domingo, 8 de julho de 2012

Fulgores de Fátima

por Pedro Sinde


Depois de uma primeira colaboração com o texto “O botão da perplexidade no caminho da flor”, o Pedro Sinde presenteou-nos com o primeiro de um conjunto de ensaios que pretende escrever em torno das aparições de Fátima. 

Gratos, partilhamos de seguida um trecho do texto que poderá ser lido na íntegra aqui.



Fulgores de Fátima, I

O escapulário e o rosário: duas armas para a ‘grande guerra santa’


Para J.-C. P.

As palavras que se seguirão procurarão reflectir sobre alguns aspectos, eventualmente menos notados, das aparições de Fátima. Estes textos não têm nenhuma ordem explícita, são apenas reflexões que procuram olhar para o tema das aparições a partir de diferentes ângulos, de modo a ir extraindo vários aspectos que nem sempre aparecem explicitamente; trata-se, afinal, de uma das grandes manifestações dos céus: as primeiras aparições do século XX e as maiores de que se tem conhecimento.

O leitor achará natural a referência ao rosário no título de um texto sobre as aparições de Fátima, no entanto, poderá espantar-se por aí se fazer referência explícita ao escapulário. Há várias razões importantes para isso, mas seria suficiente dizer que a Senhora do Carmo foi a última forma de que a Virgem se revestiu, na derradeira aparição, a 13 de Outubro de 1917, com o escapulário no braço direito; de resto, a importância atribuída ao escapulário foi reconhecida por Lúcia ao afirmar (bem antes de 1960) que o escapulário “é parte integrante da mensagem de Fátima” e ainda que “o Escapulário e o Rosário são inseparáveis” (Kyliano Lynch, Nossa Senhora de Fátima e o Escapulário). Podemos ainda lembrar estes dois elementos: por um lado, a veneração da Senhora do Carmo em Fátima é muito antiga e, por outro, a própria Lúcia acabou por entrar no Carmelo.
Nesta última aparição, a Virgem mostrou-se sucessivamente sob três aspectos: primeiro como Senhora do Rosário, depois como Senhora das Dores e, finalmente, como Senhora do Carmo, isto é, mostrou, de forma eloquente, três aspectos ou etapas vitais de qualquer caminho espiritual. Podemos dizer, entre outras coisas, que para chegarmos à paz do Carmelo, ao jardim da Virgem, ao Paraíso na Terra, começamos pelo fervor da crença (ou do conhecimento), representado no rosário, e que, com a sua ‘luz’ e com o seu ‘calor’, vai fixar o volátil e dissolver o fixo: por um lado, vai fixar a mente dispersa (agora cativada pela luz do rosário) e, por outro, vai dissolver a ‘dureza do coração’, os aspectos da alma que estão ‘endurecidos’, a insensibilidade, quer dizer, vai despertar a alma, retirando-a do sono e da passividade – ou do esquecimento – em que vive, introduzindo no seu dia-a-dia estes momentos de graça, de meditação, de oração, de invocação. Para a alma decaída, a transformação é, naturalmente, dolorosa.

sábado, 7 de julho de 2012

Palavras Trovão

Aqueles que sustentam o argumento evolucionista de um progresso intelectual gostam de explicar ideias religiosas e metafísicas através de factores psicológicos de natureza inferior, tais como o medo do desconhecido, a esperança pueril da felicidade eterna, o apego a um imaginário que nos é caro, o escapismo onírico, o desejo de oprimir os outros de forma fácil, etc; como pode alguém ignorar que tais suspeitas, apresentadas despudoradamente como factos demonstrados, implicam inconsequências e impossibilidades psicológicas que não podem escapar a qualquer observador imparcial? Se a Humanidade tivesse permanecido estupidificada durante milhares de anos, não é possível explicar como teria deixado de o ser, especialmente porque tal aconteceu supostamente num espaço temporal relativamente curto; e isto é ainda menos explicável quando se observa com que inteligência e heroísmo se foi estúpido durante tanto tempo, e com que miopia filosófica e decadência moral nos tornámos finalmente "lúcidos" e "adultos". 

