terça-feira, 25 de maio de 2010

São Bernardo de Claraval


"Acredita na minha experiência. Encontrarás mais nos bosques que nos livros. As árvores e os rochedos ensinar-te-ão o que nunca poderás ouvir dos mestres."

São Bernardo de Claraval, 1138

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Citações espirituais

Paz

A nossa alma pertence a Deus,
Não ao violento estrupido da mente inquieta.
A Serenidade é a Beleza do Verdadeiro;
é na Beleza que encontramos a nossa Paz.

Se buscas a felicidade, sê calmo e sábio;
Em Deus repousamos. E a Paz é o Paraíso.

                                                        — Frithjof Schuon

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O botão da perplexidade no caminho da flor

por Pedro Sinde


Senhor, aumenta em mim o deslumbramento por Ti.
Hadîth


As palavras que se seguirão não têm outra pretensão que a de lembrar um aspecto do caminho que muitas vezes é esquecido, tratando-se, no entanto, de um aspecto de grande importância: o estado de perplexidade, quer apareça sob a forma de temor, quer apareça sob a forma de deslumbramento – temor que é a forma negativa da perplexidade; deslumbramento que é a sua forma positiva. Este tema ocorreu-me ao ler uma passagem de um livro de Martin Lings (What is Sufism?), em que o autor refere quatro momentos do caminho por analogia com o crescimento de uma planta:

a)      semente (doutrina)
b)      caule (compreensão)
c)      botão (perplexidade)
d)      flor (iluminação)

Vamos, então, procurar desenvolver um pouco este esquema apenas com o intuito modesto, já referido, de destacar a importância da terceira “etapa”: a perplexidade. Coloquei a palavra “etapa” entre aspas, porque não se trata de etapas cronológicas ou de uma sequência; trata-se de quatro momentos complexos que muitas vezes são concomitantes, outras se sucedem, outras se interpenetram.

A doutrina é como uma semente, na medida em que é uma potência, um saber potencial que a alma deve assimilar ou, antes, que a alma deve, estudando-a, despertar ou acordar em si, recordando-a (“recordar” é “acordar” de novo e estes dois actos ligam-se ao “coração” ou ao verdadeiro “saber de cor”, o “decorar”). A doutrina de que se trata aqui não é, pois, o saber erudito, mas antes o saber que a alma traz no fundo de si em estado de dormência, em estado de esquecimento. O estudo da doutrina vai levando ao despertar desse saber adormecido, que assim passa gradualmente da potência da semente ao acto do caule ou da nebulosa reminiscência à presentificação da “memória”.
Seguindo esta bela e fecunda metáfora, logo somos levados a pensar na parábola do semeador. Há terreno e terreno, há almas e almas ou diferentes ‘substâncias’ psíquicas onde cai a semente da doutrina; e também há tempos e tempos, quer dizer, uma alma pode ter recebido a semente numa altura em que, por falta de água ou calor, ela não frutificou; mas tempos depois essa semente, já com outras condições, caída nessa mesma alma, pode frutificar, como as sementes no túmulo do Faraó séculos e séculos depois.

