quinta-feira, 31 de março de 2011

Natureza e "Nova Era"

O texto do Prof. Seyyed Hossein Nasr que constará no terceiro número da Revista Sabedoria Perene, já apresentado, inclui alguns comentários relavantes sobre os movimentos "Nova Era". Pela pertinência dos mesmos, aqui fica o destaque.

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(...) Não é concedida qualquer objectividade à realidade da natureza percebida através do conhecimento religioso. É por isto que até o simbolismo se tornou subjectivizado – é reivindicado como sendo “meramente” psicológico, à la Jung. Todos os símbolos que o homem tradicional via no mundo da natureza como sendo objectivos e como sendo parte da realidade ontológica da natureza foram postos de parte por este tipo de mentalidade que já não leva a sério o conhecimento religioso da natureza.

Durante estes últimos trinta anos, quando se fez sentir a sede por uma aproximação mais holística à natureza, algo ainda pior aconteceu, pois nem a religião convencional nem a ciência moderna mostraram qualquer interesse no conhecimento religioso e simbólico da natureza e numa aproximação holística. A procura de água para esta sede infiltrou-se sob as estruturas da cultura ocidental e surgiu na forma de movimentos “Nova Era”, dos quais praticamente todos estão muito interessados na ciência do cosmos. Mas o que estes movimentos reivindicam como ciência é na realidade uma pseudo-ciência da “Nova Era” do cosmos. Não é uma ciência tradicional autêntica, porque a ciência tradicional do cosmos tem que estar relacionada com a estrutura religiosa tradicional. Neste clima da “Nova Era”, a palavra “cósmico” ganhou uma grande prevalência precisamente devido à escassez de um conhecimento religioso autêntico do cosmos no mundo actual. De algum modo a sede tinha de ser satisfeita. Assim ocorreu a escavação dos ensinamentos esotéricos ocidentais sobre a natureza – geralmente apresentados de modo distorcido – ou empréstimos das religiões orientais e dos seus ensinamentos sobre a natureza, muitas vezes distorcidos. Nem mesmo o famoso e influente livro de Fritjof Capra, O Tao da Física, fala verdadeiramente de cosmologia hindu ou de física chinesa, mas apenas menciona certas comparações entre a física moderna e ideias metafísicas hindu e taoistas.

Certamente que existem muitas e profundas correlações e concordâncias para serem encontradas entre certos aspectos da biologia, da astronomia e da física quântica, de um lado, e as doutrinas orientais da natureza, do cosmos, do outro lado. Eu seria a última pessoa a duvidar desta verdade. Mas o que quase sempre ocorreu não foi o tipo de comparação profunda que temos em mente, mas a sua paródia, um tipo de versão popularizada de um conhecimento religioso da natureza, que habitualmente envolve algum tipo de ocultismo ou mesmo algum tipo de culto existente. O grande e visível interesse pelo xamanismo na América, e pelo fenómeno integral da tradição dos índios americanos (a qual é uma das maiores e mais belas tradições primordiais que ainda sobrevive até certo ponto), com sessões xamânicas de fim-de-semana, deve-se precisamente ao facto de que tais ensinamentos apelam a um tipo de mentalidade que procura alguma forma de conhecimento da natureza com carácter espiritual e holístico, para além daquele que a ciência moderna oferece. Este fenómeno é um dos paradoxos dos nossos dias e não ajudou a crise ambiental em nenhuma maneira apreciável. Na verdade, criou uma certa confusão no domínio da religião e criou um vazio entre as organizações religiosas convencionais que ainda sobrevivem no ocidente – sejam elas católica, protestante ou ortodoxa – e estes pseudo-movimentos e o fenómeno “Nova Era”, contra os quais aquelas organizações se opõem justamente. O facto destes movimentos pseudo-religiosos serem muito pró-ambiente, ainda que de uma maneira ineficiente, provocou que muitas das pessoas comuns adoptassem uma postura contrária às posições que deveriam defender. Assim temos, na América, a situação paradoxal de que os grupos de cristãos mais conservadores são os menos interessados no ambiente. Este fenómeno não foi originalmente causado pelo surgimento das religiões “Nova Era”, mas está certamente relacionado com e é fortalecido por elas.

sábado, 26 de março de 2011

Entrevista com William Stoddart

Estamos de novo profundamente agradecidos ao nosso amigo brasileiro Alberto Vasconcellos Queiroz, da Editora Sapientia, por nos ter enviado a seguinte tradução de uma entrevista dada por William Stoddart, autor britânico hoje radicado no Canadá, a propósito da publicação na Croácia de seu livro Cristãos e Muçulmanos, já aqui apresentado. Fiquemos então com as suas sempre sábias e ponderadas palavras.


O choque entre o Islã e o Cristianismo influenciará o cenário político futuro da Europa e do mundo? Como isso se daria?

