terça-feira, 8 de março de 2011

Charles le Gai Eaton

Charles le Gai Eaton nasceu em Lausanne, Suíça, e recebeu a sua educação no Chasterhouse e King´s College em Cambridge. Trabalhou vários anos como professor e jornalista na Jamaica e no Egipto antes de ingressar no Serviço Diplomático Inglês. Desempenhou o papel de consultor do Centro Cultural Islâmico de Londres. Foi autor de vários livros: Islam and the Destiny of Man, King of the Castle e Remembering God, e contribuía frequentemente com artigos para a publicação periódica Studies in Comparative Religion. O seu último livro e autobiografia intitulado A Bad Beginning and the Path to Islam foi publicado pela editora Archetype em Janeiro de 2010. Deixou-nos recentemente, a 26 de Fevereiro do mesmo ano.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Citações espirituais

As flores não forçam o seu caminho em conflito.
Ao sol, elas abrem-se vagarosamente para a perfeição…
Não tenhas pressa em questões espirituais.
Passo a passo, caminha sempre com certeza.

                                                                            - Águia Branca


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Direcçoes para o suprasensível

Vamos continuar a apresentação do próximo número da Revista Sabedoria Perene. Os excertos apresentados de seguida são extraídos da tradução do texto de Harry Oldmeadow que servirá como introdução ao tema deste terceiro número, a Natureza. Este texto foi originalmente publicado no 6º número da Revista Sacred Web em 2001.


Seyyed Hossein Nasr inicia o seu livro Religion and the Order of Nature (1996) com as seguintes palavras:

A Terra sangra de feridas infligidas por uma humanidade que perdeu a harmonia com o Céu e que, por essa razão, vive em constante conflito com o ambiente terrestre.

Apesar de amplamente reconhecido o facto de nos encontrarmos, presentemente, num estado de “constante conflito”, as causas mais profundas para esta condição são raramente compreendidas. Testemunha-se o surgimento de uma pletora de obras dedicadas à “crise ecológica” que, apesar de muitas vezes bem intencionadas e esporadicamente denotando alguma acuidade, são fundamentalmente confusas em resultado da ignorância de princípios metafísicos e cosmológicos intemporais. Foi precisamente a tarefa de figuras como René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon, autoridades na exposição da sophia perennis, a de relembrar o mundo moderno desses princípios que podem ser ignorados mas não refutados. O meu propósito com este trabalho é providenciar um esboço, maioritariamente a partir de citações, de alguns dos princípios e doutrinas que governam o entendimento de Schuon sobre a ordem natural. Não vou apresentar uma explicação detalhada mas sim um conjunto elíptico de apontamentos, recorrendo sobretudo a alguns dos seus primeiros trabalhos, Light on the Ancient Worlds (1965) e Spiritual Perspectives and Human Facts (1967), bem como aos seus escritos dedicados aos índios americanos das planícies, reunidos na obra The Feathered Sun: Plains Indians and Philosophy (1990).

* * *

(…) Avancemos agora para a nossa série de apontamentos: em primeiro lugar, para a questão do porquê da existência do mundo, do universo e do reino de maya, e de quais as relações entre o Absoluto inqualificável (identificado de modos diferentes, tais como Divindade, Supra-Ser, nirguna Brahman e outros), Deus como Criador e o mundo manifestado. Iniciemos com uma passagem, caracteristicamente densa, de Schuon sobre esta questão:

Em relação à questão da “origem” da ilusão [maya], esta é daquelas que podem ser resolvidas (…) apesar de ser impossível ajustar a sua resolução a todas as necessidades de causalidade (…) a infinitude da Realidade implica a possibilidade da sua própria negação (…) e, sendo esta negação impossível no Absoluto em si mesmo, é necessário que esta “possibilidade do impossível” se realize numa “dimensão interna” que não é “nem real nem irreal”, isto é, que é real no seu próprio nível ao mesmo tempo que é irreal em relação à Essência; daqui resulta que em toda a parte estamos em contacto com o Absoluto – não podemos sair dele –, o qual é, no entanto e ao mesmo tempo, infinitamente distante, de tal modo que nenhum pensamento o pode circunscrever.

