sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Três revoluções, três papas e a “nova” Igreja [1] - Parte 1/3

por Mateus Soares de Azevedo

Após a crucifixão, a religião cristã foi gradativamente se enraizando e se estabelecendo, sobretudo na Europa e no Oriente Próximo, mas também na Ásia e na África. Depois de vários séculos, alcançou seu apogeu naquilo que hoje chamamos de Idade Média – grosso modo, entre a coroação de Carlos Magno no ano 800 e 1300. Nesta época, floresceram confrarias espirituais como a franciscana e a dominicana; escolas de pensamento como a tomista (aristotélica) e a eckhartiana (platônica); movimentos artísticos como o românico e o gótico; sábios e santos como Francisco de Assis, Catarina de Siena, Alberto Magno e Dante, sem falar dos hospitais, universidades e asilos criados pela igreja.

Depois deste ápice, três revoluções modificaram a face da Cristandade. A primeira foi o Renascimento (século XV), a segunda, o Iluminismo (século XVIII) e a terceira, o Vaticano II (século XX).

A Renascença foi o primeiro movimento de afastamento do divino rumo ao humanismo. O Iluminismo foi uma continuação disso, de uma maneira mais marcada e explícita. O Vaticano II foi a derradeira e mais devastadoras dessas revoluções, virando pelo avesso as principais crenças e práticas do Catolicismo. O concílio, assim, reforçou, de forma agressiva e destrutiva, e de dentro da cidadela da religião, as duas revoluções anteriores.

A própria denominação daquilo que estamos indicando como a ‘primeira’ das revoluções é enganosa, pois significou a ‘morte’, não o ‘renascimento’, do patrimônio intelectual, espiritual e cultural medieval. Este legado inclui a especulação teológica de séculos, como exposto na Suma de Santo Tomás de Aquino; a Divina Comédia de Dante, compreendendo uma visão e um ensinamento sobre o destino póstumo do homem; a altamente espiritual arte e arquitetura românica e gótica; os ícones bizantinos, e muitas outros elementos. A Renascença foi o primeiro movimento de afastamento da espiritualidade, transcendência, qualidade, interioridade e verticalidade, rumo a uma nova ênfase na materialidade, mundanidade, quantidade, exterioridade e horizontalidade. Sem esquecer a substituição do universalismo pelo individualismo, da intelectualidade pelo racionalismo. Em uma palavra, a Renascença significou o início do “reino da quantidade”, como explicado por René Guénon em seus clássicos A Crise do Mundo Moderno e O Reino da quantidade e os sinais dos tempos.

Três séculos após a Renascença, aconteceu uma segunda revolução, que traiu seu verdadeiro propósito pelo próprio nome; os líderes do auto-denominado “Iluminismo” viam a si mesmos como portadores da “luz” da ciência e da razão, contra as “trevas” da “superstição” e do “dogma”. Foi , assim, uma batalha ideológica contra a religião. Caracteristicamente, o movimento foi disseminado pela já secularizada maçonaria e serviu como base ideológica da Revolução Francesa. A redução da qualidade à quantidade, da espiritualidade ao materialismo, da interioridade à exterioridade experimentou assim um segundo estágio e representou uma radicalização dessas tendências que foi muito além da Renascença.

Este ‘reino da quantidade’, que deu seus primeiros passos na Renascença e se expandiu no Iluminismo alcançou a cidadela da religião com o concílio Vaticano II de 1962-65. O concílio permitiu que a nova ideologia humanista do ‘progresso’, ciência e tecnologia invadisse os sacros limites antes reservados para o conhecimento e o amor de Deus. Mas, desde que a religião nunca pode ser um suporte para a mentalidade materialista como estruturada pela Renascença e o Iluminismo, e de fato está em completa oposição a ela, os chefes do concílio buscaram uma pacto e uma acomodação com a mentalidade moderna. Tal meta constitui, contudo, uma clara traição do espírito cristão. Muito antes do Vaticano II, ainda na década de 1920, Guénon escreveu: qualquer compromisso entre o espírito religioso e a mentalidade moderna enfraqueceria o primeiro e só beneficiaria a segunda, cuja hostilidade não seria por isso diminuída, dado que o modernismo almeja a aniquilação total de tudo que, na humanidade, reflete uma realidade superior a ela mesma (A Crise do Mundo moderno). Palavras proféticas. [2]

O principal arquiteto desta revolução dentro da igreja foi o jesuíta francês Teilhard de Chardin; ele foi o ‘elo perdido’ entre o Renascimento, o Iluminismo e o Vaticano II. Com seu evolucionismo panteísta com verniz cristão, Teilhard dizia que Cristo representou um grande “salto evolutivo” e que Deus também está sujeito à “evolução”! Seu ‘testamento intelectual’ pode ser resumido num extrato de seu livro Cristianismo e Evolução (p.99):

"Se, como resultado de alguma revolução interior, eu perdesse sucessivamente minha fé em Cristo, minha fé no Deus pessoal e a fé no espírito, creio que continuaria a crer de forma invencível no mundo. O mundo, seu valor, sua bondade, sua infalibilidade, é isso, ao final das contas, a primeira, a última e a única coisa em que creio.”

Não é sem razão que um comentário espirituoso diz que se Lutero foi um cristão que deixou a Igreja, Teilhard foi um pagão que permaneceu nela!

Juntamente com o espectro de Teilhard, podemos dizer que nossa época ainda é dominada pelos espectros de Darwin, Marx, Freud e Jung. Alguns deles, ou todos, podem ser já considerados “história”. Mas sua influência, percebida ou não, deixou marcas profundas em nosso modo de pensar e agir. Os “ismos” que forjaram continuam sendo as peças básicas de nossa “religião” secular. Esta também tem seus defensores “fundamentalistas”, que praticam uma “intolerância religiosa” que nada fica a dever aos piores exemplos do passado. E ai de quem ouse questionar seus “dogmas”!

