sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Esoterismo Cristão Segundo Frithjof Schuon

Quando se fala de esoterismo cristão, pode tratar-se de três coisas:

Em primeiro lugar, pode ser a Gnose Cristã, baseada na pessoa, nos ensinamento e dons do Cristo, beneficiando-se ocasionalmente de conceitos platônicos, um processo que em metafísica não tem nada de irregular.[1]
Esta gnose se manifestou em particular, apesar de que de maneira bem desigual, em escritos como os de Clemente de Alexandria, Orígenes, Dionísio o Areopagita — o teólogo ou o místico, se se prefere — Scotus Erigena, Mestre Eckhart, Nicolau de Cusa, Jacó Böehme e Angelus Silesius.[2]

Em segundo lugar, pode se tratar de algo completamente diferente, qual seja, o esoterismo greco-latino – ou próximo-oriental – incorporado ao Cristianismo: pensamos aqui acima de tudo no Hermetismo e nas iniciações de ofício. Neste caso, o esoterismo é mais ou menos limitado ou mesmo fragmentário, ele reside mais no caráter sapiencial do método – hoje perdido – do que na doutrina e no objetivo; a doutrina era principalmente cosmológica, e consequentemente o objetivo não transcendia os “Pequenos Mistérios”, ou a perfeição horizontal, ou a perfeição “primordial”, se nos referimos às condições ideais da “Idade de Ouro”. Seja como for, este esoterismo cosmológico ou alquímico cristianizado – “humanista” num sentido ainda legítimo, posto que se tratava de restaurar ao microcosmo a perfeição de um macrocosmo sempre em conformidade com Deus – era essencialmente vocacional, dado que nem uma ciência, nem uma arte podem ser impostas a todo mundo; o homem escolhe uma ciência ou uma arte por razões de afinidade e qualificação, e não a priori para salvar sua alma. A salvação sendo garantida pela religião, o homem pode, a posteriori, e sobre esta base mesma, explorar seus dons e suas ocupações profissionais, e é mesmo normal ou necessário que ele deva fazê-lo quando uma ocupação ligada a um esoterismo alquímico ou artesanal se imponha a ele por um motivo qualquer.

Em terceiro lugar, e mesmo antes de tudo, e deixando de lado toda consideração histórica ou literária, podemos e devemos entender por “esoterismo cristão” a verdade pura e simples – verdade metafísica e espiritual – na medida em que ela é expressada ou manifestada mediante os dogmas, rituais e outras formas do Cristianismo. Formulado em sentido inverso, este esoterismo é a totalidade dos símbolos cristãos na medida em que eles expressam ou manifestam a pura metafísica e a espiritualidade una e universal. E isto é independente da questão de saber em que extensão um Orígenes ou um Clemente de Alexandria eram conscientes de tudo que está envolvido aqui; questão de resto supérflua, pois é evidente que, por razões mais ou menos extrínsecas, eles não poderiam ter consciência de todos os aspectos do problema tanto mais que foram largamente solidários da bhakti que determina a perspectiva específica do Cristianismo. Seja como for, é importante não confundir o esoterismo de princípio com o esoterismo de fato, ou uma doutrina virtual, que tem todos os direitos da verdade, com uma doutrina efetiva, que eventualmente pode não viver plenamente a promessa implicada em seu próprio ponto de vista.

Em relação ao legalismo judeu, o Cristianismo é esotérico em razão do fato de que é uma mensagem de interioridade: para o Cristianismo, a virtude interior toma precedência sobre as observâncias externas, ao ponto de abolir estas últimas.
Mas, seu ponto de vista sendo voluntarista, pode ser transcendido por uma nova interioridade, qual seja a da pura intelecção, que reduz as formas particulares a suas essências universais, e substitui o ponto de vista da penitência pelo do conhecimento purificador e libertador. A gnose é de natureza crística no sentido de que, por um lado, ela deriva do Logos – do Intelecto simultaneamente transcendente e imanente – e, de outro lado, ela é uma mensagem de interioridade e, portanto, de interiorização.





[1]
De maneira geral, influências intertradicionais são sempre possíveis em certas condições, mas fora de todo sincretismo. Incontestavelmente o Budismo e o Islã tiveram uma influência sobre o Hinduísmo, não lhe acrescentando novos elementos, bem entendido, mas favorecendo ou determinando a eclosão de elementos pré-existentes.



[2] Em outros termos: encontramos elementos de esoterismo sapiencial no gnosticismo ortodoxo – o qual se prolonga na teosofia de Jacó Boehme e seus continuadores –, depois na mística dionisiana dos renanos, e no Hesicasmo, bem entendido; sem esquecer este elemento parcial de esoterismo metódico que foi o Quietismo de um Molinos, traços do qual se encontram em São Francisco de Sales.

(Extraído de: L’Ésotérisme comme Principe et comme Voie, pp. 29-30 / Esoterism as principle and as Way, pp. 29-31)
Tradução de M.S.A.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A tarefa do educador moderno

A tarefa do educador moderno não é derrubar a selva, mas sim regar desertos.

C.S. Lewis, The Abolition of Man (1943)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O elemento emocional

Continuamos com o tema da educação, desta vez com estas incisivas palavras de Frithjof Schuon.