Em geral, estou otimista nesta questão. Acho que chegámos, ou logo chegaremos, a um ponto máximo de temor e de hostilidade entre as duas comunidades, e que a partir de agora podemos esperar que as coisas melhorem gradualmente. Para que isso aconteça, duas coisas são necessárias: em primeiro, cada comunidade deve chegar a um melhor e mais solidário entendimento de o que a outra religião significa, e de por que a crença nela é firme e inamovível; em segundo, sobre a base disso, cada comunidade deve ter um desejo sincero de aceitar a existência da outra, de respeitá-la e de conviver com ela de forma amigável. Eu acredito que o bom senso das pessoas comuns – junto com a orientação vinda de umas poucas figuras públicas de boa-vontade – no fim prevalecerá. Há tantas coisas, no nível prático, que as pessoas conscienciosas de ambas as comunidades têm em comum: acima de tudo, o se opor ao declínio nos valores morais e revertê-lo, e o criar uma frente comum contra a indiferença religiosa e o materialismo. Muitos há que se oporão a todo esforço de conciliação. Devemos estar preparados para eles!

Concorda com Huntington, que argumenta que a anterior divisão ideológica do mundo foi substituída pelo choque religioso, entre civilizações?

Discordo radicalmente. Hoje não há razão para um choque entre o Cristianismo tradicional e o Islã tradicional. O que vimos nos anos recentes foi um choque entre o terrorismo urbano moderno (erroneamente chamado de “islâmico”) e o humanismo ocidental moderno (erroneamente chamado de “cristão”).

Merkel e Sarkozy sustentam que a idéia de multiculturalismo fracassou na Europa. Eles estão certos?

Sim e não. Da forma como as coisas estão hoje em dia, o multiculturalismo falhou. Mas as duas religiões estarão aí para sempre, e este fato deve ser admitido e uma solução, encontrada. Não há uma alternativa à co-existência, mesmo se o nome “multiculturalismo” tenha de ser mudado! Os imigrantes muçulmanos devem aprender a respeitar a sensibilidade e as expectativas do povo do país que adotaram, e a comunidade cristã deve aceitar o fato de que a comunidade muçulmana veio para ficar, e tomar uma firme resolução de alcançar com eles um modus vivendi positivo e construtivo. Há que haver uma compreensão do fato de que a comunidade muçulmana tem frequentemente de enfrentar a intimidação de terroristas presuntivos em seu meio. O quanto mais frequentemente os terroristas e seus simpatizantes forem identificados, presos e submetidos aos rigores da lei, tanto mais fácil será para as pessoas amantes da paz prevalecer. Neste instante mesmo, um grande número de corajosos muçulmanos, tanto líderes locais quanto pessoas comuns, falaram abertamente e assumiram uma posição pública contra a hostilidade entre as comunidades e em favor da harmonia entre elas, mas tais pessoas quase não aparecem na mídia.

Em outras épocas, eram os cristãos que estavam causando destruição em nome da cruz. Hoje, terroristas muçulmanos matam em nome de Allah, embora líderes religiosos defendam publicamente a paz. Como isso é possível?

A causa está em nossa natureza “caída”! No caso dos muçulmanos, contudo, seria necessário acrescentar que eles também têm um sério ressentimento devido à total ignorância e mesmo, frequentemente, cumplicidade do Ocidente com certas injustiças fundamentais que eles, muçulmanos, vêm sofrendo no Oriente Médio desde o final da Segunda Guerra Mundial. A reação dos terroristas a essa injustiça está fundamentalmente errada sob todos os pontos de vista. É uma resposta ruim a uma ação ruim. Mas essa injustiça também causa exasperação nas mentes dos muçulmanos simples e amantes da paz, e ela não pode ser esquecida quando a questão das relações entre cristãos e muçulmanos é considerada.

O propósito de toda religião é fornecer um meio de vencer a natureza caída a que nos referimos. Toda religião ensina a verdade, a bondade e a paz. O homem caído defende tais coisas da boca para fora, ele fica muito a dever quando se trata de pô-las em prática. De passagem, diga-se que é preciso compreender que só há um Deus, quer o chamemos Jehovah, Theos ou Allah.

A Bíblia e o Alcorão são livros muito similares. A união de todas as religiões monoteístas do mundo é apenas uma utopia ou é um futuro realista?

É óbvio que as formas exteriores das várias religiões são diferentes. É esta, precisamente, sua razão de ser. Mas fica claro, na Bíblia e no Alcorão, que seu conteúdo interior, como acabei de dizer, é verdade, bondade e paz, ou melhor, verdade, beleza e salvação. Inimigos da tolerância religiosa citam repetidamente os versos do Alcorão que são exemplos de violência ordenada por Deus. Mas o Deuteronômio também fornece uma série de exemplos de violência ordenada por Deus, incluindo o massacre de tribos inteiras. Em ambas as Escrituras, esse foram comandos vindos de Deus, e não ações incitadas por homens.