Pouquíssimas pessoas e instituições não foram afetadas por tais idéias. Em razão de sua influência no mundo ocidental, vale a pena avaliar como afetaram a Igreja Católica. Elas o fizeram especialmente mediante a revolução que foi o concílio Vaticano II. A natureza desta revolução pode ser apreciada pelos ditos e escritos dos papas do período, de João XXIII a Bento XVI. Através deles, percebe-se um programa radical e sem precedentes de rompimento com a tradição. Apesar disso, não suscitou grandes indagações por parte de um público que permanece relativamente passivo. As citações abaixo de Paulo VI mostram claramente quão drástica foi a revolução. Suas palavras estão em contradição com os próprios fundamentos do Cristianismo.

Giovanni Battista Montini (Paulo VI)
(1963-78)

Na audiência geral de 2 Julho de 1969, Montini declarou: “‘se o mundo muda, não deveria a religião também mudar?”

Ao abrir a 4ª. sessão do Vaticano II, em 14 de setembro de 1965, ele disse à assembléia reunida: “Pode a igreja, podemos nós mesmos, fazer outra coisa senão olhar para o mundo e amá-lo?”

É no seu pronunciamento de encerramento do concílio, em 7 de dezembro de 1965, que chegamos ao cerne da questão: “ Uma corrente de amor e admiração fluiu do concílio para o mundo moderno… os valores do mundo foram não apenas respeitados, mas honrados, seus esforços foram aprovados, suas aspirações purificadas e abençoadas.”

Foi neste mesmo pronunciamento que, com particular eloqüência, Montini nos legou o cerne de sua visão: “Todas as riquezas doutrinais do concílio não têm senão um propósito: servir ao homem… Reconheçam pelo menos isso, vós humanistas modernos que renunciaram à transcendência das coisas supremas, pelo menos este mérito e saibam reconhecer nosso novo humanismo: Nós também, Nós mais do que ninguém, também temos o Culto do Homem!”

(parte 2/3)

[1] Uma versão deste ensaio foi publicada em inglês, como capítulo do livro “Men of a Single Book: Fundamentalism in Islam, Christianity and Modern Thought” (World Wisdom, 2010).

[2] Vale lembrar que, de acordo com os Evangelhos, São Pedro negou o Cristo três vezes. Simbolicamente, pode-se talvez dizer que a igreja que Pedro estabeleceu herdou, por assim dizer, essas três negações, as quais podem ser relacionadas às três grandes rejeições, ou revoluções, sobre as quais estamos falando.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Palavras Trovão

Existem aqueles que alegam que a ideia de Deus apenas é explicável por oportunismo social, sem se darem conta do que existe de infinitamente desproporcionado e de contraditório numa tal hipótese; se homens como Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino – sem falar dos Profetas, de Cristo e dos sábios da Ásia – não foram capazes de observar que Deus é apenas um preconceito social ou outra fraude análoga, e se séculos ou milénios foram baseados intelectualmente na sua incapacidade, então não há inteligência humana possível, muito menos qualquer possibilidade de progresso, pois um ser absurdo por natureza não contém em si a possibilidade de deixar de ser absurdo.


Frithjof Schuon - Les stations de la sagesse

sábado, 2 de outubro de 2010

Gurvastakam

Hino de oito versos em louvor ao Guru [1]
de Shankaracharya



1. O corpo pode ser belo, a esposa maravilhosa, a fama grandiosa e a riqueza ilimitada como o Monte Meru; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

2. Esposa, riqueza, filhos, netos e tudo mais; casa e amizades – pode nada faltar; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

3. Pode estar nos nossos lábios todo o Vedas com os seus seis auxiliares e o conhecimento de todas as ciências; ter o dom da poesia e compor boa prosa; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

4. Sou honrado noutras terras; no meu país sou próspero; posso pensar que ninguém me supera nas artes de boa conduta; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

5. Posso ter a meus pés a constante devoção de todos os imperadores e reis deste mundo; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

6. A minha fama percorre os quatro cantos do mundo fruto da minha generosidade e talento; tudo é colocado ao meu dispor em reconhecimento dessas virtudes; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

7. A mente não se fixa no prazer, na concentração ou em múltiplos cavalos; nem na face da amada e na riqueza; mas se a mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

8. A minha mente não anda pela floresta, nem mesmo por minha casa, nem pelo que quero alcançar, não se fixa no corpo nem em nada que não tenha valor; mas se a minha mente não estiver fixada nos pés de lótus do Guru, de que serve, de que serve, de que serve, de que serve?

9. A pessoa virtuosa que ler estes oito versos sobre o Guru, e cuja mente esteja fixada nos ensinamentos do Guru – seja ela asceta, rei, estudante ou empregada, atinge o objectivo desejado, o estado denominado de Brahman.

_______________________
[1] - Tradução livre a partir de "The Hymns of Sankara" - T.M.P. Mahadevan (Motilal Banarsidass - Delhi 2002)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Homens de um livro só




A edição em língua inglesa deste Homens de um livro só, da autoria de Mateus Soares de Azevedo, estabelece uma muito necessária e clara distinção entre os nefastos efeitos do fundamentalismo pseudo-religioso e os benefícios que advêm das verdadeiras manifestações de religiosidade e espiritualidade. Por outro lado, e não de menor importância, clarifica de forma decisiva que o padrão de pensamento moderno é também ele mesmo uma forma de fundamentalismo que se caracteriza pelo total abandono, nomeadamente por parte do mundo ocidental, daquela visão “integral” da existência e do mundo que prevaleceu até ao final da idade média – a visão que passou a ser apelidada de tradicionalista ou perenialista a partir do século XX – e pela aceitação acrítica de teses “fragmentárias” sobre a mesma existência e o mesmo mundo, como é o caso das teses propostas por autores individuais como Darwin, Freud, Jung e Marx, entre outros.

Este livro tem o mérito de, em pleno século XXI, e à luz daquela visão “integral” da existência e do mundo, discernir e criticar brilhantemente estas diferentes formas de fundamentalismo, apontando simultaneamente na direcção da paz e da harmonia humana.