O caule é, pois, a compreensão da doutrina, a passagem da potência ao acto ou a actualização, por vivência funda, fecunda e fecundante, por despertar da reminiscência no fundo de si, naquele ponto em que a alma é tangencial ao espírito; como se entre a alma e o espírito houvesse um véu ou uma nuvem entre a terra e o céu e a doutrina fosse um vento que afastasse essa nuvem, uma mão que afastasse esse véu. Com a aprendizagem da doutrina a alma é levada numa ascensão, que equivale também a uma parcial libertação da terra – deixando para trás a horizontalidade terrenal, a alma pela meditação na doutrina, pela descoberta dos símbolos, inicia o seu trajecto vertical, num processo verdadeiramente entusiasmante.
É, porém, quando a alma julgava ter compreendido (quer dizer, “abarcado” ou “agarrado”) a doutrina que lhe acontece defrontar-se com os aspectos doutrinais mais paradoxais; até ali, ela ascendia, alegre, levada pelo entusiasmo da compreensão doutrinal e eis que, de repente, hesita, duvida, não compreende, recua, fecha-se sobre si mesma. É que a doutrina implica no seu seio mais íntimo ou, o que é o mesmo, no seu ponto mais alto, a passagem da imanência à transcendência, da criatura ao Criador ou do saber ao sabor (dhawq) e, no entanto, o “pensamento só serve em relação às coisas criadas, [pois] quando o Gnóstico se direcciona no sentido do Criador, então o seu pensamento transforma-se em deslumbramento. Assim, o deslumbramento é o fruto do pensamento (…)”, é o que diz o shaykh al-‘Alawī.
A alma terá de vencer aqui uma prova tremenda; o que lhe é pedido é que morra para si mesma e para o que julgava saber, que veja a doutrina como upaya. É como se a alma se visse subitamente num lugar outro, como que no meio de um oceano ou como se o caminho em que seguia tivesse desembocado num abismo; o caule, quanto mais cresce, mais se afasta da terra, lá no cimo, a alma vê-se como que “no céu”, no entanto, se não tiver firmes raízes no húmus da razão e da religião, provavelmente tombará ao primeiro sopro do espírito, pois o espírito sopra onde quer, ninguém sabe de onde ele vem nem para onde ele vai. E ali, no cimo, os ventos sopram e, muitas vezes, em sentido contrário um ao outro. A alma terá de fazer esta operação extrema: sair de si, colocar-se numa circunferência exterior, no lugar de onde os ventos sopram, em vez de se deixar estar no centro do seu “eu” que sofre com os ventos contrários ou que fica perplexo a pensar de que modo pode a mesma doutrina conter em si isto e o seu contrário. Assim, como perante um koan zen, a alma terá de saltar acima de si mesma, colocando-se, pois, fora de si, na raiz da sua ipseidade, a que muitos chamam o “Si-mesmo” ou Ele; a raiz da sua ipseidade está no céu, por isso, a planta, aqui chegada, percebe que a sua raiz verdadeira é celeste; a alma deixa de ver em espelho, como diz São Paulo.
É, pois, ali que nasce o botão, depois da verticalidade ascensional, como uma aparente (mas apenas exteriormente) estagnação. Confrontada com o Real (al-Haqq), assusta-se, percebe que, afinal, não sabe. Percebe que o seu “saber” não é nada face ao Criador. Da imanência pressente o abismo da transcendência e tem medo. Mas o medo é o princípio da sabedoria; ela foge da causa do medo, em primeiro lugar, e isso leva-a a fechar-se, como o botão da flor. Como botão, ali, suspensa no céu, a alma sabe que já não há retorno, tem vertigens. Esta vertigem acontece ou pode acontecer por dois motivos: um é a vertigem da razão perante os primeiros fulgores intuitivos do Intelecto (vai com maiúscula, para que não se confunda com o que vulgarmente se designa por inteligência); fulgores que, resplandecendo, como que a cegam. Outro motivo é o espanto perante a existência do mundo criado; a impressão tremenda da infinitude. A infinitude da verdade do Intelecto e a infinitude na existência da criação. São os “sinais de Deus”, como lhes chama o Alcorão: ayat’Allāh ou sinais de Deus, os sinais na alma e os sinais no horizonte, como se diz numa surata. Os sinais dentro (batin) e os sinais fora (zahir). Um filósofo português, Sampaio Bruno, chamava às verdades do Intelecto, as verdades “acima da razão”, pois o Intelecto supera a razão. Ela segue sendo necessária para a exposição doutrinal, e, por assim dizer, não perderá a sua razão de ser, porque ela é um elemento protector da alma humana; é comparável a um muro que a protege, mas se a protege, também a cerca e, por isso, para quem subiu um pouco acima dela, tem de dar o salto para lá do muro ou apenas contemplar de dentro do muro o exterior imenso. Assim, um dia, alguém olhando um pôr-do-sol, aquilo que viu, fora das categorias habituais, foi como uma misteriosa fogueira que vogasse no ar. Não era o sol, era algo misterioso, tremendo, directo, fulgurante e desconhecido. Exige-se que a capa do hábito, dos hábitos, caia e que se tome algo da nudez essencial ou primordial a que se refere um outro filósofo português e a que se refere Frithjof Schuon, sobretudo nos magníficos textos sobre os índios norte-americanos. Quando cai o hábito o impulso imediato da alma é esse fechar-se sobre si mesma; esse impulso aparentemente negativo mostrar-se-á, no entanto, providencial e levá-la-á a descobrir o mundo exterior no seu interior ou o mundo interior no seu exterior. É quando poderá ouvir a voz do seu mestre a dizer-lhe: “Distende o teu espírito e aprende a nadar” (‘Alī al-Jamal). Ou poderá ainda ouvir ao seu mestre estas palavras: “se estás num estado de perplexidade (hayrah), toma atenção para não te agarrares a nada, para que não feches com a tua própria mão a porta da necessidade, pois esse estado assume para ti a importância do Nome supremo” (ad-Darqāwī). Não podem deixar de impressionar estas palavras que colocam para algumas almas a par da invocação do Santo Nome o estado de perplexidade! E, a este propósito, a importância da perplexidade perante os sinais no horizonte é tão grande que al-‘Alawī chega mesmo a dizer:
“Como podes tu não ver os sinais de Deus? Se te desses conta da realidade que está à tua frente, perturbar-te-ias e perderias a cabeça. E deverias mesmo perturbar-te, pois este tipo de perturbação aproxima mais de Deus do que qualquer acto de piedade (…). A perturbação do coração, ligada ao temor que lhe provoca essa tomada de consciência, vale mais do que qualquer obra de piedade dos homens ou dos djinns. Esta perturbação do coração, que leva a sair da prisão da indolência e a desejar uma vasta tomada de consciência da realidade, vale mais para Deus do que qualquer obra de piedade dos homens e dos djinns”. A indolência referida, são os hábitos. A alma aperceber-se-á agora como foi providencial ter aprendido a doutrina, como é providencial o estar dentro do corpo de uma religião, pois os hábitos velhos (a indolência) só podem ser combatidos substituindo-os por hábitos novos e salutares, que são aqueles que uma religião, providencialmente providencia: hábitos que se manifestam nos bons pensamentos, boas palavras, bons actos; ou no exercício da oração mental, da oração ritual, das virtudes e da beleza. Como sugere Frithjof Schuon, num compromisso integral: substituir o hábito dos pensamentos automáticos e aleatórios pelo hábito da oração, substituir o hábito do comportamento profano pelo comportamento digno e sacramental; substituir o hábito da fealdade do mundo moderno pelo hábito da beleza perene das civilizações tradicionais.

