna e da tecnocracia, Titus Burckhardt foi um dos mais notáveis expositores da verdade universal, no domínio da metafísica bem como no da cosmologia e no da arte tradicional. No mundo do existencialismo, da psicanálise e da sociologia, ele foi uma das principais vozes da philosophia perennis, aquela “sabedoria incriada” que está exposta no Platonismo, no Vedanta, no Sufismo, no Taoísmo e em outros ensinamentos esotéricos ou sapienciais autênticos. Em termos literários e filosóficos, ele foi um eminente membro da “escola tradicionalista” no século XX.
Os dois originadores da escola perenialista foram o francês René Guénon (1886-1951) e o alemão Frithjof Schuon (1907-1998). Pode ter interesse notar de passagem que outras duas célebres escolas de sabedoria possuíram uma dupla de originadores, nomeadamente, aquelas associadas a Sócrates e Platão em Atenas no século V a.C., e a Rûmî e Shams ad-Dîn Tabrîzî na Turquia do século XIII. Ainda outro exemplo exaltado de colaboração dupla foi o de Hônen e Shinran, fundadores da escola da Terra Pura do Budismo, no Japão dos séculos XII-XIII.
O grande predecessor-cum-originador da escola tradicionalista foi René Guénon (1186-1951). Guénon retraçou a origem do que ele chamou de desvio moderno ao fim da Idade Média e à chegada da Renascença, aquela irrupção cataclísmica de secularização, quando o nominalismo venceu o realismo, o individualismo (ou humanismo) substituiu o universalismo, e o empiricismo baniu o escolasticismo. Uma parte importante da obra de Guénon foi portanto sua crítica do mundo moderno de um ponto de vista implacavelmente “platónico” ou metafísico. Essa crítica tomou a forma de dois volumes magistrais, A Crise do Mundo Moderno e O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. O lado positivo da obra de Guénon foi sua exposição dos princípios imutáveis da metafísica universal e da ortodoxia tradicional. Sua principal fonte foi a doutrina shankariana do “não-dualismo” (advaita), e o seu principal trabalho, sob este aspecto, é O Homem e seu Devir segundo o Vedanta. Contudo, ele também se voltou prontamente para outras fontes tradicionais, dado que considerava todas as formas tradicionais como diferentes expressões da Verdade una e supra-formal. Outro aspecto importante da obra de Guénon foi a sua brilhante exposição do conteúdo intelectual dos símbolos tradicionais, fosse qual fosse a religião de origem. Neste sentido, ver o seu livro Symboles fondamentaux de la Science sacrée.
É importante notar que os escritos de Guénon, apesar de serem de uma importância capital, tinham um carácter puramente “teórico” e não tinham pretensão de lidar com a questão da realização. Por outras palavras, a sua preocupação era em geral a intelectualidade (ou a doutrina), não directamente a espiritualidade (ou o método).
O sol ergueu-se para a escola tradicionalista com o surgimento da obra de Frithjof Schuon (nascido em Basileia em 1907). Meio século antes, um tomista inglês escreveu a respeito deste autor: “A sua obra tem a autoridade intrínseca de uma inteligência contemplativa.” Mais recentemente, um respeitado académico norte-americano declarou; “Em profundidade como em amplitude, [ele é] o cume de nosso tempo; não conheço nenhum pensador vivo que possa rivalizar com ele.” T.S. Eliot, poeta inglês e prémio Nobel da literatura, teve uma impressão similar. A respeito do primeiro livro de Schuon, ele escreveu em 1953: “Não encontrei obra mais impressionante no estudo comparativo da religião do Oriente e do Ocidente.”