A mensagem fundamental da Bíblia e do Alcorão, a mensagem do Rei Davi, do Rei Salomão, do Senhor Jesus e do Profeta Mohammed, indica claramente a base subjacente que torna possível a co-existência. Cada religião deve permanecer fiel a si mesma, e ao mesmo tempo respeitar a religião de seus vizinhos. As religiões não podem e não devem se “fundir”. As religiões podem ser comparadas às cores do espectro, que vêm da refração da luz incolor, mas, se misturamos as diversas cores, tudo o que obtemos é um marrom lamacento! Cada cor deve poder brilhar sem ser adulterada ou manchada. É essa pluralidade de cores que faz do mundo um lugar tão bonito! A pluralidade das religiões tradicionais (todas reveladas ao homem por Deus) é algo que está na natureza das coisas. A pluralidade, nestes dois casos, é algo positivo, não negativo!

A Croácia é em sua maior parte um país católico. Muitas pessoas acreditam que este país é um bom exemplo de uma bem-sucedida integração de muçulmanos. O que pensa disso?

Acho que a Croácia, precisamente em função de ser um país de maioria católica, é um belo exemplo para outros países de como as comunidades religiosas podem viver pacificamente lado a lado. Trata-se de (1) ter uma compreensão e aceitação inicial do direito da outra religião de existir, e (2) isso pelo exercício da boa-vontade, do bom senso, e pela aplicação da experiência.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Notícia

A edição em língua inglesa do livro “Homens de um livro só: o fundamentalismo no islã, no cristianismo e no pensamento moderno”, apresentado em Lisboa pelo autor Mateus Soares de Azevedo, foi nomeada para Livro do Ano na categoria de religião.

terça-feira, 8 de março de 2011

O protesto da terra

Seguimos com a apresentação do terceiro número da revista Sabedoria Perene, o qual esperamos disponibilizar muito em breve. Os trechos seleccionados e apresentados de seguida foram extraídos de um texto de Charles le Gai Eaton publicado no livro “The Essential SOPHIA – The Journal of Traditional Studies”, Word Wisdom 2006. O texto, “The Earth’s Complaint”, foi inicialmente publicado no Volume 3 - nº1 da publicação periódica SOPHIA. Trata-se de um olhar corânico para a crise ambiental que vivemos, o qual comporta em si uma mensagem urgente para todos os homens, que continuam de costas voltadas e com “ouvidos moucos” para a terra e para os sinais de um iminente “protesto”.


Quando a terra tremer com um grandioso tremor, e a terra ceder aos seus fardos, e o homem gritar “O que a aflige?” – Nesse Dia ela contará as suas histórias, pois o seu Senhor a inspirou. Nesse Dia a humanidade sairá em grupos separados para lhe serem mostradas as suas acções. Quem quer que tenha feito o peso de um átomo de bem o verá nesse momento, e quem quer que tenha feito o peso de um átomo de mal o verá nesse momento.
Alcorão 99:1-8


Como reforço às implicações desta curta sûra, o Profeta terá dito que, quando nascer o Último Dia, a própria terra testemunhará tudo o que o homem fez. Poderia, assim, dizer-se, que deixamos as nossas impressões digitais em tudo o que tocamos, e que estas se mantêm bem para lá do momento em que seguimos o nosso caminho.

(…)

Não existem lugares onde nos possamos esconder. Estamos, como nos relembra de diversas formas o Alcorão, rodeados de uma hoste de testemunhas, desde Deus e os Seus anjos até à terra que pisamos. Não lhes conseguimos esconder os nossos segredos. Por vezes me interrogo se será essa a razão pela qual os árabes tendem tanto para o secretismo. Sabendo que são observados de todo o lado, de cima e de baixo, estimam a única privacidade que lhes resta colocando um véu entre eles e o seu próximo, quer seja homem ou mulher. No outro extremo, os ocidentais actuais procuram desenfreadamente confessar tudo, não apenas aos seus amigos mas também na televisão e na imprensa. Ao se crerem sós, vedados e inobservados, eles sentem a necessidade de se auto-exporem como forma de escapar ao isolamento.

No entanto, o rasto que deixamos atrás de nós na terra é apenas um dos lados da relação recíproca que temos com tudo o que nos rodeia. Não somos estanques mas sim como que porosos. Ensopamos elementos de tudo quanto vemos, ouvimos ou tocamos, os quais absorvemos na nossa substância. Quando tratamos o mundo natural como um objecto a ser explorado e conquistado, estamos também a danificar-nos a nós mesmos. Os ambientalistas não deixam de ter razão quando predizem que o nosso abuso da terra terá consequências desastrosas para a humanidade, mas essa deveria ser a menor das nossas preocupações. As consequências ocorrem a vários níveis; quanto mais elevado o nível, mais mortais podem elas ser. O Alcorão ordena: “Não geres confusão na terra após este justo comando.” Quando diz também que a terra e tudo o que nela existe é criada para nosso uso, isto não implica uma transferência de propriedade; é uma incumbência a nós delegada, e respondemos perante o “Senhor de todas as coisas” pelo nosso ministério. O muçulmano é constantemente relembrado, quer no Alcorão, quer nos ditos preservados do Profeta, que a ganância e o desperdício estão entre os maiores pecados. Podemos usar aquilo que nos é disponibilizado para o nosso sustento, mas nada mais; e mesmo esse pouco não é mais do que um roubo se abandonámos a nossa função humana e decidimos renunciar a oração universal que transporta toda a criação de novo para a sua origem.

