sábado, 31 de março de 2012

Citações espirituais


Melhor que mil afirmações desprovidas de sentido
É uma palavra significativa que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Melhor que mil versos desprovidos de sentido
É uma linha de verso significativa que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Melhor que recitar cem versos sem sentido
É uma linha do Dharma que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Maior no combate
Que uma pessoa que conquista
Mil vezes mil pessoas
É aquele que se conquista a si mesmo.

Dhammapada, tradução de Alberto V. Queiroz a partir da versão inglesa de Gil Fronsdal

Sobre o trabalho

Diz um provérbio árabe que reflete a atitude do muçulmano perante a vida: "a lentidão é de Deus, a pressa é de Satanás", o que nos leva à seguinte reflexão: como as máquinas devoram o tempo, o homem moderno está sempre apressado, e como essa perpétua falta de tempo cria nele reflexos de pressa e de superficialidade, o homem moderno toma esses reflexos — que compensam uma série de desequilíbrios — por superioridades, e despreza, no fundo, o homem antigo de hábitos "idílicos" e sobretudo o velho oriental de andar lento e turbante longo para enrolar. Já não se consegue representar, por falta de experiência, qual era o conteúdo qualitativo da "lentidão" tradicional, ou como "sonhavam" as pessoas de outrora; o homem de hoje contenta-se com a caricatura, o que é muito mais simples e lhe é mesmo exigido por um instinto ilusório de conservação. Se as preocupações sociais — de base evidentemente material — determinam em tão grande parte o espírito da nossa época, isso não se deve apenas às consequências sociais do maquinismo e às condições inumanas que ele engendra, deve-se também à ausência de uma atmosfera contemplativa que, no entanto, é necessária para a felicidade dos homens, seja qual for o seu "padrão de vida", para empregar uma expressão tão bárbara quanto usual. 

Frithjof Schuon

Retirado da publicação em "Vera Philosophia". Não deixem de aí ler este e outros textos rigorosamente seleccionados e comentados.

sábado, 24 de março de 2012

Cartas do Shaykh ad-Darqâwî


Esta preciosa tradução de excertos de cartas do Shaykh ad-Darqâwî, o fundador de um importante ramo da Ordem Shadhiliyyad do Norte de África, pertence a uma classe de literatura sufi que ainda não recebeu a devida atenção fora do mundo islâmico.

Cada carta é uma preciosa gema de sabedoria, uma chave indispensável para abrir certas portas que estão diante de cada viajante ao longo do Caminho. Quase todas as cartas dizem respeito ao método e aos aspectos operativos da Via, baseados nas técnicas centrais da invocação ou dhikr. Neste domínio, elas devem ser consideradas entre as mais directas instruções dadas sobre o método sufi que se podem encontrar em toda a literatura sufi, enquanto, geralmente, os mestres têm preferido referir-se às técnicas espirituais propriamente ditas de forma alusiva. No entanto, ocasionalmente, também são discutidos aspectos fundamentais da doutrina sufi.

“A doença que está a afectar o teu coração é uma daquelas coisas que atinge o homem que Deus ama, pois, ‘entre todos os homens, os mais duramente provados são os Profetas, depois os santos, seguidos daqueles que, em maior ou menor grau, se lhes assemelham.’ Portanto não fiques abatido, uma vez que isto acontece muito frequentemente a homens cheios de sinceridade e amor, para que eles avancem em direcção ao seu Senhor. Através deste sofrimento, os seus corações são purificados e transformados em pura substância. Na falta de tais encontros com a realidade, ninguém alcançaria o conhecimento de Deus, longe disso, pois ‘se não houvessem arenas para as almas, os corredores não conseguiriam correr o seu percurso’, tal como é dito por Ibn ‘Ata-Illâh em Hikam, onde ele também diz: ‘Na variedade dos sinais e dos estados mutáveis, eu cheguei a reconhecer a Tua intenção em relação a mim, a de me mostrares todas as coisas, para que não possa existir nada em que eu não Te conhecesse.’ No mesmo sentido, os iniciados disseram: ‘É nestes tempos de rebelião que os homens se destacam de entre os homens. ‘No Alcorão está dito: Supõem as pessoas que serão deixadas em paz porque dizem ‘nós cremos’, e que não serão provados? (XXIX, 1).”