Frithjof SchuonDu Divin à l'Humain 
 
Tradução de Sílvia Leite

domingo, 1 de julho de 2012

Relação mestre-discípulo – no Ocidente!



Aquele que instrui um candidato para a Dança do Sol é o tunkansila. Isto significa que é mais do que um avô. O candidato passa a ser como um recém-nascido. O seu instrutor dirige-o em tudo. Ele não deve fazer mais do que aquilo que o seu instrutor lhe diz. O instrutor pensa e fala por ele, e diz-lhe como pensar e falar. O instrutor estabelece as regras e o candidato deve obedecê-las com precisão. O instrutor torna-se o outro eu do candidato. 

- George Sword, Teton Sioux


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Se desejas que o teu caminho se encurte...

Se desejas que o teu caminho se encurte para que chegues rapidamente à realização, praticarás as obras de caracter “necessário” (al-wâjibât) e aquelas “supererrogações firmemente recomendadas” (ma taakada mîn nawâfili-l-khayrât); aprende da ciência exterior aquilo que é indispensável para servir Deus, mas não te detenhas aí, porque não se exige o seu aprofundamento; é a ciência interior que precisas aprofundar; e combate a cobiça; então verás maravilhas. O “caracter nobre” não é outra coisa senão a taçawwuf dos Sufis, tal como ele é a religião dos homens religiosos; e que Deus amaldiçoe aqueles que mentem! 

Também, fugir sempre à sensualidade [1], porque ela é o oposto da espiritualidade, e os opostos não se rejuntam. À medida que reforças os sentidos, enfraquecer-te-ás no espírito, e inversamente. Ouve o que aconteceu ao nosso mestre (que Deus esteja satisfeito com ele) no começo de seu caminho. Ele tinha acabado de malhar três medidas de trigo e fê-lo saber ao seu mestre, o senhor al-‘Arabî ben Ábd-Allâh, que lhe disse: “Se aumentas no domínio dos sentidos, diminuirás no do espírito, e se diminuis neste, aumentarás naquele”. Isto é evidente, porque enquanto te relacionares com as pessoas (mundanas), jamais sentirás nelas o perfume do espírito; não sentirás senão o odor do suor, e isto advém da sensualidade os ter subjugado; ela apoderou-se dos seus corações e dos seus membros: eles não encontram nenhum benefício senão nela, de maneira que só tagarelam, só se ocupam e só se rejubilam dela e dificilmente se desapegam dela; e todavia numerosos são aqueles que dela se desapegaram para mergulhar no espírito para o resto de suas vidas; que Deus esteja satisfeito com eles e que nos faça tirar proveito da sua bênção, Ámen, Ámen, Ámen! – É como se Deus (exaltado seja ele) não lhes tivesse dado o espírito (isto é, às pessoas mundanas), embora cada qual faça parte dele, assim como as ondas fazem parte do oceano. Se eles o soubessem, eles não se deixariam distrair pelas coisas sensíveis; e se eles o soubessem, descobririam neles mesmos oceanos sem limites; e Deus é a garantia do que dizemos. 

[1] Al-hiss, a sensualidade no sentido mais lato do termo, ou seja o apego à experiência sensível. 

in Lettres d'un maître soufi, Le Sheikh al-'Arabî ad-Darqâwî, Traduites de l'Arabe par Titus Burckhardt; Letters of a Sufi Master, The Shaykh ad-Darqâwî, Translated by Titus Burckhardt

domingo, 1 de abril de 2012

Espírito de tolerância

Tierno Bokar (1875-1939) foi um mestre espiritual sufi que viveu no Mali no início do séc. XX. Apesar dos incríveis obstáculos que enfrentou no decurso da sua vida, as suas palavras acabaram por ser preservadas através de um dos seus mais próximos discípulos, Amadou Hampaté Bâ. Estas suas palavras, registadas num livro que aqui recomendamos, A Spirit of Tolerance – The Inspiring Life of Tierno Bokar, são palavras de elevada inteligência espiritual, com uma enorme ênfase no amor, na caridade e numa fraternidade que desconhece fronteiras religiosas. As palavras que seleccionámos dizem respeito precisamente a este último aspecto e são, tal como toda esta obra, verdadeiramente inspiradoras. 