Ao muçulmano é garantido que toda a terra é para ele uma mesquita. As construções emparedadas para as quais é chamado para a oração são apenas uma conveniência. Os campos, as florestas e o deserto são igualmente adequados como locais de oração e, assim, exigem o mesmo respeito que é prestado a uma mesquita convencional. A ligação com o céu pode ser estabelecida em toda e qualquer parte (“Para onde quer que te vires, aí está a Face de Deus”). (…)

(…)

Mas apreender, mesmo que de uma forma vaga, os “sinais de Deus” à nossa volta – aqueles sinais que o Alcorão refere repetidamente – exige os olhos de uma criança preservados na maturidade. É dito que o Profeta rogou em oração: “Senhor, acresce-me em espanto!” É esta a forma como uma criança vê o mundo, puro como acabado de criar pela mão de Deus e repleto de maravilhas. No entanto, com a passagem dos anos e das ansiedades que o tempo impõe, essa visão esmorece; por outro lado, nas palavras do Alcorão: “Não são os olhos que cegam, mas os corações nos peitos que cegam.” Imbuído de fé, o coração ainda pode recuperar a sua visão, a sua intuição. Depois da chamada para a oração, quando os muçulmanos se alinham em filas apertadas atrás do seu Imam, o líder da oração, eles são chamados a gastar alguns instantes na renúncia de todas os cuidados do dia e de todos os assuntos urgentes que prenderam a sua atenção, a virar a sua face para o Criador e Lhe dirigir a palavra. Por vezes o Imam oferece-lhes alguns concelhos: “Rezem como se esta fosse a vossa primeira oração!” Cada vez que nos voltamos para Deus é um novo começo, um renascer, e o mesmo deveria suceder quando olhamos, com os corações despertos, para o mundo que nos rodeia.

Ao agirmos assim devemo-nos lembrar que nada é o que parece, ou melhor, que nada é apenas aquilo que parece. Tal como com os versos do Alcorão (no árabe, a mesma palavra é usada para versos e para “sinais” na natureza), existe um significado literal e, ao mesmo tempo, um significado mais profundo. Os versos são sagrados, tal como o são os “sinais”. É aqui que chegamos a um dos sintomas mais perigosos da alienação; a perda do sentido do sagrado no mundo moderno, uma perda – uma privação – que afecta tanto a Umma muçulmana como o ocidente. O Alcorão condena aqueles que separam aquilo que Deus juntou, e a fragmentação que vemos hoje é um exemplo claro desta separação de conexões. O crítico francês da nossa civilização tecnológica, Jacques Elull, referiu que, no passado, a experiência profunda do sagrado era o seu contacto imediato com o mundo natural. É praticamente impossível compreender totalmente o que é a religião – ou os grandes mitos que testemunhavam a unidade do cosmos – quando a natureza se tornou remota e inteiramente “outra”. Como diz Elull, o sentido do sagrado decai quando deixa de ser rejuvenescido pela experiência. A percepção dos habitantes das cidades seca em resultado da falta de suportes na sua nova experiência no mundo artificial da tecnologia urbana.

A perda de harmonia entre o homem e o seu meio ambiente natural não é mais do que um aspecto da perda de harmonia entre o homem e o seu Criador. Aqueles que viram as costas ao Criador e O esquecem, não mais se podem sentir em casa na criação. Eles assumem o papel das bactérias que acabam sempre por destruir o corpo que invadiram. Desta forma, o “Vice regente de Deus na terra” não mais detém a custódia da natureza e, ao perder a sua função, é um estranho que não reconhece os marcos ou que se conforma com os costumes deste lugar; alienado, vê-o apenas como matéria-prima a explorar. Ele pode encontrar riquezas e conforto na exploração, mas não a felicidade. Ele nunca poderá cantar como o poeta persa Sa’di:

Eu estou radiante com o cosmos,
pois o cosmos recebe a sua alegria através Dele;
eu amo o mundo,
pois o mundo a Ele pertence.

(…)

Charles le Gai Eaton

Charles le Gai Eaton nasceu em Lausanne, Suíça, e recebeu a sua educação no Chasterhouse e King´s College em Cambridge. Trabalhou vários anos como professor e jornalista na Jamaica e no Egipto antes de ingressar no Serviço Diplomático Inglês. Desempenhou o papel de consultor do Centro Cultural Islâmico de Londres. Foi autor de vários livros: Islam and the Destiny of Man, King of the Castle e Remembering God, e contribuía frequentemente com artigos para a publicação periódica Studies in Comparative Religion. O seu último livro e autobiografia intitulado A Bad Beginning and the Path to Islam foi publicado pela editora Archetype em Janeiro de 2010. Deixou-nos recentemente, a 26 de Fevereiro do mesmo ano.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Citações espirituais

As flores não forçam o seu caminho em conflito.
Ao sol, elas abrem-se vagarosamente para a perfeição…
Não tenhas pressa em questões espirituais.
Passo a passo, caminha sempre com certeza.