Não existe nada de anormal ou idiossincrático na formulação de Schuon de uma dimensão que “não é real nem irreal”; compare-se a mesma com esta, por exemplo, de Santo Agostinho:

Eu contemplei todas estas outras coisas sob Vós, e vi que nem existem absolutamente, nem absolutamente deixam de existir. Por certo têm existência pois procedem de Vós; e, no entanto, não existem pois não são o que Vós sois. Pois apenas existe verdadeiramente aquilo que permanece imutável…

* * *

(…) O entendimento tradicionalista da natureza e da arte sagrada é baseado numa compreensão muito precisa da natureza do simbolismo. Um símbolo pode ser definido como uma realidade de uma ordem inferior que participa de modo analógico numa realidade de uma ordem superior do ser. Deste modo, um símbolo devidamente constituído depende das qualidades inerentes e objectivas dos fenómenos, bem como da sua relação com realidades espirituais. Assim, a ciência do simbolismo resulta numa disciplina rigorosa que deve ter por base um discernimento das significações qualitativas das substâncias, cores, formas, relações espaciais, etc. Isto é crucial. Schuon afirma:

(…) não estamos aqui a lidar com apreciações subjectivas, pois as qualidades cósmicas estão ordenadas em relação ao ser e de acordo com uma hierarquia mais real que o individual; elas são, assim, independentes dos nossos gostos pessoais (…)

Este princípio é tão importante que merece ser reafirmado, recorrendo agora às palavras de Seyyed Hossein Nasr:

O símbolo não se baseia em convenções criadas pelo homem. Ele é um aspecto da realidade ontológica das coisas e, como tal, independente da percepção que o homem tem dele. O símbolo é a revelação de uma ordem de realidade superior numa ordem inferior, através da qual o homem pode ser reencaminhado para o reino superior. Aceitar os símbolos implica aceitar a estrutura hierárquica do universo e dos estados múltiplos do ser.

As significações simbólicas não podem ser inventadas ou imputadas. O simbolismo tradicional é, na realidade, uma linguagem objectiva concebida, não de acordo com os impulsos individuais ou “gostos” colectivos, mas sim em conformidade com a natureza das coisas. Este simbolismo deverá ter em consideração não apenas a “beleza sensível” mas também “as fundações espirituais dessa beleza”. Em resultado da sua precisão e objectividade, um símbolo tradicional pode ser considerado com um “calculus” ou uma “álgebra” para expressar ideias universais: “a função de qualquer símbolo é quebrar a casca de esquecimento que resguarda o conhecimento imanente no Intelecto”. A concepção do simbolismo como uma linguagem objectiva é axial no trabalho mais amadurecido de Coomaraswamy, grande parte do qual foi direccionado para o despertar de uma adequada compreensão do vocabulário simbólico das artes tradicionais. Numa das suas formulações características, afirma:

O simbolismo é uma linguagem e uma forma precisa de pensamento; uma linguagem hierática e metafísica, não uma linguagem determinada por categorias somáticas ou psicológicas. A sua fundação assenta sobre correspondências analógicas (…) o simbolismo é um calculus, no mesmo sentido em que uma analogia adequada é uma prova.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Palavras Trovão

O Infinito é o que é; podemos compreendê-lo ou não. A metafísica não pode ser ensinada a todos; mas se pudesse não existiria o ateísmo.


Frithjof Schuon, Spiritual Perspectives and Human Facts

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As dimensões espiritual e religiosa da crise ambiental

Prossegue a preparação do terceiro número da Revista Sabedoria Perene, dedicado ao tema da Natureza. O texto seguidamente apresentado é uma tradução da sessão de abertura de uma das muitas palestras do Prof. Seyyed Hossein Nasr sobre o tema da crise ambiental e sobre a sua profunda relação com a intelectualidade e a espiritualidade ou religiosidade. Uma selecção dos conteúdos leccionados nesta palestra, enquadrada no âmbito do Programa de Educação Religiosa e Ambiente (REEP) dos Amigos do Centro e da Academia Temenos em 1998, será incluida no próximo número da Revista Sabedoria Perene.


