domingo, 15 de janeiro de 2012

O teu centro está em toda a parte

Após um período de menor actividade do Sabedoria Perene, é nosso desejo que ele regresse com um novo ímpeto e que possa continuar a ser uma refrescante fonte para aqueles que buscam uma luz num mundo cada vez mais envolto em espessas e escuras nuvens. Fazemos coincidir este regresso com outro, o do retorno ao trabalho na Revista Sabedoria Perene. O próximo número já tem o tema escolhido: a Educação; tema que por certo será do interesse dos nossos leitores. Regressaremos a este assunto numa outra ocasião.

De momento, para celebrar o início do que se pretende ser um novo ciclo de trabalho, deixo-vos um maravilhoso excerto de um livro de Mark PerryOn Awakening and Remembering, ao qual regressaremos noutras ocasiões, onde este conceito de ‘ciclicidade’ é magistralmente tratado. Mas é sobretudo pela abordagem do Centro que partilhamos as seguintes palavras.




TUDO NA CRIAÇÃO GIRA EM TORNO DE UM CENTRO, isto pelo simples facto de que todas as coisas têm uma origem à qual não podem escapar. E esta origem é também o seu fim pois, à imagem das árvores, todas as criaturas têm raízes, mesmo que invisíveis; assim, uma criatura só se pode desviar em relação à sua base. Por muito que as aparências nos indiquem o contrário, uma trajectória em linha recta apenas é conspícua quando a sua origem e fim são velados, esquecidos ou rejeitados. A fuga em frente dos seres e dos eventos parece sugerir uma trajectória linear lançada ao longo de um eixo em constante retrocesso. Estas sucessões de existências, aparentemente livres de convergir ou divergir de outras existências paralelas, surgem como que arremessadas ao longo de linhas cujo fim é completamente estranho à sua origem, o que causa a impressão de ser a linha e não o círculo o princípio operativo da manifestação. Esta ilusão de perspectiva é ainda mais reforçada pela nossa cultura moderna que obriga as pessoas a se adaptarem a uma constante mudança. Vivemos tempos de estonteante obsolescência, tempos em que a excitação pela novidade mascara a destruição da tradição, o frenesi da mudança trivializa a realização, a fatuidade do progresso deprecia o valor do património. O que a história e a cultura poderão ganhar com um apelo nostálgico face a este desprezo, nunca o poderão recuperar realmente em prestígio intelectual. O que caracterizava a primeira era da humanidade, a Krita Yuga das escrituras sagradas hindus, era a noção de Centro e o mito do Eterno Retorno, altura em que governava a ideia de repetição – e não de mudança – em torno de um princípio perene. Tal deve-se, em parte, ao facto dessa primeira era estar tão próxima da origem que praticamente se identificava integralmente com ela. No entanto, através de um movimento de expansão, semelhante a uma espiral sempre crescente, a humanidade cresce/cai da sua origem divina e, sem ser capaz de escapar a esse movimento em torno do centro, continua a afastar-se cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ganhar velocidade. 

Se podemos caracterizar o homem antigo como estático, em conformidade com uma visão da existência centrada no espaço e não no tempo, podemos então caracterizar o homem moderno, o homem do Kali Yuga, como dinâmico, em conformidade com uma visão da existência centrada no tempo e na mudança e, consequentemente, na destruição. A preservação da tradição era o valor essencial do homem antigo que, através dos ritos sazonais celebrados, mantinha sempre presente a ideia de renovar e garantir a ligação com o centro original. Mas para uma civilização viciada no progresso, que avança com base no pressuposto da prévia ignorância humana, quando não no da inferioridade, romper com o molde “embrutecedor” da tradição torna-se imperativo. O que é esquecido é que – voltando à imagem da espiral – a tendência é para girar cada vez mais distante, até que tudo gire fora de controlo; isto é cada vez mais evidente na medida em que vivemos num mundo onde a velocidade tem acelerado em proporção directa com a supressão e transformação do passado. Este facto, apesar da excitante atracção que provoca, é inerentemente aberrante e destabilizador; o homem não pode viver num ritmo cada vez mais frenético sem se alienar de si próprio. Por outro lado, não deixa de ser uma componente necessária de um ciclo, que não pode terminar de outra forma que não em desintegração. Esta constatação não se trata de pessimismo, mas sim de realismo cosmológico.