                                                                            - Águia Branca


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Direcçoes para o suprasensível

Vamos continuar a apresentação do próximo número da Revista Sabedoria Perene. Os excertos apresentados de seguida são extraídos da tradução do texto de Harry Oldmeadow que servirá como introdução ao tema deste terceiro número, a Natureza. Este texto foi originalmente publicado no 6º número da Revista Sacred Web em 2001.


Seyyed Hossein Nasr inicia o seu livro Religion and the Order of Nature (1996) com as seguintes palavras:

A Terra sangra de feridas infligidas por uma humanidade que perdeu a harmonia com o Céu e que, por essa razão, vive em constante conflito com o ambiente terrestre.

Apesar de amplamente reconhecido o facto de nos encontrarmos, presentemente, num estado de “constante conflito”, as causas mais profundas para esta condição são raramente compreendidas. Testemunha-se o surgimento de uma pletora de obras dedicadas à “crise ecológica” que, apesar de muitas vezes bem intencionadas e esporadicamente denotando alguma acuidade, são fundamentalmente confusas em resultado da ignorância de princípios metafísicos e cosmológicos intemporais. Foi precisamente a tarefa de figuras como René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon, autoridades na exposição da sophia perennis, a de relembrar o mundo moderno desses princípios que podem ser ignorados mas não refutados. O meu propósito com este trabalho é providenciar um esboço, maioritariamente a partir de citações, de alguns dos princípios e doutrinas que governam o entendimento de Schuon sobre a ordem natural. Não vou apresentar uma explicação detalhada mas sim um conjunto elíptico de apontamentos, recorrendo sobretudo a alguns dos seus primeiros trabalhos, Light on the Ancient Worlds (1965) e Spiritual Perspectives and Human Facts (1967), bem como aos seus escritos dedicados aos índios americanos das planícies, reunidos na obra The Feathered Sun: Plains Indians and Philosophy (1990).

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(…) Avancemos agora para a nossa série de apontamentos: em primeiro lugar, para a questão do porquê da existência do mundo, do universo e do reino de maya, e de quais as relações entre o Absoluto inqualificável (identificado de modos diferentes, tais como Divindade, Supra-Ser, nirguna Brahman e outros), Deus como Criador e o mundo manifestado. Iniciemos com uma passagem, caracteristicamente densa, de Schuon sobre esta questão:

Em relação à questão da “origem” da ilusão [maya], esta é daquelas que podem ser resolvidas (…) apesar de ser impossível ajustar a sua resolução a todas as necessidades de causalidade (…) a infinitude da Realidade implica a possibilidade da sua própria negação (…) e, sendo esta negação impossível no Absoluto em si mesmo, é necessário que esta “possibilidade do impossível” se realize numa “dimensão interna” que não é “nem real nem irreal”, isto é, que é real no seu próprio nível ao mesmo tempo que é irreal em relação à Essência; daqui resulta que em toda a parte estamos em contacto com o Absoluto – não podemos sair dele –, o qual é, no entanto e ao mesmo tempo, infinitamente distante, de tal modo que nenhum pensamento o pode circunscrever.

Não existe nada de anormal ou idiossincrático na formulação de Schuon de uma dimensão que “não é real nem irreal”; compare-se a mesma com esta, por exemplo, de Santo Agostinho:

Eu contemplei todas estas outras coisas sob Vós, e vi que nem existem absolutamente, nem absolutamente deixam de existir. Por certo têm existência pois procedem de Vós; e, no entanto, não existem pois não são o que Vós sois. Pois apenas existe verdadeiramente aquilo que permanece imutável…

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(…) O entendimento tradicionalista da natureza e da arte sagrada é baseado numa compreensão muito precisa da natureza do simbolismo. Um símbolo pode ser definido como uma realidade de uma ordem inferior que participa de modo analógico numa realidade de uma ordem superior do ser. Deste modo, um símbolo devidamente constituído depende das qualidades inerentes e objectivas dos fenómenos, bem como da sua relação com realidades espirituais. Assim, a ciência do simbolismo resulta numa disciplina rigorosa que deve ter por base um discernimento das significações qualitativas das substâncias, cores, formas, relações espaciais, etc. Isto é crucial. Schuon afirma:

(…) não estamos aqui a lidar com apreciações subjectivas, pois as qualidades cósmicas estão ordenadas em relação ao ser e de acordo com uma hierarquia mais real que o individual; elas são, assim, independentes dos nossos gostos pessoais (…)

Este princípio é tão importante que merece ser reafirmado, recorrendo agora às palavras de Seyyed Hossein Nasr:

O símbolo não se baseia em convenções criadas pelo homem. Ele é um aspecto da realidade ontológica das coisas e, como tal, independente da percepção que o homem tem dele. O símbolo é a revelação de uma ordem de realidade superior numa ordem inferior, através da qual o homem pode ser reencaminhado para o reino superior. Aceitar os símbolos implica aceitar a estrutura hierárquica do universo e dos estados múltiplos do ser.