Schuon escreveu mais de vinte livros filosóficos em francês e, a caminho do fim da sua vida, um ciclo de mais de 3.000 poemas didácticos no seu alemão nativo. Os seus trabalhos filosóficos começaram a aparecer durante a última parte da vida de Guénon. Até seus últimos dias, Guénon costumava referir-se a ele (por exemplo, nas páginas de Études Traditionelles) como “nosso eminente colaborador”. Schuon continuou, de forma ainda mais notável, a perspicaz e irrefutável crítica do mundo moderno, e alcançou alturas insuperáveis na sua exposição da verdade essencial – iluminadora e salvífica – que está no coração de toda forma revelada. Schuon chamou essa verdade supra-formal de religio perennis. Este termo, que não implica uma rejeição dos termos similares philosophia perennis e sophia perennis, contém, não obstante, a indicação de uma dimensão adicional que está infalivelmente presente nos escritos deste autor. Esta dimensão é a de que a compreensão intelectual engendra uma responsabilidade espiritual, de que a inteligência deve ser complementada pela sinceridade e pela fé, e de que o “ver” (em altura) implica o “crer” (em profundidade). Por outras palavras, quanto maior nossa compreensão da verdade essencial e salvadora, maior nossa obrigação de nos esforçarmos em direcção à “realização” interior ou espiritual.
A obra de Schuon começou como um abrangente estudo geral, cujo próprio título serve para definir o cenário: A Unidade Transcendente das Religiões. Seus trabalhos posteriores incluem: La gnose, langage du Soi (sobre o Hinduísmo); Trésors du Bouddhisme; Comprendre l'Islam; Castes et races, Logique et Transcendence e l’Esotérisme comme Principe et comme Voie, um amplo compêndio de iluminação filosófica e espiritual. O seu longo ciclo poético em alemão, em que apenas meros fragmentos foram publicados até ao momento, compreende inúmeros aspectos sobre doutrina metafísica, método espiritual, o papel da virtude e a função da beleza – não apenas em termos genéricos, mas com excepcional intimidade, detalhe, e precisão. Estes poemas exibem um incrível grau de perspicácia, profundidade e compaixão.
A prossecução da obra de Guénon e de Schuon foi assumida por dois ilustres continuadores: o indiano Ananda K. Coomaraswamy (1877-1947), que escreveu em inglês, e o suíço alemão Titus Burckhardt, que escreveu tanto em alemão como em francês.
Ananda Coomaraswamy, um destacado académico e distinto Curador da Colecção Oriental do Museu de Belas Artes de Boston, era já uma autoridade sobre a arte e a estética, tanto do Oriente como do Ocidente, quando encontrou as obras de Guénon. Ainda que este encontro tenha ocorrido relativamente tarde na sua vida, Coomaraswamy ficou profundamente convencido pelo ponto de vista tradicional, tal como estava expresso nos livros de Guénon. A sua vasta erudição permitiu-lhe demonstrar em fascinante detalhe o múltiplo florescimento das civilizações tradicionais erguidas das grandes revelações. Os primeiros principais trabalhos de Coomaraswamy incluem Medieval Sinhalese Art (1908), The Dance of Shiva (1912), Rajput Paintings (1916), e History of Indian and Indonesian Art (1927). Entre os livros mais importantes do seu período posterior estão Christian and Oriental or True Philosophy of Art (1943), Figures of Speech or Figures of Thought (1946) e Am I My Brother’s Keeper? (1947).