O encontro com o Mestre dá-se, para as almas maduras, nesta fase da perplexidade.
Depois de se ter fechado, a alma começa idealmente um processo de abertura para cima, quer dizer, depois da reacção ao medo e à vertigem por fuga (e não tendo para onde fugir, ela busca inicialmente refúgio em si mesma), acaba por se abrir confiante ao Criador; entrega-se-lhe, como que dizendo “eu não sei, mas Tu sabes” e suplica, abrindo-se aos raios da Sua Luz: “Ilumina-me, Senhor, pois só pela Tua Luz posso ver.” Abrindo-se, pois, para cima, ela é já à imagem do Criador, como diz um amigo meu (António Telmo): “As flores imitam o sol”. O homem é à imagem de Deus; a flor é à imagem do sol. Fitra ou o reencontro com a natureza primordial do homem, com a inocência virginal – a alma pode reencontrar a sua imagem, que é o modo como o Criador se teofaniza nela. Para isso, ela terá de ser o mais moldável possível, como a matéria-prima em estado puro ou o barro pronto nas mãos do oleiro celeste. É este um dos mais fundos sentidos da submissão (islām), comparável à ideia de tao no Oriente ou ao fiat voluntas Tua, no Pater; porque a Sua vontade, na verdade, quer dizer, na eternidade, já está feita.

A perplexidade assume, pois, um aspecto operativo, por assim dizer, de primeira instância; como diz Martin Lings, a perplexidade “é um modo de faqr” (pobreza espiritual; como no sermão da montanha: “bem-ditos os pobres de espírito”) ou é “a necessidade imperativa de iluminação” ou ainda, poder-se-ia dizer, o bater à porta ou o pedir. Só bate ou pede aquele que necessita e um pobre é, como dizemos em português, um necessitado.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Anúncio do 3º ciclo de estudos: Natureza

As publicações que vêm sendo apresentadas neste blogue são o resultado de estudos dedicado às Doutrinas Tradicionais e à Sophia Perennis. Estes estudos culminaram já na publicação de dois números temáticos da Revista Sabedoria Perene: um primeiro dedicado à "Tradição e Sophia Perennis" e um segundo dedicado à "Arte tradicional".

O terceiro ciclo de estudo que agora anunciamos visa dar continuidade a este projecto de divulgação da corrente de pensamento tradicionalista ou perenialista, desta vez utilizando como mote uma temática tão apaixonante como a da Natureza. Assim, ao longo dos próximos meses, ainda que não de forma exclusiva, prevemos continuar a publicar traduções e, eventualmente, alguns textos originalmente escritos em língua portuguesa, os quais versarão sobre a relação do Homem com a Natureza, sobre essa Catedral imensa que é a Natureza Virgem, e ainda sobre a crise ambiental que assola os nossos tempos, e que já desde há largas décadas, antes mesmo da formalização dos conceitos do desenvolvimento sustentável ou das prova científicas de uma crise ecológica sem precedentes, vem sendo tão profunda e amplamente demonstrada por diversos autores tradicionalistas ou perenialistas.