A emotividade “percebe" e revela os aspectos de um bem ou de um mal que a simples definição lógica não consegue mostrar de forma directa e concreta: são os aspectos existenciais, subjectivos, psicológicos, morais e estéticos, quer da verdade, quer do erro; ou os da virtude e do vício. Imaginemos uma criança que, por simples ignorância e, portanto, por falta de sentido das proporções, profere uma palavra blasfematória; se o pai se enfurece, a criança aprende “existencialmente” algo que não aprenderia se o pai se limitasse a uma dissertação abstracta sobre o carácter blasfematório da dita palavra. A fúria do pai demonstra à criança de modo concreto a extensão da falha, ela torna visível uma dimensão que de outro modo manter-se-ia abstracta e anódina; o mesmo se passa para os casos inversos, mutatis mutandis: a alegria dos pais torna tangível para a criança o valor do seu acto meritório ou da virtude como tal. 

Contra toda a experiência e o bom senso, alguns adeptos da psicanálise – senão todos – consideram que jamais se deve punir uma criança, pois, pensam eles, o castigo os “traumatizaria”; aquilo que esquecem é que uma criança que se deixa traumatizar por um castigo justo – logo proporcional à falha – é já um monstro. A essência de uma criança normal é, sob um determinado aspecto, o respeito aos pais e o instinto do bem; um castigo justo, ao invés de o ferir profundamente, ilumina e liberta-o, projectando-o, para o dizer de alguma forma, na consciência imanente da norma. É certo que existem casos em que os pais se equivocam e, em resultado, a criança é traumatizada, mas a criança normal, ou normalmente virtuosa, não se deixará cair numa amargura vindicativa e estéril, bem pelo contrário: ela retirará a melhor parte da sua experiência, graças à intuição de que toda a adversidade é metafisicamente merecida, pois nenhum homem é perfeito sem adversidades.

Frithjof Schuon - Résumé de métaphysique intégrale (Le courrier du livre, 1985)

Informação

Com esta publicação pretende-se chamar a atenção para duas recentes adições nas nossas referências para fontes na Internet, as quais merecerão, por certo, toda a atenção dos nossos leitores. Aqui ficam: 

Vera Philosophia - Extratos de textos do filósofo Frithjof Schuon, com pequenos comentários

The Matheson Trust – For the Study of Comparative Religion



domingo, 29 de janeiro de 2012

Anúncio do 4º ciclo de estudos: Educação


Como anunciado numa publicação recente, foi iniciada a preparação do quarto número da Revista Sabedoria Perene que será dedicado à Educação. Este olhar para a educação será à luz da Tradição, de todas as tradições religiosas e sapienciais da humanidade, e será, por certo, profundamente crítico da educação actual, a qual se encontra aparentemente, como muitos outros aspectos da nossa sociedade, num estado profundamente doentio, arriscamos mesmo dizer, terminal.

É nosso desígnio que esta constatação resulte evidente do trabalho monográfico que será apresentado e que, não só as razões para tal infortúnio sejam apontadas, como também iluminadas as direcções para uma inversão deste caminho, em última análise, auto-destrutivo – pois o futuro da nossa existência como comunidade depende da educação dada aos nossos jovens.

Os trechos que se apresentam de seguida e que abrirão este ciclo de estudos ilustram bem o antagonismo entre as visões tradicionais e a visão moderna da educação. Mostram eloquentemente a incomensurável distância entre um mundo centrado no individualismo e outro que, vendo "Deus em toda a parte”, vê no outro a si próprio.


(…) E isto resulta, finalmente, que quando se passa de um ano para outro – ou mesmo espacialmente de uma sala de aula para outra – as conclusões podem ser diametralmente opostas. Mais isso não importa nem perturba ninguém, desde que seja garantida a liberdade de expressão. Trata-se de um total e absoluto desprezo da Verdade, o qual encontramos inevitavelmente – e em diversos graus – em todos os níveis da sociedade. Na maior parte das situações em que dois indivíduos emitem uma opinião contrária, é considerado adequado exigir que cada um deles “faça um esforço” para conseguir chegar a um “acordo” que se considerará “pelo menos uma verdade objectiva” (cada um sacrificando, de certa maneira, um pouco da sua subjectividade, sem falar da sua pretensão e do seu orgulho); e tudo isto sem dar qualquer importância à dignidade e ao valor intrínseco das personagens, nem tão pouco à profundidade da opinião emitida. (…) [mas] A verdade não é uma questão de “acordos” feitos de fraquezas e de subtis hipocrisias (…)

Ao agir deste modo numa sala de aulas, recusa-se tomar consciência que se está a encerrar o aluno nos estreitos limites do seu ego, o qual é incitado a uma espécie de autocracia. Pouco a pouco, torna-se insensível a qualquer coisa diferente da sua própria opinião, expressão da sua personalidade e da sua liberdade. Para mais, não se está longe de pensar que quanto mais a sua opinião é diferente dos seus colegas, mais ele dá prova da sua personalidade. E é esta, sem qualquer dúvida, a mais temível das prisões na qual se encerra um jovem: a sua própria. Uma célula limitada por todas as partes, tal como o é todo o indivíduo, e da qual se impede de sair sob pena de perder aquilo que chamamos de liberdade mas que é, na realidade, a pior das escravaturas. (…)