Devemo-nos voltar agora para o outro continuador, Titus Burckhardt, mas vamos primeiro olhar mais de perto para o que é entendido pela expressão religio perennis. Um dos princípios fundamentais da religio perennis é que, no centro de cada religião, existe um núcleo de verdade (sobre Deus, o homem, a oração, e a salvação) que é idêntico. Por outras palavras, apesar da pluralidade das formas, existe uma essência comum. Adicionalmente, dentro de cada religião, existe também um meio de salvação, que é essencialmente um caminho de união. Esta doutrina da unidade essencial ou transcendente tem a sua fonte na metafísica universal, a qual (em termos vedânticos) é fundamentalmente discernimento entre o Absoluto (Âtma) e o Relativo (Maya). De acordo com esta doutrina – diversamente representada por Shankara (Hinduísmo), Platão (Grécia), Eckhart (Cristianismo), e Ibn ‘Arabî (Islão) – apenas a Essência Divina (Supra-Ser) é Absoluta, enquanto o Criador ou Deus Pessoal (“Ser”), como primeira determinação-própria da Essência Divina (“Supra-Ser”), está já dentro do domínio do relativo. O Criador, contudo, é “absoluto” no que respeita à sua criação, e pode nesta perspectiva ser qualificado como “o relativamente Absoluto”. O Deus Pessoal, como originador da criação, é “a prefiguração do relativo no Absoluto”. Dentro da própria criação, existe uma “reflexão do Absoluto no relativo”, e isto é o Avatâra; o Profeta; o Salvador; é também a Verdade, a Beleza, a Virtude; Símbolo e Sacramento. Isto leva-nos à doutrina do Logos, com as suas duas faces, criada e incriada: A “prefiguração do relativo no Absoluto” (o Criador ou Deus Pessoal) é o Logos incriado; a “reflexão do Absoluto no relativo” (o Avatâra; Símbolo, ou Sacramento) é o Logos criado. Isto é já uma indicação do que é entendido por um meio de salvação: o aderente religioso, ao unir-se sacramentalmente com o Logos criado, encontra aí um meio de se unir com o Incriado: nomeadamente, Deus como tal.
Podemos agora voltar a Titus Burckhardt. Embora tenha nascido em Florença, Burckhardt era o herdeiro de uma família patrícia da Basileia. Ele era sobrinho-neto do famoso historiador da arte Jacob Burckhardt e filho do escultor Carl Burckhardt. Um ano mais novo que Frithjof Schuon, Titus compartilhou com este seus primeiros tempos de escola na Basileia, por volta da Primeira Guerra Mundial. Aquele foi o começo de uma amizade íntima e de um relacionamento intelectual e espiritual profundamente harmonioso, que duraria toda uma vida.
A principal exposição metafísica de Burckhardt, complementando com beleza a obra de Schuon, foi Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam. Esta é uma obra-prima intelectual que analisa de forma abrangente e com precisão a natureza do esoterismo como tal. Ela começa tornando claro, com uma série de definições lúcidas e económicas, o que é e o que não é o esoterismo, depois examina as bases doutrinais do esoterismo islâmico ou Sufismo, e termina com uma descrição inspirada da “alquimia espiritual” ou caminho contemplativo que leva à realização espiritual. Este livro estabeleceu claramente Burckhardt como o principal expositor, depois de Schuon, da doutrina intelectual e do método espiritual.
Burckhardt devotou uma grande parte de seus escritos à cosmologia tradicional, que ele via em certo sentido como a “serva da metafísica”. Ele apresentou formalmente os princípios nela envolvidos num artigo magistral e conciso, “A Perspectiva Cosmológica”, publicado pela primeira vez em francês em 1948. Muito depois – numa série de artigos publicados tanto em francês como em alemão em 1964 – ele cobriu o campo cosmológico de forma realmente completa, e também fez muitas e detalhadas referências aos principais ramos da ciência moderna.
Não dissociado do seu interesse pela cosmologia, Burckhardt tinha uma afinidade particular com a arte e o artesanato tradicionais e tinha conhecimento e experiência na avaliação da arquitectura, da iconografia e de outras artes e ofícios tradicionais. Em particular, ele dedicou-se a compreender e explicar como tais artes e ofícios tinham podido – e podem – ser proveitosas espiritualmente, tanto como actividades cheias de significado que, em virtude de seu simbolismo inerente, comportam uma mensagem doutrinal, como enquanto suportes de realização espiritual e meios de graça. Ars sine scientia nihil. Aqui, é claro, trata-se da scientia sacra e da ars sacra, que são os dois lados de uma mesma moeda. Este é o domínio das iniciações de ofícios das várias civilizações tradicionais, e especialmente de coisas tais como, na Idade Média, a maçonaria e a alquimia operativas. De fato, a principal obra de Burckhardt no campo da cosmologia foi seu livro Alchemie, Sinn- und Weltbild (Alquimia: significado e imagem do mundo), uma apresentação brilhante da alquimia como expressão de uma psicologia espiritual e de um suporte intelectual e simbólico para a contemplação e a realização.