As significações simbólicas não podem ser inventadas ou imputadas. O simbolismo tradicional é, na realidade, uma linguagem objectiva concebida, não de acordo com os impulsos individuais ou “gostos” colectivos, mas sim em conformidade com a natureza das coisas. Este simbolismo deverá ter em consideração não apenas a “beleza sensível” mas também “as fundações espirituais dessa beleza”. Em resultado da sua precisão e objectividade, um símbolo tradicional pode ser considerado com um “calculus” ou uma “álgebra” para expressar ideias universais: “a função de qualquer símbolo é quebrar a casca de esquecimento que resguarda o conhecimento imanente no Intelecto”. A concepção do simbolismo como uma linguagem objectiva é axial no trabalho mais amadurecido de Coomaraswamy, grande parte do qual foi direccionado para o despertar de uma adequada compreensão do vocabulário simbólico das artes tradicionais. Numa das suas formulações características, afirma:

O simbolismo é uma linguagem e uma forma precisa de pensamento; uma linguagem hierática e metafísica, não uma linguagem determinada por categorias somáticas ou psicológicas. A sua fundação assenta sobre correspondências analógicas (…) o simbolismo é um calculus, no mesmo sentido em que uma analogia adequada é uma prova.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Palavras Trovão

O Infinito é o que é; podemos compreendê-lo ou não. A metafísica não pode ser ensinada a todos; mas se pudesse não existiria o ateísmo.


Frithjof Schuon, Spiritual Perspectives and Human Facts

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As dimensões espiritual e religiosa da crise ambiental

Prossegue a preparação do terceiro número da Revista Sabedoria Perene, dedicado ao tema da Natureza. O texto seguidamente apresentado é uma tradução da sessão de abertura de uma das muitas palestras do Prof. Seyyed Hossein Nasr sobre o tema da crise ambiental e sobre a sua profunda relação com a intelectualidade e a espiritualidade ou religiosidade. Uma selecção dos conteúdos leccionados nesta palestra, enquadrada no âmbito do Programa de Educação Religiosa e Ambiente (REEP) dos Amigos do Centro e da Academia Temenos em 1998, será incluida no próximo número da Revista Sabedoria Perene.


Não existe nada mais premente para discutir do que a questão da crise ambiental e das verdades e falsidades associadas a todo este assunto. A palavra “crise” não é utilizada neste contexto por acidente já que se trata seguramente de uma verdadeira crise, a qual segue o encalço daquela crise espiritual e intelectual que é indissociável da perspectiva predominante do mundo moderno. Aquela crise anterior, a qual René Guénon discutiu há praticamente um século atrás em várias obras, incluindo em a Crise do Mundo Moderno, a qual era conhecida por uns poucos e ignorada pela maioria. A crise ambiental é todavia demasiado manifesta para ser ignorada, mesmo pela multidão. É uma crise de extrema gravidade e urgência e qualquer um que a menospreze está simplesmente a enganar-se a si mesmo ou a sonhar acordado. Porém, está na nossa natureza tentarmos nos esquivar do confronto com o que exige de nós as mais profundas transformações interiores.

Poderá ser da nossa natureza tentarmos nos esquivar de um perigo eminente a menos que estejamos verdadeiramente perante ele, mas não o pretendemos encarar precisamente pela razão de que é um perigo. A imagem séria pintada por académicos e cientistas honestos que estão interessados no futuro da humanidade pode, frequentemente, ser inutilizada por uma empresa de filmagens que envie uma câmara para a floresta, para fotografar uns poucos pássaros a voar por ali, com a pretensão de mostrar quão “normal” é a situação ambiental da terra, mesmo em zonas urbanas. Mas a verdade é o oposto. Estamos perto de uma enorme crise, a qual tem que ser tomada de forma completamente séria. Mormente, é também necessário compreender que a crise ambiental não pode ser resolvida através de boa engenharia (ou melhor engenharia); não pode ser resolvida através de planeamento económico; nem mesmo pode ser resolvida através de modificações de cosmética na nossa concepção do desenvolvimento e da mudança. A crise ambiental requer uma transformação muito radical na nossa consciência, e isto não significa descobrir um estado de consciência completamente novo, mas sim regressar ao estado de consciência que a humanidade tradicional sempre teve. Significa redescobrir a forma tradicional de olhar para o mundo da natureza como presença sagrada.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Palavras de sabedoria

Mais uma edição no outro lado do Atlântico com interesse para os leitores do Sabedoria Perene. Referimo-nos à tradução do famoso Hikam de Ibn Atâ’Allah al-Iskandari. A tradução para a língua portuguesa, de Aluizio J.R. Monteiro Jr., foi efectuada a partir da tradução do árabe para o francês realizada por Abd-ar-Rahman Buret com a colaboração e introdução de Titus Burckhardt.