Não existe nada mais premente para discutir do que a questão da crise ambiental e das verdades e falsidades associadas a todo este assunto. A palavra “crise” não é utilizada neste contexto por acidente já que se trata seguramente de uma verdadeira crise, a qual segue o encalço daquela crise espiritual e intelectual que é indissociável da perspectiva predominante do mundo moderno. Aquela crise anterior, a qual René Guénon discutiu há praticamente um século atrás em várias obras, incluindo em a Crise do Mundo Moderno, a qual era conhecida por uns poucos e ignorada pela maioria. A crise ambiental é todavia demasiado manifesta para ser ignorada, mesmo pela multidão. É uma crise de extrema gravidade e urgência e qualquer um que a menospreze está simplesmente a enganar-se a si mesmo ou a sonhar acordado. Porém, está na nossa natureza tentarmos nos esquivar do confronto com o que exige de nós as mais profundas transformações interiores.

Poderá ser da nossa natureza tentarmos nos esquivar de um perigo eminente a menos que estejamos verdadeiramente perante ele, mas não o pretendemos encarar precisamente pela razão de que é um perigo. A imagem séria pintada por académicos e cientistas honestos que estão interessados no futuro da humanidade pode, frequentemente, ser inutilizada por uma empresa de filmagens que envie uma câmara para a floresta, para fotografar uns poucos pássaros a voar por ali, com a pretensão de mostrar quão “normal” é a situação ambiental da terra, mesmo em zonas urbanas. Mas a verdade é o oposto. Estamos perto de uma enorme crise, a qual tem que ser tomada de forma completamente séria. Mormente, é também necessário compreender que a crise ambiental não pode ser resolvida através de boa engenharia (ou melhor engenharia); não pode ser resolvida através de planeamento económico; nem mesmo pode ser resolvida através de modificações de cosmética na nossa concepção do desenvolvimento e da mudança. A crise ambiental requer uma transformação muito radical na nossa consciência, e isto não significa descobrir um estado de consciência completamente novo, mas sim regressar ao estado de consciência que a humanidade tradicional sempre teve. Significa redescobrir a forma tradicional de olhar para o mundo da natureza como presença sagrada.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Palavras de sabedoria

Mais uma edição no outro lado do Atlântico com interesse para os leitores do Sabedoria Perene. Referimo-nos à tradução do famoso Hikam de Ibn Atâ’Allah al-Iskandari. A tradução para a língua portuguesa, de Aluizio J.R. Monteiro Jr., foi efectuada a partir da tradução do árabe para o francês realizada por Abd-ar-Rahman Buret com a colaboração e introdução de Titus Burckhardt.


O Hikam, ou “As palavras de sabedoria”, de Ibn Ata’Allâh de Alexandria figura entre as mais célebres compilações de aforismos sufis. Difundiu-se por quase todo o mundo islâmico a partir do Magreb (norte da África), onde foi objecto de inúmeros comentários, até a Indonésia, onde foi traduzido para o malaio. Sua difusão é, de certa forma, paralela à da ordem sufi Shadiliya, que tem no Hikam o vade mecum, o guia e o companheiro de viagem daquele que percorre a Via contemplativa. Isso porque Ibn Ata’Allah, nascido em meados do séc. VII/XIII e falecido em 709/1309 no Cairo, foi não somente o discípulo e sucessor do mestre Abu-I-Abbas al-Mursi, ele próprio discípulo do fundador dessa ordem, Íman Abu-I-Hassan Shadili, mas também o primeiro mestre desta Tariqa sufi a deixar uma obra doutrinal escrita. Podemos presumir que seu Hikam resume e fixa o ensinamento oral de seus predecessores.