Extraído de 
de Ghislain Chetan


Uma das grandes lições que tínhamos que aprender era que devíamos ter uma grande força de vontade para ser desprendidos. Às crianças ensinava-se a dar aos outros e a fazê-lo com generosidade. Aquele que dava um presente sem valor não se podia considerar uma pessoa generosa. Tínhamos que oferecer as nossas posses até nos tornarmos pobres em bens materiais e até que não nos restasse nada mais do que o deleite e a alegria da nossa força desnudada. Era uma obrigação inevitável doar aos necessitados e aos desamparados, e quando as mães davam presentes aos débeis e aos anciãos davam uma parte desses presentes às crianças, para que eles mesmos pudessem oferecê-los por suas próprias mãos. As crianças lakota costumavam trazer para os seus tipis pessoas débeis e anciãs que passavam em frente à sua tenda. Se uma criança fazia isto a sua mãe devia preparar imediatamente uma refeição, pois ignorar a cortesia da criança seria algo imperdoável.

Uma vez que é muito fácil inspirar a compaixão de uma criança, os lakota aprendiam a oferecer presentes a todo o momento e em qualquer lugar, com o objectivo único de se converterem em pessoas fortes e valentes. O melhor guerreiro era aquele que se desprendia das suas posses mais queridas ao mesmo tempo que cantava de alegria e de bênção.
Luther Standing Bear
(Sioux Oglala)


Talvez o mais difícil da paternidade não fosse vigiar a conduta das crianças, mas sim vigiar a conduta adequada dos pais, uma vez que o método que usavam para ensinar os seus filhos era fazê-los observar detidamente a conduta dos adultos. As crianças lakota, que possuíam um grande vigor natural e que tinham as faculdades muito desenvolvidas graças ao contacto com a natureza, percebiam tudo através dos seus olhos e dos seus ouvidos. Assim, os pais lakota, tal como os restantes adultos, estavam submetidos a um exame contínuo da sua conduta e das suas conversas. Por esta razão, tinham que actuar da forma mais digna e exemplar possível.

Luther Standing Bear
(Sioux Oglala)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ofícios e a Tradição

Hoje deixo aqui mais uma muito generosa contribuição de um nosso amigo do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que traduziu directamente do alemão o seguinte extracto do maravilhoso livro de Titus Burckhardt, “Fez, Cidade do Islão”.


Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil...” 

Eu conheci um penteeiro na rua de sua corporação, a mashshâtîn. Ele se chamava ‘Abd Al-Azîz (Servo do Todo-Poderoso), vestia sempre uma jelabá negra – a ampla túnica munida de mangas e de capuz – e um turbante branco com o lithâm, o véu de rosto, que emoldurava suas feições um tanto duras. O chifre para seus pentes ele o obtinha de cabeças de boi que comprava dos açougueiros. A testa com os chifres ele punha para secar numa área arrendada, depois retirava os chifres, abria-os longitudinalmente e os aplainava sobre o fogo, algo que devia ser feito com o maior cuidado, para que não rachassem. Desse material ele entalhava pentes e torneava caixas para antimônio, usado como cosmético para os olhos; isso ele fazia num torno muito simples, no qual ele conduzia com a mão esquerda um arco que, enrolado numa haste, a fazia girar, enquanto na mão direita ele segurava a faca e com um pé empurrava um contrapeso. Durante esse trabalho, ele costumava cantar suratas alcorânicas numa voz baixa. 

Fiquei sabendo que, em consequência de uma doença ocular que frequentemente se manifesta na África, ele já era meio cego e fazia seu trabalho mais pelo hábito que pela visão propriamente dita. Um dia ele se queixou para mim que a importação de pentes de plástico diminuía o seu ganho: “Não é somente triste que hoje, por causa do preço, os pentes ruins industrializados sejam preferidos aos pentes de chifre, muito mais duráveis”, disse; “é também absurdo que homens fiquem postados diante de uma máquina e tenham de repetir sempre o mesmo movimento sem ter o que refletir sobre ele, enquanto um antigo ofício como o meu cai no esquecimento. Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil, que não se deixa explicar pelas palavras. A mim mesmo ele só se revelou após muitos anos, e, mesmo que eu quisesse, não o poderia transmitir sem mais a meu próprio filho, se ele mesmo não pudesse alcançá-lo – e acredito que ele preferirá aprender algum outro ofício. Este ofício remonta de aprendiz a mestre até nosso Senhor Set, filho de Adão. Foi ele que o ensinou aos homens pela primeira vez, e o que um Profeta traz – pois Set era um Profeta – deve comportar em si um benefício particular, exterior tanto quanto interior. Isso eu fui entendendo gradualmente, que não há nada de fortuito neste ofício, que cada movimento das mãos e cada processo traz em si uma sabedoria. Mas nem todos o podem compreender. Contudo, mesmo que isso não seja compreendido, ainda é algo tolo e reprovável privar os homens do legado de um Profeta e fazer com que eles se postem diante de uma máquina para realizar dia-a-dia um trabalho que não tem sentido.” 