Se o ponto de vista do homem fosse suficientemente elevado, ele libertar-se-ia da ilusão de linearidade, recordaria as origens e preveria as conclusões; ele compreenderia as consequências. De todo o modo, os exemplos do princípio circular abundam, seja na doutrina hindu dos ciclos milenares (manvantaras), a qual os quais já mencionámos, ou nos periodos dos Estóicos, seja no carrossel das estações ou nas ondas concêntricas num lago provocadas por uma gota de água, nas órbitas das grandes galáxias ou nos círculos dos falcões, nos ciclos dos dias e dos anos, nada se exclui a esta lei cuja benevolente imanência – a força que move o sol e as restantes luminárias, segundo Dante – salva a cada instante a manifestação de se desintegrar no nada que está continuamente a sugá-la. O círculo é o dharma perfeito, e o dharma perfeito é a verdade.

O princípio dinâmico do círculo, celebrado pelas rondas das danças de todas as culturas “primitivas”, possui o seu equivalente estático no princípio da esfera, cuja redondeza é para a forma o que a circularidade é para o movimento. O nosso globo terrestre é uma esfera que pertence, por sua vez, a uma galáxia que espirala em torno – e em afastamento – de um centro invisível do qual é a projecção esférica.

De uma relevância ainda mais imediata, é o facto de o homem estar colocado sob a abóbada celeste e poder contemplar, a partir de todo e qualquer ponto, o mesmo nascer e pôr-do-sol, os infindáveis ciclos da lua, e a ronda processional das constelações estelares. Ele testemunha o eterno retorno das estações ao mesmo tempo que sente, na sua própria carne, a herança destes ciclos com a passagem da juventude à maturidade, passagem essa que marca as etapas processionais da sua estadia mortal, na qual os extremos se tocam, pois a idade avançada pode ser, em termos espirituais, uma segunda juventude. Não será então verdade que tudo o que o homem vê e tudo o que ele experiencia segue, fundamentalmente, ritmos perenes e imutáveis? E falar de ritmo é falar de repetição. E o que é a repetição senão retorno e circularidade?

Esta evidência é plena de significado, pudesse o homem simplesmente parar e ponderar as suas implicações. Observar que a Realidade pode ser compreendida geometricamente como um círculo, ou uma esfera, prova, para mais, a bondade da substância universal pois, como reconheceu Platão, a redondeza é a forma concreta do bem, do agradável e do amável. O desespero não usurpa a serenidade daquele que compreende isto no seu coração. 

Também a magnificente migração anual de diversas criaturas testemunha o pulsar de um grandioso ser que permeia o majestoso silêncio da natureza. O colibri, a borboleta monarca, o salmão, que regressam aos seus locais de acasalamento ou desova, não precisam de “sistemas de radar”, pois são os emissários de centros/corações: viajam com o fluxo e o refluxo, a projecção e o retorno desses centros dos quais as suas viagens traçam as configurações das artérias que se dispõem através de raios invisíveis mas intrinsecamente vivos. Para o contemplativo, o respirar e o pulsar do Céu está onde murmure uma brisa em ramos frondosos, salpique a água em riachos serpenteantes ou onde um grilo cante. E o centro divino está sempre onde se eleva uma montanha, no desabrochar de uma flor e no sorriso de uma donzela. E ele está sobretudo onde se encontra um homem em oração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Duvida-se de tudo, salvo da dúvida

"Seria preciso poder restituir à palavra 'filosofia' a sua significação original: a filosofia -- o 'amor da sabedoria' -- é a ciência de todos os princípios fundamentais; esta ciência opera com a intuição, que 'percebe', e não somente com a razão, que 'conclui'.
Subjetivamente falando, a essência da filosofia é a certeza; para os modernos, ao contrário, a essência da filosofia é a dúvida: o filósofo deve raciocinar sem nenhuma premissa (voraussetzungsloses Denken), como se essa condição não fosse ela mesma uma ideia preconcebida; é a contradição clássica de todo relativismo. Duvida-se de tudo, salvo da dúvida."

Frithjof Schuon: A Transfiguração do Homem. Sapientia, 2009, p. 11.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sabedoria Ameríndia


Nós vimos o Grande Espírito (Wakan Tanka) em quase tudo: no sol, na lua, nas árvores, no vento e nas montanhas. Às vezes aproximamo-nos d’Ele através destas coisas.

Búfalo Andante (Walking Buffalo)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Editorial SP3: Natureza e Crise Ambiental

Olhar a infinidade no finito é ver que dada flor à nossa frente é eterna,
porque uma eterna primavera se afirma através do seu frágil sorriso.
Frithjof Schuon


Continuamos, nesta terceira publicação dedicada ao estudo da tradição e da sophia perennis, a divulgar a corrente de pensamento tradicionalista ou perenialista. O tema em foco no número anterior da Revista Sabedoria Perene foi a arte. Neste terceiro número, a temática é outra – a natureza e a crise ambiental –, mas a mensagem subjacente aos textos apresentados é a mesma, a da sabedoria perene, aquela sabedoria incriada e imutável que dissolve disparidades aparentes e que perfura a superfície de quaisquer objectos de estudo, para deixar transparecer o que neles há de mais profundo e de essencialmente idêntico.