“Tierno,” perguntei-lhe um dia, “será favorável relacionarmo-nos com pessoas de outras fés para trocar ideias e melhor compreender o seu Deus?” Ele respondeu:
Porque não? Dir-te-ei: devemos falar com estrangeiros desde que sejamos capazes de ser cordiais e respeitosos. Ganharás enormemente com o conhecimento de diversas formas religiosas. Acredita em mim, cada uma destas formas, por muito que te possam parecer estranhas, contêm aquilo que pode fortalecer a tua própria fé. Por certo, a fé, tal como o fogo, deve ser mantida através de um combustível apropriado para que resplandeça. Caso contrário, enfraquecerá, perderá intensidade e volume e transformar-se-á em brasas, depois em carvão e por fim em cinzas.

Acreditar que a nossa raça ou a nossa religião é a única que possui a verdade é um erro. Isto nunca poderia ser. Na verdade, na sua natureza, a fé é como o ar. Tal como o ar, ela é indispensável para a vida humana e não é possível encontrar um homem que não acredite verdadeira e sinceramente em algo. A natureza humana é tal que não é capaz de não acreditar em algo, seja em Deus ou em Satanás, seja no poder ou na riqueza, seja na boa ou na má sorte.

Assim, quando um homem acredita em Deus, ele é nosso irmão. Trata-o como tal e não sejas daqueles que se perdem. A não ser que se tenha a certeza de possuir todo o conhecimento na sua totalidade, é necessário preservarmo-nos de nos opormos à verdade. Algumas verdades apenas nos parecem para além da nossa aceitação pela simples razão de que o nosso conhecimento ainda não teve acesso a elas.

Evita confrontos. Quando algo noutra religião ou crença te choca, procura ao invés tentar compreendê-lo. Talvez Deus venha em teu auxílio e te ilumine sobre o que te causa estranheza…
(…) 
O ensinamento religioso dado por um Profeta ou por um mestre espiritual autêntico é como água pura. Pode ser absorvido sem qualquer perigo para a nossa saúde espiritual ou moral. Esse ensinamento será inteligível e de uma ordem superior. Tal como a água pura, não conterá nada que o possa alterar pela modificação do seu sabor, do seu odor, da sua cor. Amadurecerá a mente e purificará o coração, pois não contém qualquer poluente externo que possa ter o efeito de ofuscar a alma ou endurecer o coração. Não podemos deixar de enfatizar os benefícios resultantes do estudo dos ensinamentos de outras religiões reveladas. Elas são, para todos, como a água potável. (…)

sábado, 31 de março de 2012

Citações espirituais


Melhor que mil afirmações desprovidas de sentido
É uma palavra significativa que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Melhor que mil versos desprovidos de sentido
É uma linha de verso significativa que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Melhor que recitar cem versos sem sentido
É uma linha do Dharma que,
Tendo sido ouvida,
Traz paz.

Maior no combate
Que uma pessoa que conquista
Mil vezes mil pessoas
É aquele que se conquista a si mesmo.