O Hikam, ou “As palavras de sabedoria”, de Ibn Ata’Allâh de Alexandria figura entre as mais célebres compilações de aforismos sufis. Difundiu-se por quase todo o mundo islâmico a partir do Magreb (norte da África), onde foi objecto de inúmeros comentários, até a Indonésia, onde foi traduzido para o malaio. Sua difusão é, de certa forma, paralela à da ordem sufi Shadiliya, que tem no Hikam o vade mecum, o guia e o companheiro de viagem daquele que percorre a Via contemplativa. Isso porque Ibn Ata’Allah, nascido em meados do séc. VII/XIII e falecido em 709/1309 no Cairo, foi não somente o discípulo e sucessor do mestre Abu-I-Abbas al-Mursi, ele próprio discípulo do fundador dessa ordem, Íman Abu-I-Hassan Shadili, mas também o primeiro mestre desta Tariqa sufi a deixar uma obra doutrinal escrita. Podemos presumir que seu Hikam resume e fixa o ensinamento oral de seus predecessores.

Titus Burckhardt


Ibn ‘Atâ-Allah al-Iskandarî al-Judâmî as-Shâdilî, nasceu em Alexandria, Egito, no século XIII/VII (da hegira). Teve uma educação tradicional islâmica recebida de grandes mestres. Seu sheikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî predisse que Ibn ‘Atâ-Allah tornar-se-ia uma autoridade tanto na sharia/fiqh como na tariqah/Via espiritual: “Ele disse pela via da sharia, o conhecimento exotérico, e pelo da Verdade ou tariqah, o conhecimento esotérico”. O shaikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî foi um discípulo privilegiado do sheikh as-Shâdilî, qutb (pólo espiritual) de seu tempo e um dos maiores mestres sufis da história do Islão. Com relação aos fundamentos da Via espiritual, Ibn ‘Atâ-Allah afirma que: “A base de sua Via – que Deus seja louvado – é a concentração em Deus, o combate contra a dispersão (ádam at-tafriqa), a perseverança no retiro espiritual (khalwah) e a invocação (zikr) do supremo Nome”. Sua obra portadora de grandes ensinamentos metafísicos e espirituais, também dirigida ao crente comum, regista com beleza e sabedoria os ensinamentos de seus mestres da Via sufi.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ocultismo & Religião


Este estimulante livro expõe e debate as relações entre psicologia, ocultismo e religião que permeiam as obras de Freud, Jung e Mircea Eliade.

Ele expõe informações, só recentemente disponíveis, que mostram que havia na psicanálise freudiana aspectos que iam além do materialismo estrito pelo qual ela ficou popularmente conhecida. Harry Oldmeadow e Mateus Soares de Azevedo revelam, em primeira mão em língua portuguesa, que o método psicanalítico concebido por Freud sofreu forte influência de ramos subterrâneos da tradição judaica, sobretudo de movimentos messiânicos heterodoxos, como o Sabataísmo e o Frankismo.

De modo similar, o livro documenta como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung se valeu de doutrinas gnósticas, ocultistas e mesmo cristãs para compor seu método terapêutico, o qual muitos atribuem perfeita convergência com doutrinas tradicionais. Em outras palavras, a presente obra discute se o Junguismo constitui uma alternativa real à perspectiva de Freud, como se acredita em círculos intelectuais e religiosos contemporâneos.

Ocultismo & Religião (São Paulo, editora Ibrasa, 2011) põe em relevo igualmente a vida e a obra do historiador de religiões romeno Mircea Eliade, outro influente intelectual que refletiu sobre os choques e intercâmbios entre religião, ocultismo e psicologia.

Os autores confrontam com discernimento e coragem o lugar do homem em um mundo no qual a ciência despojou o cosmo de significado profundo, solapou os pilares da fé e roubou do homem sua envergadura espiritual.

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SUMÁRIO

Apresentação
Capítulo 1 – A religião secreta de Freud
Capítulo 2 – Jung e os crentes sem religião
Capítulo 3 – Mircea Eliade e Jung
Bibliografia Selecionada

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Caminho para o Coração*

Esta publicação resulta de uma muita generosa dádiva enviada por um dos nossos amigos do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que é fundador, conjuntamente com Mateus Soares de Azevedo, de um projecto já aqui mencionado por diversas vezes, a editora Sapientia.

Esta sua partilha, que vamos mencionar mais à frente, permite-nos abordar um aspecto menos conhecido de um dos maiores expositores da Sabedoria Perene, Frithjof Schuon. Referimo-nos ao facto deste, para além de encarnar nos nossos tempos aquilo que podemos imaginar terem sido os grandes sábios de tempos imemoriais, ter sido um grandioso artista e, nos últimos três anos da sua vida, um extraordinário e prolífero poeta, escrevendo cerca de 3500 curtos poemas na sua língua materna, o alemão.