Esta edição recentemente publicada pela World Wisdom contém dois novos capítulos que não constam na primeira edição em língua portuguesa – um sobre o Concílio Vaticano II e outro sobre Carl Gustav Jung – e ainda uma profunda reformulação do primeiro capítulo, o qual contém novos dados sobre o sionismo. Aqui fica o indíce da mesma:

Forward by Alberto Vasconcellos Queiroz
Introduction by William Stoddart

PART I: Militant Fundamentalism vs Traditional Religion
1. Beware of the Men of a Single Book
2. Militant Islam, the Muslim World, and the Holy War
3. Asymmetries between Christianity and Islam
4. The Koran and the Bible
5. The Message of Islam
6. Sufism in the Face of Militant Fundamentalism

PART II: Secular Fundamentalism
7. Marxism as Fundamentalism
8. Freudian Psychoanalysis as Secular Fundamentalism
9. Jung and the Faithful without Religion
10. Vatican II and the Three Revolutions
11. Science Fundamentalism: A Short Answer to Three Militant Atheists

Map of the Islamic World
Selected Biography

sábado, 25 de setembro de 2010

Citações espirituais

O pecado que te deixa triste e arrependido é mais apreciado pelo Senhor do que a boa acção que te torna vaidoso e presunçoso.


Nahjul Balagha



Mesmo se não existissem o Céu e o Inferno, não seria correcto obedecer-Lhe? Ele é merecedor de adoração sem qualquer outro motivo.


Rabi’a al-Adawiyya

domingo, 29 de agosto de 2010

Al-‘Alawî: Um santo sufi do século XX



O Infinito ou o Mundo do Absoluto que concebemos como estando fora de nós é, ao contrário, universal e existe tanto dentro de nós como fora. Existe apenas Um Mundo, e este é Isto. Aquilo que concebemos como o mundo sensível, o mundo finito do tempo e do espaço, não é senão uma conglomeração de véus que escondem o Mundo Real. Estes véus são os nossos sentidos: os nossos olhos são os véus sobre a Verdadeira Vista, os nossos ouvidos são os véus sobre a Verdadeira Audição, e é assim também com os outros sentidos. Para nos tornarmos cientes da existência do Mundo Real, os véus dos sentidos devem ser removidos… e o que subsiste então do homem? Subsiste um ténue cintilar que lhe surge como a lucidez da sua consciência… Existe uma continuidade perfeita entre este cintilar e a Grande Luz do Mundo Infinito e, assim que esta continuidade for apreendida, a nossa consciência pode (através da oração) emanar e estender-se como que até ao Infinito e tornar-se Una com Ele, de modo que o homem passa a compreender que o Infinito Apenas é, e que ele, o humanamente consciente, existe apenas como um véu. Compreendido este estado, todas as Luzes da Vida Infinita podem penetrar a alma do sufi, e podem fazê-lo participar na Vida Divina, de forma que ele tem direito de exclamar: “Eu sou Alá”. A invocação do nome Allâh é como que um intermediário que avança e recua entre o cintilar da consciência e os esplendores ofuscantes do Infinito, afirmando a continuidade entre eles e tecendo-os cada vez mais próximos, em comunicação, até que são “unidos em identidade”.

[Tradução de um ensinamento oral transcrito na obra de Martin Lings A Sufi Saint of the Twentith Century: Shaikh Ahmad Al-Álawî: his spiritual heritage and legacy”]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Poemas da Montanha


Nesta magnífica selecção de Poemas da Montanha recentemente publicada pela Serra d’Ossa Edições, encontramos um caminho para o coração da poesia mística de Frei Agostinho da Cruz, tão magnificamente mapeado pelo texto introdutório de Dalila L. Pereira da Costa.

Com reforçada inspiração para prosseguir este ciclo de estudo dedicado à Natureza, divulgamos aqui esta obra e reproduzimos uma pequena amostra da Elegia da Arrábida deste monge franciscano português.

* * *

Convosco e dentro em vós, Serra batida
Mais das ondas humanas que marinhas,
Cantarei, como cisne, a despedida.

Testemunha sois vós das queixas minhas,
E porque quero mais, antes que gente,
As feras e serpentes por vizinhas.

Tanto, que nem de amigo, nem parente,
Inda agora não faço diferença,
Se seu amor do meu for diferente.

A nenhum deles nisto faço ofensa,
Se algum seu interesse só pretende,
Pois nele só consiste a desavença.

(…)

O descanso do doce pensamento,
O repouso do livre coração,
Não se deve perder um só momento.

Qual deve ser a minha pretensão
Antre os bosques desertos, velho e enfermo,
Senão não ver em mim um só senão?

(…)

Passando os olhos meus pela verdura
Das plantas, que plantou a natureza,
Me mostraram no Céu nova pintura,

Onde a minha alma, em puro fogo acesa,
Não sinta, nem consinta outro desejo,
Senão ficar de amor divino presa.

(…)

Em vão pera comigo o tempo gasta
Quem mais quer alongar meus longos dias,
Que a morte, inda que tarda, não se afasta.

Venha quando quiser, por quaisquer vias,
Que por nenhuma já pode vir cedo
Despir as enrugadas carnes frias.

Deixe-me o coração arder um Credo
Naquele amor divino a quem me dei,
Enquanto vivo aqui neste degredo.

No meu Deus, em que só me confiei,
Porque por mi pregado foi na Cruz,
Confiado só nele acabarei,
Chamando por Maria e por JESUS.

domingo, 4 de julho de 2010

O homem tradicional, o homem moderno e a crise ambiental

Com o início da preparação do terceiro número da Revista Sabedoria Perene, dedicada, tal como já anunciado, à Natureza, iremos procurar direccionar as nossas publicações para esta temática, quer seja com trechos extraídos dos ensaios que constarão revista, quer seja com outros textos a ela relacionados.

O texto que se apresenta de seguida é uma tradução da versão inglesa, publicada no Volume 12 – Número 2 (2000) do Sophia  –  The Journal of Traditional Studies, de uma entrevista efectuada pela revista espanhola Agenda Viva em Outubro de 2006 a Seyyed Hossein Nasr, autor que dispensa apresentação aos nossos leitores. Cremos que será uma boa introdução aos textos que irão surgir neste espaço durante os próximos meses.


O que significa para si natureza?