Titus Burckhardt


Ibn ‘Atâ-Allah al-Iskandarî al-Judâmî as-Shâdilî, nasceu em Alexandria, Egito, no século XIII/VII (da hegira). Teve uma educação tradicional islâmica recebida de grandes mestres. Seu sheikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî predisse que Ibn ‘Atâ-Allah tornar-se-ia uma autoridade tanto na sharia/fiqh como na tariqah/Via espiritual: “Ele disse pela via da sharia, o conhecimento exotérico, e pelo da Verdade ou tariqah, o conhecimento esotérico”. O shaikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî foi um discípulo privilegiado do sheikh as-Shâdilî, qutb (pólo espiritual) de seu tempo e um dos maiores mestres sufis da história do Islão. Com relação aos fundamentos da Via espiritual, Ibn ‘Atâ-Allah afirma que: “A base de sua Via – que Deus seja louvado – é a concentração em Deus, o combate contra a dispersão (ádam at-tafriqa), a perseverança no retiro espiritual (khalwah) e a invocação (zikr) do supremo Nome”. Sua obra portadora de grandes ensinamentos metafísicos e espirituais, também dirigida ao crente comum, regista com beleza e sabedoria os ensinamentos de seus mestres da Via sufi.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ocultismo & Religião


Este estimulante livro expõe e debate as relações entre psicologia, ocultismo e religião que permeiam as obras de Freud, Jung e Mircea Eliade.

Ele expõe informações, só recentemente disponíveis, que mostram que havia na psicanálise freudiana aspectos que iam além do materialismo estrito pelo qual ela ficou popularmente conhecida. Harry Oldmeadow e Mateus Soares de Azevedo revelam, em primeira mão em língua portuguesa, que o método psicanalítico concebido por Freud sofreu forte influência de ramos subterrâneos da tradição judaica, sobretudo de movimentos messiânicos heterodoxos, como o Sabataísmo e o Frankismo.

De modo similar, o livro documenta como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung se valeu de doutrinas gnósticas, ocultistas e mesmo cristãs para compor seu método terapêutico, o qual muitos atribuem perfeita convergência com doutrinas tradicionais. Em outras palavras, a presente obra discute se o Junguismo constitui uma alternativa real à perspectiva de Freud, como se acredita em círculos intelectuais e religiosos contemporâneos.

Ocultismo & Religião (São Paulo, editora Ibrasa, 2011) põe em relevo igualmente a vida e a obra do historiador de religiões romeno Mircea Eliade, outro influente intelectual que refletiu sobre os choques e intercâmbios entre religião, ocultismo e psicologia.

Os autores confrontam com discernimento e coragem o lugar do homem em um mundo no qual a ciência despojou o cosmo de significado profundo, solapou os pilares da fé e roubou do homem sua envergadura espiritual.

*

SUMÁRIO

Apresentação
Capítulo 1 – A religião secreta de Freud
Capítulo 2 – Jung e os crentes sem religião
Capítulo 3 – Mircea Eliade e Jung
Bibliografia Selecionada

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Caminho para o Coração*

Esta publicação resulta de uma muita generosa dádiva enviada por um dos nossos amigos do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que é fundador, conjuntamente com Mateus Soares de Azevedo, de um projecto já aqui mencionado por diversas vezes, a editora Sapientia.

Esta sua partilha, que vamos mencionar mais à frente, permite-nos abordar um aspecto menos conhecido de um dos maiores expositores da Sabedoria Perene, Frithjof Schuon. Referimo-nos ao facto deste, para além de encarnar nos nossos tempos aquilo que podemos imaginar terem sido os grandes sábios de tempos imemoriais, ter sido um grandioso artista e, nos últimos três anos da sua vida, um extraordinário e prolífero poeta, escrevendo cerca de 3500 curtos poemas na sua língua materna, o alemão.

Nas palavras de William Stoddart, esta torrente de poemas “cobre todos os aspectos possíveis da doutrina metafísica, do método espiritual, das virtudes, bem como do papel e função da beleza… exibem uma incrível sagacidade, profundidade, compreensão e compaixão. Eles são a sua dádiva final para o mundo, o seu testamento e o seu legado.” Ainda segundo a opinião deste autor amplamente autorizado para falar da obra de Schuon, o principal tema destes poemas “é a oração confiante a um Deus todo-misericordioso e a benevolência para com os homens de boa vontade. Acima de tudo, os poemas são instrumentos de instrução e, como tal, uma poderosa propulsão para o interior.” Patrick Laude diz-nos, ainda, que o esoterismo quintessencial que Schuon expõe tem as características da simplicidade da verdade pura, e que é esta simplicidade que os seus poemas transmitem, oferecendo uma “destilação musical do elixir da sabedoria”.