Aproveitamos ainda este anúncio para dar as boas vindas a todos os muito estimados participantes neste 3º ciclo de estudos, os quais serão oportunamente apresentados aos leitores do Sabedoria Perene.

Fiquemos para já, e em jeito de abertura oficial deste terceiro ciclo de estudos, com este muito apropriado Cântico do Sol, do insuperável S. Francisco de Assis:

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos; e homem algum é digno de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,

Especialmente o Senhor Irmão Sol, que clareia o dia, e com sua luz nos alumia

E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas,

Que no céu formaste claras e preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento,

Pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor pela irmã Água, que é mui útil e humilde e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo pelo qual iluminas a noite.

E ele é belo e jucundo e vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos com coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã Morte corporal, da qual homem algum pode escapar: Ai dos que morrerem em pecado mortal.

Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal.

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.

domingo, 25 de abril de 2010

Citações espirituais

Todos os vícios se apegam ao Mal, para que se realize; só o orgulho se apega ao Bem, para que pereça.

Santo Agostinho


A humildade é para as virtudes o que o fio é para os rosários; tire-se o fio e todas as contas se perdem; tire-se a humildade e todas as virtudes desaparecem.
Cura de Ars

domingo, 18 de abril de 2010

Citações espirituais

Se não conheces o caminho, procura as Suas pegadas.

Rumi

A subjectividade humana

Existe, no homem, uma subjectividade ou uma consciência que é feita para olhar para o exterior e para compreender o mundo, seja este terrestre ou celeste; e existe uma outra consciência no homem que é feita para olhar para o interior, em direcção ao Absoluto ou ao Si, seja esta visão relativamente separativa ou unitiva. Isto implica que existe no homem uma consciência que é descendente e que obedece à intenção criativa de Deus, e uma outra que é ascendente e que obedece à intenção divina de salvação ou libertação; as duas são incomensuráveis, apesar de existir entre elas uma região onde estas se cruzam e onde dão lugar a uma subjectividade una, e a um equilíbrio existencial entre as duas consciências divergentes; é por esta razão que o homem espiritualmente realizado pode ver Deus em todas as coisas, bem como os protótipos principiais das coisas em Deus. A consciência psíquica e mental compreende as aparências; a consciência intelectual ou cardíaca compreende a Essência; mas a consciência intermédia vê as duas dimensões ao mesmo tempo. Ao ver os fenómenos, ela vê neles Deus, e vê-os em Deus; ela compreende que cada coisa é a manifestação de uma possibilidade divina, em modo analógico ou em modo privativo, e, em simultâneo mas de um outro ponto de vista, ela vê as coisas como que mergulhadas num mesmo clima divino; no primeiro caso, os objectos deixam transparecer a Realidade divina ou os seus modos, enquanto que no segundo caso, a subjectividade participa de modo extintivo e unitivo na Consciência divina.

De qualquer das formas, a subjectividade humana é um prodígio tão espantoso que ela só seria suficiente para provar Deus e a imortalidade da alma: Deus, porque esta subjectividade extraordinariamente ampla e profunda apenas se explica através de um Absoluto que a prefigure substancialmente e que a projecte no acidental; e a imortalidade, porque a qualidade incomparável desta subjectividade não tem qualquer razão suficiente ou motivo proporcional à sua excelência no estreito e efémero ambiente de uma vida terrestre. Se fosse para viver como as formigas, os homens não precisariam das suas possibilidades intelectuais e morais, o que equivale a dizer que eles não teriam necessidade de ser homens; a existência do homem seria assim um luxo simultaneamente inexplicável e inútil. Não o compreender é a mais monstruosa e também a mais misteriosa de todas as cegueiras.

extraído de Frithjof Schuon
L'Ésotérisme comme Principe et comme Voie (Dervy-Livres, 1978)

domingo, 28 de março de 2010

Palavras Trovão

A ideia de que o homem não se pode erguer acima de toda a subjectividade humana é a mais infundamentada e contraditória das hipóteses: quem define então o que é esta “subjectividade humana”? Se é a própria subjectividade humana que o faz, então não existe qualquer conhecimento objectivo e, assim, nenhuma definição é possível; se é outra coisa diferente desta subjectividade que o faz, então está obviamente errado dizer que o homem não se pode erguer acima dela.