Ao disponibilizar estas cartas em língua inglesa, Titus Burckhardt prestou um serviço àqueles que buscam instrução espiritual. Ele também enriqueceu a literatura sufi nas línguas ocidentais e tornou disponível mais um documento de extraordinário poder e beleza, pertencente ao passado recente.

“Durante os seus primeiros anos em Marrocos, Titus Burckhardt imergiu na língua árabe e assimilou os clássicos do sufismo na sua forma original. Anos mais tarde, através das suas traduções, ele partilharia estes tesouros com um público mais vasto. Um dos seus trabalhos de tradução mais importantes foi o das cartas espirituais do ilustre mestre marroquino do século XVIII, Shaykh Mulay al-‘Arabi ad-Darqâwî. Estas cartas manifestam uma visão profunda e intensa de verdades metafísicas intemporais e, ao mesmo tempo, são um precioso documento de aconselhamento espiritual prático.”

William Stoddart

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Esoterismo Cristão Segundo Frithjof Schuon

Quando se fala de esoterismo cristão, pode tratar-se de três coisas:

Em primeiro lugar, pode ser a Gnose Cristã, baseada na pessoa, nos ensinamento e dons do Cristo, beneficiando-se ocasionalmente de conceitos platônicos, um processo que em metafísica não tem nada de irregular.[1]
Esta gnose se manifestou em particular, apesar de que de maneira bem desigual, em escritos como os de Clemente de Alexandria, Orígenes, Dionísio o Areopagita — o teólogo ou o místico, se se prefere — Scotus Erigena, Mestre Eckhart, Nicolau de Cusa, Jacó Böehme e Angelus Silesius.[2]

Em segundo lugar, pode se tratar de algo completamente diferente, qual seja, o esoterismo greco-latino – ou próximo-oriental – incorporado ao Cristianismo: pensamos aqui acima de tudo no Hermetismo e nas iniciações de ofício. Neste caso, o esoterismo é mais ou menos limitado ou mesmo fragmentário, ele reside mais no caráter sapiencial do método – hoje perdido – do que na doutrina e no objetivo; a doutrina era principalmente cosmológica, e consequentemente o objetivo não transcendia os “Pequenos Mistérios”, ou a perfeição horizontal, ou a perfeição “primordial”, se nos referimos às condições ideais da “Idade de Ouro”. Seja como for, este esoterismo cosmológico ou alquímico cristianizado – “humanista” num sentido ainda legítimo, posto que se tratava de restaurar ao microcosmo a perfeição de um macrocosmo sempre em conformidade com Deus – era essencialmente vocacional, dado que nem uma ciência, nem uma arte podem ser impostas a todo mundo; o homem escolhe uma ciência ou uma arte por razões de afinidade e qualificação, e não a priori para salvar sua alma. A salvação sendo garantida pela religião, o homem pode, a posteriori, e sobre esta base mesma, explorar seus dons e suas ocupações profissionais, e é mesmo normal ou necessário que ele deva fazê-lo quando uma ocupação ligada a um esoterismo alquímico ou artesanal se imponha a ele por um motivo qualquer.