Seyyed Hossein Nasr: Tudo o que não é criado por seres humanos nem afectado pelas suas actividades humanas é natureza (no contexto aqui usado), do topo das montanhas ao fundo dos oceanos, das algas aos elefantes. De certo modo, o homem faz também parte da natureza na medida em que o seu corpo segue as mesmas leis naturais e físicas que seguem todos os restantes seres no mundo natural; no entanto, ao lhe ser dada a liberdade para se insurgir contra Deus e dessacralizar a natureza, o homem, de um outro ponto de vista, não é tecnicamente semelhante aos outros seres naturais. De todo o modo, eu defino natureza aqui como tudo o que não é humano e não é afectado pela actividade humana. É claro que, nas sociedades tradicionais, tais actividades estavam naturalmente em harmonia com a natureza mas, no caso das sociedades industrializadas, elas não têm qualquer tipo de harmonia. Escusado será dizer que, mesmo no nosso mundo actual, a natureza e os ambientes criados pelo homem também se interpenetram das mais variadas formas.

Como descreveria o actual estado do ambiente natural e da relação do mesmo com os seres humanos?

Seyyed Hossein Nasr: O homem moderno e pós-moderno destruiu grande parte da natureza, desde florestas a bancos de corais, e o que resta está gravemente ameaçado. A situação é crítica. Com a propagação global do paradigma modernista, o qual é inseparável das ideias de poder e domínio sobre a natureza de modo a satisfazer as sempre crescentes “necessidades” (as quais na maior parte dos casos não são mais do que desejos criados artificialmente e não verdadeiras necessidades), o caso é cada vez mais grave. No entanto, no decurso das últimas décadas, ocorreu também um despertar, no Ocidente e mais recentemente também no mundo não ocidental, entre um número de pessoas preocupadas com o estado precário do mundo natural e com a necessidade de cultivar uma atitude correcta para com a natureza de modo a não destruir o que resta dela. Deve ser relembrado, no entanto, que por muito que a natureza seja explorada e destruída pelo homem, será ela a ter a última palavra a dizer.

Num dos seus livros traça uma correspondência entre a actual crise ambiental e a crise espiritual do homem moderno. Poderia desenvolver um pouco aqui essa ideia?

Seyyed Hossein Nasr: A crise na relação dos seres humanos com a natureza nasceu no Ocidente moderno com base em dois erros: a incompreensão do significado profundo da natureza do homem e a incompreensão da realidade sagrada da natureza. Foi em consequência desta crise espiritual que ocorreu durante a Renascença e o séc. XVII, que o homem moderno veio a considerar-se, na medida em que se tornou “moderno,” como um ser puramente terrestre, sem qualquer responsabilidade para com Deus e a Sua criação. Também em resultado desta crise espiritual e intelectual, a realidade sagrada da natureza foi posta de lado e passou-se a olhar para a mesma em termos puramente quantitativos e mecânicos, tal como vemos na física clássica. É esta crise espiritual interior que se torna cada vez mais reflectida exteriormente a partir da Revolução Industrial.

No seio do movimento ambiental tem sido dito que os humanos são o maior inimigo da natureza e que a sua existência não é essencial para este planeta devido ao seu carácter destrutivo. O que pensa sobre esta afirmação?

Seyyed Hossein Nasr: Não são todos os seres humanos, mas apenas o homem moderno, o maior inimigo da natureza. Os aborígenes vivem na Austrália há mais de 40000 anos e não tivessem os seus padrões tradicionais de vida sido tão drasticamente alterados pelo homem branco como o foram nos últimos anos, poderiam ter vivido outros 40000 ou mais na maravilhosa natureza virgem da Austrália. O mesmo não se pode dizer dos habitantes da zonas urbanas de Sidney ou Melbourne ou, mais precisamente, de qualquer outra cidade moderna, de Seoul a Nova York. A existência do homem moderno não é necessária para a natureza e o modo de vida moderno não pode, de facto, continuar por muito mais tempo no seu percurso actual. Mas o homem na sua realidade perene, isto é, o homem tradicional, foi e continua a ser, na medida em que tal ser subsiste, sempre uma fonte de graça para a natureza, e a sua presença na terra permitia e continua a permitir que a natureza respire o ar do mundo espiritual. Existem razões esotéricas, cosmológicas e metafísicas para que a natureza não possa existir sem o homem. Não posso entrar aqui em detalhes sobre elas mas foram discutidas em vários dos meus livros, especialmente no Man and Nature: the Spiritual Crisis of Modern Man  (Kazi Publications, 1998), no Religion and the Order of Nature (Oxford, 1996) e no Knowledge and the Sacred (SUNY, 1989).

Nos seus livros afirma que a ciência actual e o modo de vida que promulga são criações do homem profano. O que significa aqui a palavra profano?

Seyyed Hossein Nasr: Com a palavra profano quero dizer o tipo de ser humano que deixou de ter a sua base no Sagrado e que, cada vez mais, perdeu inclusive o sentido do sagrado. Por essa razão, quer as faculdades mentais com as quais pensa, quer o objecto da sua ciência, que é a natureza, tornaram-se dessacralizados – esvaziados do sagrado. É a tal pessoa que chamo homem profano (ou, é claro, mulher, pois o termo homem aqui usado não diz respeito ao género, mas sim ao ser humano como tal).

Porque razão diz que o cosmos é como um livro com múltiplos significados?

Seyyed Hossein Nasr: O que é um livro? É um determinado número de folhas de papel nas quais se encontram escritas algumas figuras num determinado tipo de tinta, figuras essas que possuem um significado para além da sua forma exterior. De modo a compreender esse significado é necessária a linguagem com a qual o livro foi escrito. Vejamos agora, o cosmos é como um livro no sentido em que cada um dos seus fenómenos possui um significado no interior e para além da forma exterior e das características do fenómeno em questão. Se não conhecemos a linguagem com a qual um livro é escrito, podemos de qualquer forma pesá-lo e medir as suas dimensões. As ciências quantitativas da natureza fazem precisamente o mesmo vis-à-vis o livro cósmico. Elas estudam os aspectos quantitativos dos fenómenos naturais mas esqueceram-se da linguagem com a qual o livro da natureza ou o livro cósmico foi escrito e, assim, não podem compreender a mensagem nele contida.