Frithjof SchuonSpiritual Perspectives & Human Facts

terça-feira, 23 de março de 2010

Revista Sabedoria Perene - Número 2


Editorial

Introduções

Breve introdução à “doutrina tradicional da arte”Timothy Scott
Em cada homem um artistaBrian Kebble
A ordem cultural: arte e literaturaAgustín López Tobajas

Doutrina tradicional da arte

Uma figura de linguagem ou uma figura de pensamento?Ananda K. Coomaraswamy
Princípios e critérios da arte universalFrithjof Schuon
A universalidade da arte sagradaTitus Burckhardt
A iniciação e os ofíciosRené Guénon

Exposição tradicional da arte

A porta RealTitus Burckhardt
A dança de ShivaAnanda K. Coomaraswamy
Mensagem da arte indumentária pele-vermelhaFrithjof Schuon
O impacto total da arte: os fundamentos espirituais do teatro de ShakespeareMateus Soares de Azevedo
O vórtice de TomarDalila L. Pereira da Costa

In memoriam

Titus Burckhardt e a escola perenialistaWilliam Stoddart

Fragmentos de espiritualidade

Fontes dos textos

Breves notas sobre os autores
_____________________

Revista Sabedoria Perene - Número 2

É com enorme satisfação que anunciamos a disponibilidade do segundo número da revista Sabedoria Perene.

O texto publicado de seguida é o editorial deste segundo número que pode ser obtido aqui.

EDITORIAL

Após a publicação do primeiro número desta revista dedicada ao estudo das doutrinas tradicionais e da Sophia Perennis e de nele termos exposto os significados dos termos “tradição” e “sabedoria perene”, na acepção que lhes é unanimemente conferida pelos muitos autores pertencentes à corrente de pensamento “tradicionalista” ou “perenialista”, e de termos constatado uma receptividade àquele primeiro número que ultrapassou as nossas melhores expectativas iniciais, é com enorme alegria e reforçado encorajamento que cumprimos neste segundo número o objectivo a que nos propusemos então – dar continuidade a este projecto de divulgação desta corrente de pensamento e, designadamente, disponibilizar desde já uma selecção de textos em língua portuguesa que versam sobre a temática da arte.

O leitor do primeiro número estará certamente ciente do sentido particular que aqui é dado à palavra “tradição”, o qual está em certa medida relacionado com a continuidade e a projecção em todos os aspectos da vida humana daquilo que é originalmente dado a conhecer ao homem dos vários contextos civilizacionais, em diferentes épocas e lugares, através das revelações religiosas ou sagradas. Inevitavelmente, a tradição entendida neste sentido particular deverá incluir os princípios espirituais e os valores subjacentes aos vários elementos que caracterizam uma determinada civilização. Entre estes elementos, a par com outros que esperamos abordar em números futuros, está o foco deste segundo número da Sabedoria Perene – a arte.

A arte, entendida neste contexto, pode ser abordada segundo aquele método científico que Platão utilizou, e que é em certa medida o mesmo da ciência medieval, e o mesmo que utilizam aqueles que nos dias de hoje valorizam e fazem eco do legado desta ciência antiga – ciência esta que não é mais do que a formulação da sabedoria perene em termos temporais, – reavivada por renomeadas personagens no campo das artes, tais como Ananda Kentish Coomaraswamy ou Titus Burckhardt, bem como por gigantes do pensamento tradicionalista ou perenialista dos nossos tempos, tais como os incontornáveis René Guénon e Frithjof Schuon. Importará esclarecer que a ciência aqui mencionada é aquela ciência “incriada” que se preocupa menos com a questão de conhecer muitas coisas do que com a perspectiva de ter uma visão “integral” da existência. “O seu método”, como escreve Burckhardt, “foi concebido para tudo menos para a investigação do mundo material e para o avanço da tecnologia. Ao contrário: (…) [esta ciência possui] os meios para abrir o olho espiritual à beleza das proporções matemáticas, e o ouvido espiritual à música das esferas.” A preocupação imediata desta ciência não é “um interesse antiquado, ultrapassado por algo mais sábio, mais abrangente, mais efectivo na sua habilidade para explicar quais as necessidades espirituais e práticas do homem, e como elas podem ser alcançadas”, conforme refere Brian Keeble, mas sim “um repositório vivo de sabedoria, que pode desafiar e demonstrar, de forma efectiva, o quanto inadequado é o que a substituiu.”