Dhammapada, tradução de Alberto V. Queiroz a partir da versão inglesa de Gil Fronsdal

Sobre o trabalho

Diz um provérbio árabe que reflete a atitude do muçulmano perante a vida: "a lentidão é de Deus, a pressa é de Satanás", o que nos leva à seguinte reflexão: como as máquinas devoram o tempo, o homem moderno está sempre apressado, e como essa perpétua falta de tempo cria nele reflexos de pressa e de superficialidade, o homem moderno toma esses reflexos — que compensam uma série de desequilíbrios — por superioridades, e despreza, no fundo, o homem antigo de hábitos "idílicos" e sobretudo o velho oriental de andar lento e turbante longo para enrolar. Já não se consegue representar, por falta de experiência, qual era o conteúdo qualitativo da "lentidão" tradicional, ou como "sonhavam" as pessoas de outrora; o homem de hoje contenta-se com a caricatura, o que é muito mais simples e lhe é mesmo exigido por um instinto ilusório de conservação. Se as preocupações sociais — de base evidentemente material — determinam em tão grande parte o espírito da nossa época, isso não se deve apenas às consequências sociais do maquinismo e às condições inumanas que ele engendra, deve-se também à ausência de uma atmosfera contemplativa que, no entanto, é necessária para a felicidade dos homens, seja qual for o seu "padrão de vida", para empregar uma expressão tão bárbara quanto usual. 

Frithjof Schuon

Retirado da publicação em "Vera Philosophia". Não deixem de aí ler este e outros textos rigorosamente seleccionados e comentados.

sábado, 24 de março de 2012

Cartas do Shaykh ad-Darqâwî


Esta preciosa tradução de excertos de cartas do Shaykh ad-Darqâwî, o fundador de um importante ramo da Ordem Shadhiliyyad do Norte de África, pertence a uma classe de literatura sufi que ainda não recebeu a devida atenção fora do mundo islâmico.

Cada carta é uma preciosa gema de sabedoria, uma chave indispensável para abrir certas portas que estão diante de cada viajante ao longo do Caminho. Quase todas as cartas dizem respeito ao método e aos aspectos operativos da Via, baseados nas técnicas centrais da invocação ou dhikr. Neste domínio, elas devem ser consideradas entre as mais directas instruções dadas sobre o método sufi que se podem encontrar em toda a literatura sufi, enquanto, geralmente, os mestres têm preferido referir-se às técnicas espirituais propriamente ditas de forma alusiva. No entanto, ocasionalmente, também são discutidos aspectos fundamentais da doutrina sufi.

“A doença que está a afectar o teu coração é uma daquelas coisas que atinge o homem que Deus ama, pois, ‘entre todos os homens, os mais duramente provados são os Profetas, depois os santos, seguidos daqueles que, em maior ou menor grau, se lhes assemelham.’ Portanto não fiques abatido, uma vez que isto acontece muito frequentemente a homens cheios de sinceridade e amor, para que eles avancem em direcção ao seu Senhor. Através deste sofrimento, os seus corações são purificados e transformados em pura substância. Na falta de tais encontros com a realidade, ninguém alcançaria o conhecimento de Deus, longe disso, pois ‘se não houvessem arenas para as almas, os corredores não conseguiriam correr o seu percurso’, tal como é dito por Ibn ‘Ata-Illâh em Hikam, onde ele também diz: ‘Na variedade dos sinais e dos estados mutáveis, eu cheguei a reconhecer a Tua intenção em relação a mim, a de me mostrares todas as coisas, para que não possa existir nada em que eu não Te conhecesse.’ No mesmo sentido, os iniciados disseram: ‘É nestes tempos de rebelião que os homens se destacam de entre os homens. ‘No Alcorão está dito: Supõem as pessoas que serão deixadas em paz porque dizem ‘nós cremos’, e que não serão provados? (XXIX, 1).”

Ao disponibilizar estas cartas em língua inglesa, Titus Burckhardt prestou um serviço àqueles que buscam instrução espiritual. Ele também enriqueceu a literatura sufi nas línguas ocidentais e tornou disponível mais um documento de extraordinário poder e beleza, pertencente ao passado recente.