Portanto, a ameaça que hoje paira sobre os ofícios marroquinos não é somente um desafio exterior, mas também uma ameaça no plano da própria alma. Mesmo que nem todo artesão árabe medite com tanta consciência sobre seu ofício como aquele penteeiro, a maior parte dos ofícios ainda tem um conteúdo espiritual que, com as inovações da indústria moderna, ficará esquecido. 

Mesmo o aguadeiro, que não faz mais que encher nas fontes públicas da cidade sua pele de cabra para trazer aos bazares uma bebida fresca para os que têm sede, independentemente de se recebe deles alguma recompensa ou não, mesmo ele ainda mostra em toda a sua postura a dignidade humana, tal como nas terras européias ainda tem o camponês que lança com devoção a semente. 

Até mesmo o mendigo que se acocora diante das mesquitas e nas pontes e com sua veste cem vezes remendada exerce seu ofício, não pede com vergonha, mas diz ao passante: “Dê o que é de Deus!” ou canta com voz monótona um refrão religioso. 

Pois quase todos os que ainda não foram sugados pelos remoinhos do mundo moderno vivem aqui sua vida ainda como um papel provisório, que não empenha de forma definitiva sua alma, mas pertence à Divina Comédia desta existência terrena. 

(Titus Burckhardt, Fes, Stadt des Islam, Olten and 
Freiburg-im-Breisgau: Urs Graf Verlag, 1960, pp. 64, 69,70.)

domingo, 15 de janeiro de 2012

O teu centro está em toda a parte

Após um período de menor actividade do Sabedoria Perene, é nosso desejo que ele regresse com um novo ímpeto e que possa continuar a ser uma refrescante fonte para aqueles que buscam uma luz num mundo cada vez mais envolto em espessas e escuras nuvens. Fazemos coincidir este regresso com outro, o do retorno ao trabalho na Revista Sabedoria Perene. O próximo número já tem o tema escolhido: a Educação; tema que por certo será do interesse dos nossos leitores. Regressaremos a este assunto numa outra ocasião.

De momento, para celebrar o início do que se pretende ser um novo ciclo de trabalho, deixo-vos um maravilhoso excerto de um livro de Mark PerryOn Awakening and Remembering, ao qual regressaremos noutras ocasiões, onde este conceito de ‘ciclicidade’ é magistralmente tratado. Mas é sobretudo pela abordagem do Centro que partilhamos as seguintes palavras.




TUDO NA CRIAÇÃO GIRA EM TORNO DE UM CENTRO, isto pelo simples facto de que todas as coisas têm uma origem à qual não podem escapar. E esta origem é também o seu fim pois, à imagem das árvores, todas as criaturas têm raízes, mesmo que invisíveis; assim, uma criatura só se pode desviar em relação à sua base. Por muito que as aparências nos indiquem o contrário, uma trajectória em linha recta apenas é conspícua quando a sua origem e fim são velados, esquecidos ou rejeitados. A fuga em frente dos seres e dos eventos parece sugerir uma trajectória linear lançada ao longo de um eixo em constante retrocesso. Estas sucessões de existências, aparentemente livres de convergir ou divergir de outras existências paralelas, surgem como que arremessadas ao longo de linhas cujo fim é completamente estranho à sua origem, o que causa a impressão de ser a linha e não o círculo o princípio operativo da manifestação. Esta ilusão de perspectiva é ainda mais reforçada pela nossa cultura moderna que obriga as pessoas a se adaptarem a uma constante mudança. Vivemos tempos de estonteante obsolescência, tempos em que a excitação pela novidade mascara a destruição da tradição, o frenesi da mudança trivializa a realização, a fatuidade do progresso deprecia o valor do património. O que a história e a cultura poderão ganhar com um apelo nostálgico face a este desprezo, nunca o poderão recuperar realmente em prestígio intelectual. O que caracterizava a primeira era da humanidade, a Krita Yuga das escrituras sagradas hindus, era a noção de Centro e o mito do Eterno Retorno, altura em que governava a ideia de repetição – e não de mudança – em torno de um princípio perene. Tal deve-se, em parte, ao facto dessa primeira era estar tão próxima da origem que praticamente se identificava integralmente com ela. No entanto, através de um movimento de expansão, semelhante a uma espiral sempre crescente, a humanidade cresce/cai da sua origem divina e, sem ser capaz de escapar a esse movimento em torno do centro, continua a afastar-se cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ganhar velocidade. 

Se podemos caracterizar o homem antigo como estático, em conformidade com uma visão da existência centrada no espaço e não no tempo, podemos então caracterizar o homem moderno, o homem do Kali Yuga, como dinâmico, em conformidade com uma visão da existência centrada no tempo e na mudança e, consequentemente, na destruição. A preservação da tradição era o valor essencial do homem antigo que, através dos ritos sazonais celebrados, mantinha sempre presente a ideia de renovar e garantir a ligação com o centro original. Mas para uma civilização viciada no progresso, que avança com base no pressuposto da prévia ignorância humana, quando não no da inferioridade, romper com o molde “embrutecedor” da tradição torna-se imperativo. O que é esquecido é que – voltando à imagem da espiral – a tendência é para girar cada vez mais distante, até que tudo gire fora de controlo; isto é cada vez mais evidente na medida em que vivemos num mundo onde a velocidade tem acelerado em proporção directa com a supressão e transformação do passado. Este facto, apesar da excitante atracção que provoca, é inerentemente aberrante e destabilizador; o homem não pode viver num ritmo cada vez mais frenético sem se alienar de si próprio. Por outro lado, não deixa de ser uma componente necessária de um ciclo, que não pode terminar de outra forma que não em desintegração. Esta constatação não se trata de pessimismo, mas sim de realismo cosmológico.