Quando exibida à luz dos holofotes desta ciência, a arte mostra-se em todo o seu esplendor e desempenha um papel vital para a existência espiritual do homem. A este respeito, fiquemos com as sábias palavras de Frithjof Schuon: “Poderíamos dizer que, depois da moral, a arte – no sentido mais amplo do termo – é uma dimensão natural e necessária da condição humana. Platão disse: ‘A beleza é o esplendor do verdadeiro.’ Digamos então que a arte, incluindo o artesanato, é uma projecção da verdade e da beleza no mundo das formas; ela é ‘ipso facto’ uma projecção de arquétipos. E é essencialmente uma exteriorização com vista a uma interiorização. Arte não significa dispersão, significa concentração, um caminho de volta a Deus. Toda a civilização tradicional criou um arcabouço de beleza; um meio circundante natural, ecologicamente necessário para a vida espiritual.” E, fazendo novamente uso das palavras de Burckhardt, as quais reiteram as de Schuon, “A arte esclarece o mundo; ajuda o espírito a desprender-se da perturbante multiplicidade de coisas, para que possa ascender em direcção à Unidade Divina.” Ainda no que respeita ao fim espiritual das artes, aquilo que Platão diz é que estamos dotados pelos deuses com a visão e a audição, e que a harmonia, à semelhança do ritmo, “foi dada pela Musas àquele que consegue fazer uso delas intelectualmente e não, tal como se supõe nos dias de hoje, como um auxílio ao prazer irracional.” Não deixa de ser relevante constatar que, já no seu tempo, Platão tenha pressentido que até o que eram originalmente imitações da realidade das coisas, não da aparência, se tornavam meras “formas de arte, cada vez mais esvaziadas de significação no seu percurso descendente até nós.” Não admira pois que Platão prescrevesse para a sua Cidade de Deus artes que, como ele dizia, “cuidarão dos corpos e das almas dos vossos cidadãos.” E se desta pequena resenha de citações, as quais poderão ser encontradas ao longo destas páginas, subsistir ainda a dúvida sobre se, segundo a perspectiva tradicionalista ou perenialista, existe espaço para aceitar aquele tipo de julgamento das obras de arte que se baseia no prazer que elas comportam, recorremos por fim às palavras de Sócrates, não totalmente desprovidas de humor: Não, “nem que todos os bois e cavalos e animais do mundo, em nome da perseguição do prazer, proclamem que tal é o critério.”

Poderá o leitor questionar-se sobre o porquê da necessidade de sistematizar e formular tão insistentemente este tipo de abordagem à arte. Ora, é verdade que isto nunca foi necessário durante todos os séculos em que a arte verdadeira era praticada pela maioria dos homens e mulheres. É contudo também verdade que, num tempo em que a concepção tradicional da arte já não é exercitada de forma generalizada, e num tempo em que parece predominar a confusão “artística” que a substituiu, este trabalho se tornou imperativo. Os artigos reunidos neste segundo número da Sabedoria Perene, não esgotando certamente tudo o que haveria a dizer ou escrever sobre a concepção tradicional da arte, constituem por si só um corpo de esclarecimento fundamental e contêm indicações e referências que poderão ser exploradas pelo leitor seriamente interessado nesta forma tão fulgurante de expressar a Verdade – a da arte verdadeira.

Passando ao conteúdo propriamente dito, o leitor encontrará desde logo três blocos de textos que visam, respectivamente, “introduzir”, “formular” e “expor” a arte tradicional. O primeiro destes três blocos inclui um trio de textos introdutórios, onde nos animamos com o estimado contributo de Pedro Sinde e Lídia Bom.

Este primeiro bloco prepara o encontro com o segundo bloco de textos, onde constam dois dos mais importantes e profundos ensaios contemporâneos de doutrina tradicional da arte, um deles o famoso “Uma figura de linguagem ou uma figura de pensamento?” da autoria de Ananda Kentish Coomaraswamy, e o outro o contundente “Princípios e critérios da arte universal” de Frithjof Schuon, ensaios cujo conteúdo, conforme diria o próprio Coomaraswamy, “pode ser ignorado mas (…) não pode ser refutado.” É também neste segundo bloco que se incluem dois apontamentos doutrinais sobre “A universalidade da arte sagrada”, de Titus Burckhardt, e sobre “A iniciação e os ofícios”, de René Guénon.