Em terceiro lugar, e mesmo antes de tudo, e deixando de lado toda consideração histórica ou literária, podemos e devemos entender por “esoterismo cristão” a verdade pura e simples – verdade metafísica e espiritual – na medida em que ela é expressada ou manifestada mediante os dogmas, rituais e outras formas do Cristianismo. Formulado em sentido inverso, este esoterismo é a totalidade dos símbolos cristãos na medida em que eles expressam ou manifestam a pura metafísica e a espiritualidade una e universal. E isto é independente da questão de saber em que extensão um Orígenes ou um Clemente de Alexandria eram conscientes de tudo que está envolvido aqui; questão de resto supérflua, pois é evidente que, por razões mais ou menos extrínsecas, eles não poderiam ter consciência de todos os aspectos do problema tanto mais que foram largamente solidários da bhakti que determina a perspectiva específica do Cristianismo. Seja como for, é importante não confundir o esoterismo de princípio com o esoterismo de fato, ou uma doutrina virtual, que tem todos os direitos da verdade, com uma doutrina efetiva, que eventualmente pode não viver plenamente a promessa implicada em seu próprio ponto de vista.

Em relação ao legalismo judeu, o Cristianismo é esotérico em razão do fato de que é uma mensagem de interioridade: para o Cristianismo, a virtude interior toma precedência sobre as observâncias externas, ao ponto de abolir estas últimas.
Mas, seu ponto de vista sendo voluntarista, pode ser transcendido por uma nova interioridade, qual seja a da pura intelecção, que reduz as formas particulares a suas essências universais, e substitui o ponto de vista da penitência pelo do conhecimento purificador e libertador. A gnose é de natureza crística no sentido de que, por um lado, ela deriva do Logos – do Intelecto simultaneamente transcendente e imanente – e, de outro lado, ela é uma mensagem de interioridade e, portanto, de interiorização.





[1]
De maneira geral, influências intertradicionais são sempre possíveis em certas condições, mas fora de todo sincretismo. Incontestavelmente o Budismo e o Islã tiveram uma influência sobre o Hinduísmo, não lhe acrescentando novos elementos, bem entendido, mas favorecendo ou determinando a eclosão de elementos pré-existentes.



[2] Em outros termos: encontramos elementos de esoterismo sapiencial no gnosticismo ortodoxo – o qual se prolonga na teosofia de Jacó Boehme e seus continuadores –, depois na mística dionisiana dos renanos, e no Hesicasmo, bem entendido; sem esquecer este elemento parcial de esoterismo metódico que foi o Quietismo de um Molinos, traços do qual se encontram em São Francisco de Sales.

(Extraído de: L’Ésotérisme comme Principe et comme Voie, pp. 29-30 / Esoterism as principle and as Way, pp. 29-31)
Tradução de M.S.A.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A tarefa do educador moderno

A tarefa do educador moderno não é derrubar a selva, mas sim regar desertos.

C.S. Lewis, The Abolition of Man (1943)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O elemento emocional

Continuamos com o tema da educação, desta vez com estas incisivas palavras de Frithjof Schuon.


A emotividade “percebe" e revela os aspectos de um bem ou de um mal que a simples definição lógica não consegue mostrar de forma directa e concreta: são os aspectos existenciais, subjectivos, psicológicos, morais e estéticos, quer da verdade, quer do erro; ou os da virtude e do vício. Imaginemos uma criança que, por simples ignorância e, portanto, por falta de sentido das proporções, profere uma palavra blasfematória; se o pai se enfurece, a criança aprende “existencialmente” algo que não aprenderia se o pai se limitasse a uma dissertação abstracta sobre o carácter blasfematório da dita palavra. A fúria do pai demonstra à criança de modo concreto a extensão da falha, ela torna visível uma dimensão que de outro modo manter-se-ia abstracta e anódina; o mesmo se passa para os casos inversos, mutatis mutandis: a alegria dos pais torna tangível para a criança o valor do seu acto meritório ou da virtude como tal. 