É precisamente esta sua vertente de poeta que temos o prazer de dar a conhecer através de alguns versos traduzidos por Alberto Queiroz. Tratam-se de composições poéticas pertencentes à colecção de poemas ingleses, escritos antes da 'explosão' na sua língua materna, e que são, também eles, verdadeiras pérolas de ‘sabedoria destilada’. Diz-nos o tradutor que a tradução de poesia é algo extremamente complexo e que estas traduções, efectuadas há vários anos, foram até hoje fruídas apenas por um núcleo muito restrito de amigos. Por esta razão, é imensa a nossa gratidão para com o tradutor, e é grande a esperança que os nossos leitores possam, tal como nós, sentir a fragrância, recorrendo às palavras de Alberto Queiroz, do remoto perfume do original.

* - Nome dado à colecção de poemas ingleses escrita por Frithjof Schuon.


Regina Coeli

És mais que um Símbolo, estás perto
De mim como o sangue e o coração; é certo,
És o ar que me faz viver, que puro e sábio me faz;
Doce e terno ar que o paraíso me traz.

És mais que as palavras que de ti falam,
E mais que as músicas sacras que embalam
Nosso louvor a Ti. Meu êxtase te pertencia
Mesmo antes de Deus criar a vinha.


Diga ‘Sim’

Diga ‘sim’ a Deus, Deus a ti dirá ‘sim’:
Da Porta do Céu, eis a chave dourada.
Na terra, não me ocupa minha estrada,
Ela pode ser longa:
              Curta é a Estrada de Deus a mim.


Grandeza

Perguntas-me o que é grandeza: um valor
Do homem não é, mas do Criador.
Nosso cor deve saber antes que seja tarde
Só nossa consciência de Deus tem tal qualidade.

Há uma só consciência d’Ele, veja bem.
A mil espelhos a única Luz se oferta.
A contingência é sonho, mas a Verdade é certa:
Sê o que és, não perguntes quem é quem.


Memento

Sabes que não podes mudar o mundo;
Renuncia a ele, deixas as coisas serem o que devem ser.
Certas coisas podemos mudar, outras não;
Em todo destino há algo a aprender.

Não esqueças: existe um Sumo Bem
Cujo Amor pode vencer a Fatalidade.
A razão é que o som mais profundo do Ser
Vem da harpa da pura Felicidade.


Liberdade

Sentes que o mundo terreno é triste,
Mas tal tristeza chorar não devias;
Não digas que é mau o mundo que existe…

Pois a toda sombra a hora final soa
E é infinda a alegria oculta nas coisas;
A vida é às vezes dura, mas a alma voa.

Contempla a dupla face da existência:
De um lado está o ferro, mas do outro o ouro vive.
Devias ver a felicidade que é tua essência,
E então saberias: Deus a fez pura e livre.


Omega

Da Infinitude dar uma imagem finita:
Em toda poesia esta intenção habita.
Toda obra humana a um limite final se inclina;
Seu arquétipo, no Céu, nunca termina.

Da Arte e da Beleza, qual a razão?
Mostrar o rumo do mais fundo Coração.

O canto de um pássaro do Céu surgia;
O mundo fora um sonho; era eu a melodia.


Símbolo

O Símbolo devias trazer em teu peito
E no Símbolo devias sempre morar;
Ele é um tesouro, e um abrigo,
E uma arma, e um barco a nos salvar.

Ele é uma Graça divina que nos dá vida;
Em tal Graça, não te podes perder.
E saiba, tu também és o Símbolo e
O Sinal de Deus, ou não pod’rias ser.


Ápice

Qual foi o maior instante em nossa vida?
Qual a maior felicidade, em que evento?
Terá sido um dia de glória, ou de amor?
Quando com gente santa passamos um momento?