É assim, à luz desta sabedoria perene, que o leitor que nos acompanhou no número anterior poderá reconhecer diversas correspondências entre a arte sagrada e a natureza virgem. De facto, não deixa de ser significativo que sejam os povos que ainda imprimem uma dimensão sagrada nas suas realizações artísticas os que melhor protegem e acarinham o meio natural em que se inserem; é igualmente significativo que, pelo contrário, sejam os povos fundadores da moderna indústria de produções artísticas mundanas, invariavelmente concentrados em grandes centros urbanos, os que mais delapidam a natureza e os que com ela se relacionam como se de uma mera fonte de recursos a explorar se tratasse. Segundo o padrão de pensamento tradicional que caracteriza a mentalidade dos povos do primeiro tipo, quase totalmente extintos, tanto a arte sagrada como a natureza virgem são dádivas “sobrenaturalmente” naturais, pelo que a atitude sã e normal do homem para com essas dádivas deverá ser a da sua preservação. Ao contrário, o padrão de pensamento moderno que caracteriza a mentalidade dos povos do segundo tipo, esmagadoramente predominantes nos dias de hoje, parece conduzir-nos precisamente à violação destas dádivas, ora pela promoção de correntes artísticas “desnaturadas”, como é o caso do surrealismo e de toda a forma de arte abstracta, ora pela adopção de atitudes de vida que nos conduziram a uma crise ambiental sem precedentes, a qual se tornou já demasiado evidente para poder ser ignorada.

O texto de Harry Oldmeadow, seleccionado para Introdução deste terceiro número da Revista Sabedoria Perene, oferece uma primeira indicação sobre aquela que é, segundo a perspectiva tradicionalista ou perenialista, a principal causa da actual crise ambiental (e que é, não o podemos deixar de salientar, a mesma que explica a crise que assola o mundo da arte). Neste texto, o autor destaca que esta causa é raramente percebida e que a sua compreensão em profundidade implica o relembrar de princípios metafísicos e cosmológicos intemporais, os quais podem ser ignorados mas não refutados. Estes princípios, tidos em consideração em todos os contextos civilizacionais, épocas e lugares, estão espelhados nos escritos de inúmeros autores tradicionalistas ou perenialistas da actualidade, oriundos das mais variadas proveniências culturais e denominações espirituais ou religiosas. Estes autores, que incluem figuras contemporâneas tais como René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda Coomaraswamy e Titus Burckhardt, reflectem, de forma renovada, a mesma perspectiva que um Platão semeou no seio do mundo greco-romano, que um Rumi ou um Ibn Arabi traduziram para o mundo islâmico, que um Mestre Eckhart emprestou à cristandade ou que um Shânkara ofereceu à tradição hindu, para mencionar apenas alguns dos inspirados precursores tradicionalistas ou perenialistas de todos os tempos.

São precisamente estes princípios intemporais que permeiam o conteúdo do primeiro bloco de textos deste terceiro número da revista, agrupados sob o título Metafísica e simbolismo: Sacralização da Natureza. Este primeiro bloco contém dois ensaios de Frithjof Schuon que guiam o leitor para uma compreensão mais profunda da dimensão sagrada da Natureza. Os outros dois textos que compõe este bloco, um de Titus Burckhard e outro de Alberto Vasconcellos Queiroz, salientam a necessidade de todos os que se preocupam com a actual crise ambiental ponderarem seriamente sobre esta dimensão sagrada da Natureza, sem a qual a sua preservação, bem como a da vida de um modo geral, se torna insustentável.

Para compreender a causa mais profunda da crise ambiental é necessário, repetimos, relembrar princípios metafísicos e cosmológicos e ponderar sobre a dimensão sagrada da natureza. As consequências que derivam do esquecimento destes princípios e da rejeição desta dimensão da natureza estão bem patentes no segundo bloco de textos da revista, reunidos sob o título Crise ambiental: Profanação da Natureza. Os autores destes textos, Seyyed Hossein Nasr, Lord Northborne, Gai Eaton, Oren Lyons, Mateus Soares de Azevedo e William Stoddart, são unânimes em reconhecer neste esquecimento e nesta rejeição uma profunda enfermidade intelectual ou espiritual, enfermidade esta que René Guénon diagnosticou com precisão há praticamente um século. Em resumo, segundo a perspectiva tradicionalista ou perenialista, a crise ambiental é apenas um sintoma de uma ainda mais profunda crise intelectual ou espiritual. Segundo esta mesma perspectiva, a esperança para a resolução da crise ambiental (e para as demais crises) reside na intelectualidade pura, aliada a um conhecimento sólido de princípios intemporais e a uma noção clara das implicações práticas que a perda deste tipo de conhecimento acarreta – uma perda que nenhum avanço na ciência moderna nem nenhuma solução de engenharia poderá compensar!