Será possível aprender a ler os sinais da natureza e compreender o seu significado?

Seyyed Hossein Nasr: Sim, é possível dominar a linguagem de modo a sermos capazes de ler de novo o livro cósmico, tal como o faziam os antigos. Mas para alcançar este feito é necessário compreender, antes de tudo, a necessária metafísica e cosmologia, bem como ser capaz de viver de novo num universo intelectual e espiritual tradicional, o único ambiente onde esta linguagem pode ser dominada.

Qual da ciências actuais considera a mais próxima de um conhecimento do homem e da natureza?

Seyyed Hossein Nasr: Nenhuma das ciências modernas está próxima da verdadeira compreensão da relação entre o homem e a natureza, pois todas estas ciências baseiam-se no desprezar dos estados superiores do ser, incluindo a realidade espiritual. Mas uma vez que coloca essa questão, eu diria que, comparativamente, do ponto de vista da compreensão da admirável harmonia da natureza e da nossa relação com ela a ecologia seria a mais próxima. De um ponto de vista metafísico, no entanto, acredito que a mecânica quântica poderá ser importante caso se liberte da prisão da bifurcação cartesiana.

Como poderão as ciências orientais ajudar a compreensão ocidental da natureza?

Seyyed Hossein Nasr: As ciências orientais da natureza, sejam elas chinesas, indianas, islâmicas ou outras, são baseadas numa cosmologia que continua ligada à metafísica. Elas estudam a natureza à luz dos princípios espirituais e intelectuais que transcendem a natureza física e que se baseiam numa profunda correspondência entre o homem e a natureza, localizada para além do simples quantitativo e material. É a isto que se chama antropocosmismo no pensamento do extremo oriente. Estas ciências, se estudadas em profundidade no ocidente, não como fases rudimentares da ciência moderna ocidental, mas sim como formas independentes de conhecer a natureza, podem revelar aspectos fundamentais da natureza e da sua relação com o homem, aspectos que estão escondidos da perspectiva daqueles cujos horizontes estão limitados pela ciência moderna. Mormente, estas ciências tradicionais podem ajudar a ressuscitar um sério interesse nestes tipos de ciência (como ciência e não como história) existentes no próprio ocidente, tal como por exemplo as ciências Herméticas.

Que papel deverá desempenhar a religião neste debate?

Seyyed Hossein Nasr: As religiões têm tudo a haver com a crise ambiental e com o respectivo debate, especialmente nos locais do mundo onde, ao contrário da Europa ocidental, as pessoas ainda são religiosas. Em primeiro lugar, foi a religião, no seu sentido mais vasto, que providenciou uma visão espiritual da existência, incluindo a natureza, em todas as civilizações tradicionais. Como já referi, se no Ocidente a natureza não tivesse sido secularizada, as ciências modernas, seculares e puramente quantitativas, não se teriam desenvolvido; nem tão pouco a tecnologia teria causado tantos estragos no ambiente. Em segundo lugar, as grandes religiões, bem como, especialmente, as religiões primordiais, possuem todas uma ética religiosa relacionada com o mundo da natureza e dos seres humanos. Isto é válido inclusivamente para o Cristianismo, apesar deste aspecto da tradição cristã se ter eclipsado nos tempos modernos e apenas nas últimas décadas os teólogos e éticos cristãos se terem voltado para o problema e proclamado S. Francisco como o santo padroeiro da ecologia.
            Existe definitivamente a necessidade daquilo que agora se apelida de “esverdear” da religião, isto é, o reavivar dos aspectos dos seus ensinamentos que lidam com o ambiente natural e com a responsabilidade do homem perante a criação de Deus. Consegue imaginar a diferença que faria para a preservação do ambiente natural se os pregadores cristãos e muçulmanos, bem como os professores hindus e budistas, continuassem a relembrar aos cristãos, muçulmanos, hindus e budistas nos seus sermões e discursos diários do seu dever religioso como protectores da criação de Deus e não seus inimigos?

Qual é a sua opinião do nível de conhecimento que se pode obter, digamos, de um coiote, através dos estudos de um zoologista a partir da análise dos seus hábitos externos ou da dissecação do seu cadáver, e aquele que pode obter um xamane índio que se identifica com o espírito do animal?

Seyyed Hossein Nasr: A minha opinião é que conhecer o arquétipo – a essência – de um animal é uma forma mais elevada de conhecimento do que conhecer o seu peso, anatomia e hábitos de acasalamento. Este último conhecimento não é, de modo algum, insignificante, e é válido e legítimo ao seu próprio nível, não esgotando, no entanto, a realidade do animal. O conhecimento do animal na sua realidade essencial é sem dúvida um conhecimento mais profundo. É a isso que me referia quando escrevi sobre o homem que se identificava com o coiote, tal como podemos ver nas tradições dos nativos americanos.

Nos tempos actuais, se existe um ponto no qual muitos cientistas e religiosos se interceptam, esse ponto é o anúncio do iminente fim dos tempos como resultado de grandes catástrofes globais. Qual é a correspondência entre estes dois grupos no que respeita a este ponto?

Seyyed Hossein Nasr: As religiões falam do fim da história e de eventos escatológicos tal como vemos muito explicitamente nas fontes tradicionais hindus, cristãs e islâmicas. Elas falam também dos “sinais dos tempos,” sinais que caracterizam o fim da história tal como a conhecemos. O que os cientistas dizem sobre os iminentes desastres ambientais corresponde de muitas formas a estes profetizados “sinais dos tempos.” No entanto, é um grave pecado, falando em termos teológicos, continuar a destruir a natureza em resultado de crenças escatológicas que possamos ter. Esta seria a maior afronta a Deus, pois devemos continuar a seguir os seus ensinamentos enquanto o mundo existir. Seríamos nós, verdadeiros seguidores de uma religião, capazes de ir contra os ensinamentos dos fundadores das nossas religiões incluindo Cristo e não mais ajudar os pobres com o argumento de que a terra será destruída em breve e que é inútil aliviar o sofrimento dos outros? Apenas Deus sabe quando chegará “a Hora”, como dizem os muçulmanos. O Profeta do Islão disse que plantar uma árvore é um acto abençoado mesmo que o mundo esteja para acabar no dia seguinte.