Nas palavras de William Stoddart, esta torrente de poemas “cobre todos os aspectos possíveis da doutrina metafísica, do método espiritual, das virtudes, bem como do papel e função da beleza… exibem uma incrível sagacidade, profundidade, compreensão e compaixão. Eles são a sua dádiva final para o mundo, o seu testamento e o seu legado.” Ainda segundo a opinião deste autor amplamente autorizado para falar da obra de Schuon, o principal tema destes poemas “é a oração confiante a um Deus todo-misericordioso e a benevolência para com os homens de boa vontade. Acima de tudo, os poemas são instrumentos de instrução e, como tal, uma poderosa propulsão para o interior.” Patrick Laude diz-nos, ainda, que o esoterismo quintessencial que Schuon expõe tem as características da simplicidade da verdade pura, e que é esta simplicidade que os seus poemas transmitem, oferecendo uma “destilação musical do elixir da sabedoria”.

É precisamente esta sua vertente de poeta que temos o prazer de dar a conhecer através de alguns versos traduzidos por Alberto Queiroz. Tratam-se de composições poéticas pertencentes à colecção de poemas ingleses, escritos antes da 'explosão' na sua língua materna, e que são, também eles, verdadeiras pérolas de ‘sabedoria destilada’. Diz-nos o tradutor que a tradução de poesia é algo extremamente complexo e que estas traduções, efectuadas há vários anos, foram até hoje fruídas apenas por um núcleo muito restrito de amigos. Por esta razão, é imensa a nossa gratidão para com o tradutor, e é grande a esperança que os nossos leitores possam, tal como nós, sentir a fragrância, recorrendo às palavras de Alberto Queiroz, do remoto perfume do original.

* - Nome dado à colecção de poemas ingleses escrita por Frithjof Schuon.


Regina Coeli

És mais que um Símbolo, estás perto
De mim como o sangue e o coração; é certo,
És o ar que me faz viver, que puro e sábio me faz;
Doce e terno ar que o paraíso me traz.

És mais que as palavras que de ti falam,
E mais que as músicas sacras que embalam
Nosso louvor a Ti. Meu êxtase te pertencia
Mesmo antes de Deus criar a vinha.


Diga ‘Sim’

Diga ‘sim’ a Deus, Deus a ti dirá ‘sim’:
Da Porta do Céu, eis a chave dourada.
Na terra, não me ocupa minha estrada,
Ela pode ser longa:
              Curta é a Estrada de Deus a mim.


Grandeza

Perguntas-me o que é grandeza: um valor
Do homem não é, mas do Criador.
Nosso cor deve saber antes que seja tarde
Só nossa consciência de Deus tem tal qualidade.

Há uma só consciência d’Ele, veja bem.
A mil espelhos a única Luz se oferta.
A contingência é sonho, mas a Verdade é certa:
Sê o que és, não perguntes quem é quem.


Memento

Sabes que não podes mudar o mundo;
Renuncia a ele, deixas as coisas serem o que devem ser.
Certas coisas podemos mudar, outras não;
Em todo destino há algo a aprender.

Não esqueças: existe um Sumo Bem
Cujo Amor pode vencer a Fatalidade.
A razão é que o som mais profundo do Ser
Vem da harpa da pura Felicidade.


Liberdade

Sentes que o mundo terreno é triste,
Mas tal tristeza chorar não devias;
Não digas que é mau o mundo que existe…

Pois a toda sombra a hora final soa
E é infinda a alegria oculta nas coisas;
A vida é às vezes dura, mas a alma voa.

Contempla a dupla face da existência:
De um lado está o ferro, mas do outro o ouro vive.
Devias ver a felicidade que é tua essência,
E então saberias: Deus a fez pura e livre.


Omega

Da Infinitude dar uma imagem finita:
Em toda poesia esta intenção habita.
Toda obra humana a um limite final se inclina;
Seu arquétipo, no Céu, nunca termina.

Da Arte e da Beleza, qual a razão?
Mostrar o rumo do mais fundo Coração.

O canto de um pássaro do Céu surgia;
O mundo fora um sonho; era eu a melodia.


Símbolo

O Símbolo devias trazer em teu peito
E no Símbolo devias sempre morar;
Ele é um tesouro, e um abrigo,
E uma arma, e um barco a nos salvar.

Ele é uma Graça divina que nos dá vida;
Em tal Graça, não te podes perder.
E saiba, tu também és o Símbolo e
O Sinal de Deus, ou não pod’rias ser.


Ápice

Qual foi o maior instante em nossa vida?
Qual a maior felicidade, em que evento?
Terá sido um dia de glória, ou de amor?
Quando com gente santa passamos um momento?

Deve ter sido o dia em que encontramos Deus.
Ele entrou no tempo, não se sabe como. Mas, ora,
O tempo está sempre aí, e Deus é perto.
E assim, o ápice de nossa vida é agora.