No terceiro bloco de textos, poder-se-á intuir a unidade transcendente de artes aparentemente tão díspares como, por exemplo, a da construção das catedrais e dos templos da religiosidade europeia, a da dança tradicional oriental, ou a da manufactura das roupas dos índios americanos. Na realidade, à luz daquela ciência “incriada” a que aludimos anteriormente, deslumbra-se o reflexo dourado, contínuo, inquebrável, que se mostra ora no fio de prumo com que o pedreiro trabalha a jamba da porta da catedral de Chartres, ora no fio sagrado que adorna a dança de Shiva, ora na linha com que os índios americanos cosem a sua roupa, ora no pano que descobre os palcos onde se desenrolam as peças de Shakespeare, ora ainda nas cordas das caravelas que se avistam na janela manuelina do Convento de Cristo em Tomar. Assim, é neste bloco de exposição tradicional da arte que se encontra a majestosa expressão de doutrina cristã contida no muito aclamado “A Porta Real” de T. Burckhardt; o belíssimo “A dança de Shiva” de A. K. Coomaraswamy, assinalado pelo prezado contributo de Noémia Silva, e a “Mensagem da arte indumentária pele‐vermelha”, traduzida por Mateus Soares de Azevedo, veiculada num capítulo do livro Ter um Centro, de Frithjof Schuon, cuja muito esperada publicação pela editoria Sapientia se prevê para o segundo semestre deste ano. É também neste terceiro bloco de textos que, com outro importante contributo de Mateus Soares de Azevedo, repetimos o feito de publicar artigos originalmente escritos em português, nomeadamente “O impacto total da arte: os fundamentos espirituais do teatro de Shakespeare”. A rematar este terceiro bloco, “O vórtice de Tomar” reúne palavras escritas pelas portuguesíssimas mãos de Dalila Pereira da Costa, seleccionadas pelo nosso editor Miguel Conceição.

Na rubrica “in memoriam” deste segundo número da Sabedoria Perene, o artigo “Titus Burckhardt e a escola perenialista” encerra o ciclo de homenagem às duplas de originadores (René Guénon e Frithjof Schuon) e de imediatos prossecutores (Ananda Coomaraswamy e Titus Burckhardt) desta escola de pensamento que nos propomos dar a conhecer, de forma explícita, aos leitores da língua portuguesa. Este notável tributo a Titus Burckhardt – e à escola de pensamento que este autor ajudou a consolidar através das suas reflexões sobre a arte sagrada, sobre as fés e sobre as civilizações, – é da autoria do também muito notável William Stoddart, justamente considerado uma das figuras contemporâneas mais importantes no campo da filosofia perene. A tradução deste artigo é ainda um marco de colaboração transatlântica, que não podemos deixar passar sem um reconhecido agradecimento ao Alberto Vasconcelos Queiroz, responsável por grande parte do trabalho de tradução do texto incluído nesta rubrica. Esta rubrica prosseguirá, em números futuros, com o intuito de homenagear outros autores importantes desta escola de sabedoria, tais como Martin Lings, Marco Pallis, Whitall Perry e outros.

No último bloco deste número, recorremos novamente à rubrica “fragmentos de espiritualidade” e oferecemos ao leitor mais algumas palavras de pura sabedoria espiritual das várias tradições da humanidade, desta vez centradas no tema a que se dedica este volume – a arte.

Antes de entregar ao leitor mais um número desta revista, e inspirados nas palavras de Ananda Kentish Coomaraswamy, que nos esclarece que “todas as artes, sem excepção, são imitativas”, que “a obra de arte apenas pode ser julgada como tal (e independentemente do seu ‘valor’) pelo grau em que o modelo tenha sido correctamente representado” e ainda que “a beleza da obra é proporcional à sua precisão (integritas sive perfectio), ou verdade (veritas)”, importa recuperar as nossas palavras do primeiro número e reiterar que, com os textos aqui apresentados, pretendemos sobretudo “imitar”, o mais fielmente possível, o modelo da sabedoria intemporal – o modelo da Sabedoria Perene.

Nuno M. Almeida
Alvor, 10 de Março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

Anúncio - Revista Sabedoria Perene 2

Estando cada vez mais próxima a publicação do segundo número da Revista Sabedoria Perene, é agora o momento de revelar o conteúdo completo deste número integralmente dedicado à arte. Espero que o mesmo faça crescer a expectativa dos nossos leitores que, no entanto, não terão de esperar muito mais para poderem ler todos os textos que assinalam o concluir de mais um ciclo do trabalho a que nos vimos a dedicar desde o ano de 2007, o qual nos tem presenteado com muitos e saborosos frutos. O nosso desejo é que esses frutos possam ser colhidos por todos aqueles que buscam a Verdade.