Existe alguma esperança para uma reconciliação dos seres humanos com a natureza – para que nós como seres humanos possamos tomar o nosso devido lugar na ordem da natureza?

Seyyed Hossein Nasr: É claro que existe sempre esperança, e a esperança, tal como disse Santo Agostinho, é uma virtude teológica. Mas depois de passado quase meio século de preocupação e estudo da crise ambiental, cheguei à conclusão que, à excepção de uma intervenção divina, a única hipótese para a presente humanidade é uma grande catástrofe que seja extensiva o suficiente para mudar o paradigma que domina o pensamento e a actuação do homem moderno, e que quebre os seus hábitos de necessidades e de consumo infindável sem qualquer preocupação com os direitos do mundo não humano. Detesto afirmar tal coisa mas, para ser realista, uma vez que a humanidade moderna recusa alterar os seus modos de actuação de uma forma significativa através da educação na escala de tempo e na janela de oportunidade que temos, é melhor que ocorra uma calamidade significativa que cause o despertar da humanidade, do que todos os homens e outras criaturas experienciem uma morte lenta ou um cataclismo totalmente devastador. Espero estar errado nesta análise. De qualquer forma, esperemos que a humanidade recupere o bom senso por si própria antes que surja qualquer cataclismo que nos force a tal. Uma coisa é certa, o que quer que façamos à natureza e por mais certos que possamos estar em resultado do nosso orgulho pelo domínio da natureza, será, como referi anteriormente, a natureza a ter a última palavras a dizer. Finalmente, devemo-nos lembrar que, em última análise, todas as coisas estão nas Mãos de Deus. Devemos fazer o que pudermos e confiar Nele com todo o nosso ser. E Deus sabe mais.

Citações espirituais

Porque existe riso? Porque existe alegria se o mundo está sempre em chamas? Porque não procuras a luz, tu que estás rodeado de escuridão?

Dhammapada, 146


Devemos caminhar sempre em frente no cume da fé, sem olhar para a direita nem para os abismos do mundo, e dizer "sim" ao Bem Soberano que ilumina o nosso caminho e que é o Objectivo.

Frithjof Schuon

domingo, 20 de junho de 2010

A Água e o Seu Significado Espiritual


Apresentamos esta obra que contém artigos e poesia relacionados com a natureza sagrada e sustentadora da água – o seu simbolismo nas grandes tradições espirituais do mundo: Hinduísmo, Judaísmo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Taoísmo, Confucionismo – e a dos nossos Povos Primordiais. Nela podem ser encontrados textos oriundos da área académica em crescimento de Religião e Ecologia, assim como sobre o modo com que os assuntos mundiais da água estão a ser abordados por pessoas de fé. Nesta obra, à medida que aprendemos mais sobre lagos, chuva, rios sagrados, fontes e lágrimas, deparamo-nos com temas universais tais como o Dilúvio, o Transpor das Águas, os Rios do Paraíso e o Baptismo. Deixamos aqui uma muito pequena amostra da mesma.


Deus está para o homem como o magnete está para o ferro. Então por que não atrai Ele o homem? Tal como o ferro profundamente embebido em lama não é movido pela atracção do magnete, também a alma profundamente embebida em Maya não sente a atracção do Senhor. Mas tal como o ferro se move livremente quando a lama é lavada com água, também a alma por constantes lágrimas de oração e de arrependimento lava a lama de Maya que a prende à terra, e é rapidamente atraída pelo Senhor.

Excerto do Evangelho de Sri Ramakrishna


Existe uma "fonte na Divindade, que brota sobre todas as coisas na Eternidade e no Tempo".
Mestre Eckhart


Alguns dos artigos seleccionados pelo editor:

- Wendell Berry, Sabbaths: The Book of Camp Branc (selections)
- Coleman Barks, Wandering Thoughts on Rumi, Water, Music, Love, and Identity
- Jonathan Montaldo, Sacred Waters: Thomas Merton’s Thirst for Contemplation
- Thomas Merton, Rain and the Rhinoceros, In the Rain and Sun, and Song
- Titus Burckhardt, The Symbolism of Water
- Alexander Price, The Centrality of Water in the Hopi Tradition
- Mary Evelyn Tucker and John Grim, The Emerging Alliance of World Religions and Ecology
- Henry David Thoreau, Shells Upon the Shore
- Hamza Yusuf Hanson, Walk on Water
- Rabbi Dr. Menachem Kallus, The Feminine and Masculine Waters in the Teachings of the Baal Shem Tov
- Graeme Castleman, Returning to the Primordial: The Water Symbolism of Baptism
- Martin Lings, The Quranic Symbolism of Water
- A.K. Coomaraswamy, The Sea and The Flood in Hindu Tradition
- Bonnie Myotai Treace Sensei, Take Me to the River: The Koan of Kindness
- Huston Smith, Served With Distinction, 1910­1932
- Selections from the Gospel of Ramakrishna

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Michael Oren Fitzgerald


Michael Oren Fitzgerald nasceu em Indianápolis, em 1949. É autor e editor de livros sobe as religiões do mundo, tradição, cultura e filosofia. Compôs vários livros premiados e documentários, alguns deles usados em cursos universitários. Fitzgerald é um reconhecido especialista na religião e cultura dos índios das planícies dos Estados Unidos da América e é também filho adoptivo do chefe Thomas Yellowtail, um dos mais conhecidos e respeitados líderes espirituais dos índios da América do Norte e sobre quem escreveu uma elogiada biografia.

Frithjof Schuon – Mensageiro da Filosofia Perene

Apresentamos mais esta notável obra de Michael Oren Fitzgerald, Frithjof Schuon: Messenger of the Perennial Philosophy, muito recentemente publicada pela World Wisdom (2010), e que consiste em nada menos do que a mais completa biografia disponível do principal porta-voz da filosofia perene. Para o efeito, recorremos ao preâmbulo da obra, onde podemos encontrar as sempre precisas, profícuas e criteriosamente seleccionadas palavras de William Stoddart.