Contra toda a experiência e o bom senso, alguns adeptos da psicanálise – senão todos – consideram que jamais se deve punir uma criança, pois, pensam eles, o castigo os “traumatizaria”; aquilo que esquecem é que uma criança que se deixa traumatizar por um castigo justo – logo proporcional à falha – é já um monstro. A essência de uma criança normal é, sob um determinado aspecto, o respeito aos pais e o instinto do bem; um castigo justo, ao invés de o ferir profundamente, ilumina e liberta-o, projectando-o, para o dizer de alguma forma, na consciência imanente da norma. É certo que existem casos em que os pais se equivocam e, em resultado, a criança é traumatizada, mas a criança normal, ou normalmente virtuosa, não se deixará cair numa amargura vindicativa e estéril, bem pelo contrário: ela retirará a melhor parte da sua experiência, graças à intuição de que toda a adversidade é metafisicamente merecida, pois nenhum homem é perfeito sem adversidades.

Frithjof Schuon - Résumé de métaphysique intégrale (Le courrier du livre, 1985)

Informação

Com esta publicação pretende-se chamar a atenção para duas recentes adições nas nossas referências para fontes na Internet, as quais merecerão, por certo, toda a atenção dos nossos leitores. Aqui ficam: 

Vera Philosophia - Extratos de textos do filósofo Frithjof Schuon, com pequenos comentários

The Matheson Trust – For the Study of Comparative Religion



domingo, 29 de janeiro de 2012

Anúncio do 4º ciclo de estudos: Educação


Como anunciado numa publicação recente, foi iniciada a preparação do quarto número da Revista Sabedoria Perene que será dedicado à Educação. Este olhar para a educação será à luz da Tradição, de todas as tradições religiosas e sapienciais da humanidade, e será, por certo, profundamente crítico da educação actual, a qual se encontra aparentemente, como muitos outros aspectos da nossa sociedade, num estado profundamente doentio, arriscamos mesmo dizer, terminal.

É nosso desígnio que esta constatação resulte evidente do trabalho monográfico que será apresentado e que, não só as razões para tal infortúnio sejam apontadas, como também iluminadas as direcções para uma inversão deste caminho, em última análise, auto-destrutivo – pois o futuro da nossa existência como comunidade depende da educação dada aos nossos jovens.

Os trechos que se apresentam de seguida e que abrirão este ciclo de estudos ilustram bem o antagonismo entre as visões tradicionais e a visão moderna da educação. Mostram eloquentemente a incomensurável distância entre um mundo centrado no individualismo e outro que, vendo "Deus em toda a parte”, vê no outro a si próprio.


(…) E isto resulta, finalmente, que quando se passa de um ano para outro – ou mesmo espacialmente de uma sala de aula para outra – as conclusões podem ser diametralmente opostas. Mais isso não importa nem perturba ninguém, desde que seja garantida a liberdade de expressão. Trata-se de um total e absoluto desprezo da Verdade, o qual encontramos inevitavelmente – e em diversos graus – em todos os níveis da sociedade. Na maior parte das situações em que dois indivíduos emitem uma opinião contrária, é considerado adequado exigir que cada um deles “faça um esforço” para conseguir chegar a um “acordo” que se considerará “pelo menos uma verdade objectiva” (cada um sacrificando, de certa maneira, um pouco da sua subjectividade, sem falar da sua pretensão e do seu orgulho); e tudo isto sem dar qualquer importância à dignidade e ao valor intrínseco das personagens, nem tão pouco à profundidade da opinião emitida. (…) [mas] A verdade não é uma questão de “acordos” feitos de fraquezas e de subtis hipocrisias (…)

Ao agir deste modo numa sala de aulas, recusa-se tomar consciência que se está a encerrar o aluno nos estreitos limites do seu ego, o qual é incitado a uma espécie de autocracia. Pouco a pouco, torna-se insensível a qualquer coisa diferente da sua própria opinião, expressão da sua personalidade e da sua liberdade. Para mais, não se está longe de pensar que quanto mais a sua opinião é diferente dos seus colegas, mais ele dá prova da sua personalidade. E é esta, sem qualquer dúvida, a mais temível das prisões na qual se encerra um jovem: a sua própria. Uma célula limitada por todas as partes, tal como o é todo o indivíduo, e da qual se impede de sair sob pena de perder aquilo que chamamos de liberdade mas que é, na realidade, a pior das escravaturas. (…)