Editorial

Introduções
Breve introdução à “doutrina tradicional da arte” – Timothy Scott
Em cada homem um artista – Brian Kebble
A ordem cultural: arte e literatura – Agustín López Tobajas

Doutrina tradicional da arte
Uma figura de linguagem ou uma figura de pensamento? – Ananda K. Coomaraswamy
Princípios e critérios da arte universal – Frithjof Schuon
A universalidade da arte sagrada – Titus Burckhardt
A iniciação e os ofícios – René Guénon

Exposição tradicional da arte
A porta Real – Titus Burckhardt
A dança de Shiva – Ananda K. Coomaraswamy
Mensagem da arte indumentária pele-vermelha – Frithjof Schuon
O impacto total da arte: os fundamentos espirituais do teatro de Shakespeare – Mateus Soares de Azevedo
O vórtice de Tomar – Dalila L. Pereira da Costa

In memoriam
Titus Burckhardt e a escola perenialista – William Stoddart

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Dança de Shiva

Com os seguintes trechos, extraídos do belíssimo texto de Ananda Coomaraswamy, "A Dança de Shiva", conclui-se a apresentação do segundo número da revista Sabedoria Perene. O texto completo será incluído nesta revista, que está na forja.



(...) Esta é a Sua dança. O seu significado mais profundo é sentido quando nos apercebemos que tem o seu lugar no coração e em nós próprios. Deus está em toda a parte; toda a parte é o coração. Assim, encontramos também num outro verso:

O pé que dança, o som do tilintar das campainhas,
As canções que são cantadas e os passos variados,
A forma assumida pelo nosso Gurupara Dançante –
Descobre isto dentro de ti, e então as tuas amarras desaparecerão.

Para este fim, tudo excepto o pensamento de Deus deve ser banido do coração, para que somente Ele habite e dance no seu interior. Na Unmai Vilakkam, encontramos:

Os sábios silenciosos, destruído o triplo laço, estão estabelecidos onde eles próprios são destruídos. Lá eles vêem o sagrado e estão preenchidos com beatitude. Esta é a dança do Senhor da assembleia, “cuja forma é a Graça.

Com esta referência aos ‘sábios silenciosos’, comparemos as bonitas palavras de Tirumûlar:

Quando aí repousam, eles (os Yogis que atingem o mais alto cume da paz) perdem-se de si próprios e tornam-se inactivos… Onde os inactivos residem é o puro Espaço. Onde os inactivos se movimentam é a Luz. O que os inactivos sabem é o Vedânta. O que os inactivos encontram é o sono profundo em que estão imersos.”

Shiva é um destruidor e adora os locais da cremação. Mas o que é que Ele destrói? Não apenas os céus e a terra no fechar de cada ciclo do mundo, mas os grilhões que amarram cada alma individual. Onde e o que é o campo da cremação? Não é o local onde os nossos corpos terrenos são cremados, mas os corações dos Seus amantes, depostos, desperdiçados e desolados. O local onde o ego é destruído significa o estado onde a ilusão e as acções são incineradas: isto é o crematório, o campo da cremação onde Sri Natarâja dança, e daí Ele é chamado Sudalaiyâdi, Dançarino dos campos crematórios. Nesta semelhança, reconhecemos a conexão histórica entre a dança graciosa de Shiva enquanto Natarâja, e a sua dança selvagem como demónio dos cemitérios.

Esta concepção é corrente igualmente entre Sâktas, especialmente em Bengal, onde o aspecto de Mãe de Shiva, em vez do aspecto de Pai, é adorado. A dançarina aqui é Kali, para cuja entrada o coração tem que ser purificado pelo fogo, esvaziado pela renúncia. Uma prece num Hino Bengal a Kali, diz o seguinte:

Porque Tu adoras o Campo da cremação,
Eu fiz um do meu coração,
Para que Tu, a Negra, do campo da cremação a caçadora,
Possas dançar a Tua dança eterna.
Nada mais está no meu coração, ó Mãe;
Dia e noite resplandece a pira funerária;
As cinzas dos mortos, por todo o lado espalhadas,
Eu preservei contra a Tua chegada,
Com a Mahakala, conquistadora da morte, sob os teus pés
Entrarás tu, dançando a Tua dança rítmica,
Para que eu Vos possa ver com os olhos fechados.

(...) Na noite de Brahmâ, a Natureza é inerte, e não pode dançar até que Shiva o deseje: Ele emerge do Seu êxtase e, dançando, envia através da matéria inerte ondas pulsantes de som despertador, e oh! A matéria também dança e surge como um círculo de glória à Sua volta. Dançando, Ele sustém os seus variados fenómenos. Na totalidade do tempo, ainda dançando, Ele destrói todas as formas e nomes pelo fogo, e dá um novo descanso. Isto é poesia; mas, no entanto, ciência.

Não é estranho que a figura de Natarâja tenha dominado a adoração de tantas gerações passadas: familiar com todos os cepticismos, perito em revelar todas as crenças a partir das superstições primitivas, exploradores do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, nós continuamos ainda adoradores de Natarâja.