Mormente, para além destes textos que nos alertam para a necessidade de reconhecer que não se perturba impunemente o equilíbrio da natureza, algo que os povos de outrora sabiam bem melhor do que nós, e que a superioridade do conhecimento científico moderno é totalmente insuficiente para nos proteger de todos os efeitos provindos de uma natureza desequilibrada, o Epílogo que encerra este terceiro número da revista e que foi a fonte de inspiração para a sua capa, um texto penetrante de Frithjof Schuon, recorda-nos que o homem é portador de uma missão espiritual e que a deve cumprir, que o homem é pontifex ou khalîfah, um mediador imediato entre o mundo sobrenatural e o mundo natural, entre o Céu e a Terra, entre Deus e a Natureza.

Não se poderá certamente exigir que uma mente desconhecedora do conceito da intelectualidade pura e destreinada na compreensão e aceitação de princípios irrefutáveis, como é o caso de uma mente formatada ao padrão de pensamento moderno, aceite sem resistência que existe uma relação directa entre o incumprimento da missão espiritual do homem e a crise ambiental dos nossos dias. É por essa razão que os autores perenialistas ou tradicionalistas lidam mais directamente com a enfermidade intelectual ou espiritual que contagiou o mundo moderno, e não apenas com os sintomas da mesma – um desses sintomas, entre outros, a crise ambiental. É também por essa razão que os autores perenialistas ou tradicionalistas não advogam um sentimentalismo ecológico estéril, nem defendem que se abdique de todos os benefícios que a ciência moderna oferece ou que se retorne a modos de vida “primitivos”, mas sim que se restaure uma intelectualidade viva, iluminada pela metafísica e pelo simbolismo, uma intelectualidade que imprima no homem a vontade de conhecer, adorar e agradar ao “Pai Céu”, de compreender, acarinhar e cuidar da “Mãe Terra”, e de manter acesa a ligação equilibrada entre estas duas dimensões da vida.

Dito isto, entregamos ao leitor as páginas de mais este número da Revista Sabedoria Perene e, desde já, estas duas breves passagens que relevam a importância da função espiritual do homem para a resolução da crise ambiental.

O homem não pode exercer a sua função mediadora se permitir que o seu olhar se afaste do Deus que o nomeou para a exercer e que está sempre presente para guiá-lo se este procurar orientação. Se usar a dádiva divina que é o seu domínio da Natureza sem ser à luz de Deus, mas antes para seu engrandecimento, cedo se descobre isolado e insignificante, lutando em vão contra as forças da Natureza. No final, até os seus próprios poderes se terão virado contra si. A Natureza manifesta na mudança as imutáveis disposições do Todo-Poderoso Deus. A Natureza não tem escolha. Nós temos escolha, e temo-la exercido de uma forma e até a um ponto do qual parece não existir fuga aos envolvimentos que recaíram sobre nós.
Lord Northborne (p. 79)

A perda de harmonia entre o homem e o seu meio ambiente natural é apenas um aspecto da perda de harmonia entre o homem e o seu Criador. Aqueles que viram as costas ao Criador e O esquecem não mais podem sentir-se em casa na criação. Eles assumem o papel de bactérias que acabam sempre por destruir o corpo que invadiram. Desta forma, o “Vice regente de Deus na terra” deixa de ser o curador da natureza e, ao perder a sua função, passa a ser um estranho que não reconhece os marcos na terra nem se ajusta aos costumes deste lugar; alienado, apenas o consegue ver como matéria-prima a explorar. Ele pode encontrar riquezas e conforto na exploração, mas não a felicidade.
Gai Eaton (p. 86)

Nuno M. Almeida
Vale da Lama, 2 de Agosto de 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Revista Sabedoria Perene - Número 3

(clique sobre a imagem para descarregar "pdf") 


Editorial

Introdução

“Direcções para o suprasensível” – Harry Oldmeadow

Metafísica e simbolismo: Sacralização da Natureza

Ver Deus em toda a parte – Frithjof Schuon
Uma metafísica da natureza virgem – Frithjof Schuon
O simbolismo da água – Titus Burckhardt
Notas sobre a ecologia espiritual de São Francisco de Assis e Swâmi Râmdâs – Alberto Vasconcellos Queiroz