Se o ponto de vista do homem fosse suficientemente elevado, ele libertar-se-ia da ilusão de linearidade, recordaria as origens e preveria as conclusões; ele compreenderia as consequências. De todo o modo, os exemplos do princípio circular abundam, seja na doutrina hindu dos ciclos milenares (manvantaras), a qual os quais já mencionámos, ou nos periodos dos Estóicos, seja no carrossel das estações ou nas ondas concêntricas num lago provocadas por uma gota de água, nas órbitas das grandes galáxias ou nos círculos dos falcões, nos ciclos dos dias e dos anos, nada se exclui a esta lei cuja benevolente imanência – a força que move o sol e as restantes luminárias, segundo Dante – salva a cada instante a manifestação de se desintegrar no nada que está continuamente a sugá-la. O círculo é o dharma perfeito, e o dharma perfeito é a verdade.

O princípio dinâmico do círculo, celebrado pelas rondas das danças de todas as culturas “primitivas”, possui o seu equivalente estático no princípio da esfera, cuja redondeza é para a forma o que a circularidade é para o movimento. O nosso globo terrestre é uma esfera que pertence, por sua vez, a uma galáxia que espirala em torno – e em afastamento – de um centro invisível do qual é a projecção esférica.

De uma relevância ainda mais imediata, é o facto de o homem estar colocado sob a abóbada celeste e poder contemplar, a partir de todo e qualquer ponto, o mesmo nascer e pôr-do-sol, os infindáveis ciclos da lua, e a ronda processional das constelações estelares. Ele testemunha o eterno retorno das estações ao mesmo tempo que sente, na sua própria carne, a herança destes ciclos com a passagem da juventude à maturidade, passagem essa que marca as etapas processionais da sua estadia mortal, na qual os extremos se tocam, pois a idade avançada pode ser, em termos espirituais, uma segunda juventude. Não será então verdade que tudo o que o homem vê e tudo o que ele experiencia segue, fundamentalmente, ritmos perenes e imutáveis? E falar de ritmo é falar de repetição. E o que é a repetição senão retorno e circularidade?

Esta evidência é plena de significado, pudesse o homem simplesmente parar e ponderar as suas implicações. Observar que a Realidade pode ser compreendida geometricamente como um círculo, ou uma esfera, prova, para mais, a bondade da substância universal pois, como reconheceu Platão, a redondeza é a forma concreta do bem, do agradável e do amável. O desespero não usurpa a serenidade daquele que compreende isto no seu coração. 

Também a magnificente migração anual de diversas criaturas testemunha o pulsar de um grandioso ser que permeia o majestoso silêncio da natureza. O colibri, a borboleta monarca, o salmão, que regressam aos seus locais de acasalamento ou desova, não precisam de “sistemas de radar”, pois são os emissários de centros/corações: viajam com o fluxo e o refluxo, a projecção e o retorno desses centros dos quais as suas viagens traçam as configurações das artérias que se dispõem através de raios invisíveis mas intrinsecamente vivos. Para o contemplativo, o respirar e o pulsar do Céu está onde murmure uma brisa em ramos frondosos, salpique a água em riachos serpenteantes ou onde um grilo cante. E o centro divino está sempre onde se eleva uma montanha, no desabrochar de uma flor e no sorriso de uma donzela. E ele está sobretudo onde se encontra um homem em oração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Duvida-se de tudo, salvo da dúvida

"Seria preciso poder restituir à palavra 'filosofia' a sua significação original: a filosofia -- o 'amor da sabedoria' -- é a ciência de todos os princípios fundamentais; esta ciência opera com a intuição, que 'percebe', e não somente com a razão, que 'conclui'.
Subjetivamente falando, a essência da filosofia é a certeza; para os modernos, ao contrário, a essência da filosofia é a dúvida: o filósofo deve raciocinar sem nenhuma premissa (voraussetzungsloses Denken), como se essa condição não fosse ela mesma uma ideia preconcebida; é a contradição clássica de todo relativismo. Duvida-se de tudo, salvo da dúvida."

Frithjof Schuon: A Transfiguração do Homem. Sapientia, 2009, p. 11.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sabedoria Ameríndia


Nós vimos o Grande Espírito (Wakan Tanka) em quase tudo: no sol, na lua, nas árvores, no vento e nas montanhas. Às vezes aproximamo-nos d’Ele através destas coisas.