Extraído de 
de Ghislain Chetan


Uma das grandes lições que tínhamos que aprender era que devíamos ter uma grande força de vontade para ser desprendidos. Às crianças ensinava-se a dar aos outros e a fazê-lo com generosidade. Aquele que dava um presente sem valor não se podia considerar uma pessoa generosa. Tínhamos que oferecer as nossas posses até nos tornarmos pobres em bens materiais e até que não nos restasse nada mais do que o deleite e a alegria da nossa força desnudada. Era uma obrigação inevitável doar aos necessitados e aos desamparados, e quando as mães davam presentes aos débeis e aos anciãos davam uma parte desses presentes às crianças, para que eles mesmos pudessem oferecê-los por suas próprias mãos. As crianças lakota costumavam trazer para os seus tipis pessoas débeis e anciãs que passavam em frente à sua tenda. Se uma criança fazia isto a sua mãe devia preparar imediatamente uma refeição, pois ignorar a cortesia da criança seria algo imperdoável.

Uma vez que é muito fácil inspirar a compaixão de uma criança, os lakota aprendiam a oferecer presentes a todo o momento e em qualquer lugar, com o objectivo único de se converterem em pessoas fortes e valentes. O melhor guerreiro era aquele que se desprendia das suas posses mais queridas ao mesmo tempo que cantava de alegria e de bênção.
Luther Standing Bear
(Sioux Oglala)


Talvez o mais difícil da paternidade não fosse vigiar a conduta das crianças, mas sim vigiar a conduta adequada dos pais, uma vez que o método que usavam para ensinar os seus filhos era fazê-los observar detidamente a conduta dos adultos. As crianças lakota, que possuíam um grande vigor natural e que tinham as faculdades muito desenvolvidas graças ao contacto com a natureza, percebiam tudo através dos seus olhos e dos seus ouvidos. Assim, os pais lakota, tal como os restantes adultos, estavam submetidos a um exame contínuo da sua conduta e das suas conversas. Por esta razão, tinham que actuar da forma mais digna e exemplar possível.

Luther Standing Bear
(Sioux Oglala)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ofícios e a Tradição

Hoje deixo aqui mais uma muito generosa contribuição de um nosso amigo do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que traduziu directamente do alemão o seguinte extracto do maravilhoso livro de Titus Burckhardt, “Fez, Cidade do Islão”.


Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil...” 

Eu conheci um penteeiro na rua de sua corporação, a mashshâtîn. Ele se chamava ‘Abd Al-Azîz (Servo do Todo-Poderoso), vestia sempre uma jelabá negra – a ampla túnica munida de mangas e de capuz – e um turbante branco com o lithâm, o véu de rosto, que emoldurava suas feições um tanto duras. O chifre para seus pentes ele o obtinha de cabeças de boi que comprava dos açougueiros. A testa com os chifres ele punha para secar numa área arrendada, depois retirava os chifres, abria-os longitudinalmente e os aplainava sobre o fogo, algo que devia ser feito com o maior cuidado, para que não rachassem. Desse material ele entalhava pentes e torneava caixas para antimônio, usado como cosmético para os olhos; isso ele fazia num torno muito simples, no qual ele conduzia com a mão esquerda um arco que, enrolado numa haste, a fazia girar, enquanto na mão direita ele segurava a faca e com um pé empurrava um contrapeso. Durante esse trabalho, ele costumava cantar suratas alcorânicas numa voz baixa. 