Deve ter sido o dia em que encontramos Deus.
Ele entrou no tempo, não se sabe como. Mas, ora,
O tempo está sempre aí, e Deus é perto.
E assim, o ápice de nossa vida é agora.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encontro Nacional Evoliano - 2010

Aqui fica a divulgação de um evento para os nossos estimados leitores do outro lado do Atlântico - o Encontro Nacional Evoliano. O evento decorrerá em João Pessoa, Paraíba, de 15 a 17 de Dezembro de 2010.



PROGRAMAÇÃO

Dia 15 de dezembro – Quarta-feira

19:00hs - Abertura e credenciamento

Palestra de apresentação: “Evola e a Tradição”

Dia 16 de dezembro – Quinta-feira

Palestra R. Daher

10:30 as 12:00hs - Comunicações

Palestra Luiz Pontual

14:00hs - “Evola, Guénon e a Tradição”

16:00hs - Debate: Evola e Guénon

17:00 lançamento de livros

1. Revolta Contra o Mundo Moderno – Julius Evola, 2010 – IRGET
2. Tradição Hermética – Julius Evola, 2010 – Ascese

Palestra Prof. Dr. Deyve Redson

19h00hs “Schopenhauer e o Pensamento Oriental”

Dia 17 de dezembro – Sexta-feira

Palestra Luiz Pontual 09:00

09:00hs - “Kon tan- A lanterna Cosmológica”

10:30hs - Debate

Palestra Prof. Mateus Azevedo 14:00

14:00hs - “A Filosofia Perene e os Luminares Espirituais do Século XX”.

16:00 hs - Mesa redonda: Filosofia Perene com Mateus Azevedo, Deyve Redson e outros

Lançamento de livros

1. FORMA & SUBSTÂNCIA NAS RELIGIÕES - DE FRITHJOF SCHUON (ED. SAPIENTIA, 2010)

2. OCULTISMO & RELIGIÃO: EM FREUD , jUNG E MIRCEA ELIADE - DE HARRY OLDMEADOW E MATEUS SOARES DE AZEVEDO (ED. IBRASA, 2010)

19h00hs - Debate e Plenária - Instituto Evola?

Sábado

Reunião Instituto Evola 09:00 as 10:30hs

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A agricultura e o destino humano

O trecho abaixo apresentado constitui uma dupla estreia neste espaço de divulgação da escola de pensamento tradicionalista/perenialista. A do notável Lorth Northborne, autor do extraordinário A Agricultura e o destino humano, cuja versão final e integral constará no próximo número da Revista Sabedoria Perene, e também a do tradutor do respectivo artigo, Sandro Faria, a quem estamos muito gratos pelo importante contributo.

*

A Crosta desta terra experimenta periodicamente convulsões de várias naturezas e escalas. No decurso das maiores, continentes existentes são submersos e novos emergem. Entre convulsões, poderão existir idades de gelo e idades de chuva e de aquecimento que afectam a totalidade, ou apenas partes, da superfície do globo terrestre. Todas estas ocorrências, gigantescas e avassaladoras que são do ponto de vista humano, são incidentes triviais numa série de contínuas alterações que ocorrem numa escala cósmica, surpreendem a nossa imaginação pela sua imensidade e duração e reduzem todos os fenómenos terrestres a uma insignificância quantitativa. Em termos quantitativos, a vida humana é duplamente insignificante, pois desempenha um tão pequeno papel na história geológica do planeta, o qual não pode ser considerado separadamente do sistema solar nem este último separadamente do resto do universo.

Assim, se a vida humana tem algum significado de todo, não é no domínio da quantidade mas sim no domínio da qualidade. Valerá somente a pena preservar a vida humana em virtude do seu conteúdo qualitativo ou potencialidade qualitativa, ainda que a mesma tenha um aspecto quantitativo inerente, o qual não pode ser preservado a menos que se satisfaçam os seus requisitos quantitativos. A satisfação desses requisitos é justificada apenas até ao necessário para o desenvolvimento das potencialidades qualitativas da humanidade.