Búfalo Andante (Walking Buffalo)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Editorial SP3: Natureza e Crise Ambiental

Olhar a infinidade no finito é ver que dada flor à nossa frente é eterna,
porque uma eterna primavera se afirma através do seu frágil sorriso.
Frithjof Schuon


Continuamos, nesta terceira publicação dedicada ao estudo da tradição e da sophia perennis, a divulgar a corrente de pensamento tradicionalista ou perenialista. O tema em foco no número anterior da Revista Sabedoria Perene foi a arte. Neste terceiro número, a temática é outra – a natureza e a crise ambiental –, mas a mensagem subjacente aos textos apresentados é a mesma, a da sabedoria perene, aquela sabedoria incriada e imutável que dissolve disparidades aparentes e que perfura a superfície de quaisquer objectos de estudo, para deixar transparecer o que neles há de mais profundo e de essencialmente idêntico.

É assim, à luz desta sabedoria perene, que o leitor que nos acompanhou no número anterior poderá reconhecer diversas correspondências entre a arte sagrada e a natureza virgem. De facto, não deixa de ser significativo que sejam os povos que ainda imprimem uma dimensão sagrada nas suas realizações artísticas os que melhor protegem e acarinham o meio natural em que se inserem; é igualmente significativo que, pelo contrário, sejam os povos fundadores da moderna indústria de produções artísticas mundanas, invariavelmente concentrados em grandes centros urbanos, os que mais delapidam a natureza e os que com ela se relacionam como se de uma mera fonte de recursos a explorar se tratasse. Segundo o padrão de pensamento tradicional que caracteriza a mentalidade dos povos do primeiro tipo, quase totalmente extintos, tanto a arte sagrada como a natureza virgem são dádivas “sobrenaturalmente” naturais, pelo que a atitude sã e normal do homem para com essas dádivas deverá ser a da sua preservação. Ao contrário, o padrão de pensamento moderno que caracteriza a mentalidade dos povos do segundo tipo, esmagadoramente predominantes nos dias de hoje, parece conduzir-nos precisamente à violação destas dádivas, ora pela promoção de correntes artísticas “desnaturadas”, como é o caso do surrealismo e de toda a forma de arte abstracta, ora pela adopção de atitudes de vida que nos conduziram a uma crise ambiental sem precedentes, a qual se tornou já demasiado evidente para poder ser ignorada.

O texto de Harry Oldmeadow, seleccionado para Introdução deste terceiro número da Revista Sabedoria Perene, oferece uma primeira indicação sobre aquela que é, segundo a perspectiva tradicionalista ou perenialista, a principal causa da actual crise ambiental (e que é, não o podemos deixar de salientar, a mesma que explica a crise que assola o mundo da arte). Neste texto, o autor destaca que esta causa é raramente percebida e que a sua compreensão em profundidade implica o relembrar de princípios metafísicos e cosmológicos intemporais, os quais podem ser ignorados mas não refutados. Estes princípios, tidos em consideração em todos os contextos civilizacionais, épocas e lugares, estão espelhados nos escritos de inúmeros autores tradicionalistas ou perenialistas da actualidade, oriundos das mais variadas proveniências culturais e denominações espirituais ou religiosas. Estes autores, que incluem figuras contemporâneas tais como René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda Coomaraswamy e Titus Burckhardt, reflectem, de forma renovada, a mesma perspectiva que um Platão semeou no seio do mundo greco-romano, que um Rumi ou um Ibn Arabi traduziram para o mundo islâmico, que um Mestre Eckhart emprestou à cristandade ou que um Shânkara ofereceu à tradição hindu, para mencionar apenas alguns dos inspirados precursores tradicionalistas ou perenialistas de todos os tempos.

São precisamente estes princípios intemporais que permeiam o conteúdo do primeiro bloco de textos deste terceiro número da revista, agrupados sob o título Metafísica e simbolismo: Sacralização da Natureza. Este primeiro bloco contém dois ensaios de Frithjof Schuon que guiam o leitor para uma compreensão mais profunda da dimensão sagrada da Natureza. Os outros dois textos que compõe este bloco, um de Titus Burckhard e outro de Alberto Vasconcellos Queiroz, salientam a necessidade de todos os que se preocupam com a actual crise ambiental ponderarem seriamente sobre esta dimensão sagrada da Natureza, sem a qual a sua preservação, bem como a da vida de um modo geral, se torna insustentável.

Para compreender a causa mais profunda da crise ambiental é necessário, repetimos, relembrar princípios metafísicos e cosmológicos e ponderar sobre a dimensão sagrada da natureza. As consequências que derivam do esquecimento destes princípios e da rejeição desta dimensão da natureza estão bem patentes no segundo bloco de textos da revista, reunidos sob o título Crise ambiental: Profanação da Natureza. Os autores destes textos, Seyyed Hossein Nasr, Lord Northborne, Gai Eaton, Oren Lyons, Mateus Soares de Azevedo e William Stoddart, são unânimes em reconhecer neste esquecimento e nesta rejeição uma profunda enfermidade intelectual ou espiritual, enfermidade esta que René Guénon diagnosticou com precisão há praticamente um século. Em resumo, segundo a perspectiva tradicionalista ou perenialista, a crise ambiental é apenas um sintoma de uma ainda mais profunda crise intelectual ou espiritual. Segundo esta mesma perspectiva, a esperança para a resolução da crise ambiental (e para as demais crises) reside na intelectualidade pura, aliada a um conhecimento sólido de princípios intemporais e a uma noção clara das implicações práticas que a perda deste tipo de conhecimento acarreta – uma perda que nenhum avanço na ciência moderna nem nenhuma solução de engenharia poderá compensar!