Fiquei sabendo que, em consequência de uma doença ocular que frequentemente se manifesta na África, ele já era meio cego e fazia seu trabalho mais pelo hábito que pela visão propriamente dita. Um dia ele se queixou para mim que a importação de pentes de plástico diminuía o seu ganho: “Não é somente triste que hoje, por causa do preço, os pentes ruins industrializados sejam preferidos aos pentes de chifre, muito mais duráveis”, disse; “é também absurdo que homens fiquem postados diante de uma máquina e tenham de repetir sempre o mesmo movimento sem ter o que refletir sobre ele, enquanto um antigo ofício como o meu cai no esquecimento. Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil, que não se deixa explicar pelas palavras. A mim mesmo ele só se revelou após muitos anos, e, mesmo que eu quisesse, não o poderia transmitir sem mais a meu próprio filho, se ele mesmo não pudesse alcançá-lo – e acredito que ele preferirá aprender algum outro ofício. Este ofício remonta de aprendiz a mestre até nosso Senhor Set, filho de Adão. Foi ele que o ensinou aos homens pela primeira vez, e o que um Profeta traz – pois Set era um Profeta – deve comportar em si um benefício particular, exterior tanto quanto interior. Isso eu fui entendendo gradualmente, que não há nada de fortuito neste ofício, que cada movimento das mãos e cada processo traz em si uma sabedoria. Mas nem todos o podem compreender. Contudo, mesmo que isso não seja compreendido, ainda é algo tolo e reprovável privar os homens do legado de um Profeta e fazer com que eles se postem diante de uma máquina para realizar dia-a-dia um trabalho que não tem sentido.” 

Portanto, a ameaça que hoje paira sobre os ofícios marroquinos não é somente um desafio exterior, mas também uma ameaça no plano da própria alma. Mesmo que nem todo artesão árabe medite com tanta consciência sobre seu ofício como aquele penteeiro, a maior parte dos ofícios ainda tem um conteúdo espiritual que, com as inovações da indústria moderna, ficará esquecido. 

Mesmo o aguadeiro, que não faz mais que encher nas fontes públicas da cidade sua pele de cabra para trazer aos bazares uma bebida fresca para os que têm sede, independentemente de se recebe deles alguma recompensa ou não, mesmo ele ainda mostra em toda a sua postura a dignidade humana, tal como nas terras européias ainda tem o camponês que lança com devoção a semente. 

Até mesmo o mendigo que se acocora diante das mesquitas e nas pontes e com sua veste cem vezes remendada exerce seu ofício, não pede com vergonha, mas diz ao passante: “Dê o que é de Deus!” ou canta com voz monótona um refrão religioso. 

Pois quase todos os que ainda não foram sugados pelos remoinhos do mundo moderno vivem aqui sua vida ainda como um papel provisório, que não empenha de forma definitiva sua alma, mas pertence à Divina Comédia desta existência terrena. 

(Titus Burckhardt, Fes, Stadt des Islam, Olten and 
Freiburg-im-Breisgau: Urs Graf Verlag, 1960, pp. 64, 69,70.)

domingo, 15 de janeiro de 2012

O teu centro está em toda a parte

Após um período de menor actividade do Sabedoria Perene, é nosso desejo que ele regresse com um novo ímpeto e que possa continuar a ser uma refrescante fonte para aqueles que buscam uma luz num mundo cada vez mais envolto em espessas e escuras nuvens. Fazemos coincidir este regresso com outro, o do retorno ao trabalho na Revista Sabedoria Perene. O próximo número já tem o tema escolhido: a Educação; tema que por certo será do interesse dos nossos leitores. Regressaremos a este assunto numa outra ocasião.

De momento, para celebrar o início do que se pretende ser um novo ciclo de trabalho, deixo-vos um maravilhoso excerto de um livro de Mark PerryOn Awakening and Remembering, ao qual regressaremos noutras ocasiões, onde este conceito de ‘ciclicidade’ é magistralmente tratado. Mas é sobretudo pela abordagem do Centro que partilhamos as seguintes palavras.