“Durante os seus primeiros anos em Marrocos, Titus Burckhardt imergiu na língua árabe e assimilou os clássicos do sufismo na sua forma original. Anos mais tarde, através das suas traduções, ele partilharia estes tesouros com um público mais vasto. Um dos seus trabalhos de tradução mais importantes foi o das cartas espirituais do ilustre mestre marroquino do século XVIII, Shaykh Mulay al-‘Arabi ad-Darqâwî. Estas cartas manifestam uma visão profunda e intensa de verdades metafísicas intemporais e, ao mesmo tempo, são um precioso documento de aconselhamento espiritual prático.”

William Stoddart

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Esoterismo Cristão Segundo Frithjof Schuon

Quando se fala de esoterismo cristão, pode tratar-se de três coisas:

Em primeiro lugar, pode ser a Gnose Cristã, baseada na pessoa, nos ensinamento e dons do Cristo, beneficiando-se ocasionalmente de conceitos platônicos, um processo que em metafísica não tem nada de irregular.[1]
Esta gnose se manifestou em particular, apesar de que de maneira bem desigual, em escritos como os de Clemente de Alexandria, Orígenes, Dionísio o Areopagita — o teólogo ou o místico, se se prefere — Scotus Erigena, Mestre Eckhart, Nicolau de Cusa, Jacó Böehme e Angelus Silesius.[2]

Em segundo lugar, pode se tratar de algo completamente diferente, qual seja, o esoterismo greco-latino – ou próximo-oriental – incorporado ao Cristianismo: pensamos aqui acima de tudo no Hermetismo e nas iniciações de ofício. Neste caso, o esoterismo é mais ou menos limitado ou mesmo fragmentário, ele reside mais no caráter sapiencial do método – hoje perdido – do que na doutrina e no objetivo; a doutrina era principalmente cosmológica, e consequentemente o objetivo não transcendia os “Pequenos Mistérios”, ou a perfeição horizontal, ou a perfeição “primordial”, se nos referimos às condições ideais da “Idade de Ouro”. Seja como for, este esoterismo cosmológico ou alquímico cristianizado – “humanista” num sentido ainda legítimo, posto que se tratava de restaurar ao microcosmo a perfeição de um macrocosmo sempre em conformidade com Deus – era essencialmente vocacional, dado que nem uma ciência, nem uma arte podem ser impostas a todo mundo; o homem escolhe uma ciência ou uma arte por razões de afinidade e qualificação, e não a priori para salvar sua alma. A salvação sendo garantida pela religião, o homem pode, a posteriori, e sobre esta base mesma, explorar seus dons e suas ocupações profissionais, e é mesmo normal ou necessário que ele deva fazê-lo quando uma ocupação ligada a um esoterismo alquímico ou artesanal se imponha a ele por um motivo qualquer.

Em terceiro lugar, e mesmo antes de tudo, e deixando de lado toda consideração histórica ou literária, podemos e devemos entender por “esoterismo cristão” a verdade pura e simples – verdade metafísica e espiritual – na medida em que ela é expressada ou manifestada mediante os dogmas, rituais e outras formas do Cristianismo. Formulado em sentido inverso, este esoterismo é a totalidade dos símbolos cristãos na medida em que eles expressam ou manifestam a pura metafísica e a espiritualidade una e universal. E isto é independente da questão de saber em que extensão um Orígenes ou um Clemente de Alexandria eram conscientes de tudo que está envolvido aqui; questão de resto supérflua, pois é evidente que, por razões mais ou menos extrínsecas, eles não poderiam ter consciência de todos os aspectos do problema tanto mais que foram largamente solidários da bhakti que determina a perspectiva específica do Cristianismo. Seja como for, é importante não confundir o esoterismo de princípio com o esoterismo de fato, ou uma doutrina virtual, que tem todos os direitos da verdade, com uma doutrina efetiva, que eventualmente pode não viver plenamente a promessa implicada em seu próprio ponto de vista.