Mormente, para além destes textos que nos alertam para a necessidade de reconhecer que não se perturba impunemente o equilíbrio da natureza, algo que os povos de outrora sabiam bem melhor do que nós, e que a superioridade do conhecimento científico moderno é totalmente insuficiente para nos proteger de todos os efeitos provindos de uma natureza desequilibrada, o Epílogo que encerra este terceiro número da revista e que foi a fonte de inspiração para a sua capa, um texto penetrante de Frithjof Schuon, recorda-nos que o homem é portador de uma missão espiritual e que a deve cumprir, que o homem é pontifex ou khalîfah, um mediador imediato entre o mundo sobrenatural e o mundo natural, entre o Céu e a Terra, entre Deus e a Natureza.

Não se poderá certamente exigir que uma mente desconhecedora do conceito da intelectualidade pura e destreinada na compreensão e aceitação de princípios irrefutáveis, como é o caso de uma mente formatada ao padrão de pensamento moderno, aceite sem resistência que existe uma relação directa entre o incumprimento da missão espiritual do homem e a crise ambiental dos nossos dias. É por essa razão que os autores perenialistas ou tradicionalistas lidam mais directamente com a enfermidade intelectual ou espiritual que contagiou o mundo moderno, e não apenas com os sintomas da mesma – um desses sintomas, entre outros, a crise ambiental. É também por essa razão que os autores perenialistas ou tradicionalistas não advogam um sentimentalismo ecológico estéril, nem defendem que se abdique de todos os benefícios que a ciência moderna oferece ou que se retorne a modos de vida “primitivos”, mas sim que se restaure uma intelectualidade viva, iluminada pela metafísica e pelo simbolismo, uma intelectualidade que imprima no homem a vontade de conhecer, adorar e agradar ao “Pai Céu”, de compreender, acarinhar e cuidar da “Mãe Terra”, e de manter acesa a ligação equilibrada entre estas duas dimensões da vida.

Dito isto, entregamos ao leitor as páginas de mais este número da Revista Sabedoria Perene e, desde já, estas duas breves passagens que relevam a importância da função espiritual do homem para a resolução da crise ambiental.

O homem não pode exercer a sua função mediadora se permitir que o seu olhar se afaste do Deus que o nomeou para a exercer e que está sempre presente para guiá-lo se este procurar orientação. Se usar a dádiva divina que é o seu domínio da Natureza sem ser à luz de Deus, mas antes para seu engrandecimento, cedo se descobre isolado e insignificante, lutando em vão contra as forças da Natureza. No final, até os seus próprios poderes se terão virado contra si. A Natureza manifesta na mudança as imutáveis disposições do Todo-Poderoso Deus. A Natureza não tem escolha. Nós temos escolha, e temo-la exercido de uma forma e até a um ponto do qual parece não existir fuga aos envolvimentos que recaíram sobre nós.
Lord Northborne (p. 79)

A perda de harmonia entre o homem e o seu meio ambiente natural é apenas um aspecto da perda de harmonia entre o homem e o seu Criador. Aqueles que viram as costas ao Criador e O esquecem não mais podem sentir-se em casa na criação. Eles assumem o papel de bactérias que acabam sempre por destruir o corpo que invadiram. Desta forma, o “Vice regente de Deus na terra” deixa de ser o curador da natureza e, ao perder a sua função, passa a ser um estranho que não reconhece os marcos na terra nem se ajusta aos costumes deste lugar; alienado, apenas o consegue ver como matéria-prima a explorar. Ele pode encontrar riquezas e conforto na exploração, mas não a felicidade.
Gai Eaton (p. 86)

Nuno M. Almeida
Vale da Lama, 2 de Agosto de 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Revista Sabedoria Perene - Número 3

(clique sobre a imagem para descarregar "pdf") 


Editorial

Introdução

“Direcções para o suprasensível” – Harry Oldmeadow

Metafísica e simbolismo: Sacralização da Natureza

Ver Deus em toda a parte – Frithjof Schuon
Uma metafísica da natureza virgem – Frithjof Schuon
O simbolismo da água – Titus Burckhardt
Notas sobre a ecologia espiritual de São Francisco de Assis e Swâmi Râmdâs – Alberto Vasconcellos Queiroz

Crise ambiental: Profanação da Natureza

As dimensões espiritual e religiosa da crise ambiental – Seyyed Hossein Nasr
A agricultura e o destino humano – Lord Northborne
O protesto da terra – Gai Eaton
A nossa mãe terra – Oren Lyons
Primitivos e ultra-sofisticados – Mateus Soares de Azevedo
Sobre a ecologia: os quatro poluentes – William Stoddart

Epílogo

Pontifex e Khalîfah – Frithjof Schuon

Citações espirituais

Fontes dos textos

Breves notas sobre os autores

______________________

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta de René Guénon a Frithjof Schuon sobre o livro "A Unidade Transcendente das Religiões"


(...) Apesar de, como certamente estará informado, eu ter tido notícias suas recentemente, fiquei extremamente feliz por ter novas suas diretamente, e também por ouvir que eu posso receber a visita de um de nossos amigos; talvez v. mesmo possa nos fazer uma nova visita proximamente...