Apesar de praticamente todos os livros de Frithjof Schuon estarem disponíveis em Inglês há muitos anos, dificilmente se poderá dizer que o seu nome seja familiar. Contudo, para pessoas com interesses especiais em campos tais como o da filosofia, da teologia, da religião comparada, e o da vida espiritual, muito se conhece sobre ele há muito tempo.

A presente biografia providencia, de uma forma aliciante e fascinante, um suporte detalhado sobre a sua vida, os seus escritos, e as suas ideias, mas eu resumirei aqui alguns dos aspectos essenciais de modo a dar imediatamente uma pista relativamente à natureza e ao carácter deste homem.

Frithjof Schoun (1907-1998) nasceu de pais alemães, na cidade suíça de Basileia. Os seus pais eram de origem Católica, mas não praticavam, e encaminharam o seu filho para uma escola Luterana. Durante a sua longa vida, Schuon manteve-se profundamente grato para com um seu estimado professor dos primeiros anos de escola pelas “maravilhosas lições de Bíblia”. Ao mesmo tempo, a criança Schuon ficou fascinada ao ler as “Mil e uma noites” e outros contos tradicionais do mundo inteiro. Ainda enquanto criança, estava já ciente de que o que admirava e aspirava saudosamente eram sobretudo as quatro qualidades universais: “o sagrado, o nobre, o belo e o grande”. Por volta dos 11 ou 12 anos de idade, inesperadamente, teve uma profunda e duradoura experiência espiritual quando viu e foi avassalado pelas três grandes estátuas budistas japonesas do Museu Etnológico de Basileia. Esta foi uma experiência fundamental, e ensinou-lhe como a sabedoria e a santidade são inseparáveis da beleza, e como elas podem ser conduzidas ao coração do homem através dos cumes da arte sagrada.

Depois da morte do seu pai em 1920, a sua mãe e os seus dois filhos mudaram-se para Mulhouse (Mülhausen), na Alsácia, que tinha sido anexada pela França em 1918. A morte do pai e a mudança para a Alsácia foram extremamente traumáticas para o jovem Schuon, mas foi em Mulhouse que frequentou a escola de um convento dirigido por freiras da aristocracia francesa, sob cuja influência o jovem adolescente se tornou apraz e voluntariosamente católico. Foi também nesta altura que aprendeu francês, a língua com que estaria destinado a escrever os seus muitos livros filosóficos.

No decurso da adolescência, Schuon continuaria a aspirar saudosamente pelas quatro qualidades universais acima mencionadas; e, mesmo sem ensinamentos explícitos, o jovem Schuon tinha então desenvolvido um profundo entendimento das realidades metafísicas, teológicas e espirituais. Mas os ensinamentos explícitos estavam também à mão. Lia avidamente as Escrituras sagradas, e especialmente o Bhagavad-Guitá, o qual foi para Schuon uma revelação em todo o sentido da palavra. Contudo, em toda a sua compreensão, inata e adquirida, ele estava só. Era incompreendido pela sua família e relacionados e, como resultante, sofria bastante. Continuou a amar o protestantismo de infância e o catolicismo da juventude mas, ao crescer para a idade adulta, perdeu o apego a elas, e viveu quase inteiramente na firme e implacável aura intelectual do Vedanta e do Platonismo.

Em 1924, aos 17 anos de idade, descobriu os livros do magistral filósofo francês René Guénon (1886-1951). Isto foi para Schuon uma imensa consolação. Não só encontrara nos escritos de Guénon uma confirmação plena da visão profunda que já detinha; encontrara também o vocabulário preciso da metafísica e a terminologia com que poderia vestir e exprimir os seus próprios entendimentos e percepções. Alguns anos mais tarde começaria uma correspondência prolífica, a qual prosseguiu até ao final da vida de Guénon.

Várias eventos e experiências significativos na vida de Schuon ocorreram no final da década de 1920 e início da de 1930, entre as quais o serviço militar, as suas primeiras viagens e, por fim, o seu encontro decisivo com o mestre sufi argelino Shaykh al-‘Alawī. Mas deixo os detalhes destes eventos cruciais e seminais para o biógrafo, que lida com eles copiosamente, e vou virar-me para o importante assunto que foi a longa e íntima associação intelectual com René Guénon.

René Guénon e Frithjof Schuon foram os originadores daquela que subsequentemente ficaria conhecida como a escola de sabedoria “perenialista” ou “tradicionalista”. Guénon foi o pioneiro e Schuon a concretização ou quintessência. Schuon indicava a analogia existente com outras duas escolas de sabedoria que possuíram uma dupla de originadores ou exponentes, nomeadamente aquelas associadas a Sócrates e Platão em Atenas no século V a.C., e a Jalâl ad-Dîn Rûmî e Shams ad-Dîn Tabrîzî na Turquia do século XIII.

Basicamente, o ponto de vista de Guénon e de Schuon é o da “filosofia perene”. Este termo tornou-se familiar aos leitores de língua inglesa através da publicação, em 1945, do livro de Aldous Huxley com este mesmo título. A ideia central da filosofia perene é a de que a Verdade Divina é uma, intemporal, e universal, e que as diferentes religiões são justamente diferentes linguagens que expressam aquela Verdade una. O símbolo mais comummente usado para transportar esta ideia é o da luz incolor e das muitas cores do espectro que se faz visível apenas quando a luz incolor é refractada. Na Renascença, o termo exprimia o reconhecimento do facto de que as filosofias de Pitágoras, Platão, Aristóteles, e Plotino, expunham indiscutivelmente as mesmas verdades que aquelas assentes no coração do Cristianismo. Subsequentemente, o significado do termo foi alargado de modo a cobrir a metafísica e o misticismo de todas as grandes religiões, especialmente do Hinduísmo, do Budismo e do Islão.

De facto, Huxley não foi o primeiro a apresentar esta ideia na era moderna. Já tinha sido aventada pelo santo bengali Ramakrishna (1836-1886), que estava intimamente familiarizado – e num nível mais profundo que Huxley –, não apenas com o Hinduísmo, mas também com o Cristianismo e com o Islão. Contudo, tendo em consideração o “exotismo” e infamiliaridade do grande Ramakrishna, e também as dúbias credenciais religiosas de um Huxley assaz superficial e sincretista, nem o termo nem a ideia da “filosofia perene” surgiram de uma posição favorável entre religiosos mais conservadores, cristãos ou outros.