A maior dificuldade que surge no decorrer desta afirmação é que a natureza dessas potencialidades qualitativas não pode ser definida com precisão. Apenas a quantidade é mensurável, a qualidade como tal pode ser enunciada mas não medida. A qualidade é eternamente o que é, ou é percebida pelo que é ou não é percebida de todo. Nada pode expressar a sua natureza a quem não a percebe directamente. No entanto há que falar sobre qualidade, uma vez que é a chave para tudo; sem ela não há nada senão o caos da indistinção, a abstracção do número puro. Ao discutir qualidade, o mais que se pode fazer é comparar coisas que possuem uma qualidade com coisas que não a possuem. Ainda assim, a comparação é significativa apenas para alguém que conhece por experiência o que a qualidade em questão é.

Isto é tanto ou mais verdade para a qualidade, ou qualidades, que podem ser chamadas de “espirituais”. A palavra espiritual é inevitavelmente mal aplicada ou mal interpretada por qualquer um cujos limites da realidade coincidem com os limites da mensurabilidade. O mensurável é, em última análise, tudo o que pode ser contido nos poderes analíticos e descritivos do cérebro humano. Se não houvesse nada que transcendesse esses poderes, toda a qualidade poderia em princípio ser reduzida a quantidade. A distinção qualitativa essencial do homem reside nas suas potencialidades espirituais.

As convulsões terrestres envolvem a destruição periódica de vidas, humanas ou outras. Isto pode surgir-nos como algo terrível e tornar difícil compreender como é que um Deus todo misericordioso pode ter ordenado os acontecimentos desta forma. Esquecemo-nos que a lei da vida e da morte é aplicável não individualmente a criaturas vivas mas a tudo o que, por associação com a quantidade, é conferido uma forma, universos e o que fica para baixo. Tudo deve perecer; somente o Espírito, qualidade pura, é imperecível e sempre inteiramente ele próprio. Quer como indivíduos, quer como sociedades humanas, somos perecíveis. O Homem sempre soube isto, mas ao mesmo tempo também sempre considerou que deve haver, por assim dizer, algo por detrás de tudo, algo imperecível e maior que ele próprio. [1] Aceitar a perecibilidade e a dependência de nós mesmos e de todo o universo das formas, com toda a humildade que essa aceitação implica, é um prelúdio necessário para o entendimento da nossa situação, e tal entendimento é indispensável para uma actuação efectiva. No presente, os nossos alcances no domínio do quantitativo e do perecível parecem ter obscurecido a nossa dependência do qualitativo e do imperecível, confundindo por conseguinte o nosso sentido de direcção e frustrando muitas acções bem-intencionadas.

O que é que tem tudo isto a ver com agricultura? Tudo, na realidade; pela dupla razão de que o solo, resultado das convulsões terrestres, providencia a sua fundação física e que a relação da qualidade para com a quantidade, não apenas nos produtos finais da agricultura mas também na nossa abordagem aos seus problemas, envolve-nos a todos mais do que normalmente pensamos.

Do ponto de vista estrito da biologia e da economia, a agricultura é a fundação da vida humana no planeta e assim tem sido desde que o aumento da população ultrapassou as potencialidades de produção de alimentos da Natureza virgem. Uma vez estabelecida, torna-se na principal expressão do relacionamento entre o homem e a Natureza. Todas as restantes actividades humanas surgem como ramificações desta relação e são dela dependentes. Poderíamos seguir sem elas mas não sem a agricultura. Consequentemente, afecta-nos mais directamente que qualquer outra actividade; a qualidade das nossas vidas e a nossa posição é reflexo dela, e a sua qualidade reflecte-se em nós.