O principal trabalho de Burckhardt no campo da arte foi Principes et Méthodes de l’Art Sacré (Princípios e Métodos da Arte Sacra), que contém vários capítulos maravilhosos sobre a metafísica e a estética do Hinduísmo, do Budismo, do Taoísmo, do Cristianismo e do Islão, e termina com uma útil e prática visão da situação contemporânea intitulada “A decadência e a renovação da arte cristã”.
Durante as décadas de 1950 e 1960, Burckhardt foi o director artístico da editora Urs Graf, de Lausanne e Olten. Sua principal actividade durante aqueles anos foi a produção e publicação de toda uma série de fac-símiles de belos manuscritos medievais decorados com iluminuras, especialmente manuscritos celtas dos Evangelhos, como o Book of Kells e o Book of Durrow (do Trinity College, Dublin) e o Book of Lindisfarne (da British Library, Londres). Este foi um trabalho pioneiro da mais elevada qualidade e um feito editorial que imediatamente teve excelente aceitação tanto dos especialistas como do público em geral.
Sua produção do magnífico fac-símile do Book of Kells rendeu-lhe um notável encontro com o Papa Pio XII. A editora Urs Graf queria dar de presente ao papa um exemplar do livro, e decidiu-se que ninguém melhor para isso do que o director artístico Burckhardt. Aos olhos do papa, Burckhardt era um cavalheiro protestante da Basileia. O papa concedeu-lhe uma audiência privada em sua residência de verão em Castelgandolfo. Quando, na sala de audiências, a figura do papa, todo vestido de branco, subitamente apareceu, ele deu as boas-vindas ao seu visitante dizendo em alemão: “Sind Sie also Herr Burckhardt?” (“Então o senhor é Herr Burckhardt?”). Burckhardt curvou-se e, quando o papa lhe ofereceu a mão com o Anel do Pescador, tomou-a respeitosamente na sua. Contudo, como não-católico, Burckhart beijou, não o anel (como é costume entre os católicos), mas os dedos do papa. “O que o papa, com um sorriso, permitiu”, disse depois.
Juntos, os dois conversaram sobre a Idade Média e sobre os insuperavelmente belos manuscritos dos Evangelhos que naquela época tinham sido produzidos com tanto amor e maestria. No final da audiência, o papa deu sua bênção: “Do meu coração eu abençoo o senhor, sua família, seus colegas e seus amigos.”
Foi durante aqueles anos na editora Urs Graf que Burckhardt coordenou uma interessante série de publicações com o título geral de Stätten dês Geistes (“Cidadelas do Espírito”). Tratava-se de estudos históricos-cum-espirituais de certas manifestações de civilização sagrada, e cobriam temas como o Monte Athos, a Irlanda céltica, o Sinai, Constantinopla e outros lugares. O próprio Burckhardt contribuiu para a colecção com os livros Siena, Cidade da Virgem, Chartres e o Nascimento da Catedral, e Fez, Cidade do Islão. Siena é um relato iluminador do apogeu e queda de uma cidade cristã que, arquitecturalmente falando, continua até hoje a ser como que uma jóia gótica. Mais interessante de tudo, no entanto, é a história de seus santos. Burckhardt dedica muitas de suas páginas a Santa Catarina de Siena (que nunca hesitou em repreender um papa, quando sentiu que isso era necessário) e a São Bernardino de Siena (que foi um dos maiores praticantes – e pregadores – católicos do poder salvífico da invocação do Santo Nome). Chartres é a história do “idealismo” (no melhor sentido do termo) que está por trás da concepção e da realização prática das catedrais medievais – os monumentos ainda inteiros de uma idade de fé. Em Chartres, Burckhardt expõe os conteúdos intelectuais e espirituais dos diferentes estilos arquitectónicos – não apenas distinguindo entre o Gótico e o Romanesco, mas mesmo entre as diferentes variantes do Romanesco. É um exemplo ofuscante do que significa o discernimento intelectual.