Mas ocorreu um desenvolvimento que ninguém poderia antever. Na década de 1920, os livros do filósofo francês René Guénon começaram a aparecer. Estes livros expunham, no modo irrefutável de Platão, a unicidade da Verdade supra-formal e a multiplicidade das expressões formais que dela advêm. Assim, é possível perceber que a razão de ser das diferentes religiões não é que elas são “todas iguais” mas, precisamente, que elas são todas diferentes! A essência (respeitante a Deus, ao homem, e à salvação) é obviamente a mesma, mas as formas são significativamente diferentes. Cada religião – não apenas o Cristianismo – faz uma reivindicação absoluta, justamente pela razão de que é uma expressão do Absoluto; esta é a sua justificação e a sua sine qua non. Vermelho, amarelo e verde não são escuridão; ao contrário, cada uma delas é uma refracção da luz incolor. O princípio da unidade religiosa reside somente em Deus, e é um homem precipitado aquele que afirma que Deus Se expressou em apenas uma língua!

Os trabalhos de Guénon foram seguidos, da década de 1930 em diante, pela longa série de artigos e livros de Schuon, que foi quem levou a exposição da verdade intemporal e da sua qualidade salvífica a uma elevação incrível. A mensagem de Schuon foi realmente uma de verdade, beleza, e salvação.

É difícil disputar a profundidade e a genialidade deste dois autores que foram os originadores da corrente de intelectualidade e espiritualidade conhecida como a escola “perenialista” ou “tradicionalista”. Nada pode retirar a originalidade da visão de Guénon e de Schuon, mas é apropriado referir alguns dos grandes precursores a quem eles se referem frequentemente. Entre eles incluem-se Shankara (Hinduísmo), Platão (Grécia Antiga), Eckhart (Cristianismo Ocidental), e Ibn ‘Arabî (Islão). Porém, a visão perenialista não requer formulações exaustivas: pode-se resumir nas palavras de Cristo: “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos tornará livres”. Para a filosofia perene, isto é realmente tudo: verdade intemporal, e a sua qualidade libertadora.

Talvez devido à superficialidade de um Huxley do início do século XX e às fantasias nas ideias do movimento “nova era” do final do século XX, a escola Perenialista, com as suas teses universais e referências extra-cristãs, é ainda encarada com suspeição em alguns círculos. Na realidade, algumas pessoas tendem a confundir dois opostos: as ideias “nova era” e a filosofia perene. Outros, de novo, pensam que a filosofia perene está apenas relacionada com algo que é pejorativamente referido como “misticismo Oriental”, esquecendo que o próprio termo é de origem Cristã, e que foi primeiramente utilizado para formular o reconhecimento cristão das verdades eternas do platonismo. Estas verdades eternas são precisamente tudo o que é a filosofia perene.

A filosofia perene não é para néscios, e é precisamente isso que o homem moderno e sofisticado precisa de saber. A filosofia perene – que é o universalismo verdadeiro e o ecumenismo verdadeiro – é o reconhecimento da origem divina de cada religião. A essência de cada religião é pura verdade, e as várias formas religiosas vestem essa verdade com trajes de diferentes padrões e cores. “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” Este ensinamento de Cristo aplica-se não só ao Céu, mas também à Terra. A função das várias religiões é expressar a verdade e oferecer uma via de salvação, de um modo ajustado aos diferentes segmentos e etnicidades da humanidade. Cada religião vem de Deus, e cada religião leva de volta a Deus. Mormente, cada religião compreende uma doutrina e um método, isto é dizer, é uma verdade iluminadora unida a um meio de salvação. Se assim não fosse, não seria uma questão de religião, mas de uma ideologia vazia humanamente criada (tal como o Freudismo, o Jungianismo, o Teilhardismo, e muitas outras) incapaz de salvar quem quer que seja.

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Frithjof Schuon resumia por vezes a sua mensagem de uma forma extremamente sucinta. Por exemplo:

Todos os seus ensinamentos em quatro palavras: Verdade, Oração, Virtude, Beleza.

As três concomitâncias do Amor de Deus: Natureza Virgem, Arte Sagrada, Companhia Sagrada.

A doutrina de Shankara, o método de Honen, a primordialidade dos Índios Americanos.

Relativamente ao último destes sumários: Shankara foi o pináculo da sabedoria Hindu, um mestre da metafísica universal na forma do Advaita Vedanta (“não-dualidade”); Hônen, um mestre do Budismo (Amida) japonês, foi um preeminente exemplar da confiança total no poder salvador do Nome revelado; no que respeita aos grandes Chefes Índios, eles evocam as qualidades de dignidade, coragem, frugalidade, sacrifício, e proximidade à Natureza Virgem.

Em termos cristãos este ternário é: a doutrina de Mestre Eckhardt, o método de São Bernardino de Siena, e o amor da natureza (a primordialidade) de São Francisco de Assis.

Em termos islâmicos é: Tawhîd (a doutrina da unidade), Dhikr (a lembrança de Deus), e Fitra (natureza primordial ou o estado de hanîf).

Cada uma das várias expressões de cada uma das três componentes deste ternário (doutrina, método, e primordialidade) deriva do mesmo (respectivo) arquétipo. O primeiro exemplo acima mencionado (relativo a Shankara, Hônen, e aos Índios Americanos) – formulado pelo próprio Schuon – é particularmente apropriado, evocativo, e uma expressão memorável dos três arquétipos respectivos.

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Em termos pessoais, Schuon foi uma combinação de majestade e humildade; de rigor e amor. Schuon era feito de objectividade e incorruptibilidade, unidos com compaixão. Nos muitos encontros durante um período de quase cinco décadas, as qualidades pessoais que constantemente me impressionavam eram a sua paciência infinita e generosidade infinita.

Que esta informativa e bem documentada biografia transmita com sucesso aos leitores o fenómeno precioso e único que foi Frithjof Schuon.

William Stoddart
Windsor, Ontario