TUDO NA CRIAÇÃO GIRA EM TORNO DE UM CENTRO, isto pelo simples facto de que todas as coisas têm uma origem à qual não podem escapar. E esta origem é também o seu fim pois, à imagem das árvores, todas as criaturas têm raízes, mesmo que invisíveis; assim, uma criatura só se pode desviar em relação à sua base. Por muito que as aparências nos indiquem o contrário, uma trajectória em linha recta apenas é conspícua quando a sua origem e fim são velados, esquecidos ou rejeitados. A fuga em frente dos seres e dos eventos parece sugerir uma trajectória linear lançada ao longo de um eixo em constante retrocesso. Estas sucessões de existências, aparentemente livres de convergir ou divergir de outras existências paralelas, surgem como que arremessadas ao longo de linhas cujo fim é completamente estranho à sua origem, o que causa a impressão de ser a linha e não o círculo o princípio operativo da manifestação. Esta ilusão de perspectiva é ainda mais reforçada pela nossa cultura moderna que obriga as pessoas a se adaptarem a uma constante mudança. Vivemos tempos de estonteante obsolescência, tempos em que a excitação pela novidade mascara a destruição da tradição, o frenesi da mudança trivializa a realização, a fatuidade do progresso deprecia o valor do património. O que a história e a cultura poderão ganhar com um apelo nostálgico face a este desprezo, nunca o poderão recuperar realmente em prestígio intelectual. O que caracterizava a primeira era da humanidade, a Krita Yuga das escrituras sagradas hindus, era a noção de Centro e o mito do Eterno Retorno, altura em que governava a ideia de repetição – e não de mudança – em torno de um princípio perene. Tal deve-se, em parte, ao facto dessa primeira era estar tão próxima da origem que praticamente se identificava integralmente com ela. No entanto, através de um movimento de expansão, semelhante a uma espiral sempre crescente, a humanidade cresce/cai da sua origem divina e, sem ser capaz de escapar a esse movimento em torno do centro, continua a afastar-se cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ganhar velocidade. 

Se podemos caracterizar o homem antigo como estático, em conformidade com uma visão da existência centrada no espaço e não no tempo, podemos então caracterizar o homem moderno, o homem do Kali Yuga, como dinâmico, em conformidade com uma visão da existência centrada no tempo e na mudança e, consequentemente, na destruição. A preservação da tradição era o valor essencial do homem antigo que, através dos ritos sazonais celebrados, mantinha sempre presente a ideia de renovar e garantir a ligação com o centro original. Mas para uma civilização viciada no progresso, que avança com base no pressuposto da prévia ignorância humana, quando não no da inferioridade, romper com o molde “embrutecedor” da tradição torna-se imperativo. O que é esquecido é que – voltando à imagem da espiral – a tendência é para girar cada vez mais distante, até que tudo gire fora de controlo; isto é cada vez mais evidente na medida em que vivemos num mundo onde a velocidade tem acelerado em proporção directa com a supressão e transformação do passado. Este facto, apesar da excitante atracção que provoca, é inerentemente aberrante e destabilizador; o homem não pode viver num ritmo cada vez mais frenético sem se alienar de si próprio. Por outro lado, não deixa de ser uma componente necessária de um ciclo, que não pode terminar de outra forma que não em desintegração. Esta constatação não se trata de pessimismo, mas sim de realismo cosmológico.

Se o ponto de vista do homem fosse suficientemente elevado, ele libertar-se-ia da ilusão de linearidade, recordaria as origens e preveria as conclusões; ele compreenderia as consequências. De todo o modo, os exemplos do princípio circular abundam, seja na doutrina hindu dos ciclos milenares (manvantaras), a qual os quais já mencionámos, ou nos periodos dos Estóicos, seja no carrossel das estações ou nas ondas concêntricas num lago provocadas por uma gota de água, nas órbitas das grandes galáxias ou nos círculos dos falcões, nos ciclos dos dias e dos anos, nada se exclui a esta lei cuja benevolente imanência – a força que move o sol e as restantes luminárias, segundo Dante – salva a cada instante a manifestação de se desintegrar no nada que está continuamente a sugá-la. O círculo é o dharma perfeito, e o dharma perfeito é a verdade.