Esta verdade auto-evidente tem vindo a ser obscurecida pelas atracções e distracções do desenvolvimento industrial, mas surge-nos novamente, agora no seu aspecto quantitativo, devido ao rápido crescimento da população mundial. Este incremento parece acompanhar sempre uma revolução industrial. [2] Num período de tempo incrivelmente curto, o progresso industrial passou a ser o objectivo de quase todas as nações; e, uma vez estabelecido, um objectivo não é prontamente abandonado, especialmente quando a riqueza é o seu alvo e esta parece alcançável. Embora nos encontremos perante um risco de fome mundial dentro de poucas décadas, continuamos a dedicar uma proporção cada vez maior do nosso dinheiro e energia ao desenvolvimento industrial, cujas exigências são insaciáveis. A indústria gera constantemente novos crescimentos, que por sua vez criam novas oportunidades, mas com elas também novos desejos e novas necessidades. [3]

*


[1] Se não fosse assim, tanto ele próprio como o mundo perecível das formas seriam inteiramente irreais, uma mera ilusão passageira, sem causa e sem objectivo. Não só um tal conceito é contradito pela nossa consciência de existência mas é também, em última análise, desprovido de significado.

[2] Uma explosão populacional não é necessariamente ou somente resultado de mais ou melhor comida, habitação, ou atenção médica; por exemplo, nenhuma destas condições estiveram particularmente presente no início da revolução industrial britânica. Elas podem sem dúvida ajudar a sua concretização assim que esta começa, mas não são a sua causa.

[3] Curiosamente – ou talvez não tão curiosamente – os novos desejos são ao mesmo tempo os mais dispendiosos e os mais absurdos, por exemplo, televisão a cores, viagens cada vez mais rápidas e a colocação do homem na lua. Expansão pela expansão é a máxima; apenas pode ser alcançada mais rapidamente à custa de terceiros; quando todos a têm como objectivo, por toda a parte se exacerbam rivalidades entre interesses sectários, nacionais ou outros, e a preparação para a guerra, “fria” ou “quente”, torna-se de longe a maior consumidora de recursos.

Lord Northbourne

Lord Northbourne (1896-1982), Walter Ernest Christopher James, foi o 4.º Barão Northbourne de Kent, Inglaterra. Agricultor, educador, tradutor, cujos escritos versam sobre agricultura e religião comparada. Recebeu a sua educação em Oxford e foi Reitor do Wye College — o colégio de agricultura da Universidade de Londres. Lord Northbourne era um agrónomo perspicaz e escreveu um influente livro em 1940, Look to the Land. Neste livro, introduziu ao mundo o termo "agricultura biológica", bem como os conceitos relacionados com a gestão de uma proriedade agrícola como um “todo orgânico”. Depois de ler este livro, Marco Pallis contactou e introduziu Lord Northbourne aos escritos e às ideias tradicionalistas/perenialistas. Desde então, Lord Northbourne passou a adoptar este padrão de pensamento nos seus próprios escritos e a integrá-lo na sua própria vida, mantendo correspondência com muitos dos mais proeminentes escritores desta escola de pensamento, bem como com Thomas Merton. Os seus escritos são frequentemente citados como excelentes introduções à perspectiva tradicionalista, destacando-se também como tradutor e editor de importantes obras tais como The Reign of Quantity and the Signs of the Times, de René Guénon, Light on the Ancient Worlds, de Frithjof Schuon e Sacred Art in East and West, de Titus Burckhardt.


Publicações no “Sabedoria Perene”:

A agricultura e o destino humano

domingo, 14 de novembro de 2010

Dança

Como agradecimento a mais um maravilhoso espectáculo de dança tradicional da Índia, proporcionada pelas bailarinas Tarikavalli e Lajja Sambhavnath, ficam as seguintes palavras de Frithjof Schuon (Art from the Sacred to the Profane – East and West, World Wisdom 2007).

 * * *

A dança combina o espaço e o tempo, ao mesmo tempo que sumariza as restantes condições: a forma é representada pelo corpo do bailarino; o número, pelos seus movimentos; a matéria, pela sua carne; a energia, pela sua vida; o espaço, pela extensão que contém o seu corpo; e o tempo, pela duração que contém os seus movimentos. É assim que a Dança de Shiva sumariza as seis condições da existência, as quais são como que as dimensões de Māyā, e a priori as de Ātmā; se a Dança de Shiva, a Tāndava, traz a destruição do mundo, isto resulta precisamente do facto de fazer regressar Māyā a Ātmā. E é assim que toda a dança sagrada traz os acidentes de volta à Substância, ou o objecto particular, acidental e diferenciado, de volta ao Sujeito universal, substancial e uno (...)