Um das várias obras-primas de Burckhardt é sem dúvida Fez, Cidade do Islão. Quando jovem, na década de 1930, Burckhardt passou alguns anos em Marrocos, onde criou uma forte amizade com vários notáveis representantes da até então intacta herança espiritual do Magrebe. Este foi claramente um período formativo da vida de Burckhardt, e muito da sua mensagem e do seu estilo subsequentes teve origem nestes primeiros anos. Já naquela época tinha dedicado muito de seu tempo a escrever (coisas não imediatamente publicadas) e foi só no final da década de 1950 que esses escritos e essas experiências amadureceram para formar um livro definitivo e magistral. Em Fez, Cidade do Islão, Burckhardt conta a história de um povo e sua religião – uma história que foi frequentemente violenta, frequentemente heróica, e por vezes santa. Por toda ela corre o fio da piedade e da civilização islâmica. Estas duas Burckhardt expõe com mão segura e esclarecedora, contando muitos dos ensinamentos, parábolas e milagres dos santos de muitos séculos, e demonstrando não apenas as artes e ofícios da civilização islâmica, mas também suas ciências “aristotélicas” e suas habilidades administrativas. Há de fato muito a aprender sobre o governo dos homens e das sociedades com a apresentação penetrante de Burckhardt dos princípios por trás das vicissitudes dinásticas e tribais – com suas falhas e seus sucessos.
De espírito aparentado a Fez é outro dos trabalhos maduros de Burckhardt, A Cultura Moura na Espanha. Como sempre, trata-se de um livro de verdade e de beleza, de ciência e de arte, de piedade e de cultura tradicional. Mas nesta obra, talvez mais que em todas as outras, trata-se do romance, da cavalaria e da poesia da vida pré-moderna.
Durante seus anos de juventude em Marrocos, Burckhardt mergulhou na língua árabe e assimilou os clássicos do Sufismo na sua forma original. Anos depois, compartilharia esses tesouros com o público leitor por meio de traduções de Ibn Arabî e Jîlî . Um de seus mais importantes trabalhos de tradução foi o das cartas espirituais do renomado xeque marroquino do século dezoito Mulay al-‘Arabî ad-Darqâwî. Estas cartas constituem um clássico espiritual e são um precioso documento de aconselhamento espiritual prático.
O último grande trabalho de Burckhardt foi seu amplamente festejado e impressionante Arte do Islão. Aqui, os princípios intelectuais e o papel espiritual da criatividade artística em suas formas islâmicas são ricamente e generosamente mostrados a nós. Com esse nobre volume, o corpus literário ímpar de Titus Burckhardt chega ao seu fim.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Palavras Trovão
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Uma oração dos Índios americanos
Ó Grande Espírito!
Cuja voz oiço nos ventos e cujo sopro dá vida a todo o mundo.
Ouve-me! Sou pequeno e débil.
Preciso da tua força e sabedoria.
Deixa-me caminhar na Beleza, e faz com que os meus olhos
contemplem para todo o sempre o pôr-do-sol vermelho e púrpura.
Faz com que as minhas mãos respeitem todas as coisas que criaste
e que a minha audição esteja atenta para ouvir a tua voz.
Torna-me sábio para que possa compreender
as coisas que ensinaste ao meu povo.
Deixa-me aprender as lições que escondeste
em cada folha e em cada rocha.
Eu busco força, não para ser maior que o meu irmão,
mas para lutar contra o meu maior inimigo – eu.
Faz com que esteja sempre pronto para chegar a ti
com as mãos limpas e olhos rectos.
Para que quando a vida se desvanecer, como um pôr-do-sol,
o meu espírito possa chegar a ti sem vergonha.