O princípio dinâmico do círculo, celebrado pelas rondas das danças de todas as culturas “primitivas”, possui o seu equivalente estático no princípio da esfera, cuja redondeza é para a forma o que a circularidade é para o movimento. O nosso globo terrestre é uma esfera que pertence, por sua vez, a uma galáxia que espirala em torno – e em afastamento – de um centro invisível do qual é a projecção esférica.

De uma relevância ainda mais imediata, é o facto de o homem estar colocado sob a abóbada celeste e poder contemplar, a partir de todo e qualquer ponto, o mesmo nascer e pôr-do-sol, os infindáveis ciclos da lua, e a ronda processional das constelações estelares. Ele testemunha o eterno retorno das estações ao mesmo tempo que sente, na sua própria carne, a herança destes ciclos com a passagem da juventude à maturidade, passagem essa que marca as etapas processionais da sua estadia mortal, na qual os extremos se tocam, pois a idade avançada pode ser, em termos espirituais, uma segunda juventude. Não será então verdade que tudo o que o homem vê e tudo o que ele experiencia segue, fundamentalmente, ritmos perenes e imutáveis? E falar de ritmo é falar de repetição. E o que é a repetição senão retorno e circularidade?

Esta evidência é plena de significado, pudesse o homem simplesmente parar e ponderar as suas implicações. Observar que a Realidade pode ser compreendida geometricamente como um círculo, ou uma esfera, prova, para mais, a bondade da substância universal pois, como reconheceu Platão, a redondeza é a forma concreta do bem, do agradável e do amável. O desespero não usurpa a serenidade daquele que compreende isto no seu coração. 

Também a magnificente migração anual de diversas criaturas testemunha o pulsar de um grandioso ser que permeia o majestoso silêncio da natureza. O colibri, a borboleta monarca, o salmão, que regressam aos seus locais de acasalamento ou desova, não precisam de “sistemas de radar”, pois são os emissários de centros/corações: viajam com o fluxo e o refluxo, a projecção e o retorno desses centros dos quais as suas viagens traçam as configurações das artérias que se dispõem através de raios invisíveis mas intrinsecamente vivos. Para o contemplativo, o respirar e o pulsar do Céu está onde murmure uma brisa em ramos frondosos, salpique a água em riachos serpenteantes ou onde um grilo cante. E o centro divino está sempre onde se eleva uma montanha, no desabrochar de uma flor e no sorriso de uma donzela. E ele está sobretudo onde se encontra um homem em oração.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Duvida-se de tudo, salvo da dúvida

"Seria preciso poder restituir à palavra 'filosofia' a sua significação original: a filosofia -- o 'amor da sabedoria' -- é a ciência de todos os princípios fundamentais; esta ciência opera com a intuição, que 'percebe', e não somente com a razão, que 'conclui'.
Subjetivamente falando, a essência da filosofia é a certeza; para os modernos, ao contrário, a essência da filosofia é a dúvida: o filósofo deve raciocinar sem nenhuma premissa (voraussetzungsloses Denken), como se essa condição não fosse ela mesma uma ideia preconcebida; é a contradição clássica de todo relativismo. Duvida-se de tudo, salvo da dúvida."

Frithjof Schuon: A Transfiguração do Homem. Sapientia, 2009, p. 11.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sabedoria Ameríndia


Nós vimos o Grande Espírito (Wakan Tanka) em quase tudo: no sol, na lua, nas árvores, no vento e nas montanhas. Às vezes aproximamo-nos d’Ele através destas coisas.

Búfalo Andante (Walking Buffalo)