Obrigado por enviar os sucessivos capítulos de seu livro [A Unidade Transcendente das Religiões], que agora foi completado; considero-o do maior interesse, e teria sido uma grande pena se v. tivesse decidido não escrevê-lo. Não há modificações que eu gostaria de sugerir, nem há nada a acrescentar ou a remover; penso que o que concerne ao Cristianismo, em particular, nunca foi apresentado antes deste ponto de vista, e isto pode ajudar algumas pessoas a entenderem muitas coisas. É importante que este livro seja publicado o mais cedo possível; Luc Benoist me disse que isto pode acontecer para o fim do ano, mas como a nova edição de La crise du monde moderne sairá aparentemente mais cedo que ele disse, espero que este fato possa antecipar a publicação dos próximos volumes da coleção, isto é, o seu livro primeiramente e então o de Coomaraswamy [Hindouisme et Bouddhisme]. Acerca do novo título para seu livro [De l’unité transcendante des religions], ele me parece preferível à versão anterior [De l’unité ésotérique des formes traditionnelles], porque é mais curto e porque será talvez mais claro para os leitores ainda não acostumados à nossa terminologia.

(...) Quanto ao que v. diz em sua resposta sobre S. João, haveria apenas isto a acrescentar: muitos muçulmanos também consideram S. João como um Profeta, pertencente à família de Al-Khidr, Sayyid-na Idris e Sayyid-na Ilyas; seja como for, compreende-se que ele seria apenas Nabi, e não Rasûl. A este respeito, não me recordo se já tive a ocasião de lhe contar que o que me deu a ideia de escrever os artigos sobre a “realização descendente”, publicados no começo de 1939, foi o fato de alguns xiitas reivindicarem que o Wali fosse um maqâm mais elevado (do ponto de vista de al-qurb, ‘proximidade’) do que o Nabi, e mesmo que o Rasûl. O que eu escrevi recentemente sobre os Malamatiya, como v. verá ( ou talvez já tenha visto, pois o número 4 de Études Traditionnelles já deve ter sido publicado) também lida com a mesma questão; este artigo concorda com o que v. mesmo escreveu acerca da relação dos iniciados com o povo (...)

Sim, recebi de Buenos Aires os dois estudos que v. menciona, sobre o Budismo e os “Nomes Divinos”; tive a mesma impressão sua, especialmente do segundo. É bem difícil de ler e contém muitas complicações desnecessárias, e mesmo muitas correspondências que parecem injustificadas; pergunto-me sobre que autoridades o autor poderia fundamentar suas asserções... Certamente que o livro de S. Abu Bakr [The Book of Certainty] é bem diferente; v. não acha que, se fosse traduzido para o francês, seria válido incluí-lo na coleção Tradition? Não creio que Luc Benoist poderia ter objeção à ideia.

De fato, conheci madame Breton (então mademoiselle Dano) em meus últimos tempos em Paris e, desde então, ela me escreve de tempos em tempos. Penso que v. fez bem em responder a ela, ela é certamente bastante agradável e parece ter um bom entendimento, e não há razão para não ter confiança nela; ademais, é um fato gratificante que não pertença àquela categoria de correspondentes – demasiado numerosa – que são criadores de casos e indiscretos. Devo também mencionar que ela e seu cunhado, Paul Barbotin, foram de considerável ajuda para mim em elucidar algumas maquinações de membros do R.I.S.S. e outros do gênero. Acrescentarei, para que saiba exatamente com quem está lidando, que ela é claramente católica e está em contato com Charbonneau-Lassay.

Seu capítulo sobre as formas de arte será certamente bastante apropriado para o volume de Bharata Iyer [Art and Thought, em homenagem ao 70º aniversário de Ananda Coomaraswamy]; Marco Pallis escreveu para dizer que preparará algo sobre a vestimenta tradicional. Quanto a mim, infelizmente não fiz nada até agora; já que parece que os artigos serão solicitados logo, pergunto-me se uma tradução de meu estudo sobre a teoria dos elementos, que apareceu no número especial de Études Traditionnelles dedicado à tradição hindu, não seria apropriado. Dificilmente eu poderia escrever agora algo de alguma extensão, nem isto será possível até que eu conclua com todas as questões de publicações e republicações que estão em pauta presentemente, pois tudo isso me toma muito tempo e é ainda mais complicado pela lentidão e irregularidade do correio. É verdade que o período de silêncio destes últimos anos foi vantajoso para mim, no sentido de que de outra maneira teria sido provavelmente difícil completar quatro novos livros durante este tempo; mas, de outro ponto de vista, a ausência prolongada de notícias tornou-se algo bastante duro...

Meu obrigado a v. e a todos os nossos amigos pelos bons votos; continuo com boa saúde, graças a Deus, e minha família se junta a mim para enviar-lhe nossas saudações e boas lembranças.

Min al-faqir ilâ Rabbi-hi
‘Abd al-Wahid Yahya.