Crise ambiental: Profanação da Natureza

As dimensões espiritual e religiosa da crise ambiental – Seyyed Hossein Nasr
A agricultura e o destino humano – Lord Northborne
O protesto da terra – Gai Eaton
A nossa mãe terra – Oren Lyons
Primitivos e ultra-sofisticados – Mateus Soares de Azevedo
Sobre a ecologia: os quatro poluentes – William Stoddart

Epílogo

Pontifex e Khalîfah – Frithjof Schuon

Citações espirituais

Fontes dos textos

Breves notas sobre os autores

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta de René Guénon a Frithjof Schuon sobre o livro "A Unidade Transcendente das Religiões"


(...) Apesar de, como certamente estará informado, eu ter tido notícias suas recentemente, fiquei extremamente feliz por ter novas suas diretamente, e também por ouvir que eu posso receber a visita de um de nossos amigos; talvez v. mesmo possa nos fazer uma nova visita proximamente...

Obrigado por enviar os sucessivos capítulos de seu livro [A Unidade Transcendente das Religiões], que agora foi completado; considero-o do maior interesse, e teria sido uma grande pena se v. tivesse decidido não escrevê-lo. Não há modificações que eu gostaria de sugerir, nem há nada a acrescentar ou a remover; penso que o que concerne ao Cristianismo, em particular, nunca foi apresentado antes deste ponto de vista, e isto pode ajudar algumas pessoas a entenderem muitas coisas. É importante que este livro seja publicado o mais cedo possível; Luc Benoist me disse que isto pode acontecer para o fim do ano, mas como a nova edição de La crise du monde moderne sairá aparentemente mais cedo que ele disse, espero que este fato possa antecipar a publicação dos próximos volumes da coleção, isto é, o seu livro primeiramente e então o de Coomaraswamy [Hindouisme et Bouddhisme]. Acerca do novo título para seu livro [De l’unité transcendante des religions], ele me parece preferível à versão anterior [De l’unité ésotérique des formes traditionnelles], porque é mais curto e porque será talvez mais claro para os leitores ainda não acostumados à nossa terminologia.

(...) Quanto ao que v. diz em sua resposta sobre S. João, haveria apenas isto a acrescentar: muitos muçulmanos também consideram S. João como um Profeta, pertencente à família de Al-Khidr, Sayyid-na Idris e Sayyid-na Ilyas; seja como for, compreende-se que ele seria apenas Nabi, e não Rasûl. A este respeito, não me recordo se já tive a ocasião de lhe contar que o que me deu a ideia de escrever os artigos sobre a “realização descendente”, publicados no começo de 1939, foi o fato de alguns xiitas reivindicarem que o Wali fosse um maqâm mais elevado (do ponto de vista de al-qurb, ‘proximidade’) do que o Nabi, e mesmo que o Rasûl. O que eu escrevi recentemente sobre os Malamatiya, como v. verá ( ou talvez já tenha visto, pois o número 4 de Études Traditionnelles já deve ter sido publicado) também lida com a mesma questão; este artigo concorda com o que v. mesmo escreveu acerca da relação dos iniciados com o povo (...)

Sim, recebi de Buenos Aires os dois estudos que v. menciona, sobre o Budismo e os “Nomes Divinos”; tive a mesma impressão sua, especialmente do segundo. É bem difícil de ler e contém muitas complicações desnecessárias, e mesmo muitas correspondências que parecem injustificadas; pergunto-me sobre que autoridades o autor poderia fundamentar suas asserções... Certamente que o livro de S. Abu Bakr [The Book of Certainty] é bem diferente; v. não acha que, se fosse traduzido para o francês, seria válido incluí-lo na coleção Tradition? Não creio que Luc Benoist poderia ter objeção à ideia.

De fato, conheci madame Breton (então mademoiselle Dano) em meus últimos tempos em Paris e, desde então, ela me escreve de tempos em tempos. Penso que v. fez bem em responder a ela, ela é certamente bastante agradável e parece ter um bom entendimento, e não há razão para não ter confiança nela; ademais, é um fato gratificante que não pertença àquela categoria de correspondentes – demasiado numerosa – que são criadores de casos e indiscretos. Devo também mencionar que ela e seu cunhado, Paul Barbotin, foram de considerável ajuda para mim em elucidar algumas maquinações de membros do R.I.S.S. e outros do gênero. Acrescentarei, para que saiba exatamente com quem está lidando, que ela é claramente católica e está em contato com Charbonneau-Lassay.