Em relação ao legalismo judeu, o Cristianismo é esotérico em razão do fato de que é uma mensagem de interioridade: para o Cristianismo, a virtude interior toma precedência sobre as observâncias externas, ao ponto de abolir estas últimas.
Mas, seu ponto de vista sendo voluntarista, pode ser transcendido por uma nova interioridade, qual seja a da pura intelecção, que reduz as formas particulares a suas essências universais, e substitui o ponto de vista da penitência pelo do conhecimento purificador e libertador. A gnose é de natureza crística no sentido de que, por um lado, ela deriva do Logos – do Intelecto simultaneamente transcendente e imanente – e, de outro lado, ela é uma mensagem de interioridade e, portanto, de interiorização.





[1]
De maneira geral, influências intertradicionais são sempre possíveis em certas condições, mas fora de todo sincretismo. Incontestavelmente o Budismo e o Islã tiveram uma influência sobre o Hinduísmo, não lhe acrescentando novos elementos, bem entendido, mas favorecendo ou determinando a eclosão de elementos pré-existentes.



[2] Em outros termos: encontramos elementos de esoterismo sapiencial no gnosticismo ortodoxo – o qual se prolonga na teosofia de Jacó Boehme e seus continuadores –, depois na mística dionisiana dos renanos, e no Hesicasmo, bem entendido; sem esquecer este elemento parcial de esoterismo metódico que foi o Quietismo de um Molinos, traços do qual se encontram em São Francisco de Sales.

(Extraído de: L’Ésotérisme comme Principe et comme Voie, pp. 29-30 / Esoterism as principle and as Way, pp. 29-31)
Tradução de M.S.A.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A tarefa do educador moderno

A tarefa do educador moderno não é derrubar a selva, mas sim regar desertos.

C.S. Lewis, The Abolition of Man (1943)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O elemento emocional

Continuamos com o tema da educação, desta vez com estas incisivas palavras de Frithjof Schuon.


A emotividade “percebe" e revela os aspectos de um bem ou de um mal que a simples definição lógica não consegue mostrar de forma directa e concreta: são os aspectos existenciais, subjectivos, psicológicos, morais e estéticos, quer da verdade, quer do erro; ou os da virtude e do vício. Imaginemos uma criança que, por simples ignorância e, portanto, por falta de sentido das proporções, profere uma palavra blasfematória; se o pai se enfurece, a criança aprende “existencialmente” algo que não aprenderia se o pai se limitasse a uma dissertação abstracta sobre o carácter blasfematório da dita palavra. A fúria do pai demonstra à criança de modo concreto a extensão da falha, ela torna visível uma dimensão que de outro modo manter-se-ia abstracta e anódina; o mesmo se passa para os casos inversos, mutatis mutandis: a alegria dos pais torna tangível para a criança o valor do seu acto meritório ou da virtude como tal. 

Contra toda a experiência e o bom senso, alguns adeptos da psicanálise – senão todos – consideram que jamais se deve punir uma criança, pois, pensam eles, o castigo os “traumatizaria”; aquilo que esquecem é que uma criança que se deixa traumatizar por um castigo justo – logo proporcional à falha – é já um monstro. A essência de uma criança normal é, sob um determinado aspecto, o respeito aos pais e o instinto do bem; um castigo justo, ao invés de o ferir profundamente, ilumina e liberta-o, projectando-o, para o dizer de alguma forma, na consciência imanente da norma. É certo que existem casos em que os pais se equivocam e, em resultado, a criança é traumatizada, mas a criança normal, ou normalmente virtuosa, não se deixará cair numa amargura vindicativa e estéril, bem pelo contrário: ela retirará a melhor parte da sua experiência, graças à intuição de que toda a adversidade é metafisicamente merecida, pois nenhum homem é perfeito sem adversidades.

Frithjof Schuon - Résumé de métaphysique intégrale (Le courrier du livre, 1985)

Informação

Com esta publicação pretende-se chamar a atenção para duas recentes adições nas nossas referências para fontes na Internet, as quais merecerão, por certo, toda a atenção dos nossos leitores. Aqui ficam: 

Vera Philosophia - Extratos de textos do filósofo Frithjof Schuon, com pequenos comentários

The Matheson Trust – For the Study of Comparative Religion