Seu capítulo sobre as formas de arte será certamente bastante apropriado para o volume de Bharata Iyer [Art and Thought, em homenagem ao 70º aniversário de Ananda Coomaraswamy]; Marco Pallis escreveu para dizer que preparará algo sobre a vestimenta tradicional. Quanto a mim, infelizmente não fiz nada até agora; já que parece que os artigos serão solicitados logo, pergunto-me se uma tradução de meu estudo sobre a teoria dos elementos, que apareceu no número especial de Études Traditionnelles dedicado à tradição hindu, não seria apropriado. Dificilmente eu poderia escrever agora algo de alguma extensão, nem isto será possível até que eu conclua com todas as questões de publicações e republicações que estão em pauta presentemente, pois tudo isso me toma muito tempo e é ainda mais complicado pela lentidão e irregularidade do correio. É verdade que o período de silêncio destes últimos anos foi vantajoso para mim, no sentido de que de outra maneira teria sido provavelmente difícil completar quatro novos livros durante este tempo; mas, de outro ponto de vista, a ausência prolongada de notícias tornou-se algo bastante duro...

Meu obrigado a v. e a todos os nossos amigos pelos bons votos; continuo com boa saúde, graças a Deus, e minha família se junta a mim para enviar-lhe nossas saudações e boas lembranças.

Min al-faqir ilâ Rabbi-hi
‘Abd al-Wahid Yahya.

domingo, 31 de julho de 2011

A Unidade Transcendente das Religiões




Tal como anunciado anteirormente, a nova edição brasileira de A Unidade Transcendente das Religiões está já disponível. O preço deste clássico de Frithjof Schuon é R$ 42,00 (18 euros) e pode ser encomendado através do endereço eletrónico do Instituto René Guénon em S. Paulo (irget@terra.com.br).

Este é um dos raros livros que oferecem um novo e genuíno panorama da realidade e do mundo em que vivemos. A Unidade Transcendente das Religiões é sem nenhum favor uma das obras mais importantes publicadas no Século XX.

Em língua portuguesa, foi publicado pela primeira vez em S. Paulo, em 1953, pela editora Martins; depois em Lisboa, nos anos 1980, por Edições Dom Quixote, de Lisboa. A presente edição é uma nova tradução, revista e ampliada, feita de acordo com a mais recente edição francesa de Éditions du Seuil, de Paris.

T. S. Eliot, responsável pela primeira de mais de uma dezena de edições do livro em inglês, escreveu: “Não conheço obra mais impressionante no campo do estudo comparado das religiões do Oriente e do Ocidente.”

Huston Smith, o mais influente autor e professor de história das religiões nos EUA, autor do best-seller As Religiões do Homem, disse de Frithjof Schuon: “Não conheço nenhum pensador que possa rivalizar com ele.”

Esta que pode ser considerada a primeira obra do grande metafísico e pensador religioso Frithjof Schuon, expõe as ideias semente que o autor viria posteriormente, ao longo 47 anos e em 22 obras doutrinais, a analisar, ou melhor, a sintetizar, através de todos os pontos de vista concebíveis e muitas vezes no limite do exprimível; aquelas mesmas ideias semente que constituem a substância de toda a sabedoria e de toda a religião, a sophia perennis e a religio perennis.

Anúncio - Revista Sabedoria Perene 3

Tal como prometido, estamos a ultimar a publicação do terceiro número da Revista Sabedoria Perene, dedicado à Natureza e à Crise Ambiental. Deste modo, podemos começar por revelar o conteúdo completo deste número.

Aqui o deixamos com a esperança que os nossos leitores venham a dar por merecida esta já longa espera. Fica também a promessa que este é um trabalho que pretendemos dar continuidade.


Editorial

Introdução
“Direcções para o suprasensível” – Harry Oldmeadow

Metafísica e simbolismo: Sacralização da Natureza
Ver Deus em toda a parte – Frithjof Schuon
Uma metafísica da natureza virgem – Frithjof Schuon
O simbolismo da água – Titus Burckhardt
Notas sobre a ecologia espiritual de São Francisco de Assis e Swâmi Râmdâs – Alberto Vasconcellos Queiroz

Crise ambiental: Profanação da Natureza
As dimensões espiritual e religiosa da crise ambiental – Seyyed Hossein Nasr
A agricultura e o destino humano – Lord Northborne
O protesto da terra – Gai Eaton
A nossa mãe terra – Oren Lyon
Primitivos e ultra-sofisticados – Mateus Soares de Azevedo
Sobre a ecologia: os quatro poluentes – William Stoddart

Epílogo
Pontifex e Khalîfah – Frithjof Schuon

Palavras Trovão

É do conhecimento geral que a capacidade de conhecimento ou de compreensão é função do carácter: que esta se detém brusca e “misteriosamente” num homem inteligente que carece de determinada qualidade moral e que, desta forma, cai em aberrações logicamente inexplicáveis porque incompatíveis com a sua envergadura intelectual. As virtudes essenciais – não apenas vocacionais – são simultaneamente qualidades morais e atitudes contemplativas, logo belezas da alma e do espírito e, por esta razão, chaves para a gnose (…)

Frithjof Schuon - Approches du phénomène religieux (Le courrier du livre, Paris, 1984)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Esoterismo & Exoterismo no Cristianismo, Islão e Judaísmo

Durante o próximo mês será publicada pela editora do Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais uma nova edição da obra "A Unidade Transcendente das Religiões", de Frithjof Schuon (pedidos pelo email irget@terra.com.br).

Deixamos os leitores com esta genial e profunda síntese, extraída do capítulo “O aspecto ternário do monoteísmo”:

(...) O monoteísmo, revelado a Abraão, possuía o esoterismo e o exoterismo em perfeito equilíbrio e, em certa medida, em sua indistinção primordial, ainda que se tratasse somente de uma primordialidade relativa às tradições de estirpe semítica; com Moisés, é o exoterismo que, por assim dizer, tornou-se religião, no sentido de que ele determina a forma desta última, sem prejudicar, contudo, a sua essência; com o Cristo é o inverso que acontece, com o esoterismo, de certa maneira, tornando-se por sua vez religião; com Maomé, enfim, o equilíbrio inicial é restabelecido e o ciclo da religião monoteísta é fechado. Estas alternâncias na Revelação integral do monoteísmo procedem da própria natureza deste e, por conseguinte, não são imputáveis somente a vicissitudes contingentes; a “letra” e o “espírito”, estando compreendidos sinteticamente no monoteísmo primordial ou abraâmico, deviam cristalizar-se de alguma maneira, por diferenciação e sucessivamente, no decurso do ciclo da Revelação monoteísta. Assim, o Abraamismo manifestou o equilíbrio indiferenciado do “espírito” e da “letra”; o Mosaísmo, a “letra”; o Cristianismo, o “espírito”; e o Islã, o equilíbrio diferenciado desses dois aspectos da Revelação. (...)

Um peregrino cristão na Índia



O Padre Henri Le Saux (1910-1973) foi um monge beneditino francês que viveu os últimos 24 anos da sua vida na Índia, onde ficou conhecido como Swami Abhishiktananda.

"Um Peregrino Cristão na Índia" é uma muito interessante obra de Harry Oldmeadow, que nos oferece um relato da exemplar e inspiradora viagem espiritual deste monge, do seu marcante encontro com Ramana Maharshi, das suas experiências místicas no Monte Arunachala, e do seu profundo interesse pela metafísica e pela espiritualidade da Índia, bem como pela conciliação destas realidades com a sua herança e função sacerdotal cristã.

Esta muito recomendada obra introduz alguns dos aspectos-chave da sophia perennis, tais como a primazia da metafísica e as inter-relações dos universos esotérico e exotérico das diferentes tradições religiosas da humanidade, entre outros. Esta obra discute ainda, de forma sóbria e clara, a importância destes aspectos-chave para a abordagem a temas tais como, por um lado, a ambivalência do exclusivismo e do sincretismo religioso e, por outro lado, a pseudo-espiritualidade que se instalou nos movimentos “Nova Era” da actualidade.

Esta excelente e muito recomendada obra está organizada da seguinte forma:


I: “Consecration to God”: Life and Work
1. A biographical Sketch
2. Friends and Influences
3. Writings

II: “In the Mystery of God”: Spiritual Themes in Abhishiktananda’s Writings
4. The Monk’s Vocation and Sannyasa
5. Advaita
6. The Cosmic Teophany
7. Way Staions in the Spiritual Path
8. Signs: The limits of Religious Forms
9. Dialogue: Meeting in the Cave of the Heart

III: “Unity and Diversity”: Abhishiktananda in Prespective
10. Abhishiktananda and the Perennial Philosophy
11. Abhishiktananda’s Gift




sábado, 21 de maio de 2011

Uma metafísica da natureza virgem

Devemos um pedido de desculpas aos leitores do Sabedoria Perene. Criámos expectativas para a publicação do terceiro número da revista Sabedoria Perene, o que ainda não aconteceu. Na verdade temos esse número integralmente preparado, mas infelizmente fomos obrigados a interromper a sua revisão final por estarmos num momento de quase total indisponibilidade. Espero que nos possam desculpar e deixamos a promessa de concluir este trabalho assim que nos for possível.

Entretanto, e como ainda temos vários artigos da revista para apresentar, deixo-vos para já o trecho inicial do curto mas extraordinário texto de Frithjof Schuon sobre a tradição dos índios da América do Norte e a sua relação com a natureza, traduzido por Noémia Silva. Este texto foi traduzido a partir do livro publicado pela Word Wisdom, “The Feathered Sun – Plain Indians in Art and Philosophy”.



Toda a tradição dos índios da América do Norte, excepto os do Noroeste, Califórnia e alguns do Sudoeste, está contida, do ponto de vista do simbolismo geométrico, na cruz inscrita no círculo: o círculo corresponde ao Céu, enquanto que a cruz indica as quatro direcções do espaço e todos os demais quaternários do Universo; indica igualmente o ternário vertical Terra – Homem – Céu, o que coloca o quaternário horizontal em três níveis. Pode ainda dizer-se que a sabedoria dos índios peles-vermelhas baseia-se, simbolicamente falando, nos números “pitagóricos” quatro e três – o primeiro “horizontal” e o segundo “vertical” – e na sua combinação, o número doze. Esta “duodecimidade” deve ser visualizada como composta de três quaternários horizontais, dispostos uns sobre os outros ao longo de um eixo central ou, mais precisamente, de três discos, em cada um dos quais se encontra a cruz horizontal das quatro direcções. Estes três níveis são por vezes representados sob a forma de três anéis pintados na árvore da Dança do Sol.

No simbolismo da cruz e do círculo, o círculo estático e espacial da terra combina com o círculo dinâmico e temporal do dia ou do céu: o círculo pode ser o horizonte com os quatro pontos cardinais se inclui a cruz, ou pode ser o curso do sol com o amanhecer, o dia, o entardecer e a noite, ou o ano com a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno.

E isto é muito importante: o homem é o centro, tanto das quatro direcções horizontais do espaço, como do ternário vertical da hierarquia cósmica; em relação a este último aspecto, ele é identificado com a Vida e é o mediador entre a Terra “sob os seus pés” e o Céu “por cima da sua cabeça”, ou entre a inércia e a luz. Em relação ao primeiro aspecto, ele é a Inteligência na qual os quatro cantos são reflectidos e unidos, e ele é, assim, identificado com o eixo cósmico, a árvore do mundo. Ele é o Calumet que une todos os seres vivos numa única oração e, ao mesmo tempo, o Fogo central que marca o centro do mundo e, ainda (o que significa o mesmo), a brasa que transforma o tabaco em fumo ou a Terra em Céu. O homem está duplamente “no centro”, primeiro no plano horizontal, como Inteligência e porta-voz de todas as criaturas terrestres (fragmentárias em relação a ele), e segundo no eixo vertical como mediador: nele se encontram a Terra e o Céu, e nele são sintetizadas as possibilidades essenciais no seu plano de existência.

Se a cabeça humana corresponde ao Céu e os pés representam a Terra, a região do umbigo ou do útero representa o Homem. O Homem é o espírito encarnado; se fosse só matéria, ele identificar-se-ia com os pés; se fosse só espírito, ele seria a cabeça, isto é, o Céu; ele seria o Grande Espírito. Mas o objectivo da sua existência é estar no centro: é transcender a matéria enquanto permanece nela, e compreender a luz, o Céu, a partir deste nível intermediário. É verdade que as outras criaturas também participam na vida, mas o homem sintetiza-as: ele carrega toda a vida em si mesmo e, por essa razão, torna-se o porta-voz de toda ela, o eixo vertical onde a vida se abre ao espírito e onde se converte em espírito. Em todas as criaturas terrestres a inércia fria da matéria converte-se em calor, mas somente no homem o calor é convertido em luz.

Dissemos que as criaturas inferiores são fragmentárias; mas elas não têm apenas este aspecto “acidental” que permite ao homem matá-las e usá-las para nutrição, elas têm também um aspecto “essencial”, devido ao seu simbolismo concreto por um lado, e à sua “anterioridade” por outro: criadas antes do homem, elas podem manifestar algo da Origem Divina, e é este aspecto que apela por vezes à sua veneração; é em virtude deste aspecto transcendente que o Grande Espírito prontamente se manifesta – no mundo dos índios – através de animais e plantas, e mesmo através dos grandes fenómenos da Natureza, como o sol, a rocha, o céu ou a terra. A manifestação múltipla do Grande Espírito, do ponto de vista do simbolismo e da acção celestial, equivale ao Grande Espírito; as coisas não são mistérios em si mesmas, mas sim manifestações de mistérios, e o Grande Espírito, ou o Grande Mistério, sintetiza-as na Sua Unidade transcendente.