quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que é Jesus? Ele é o Sermão da Montanha *

 
 
 
Pode-se (...) ler toda a Bíblia, do livro do Gênesis ao Apocalipse de São João, do Cântico dos Cânticos de Salomão e dos Salmos de Davi às cartas de São Paulo, mas não se encontrará algo que supere a sabedoria do Sermão da Montanha. Não parece haver, de fato, em toda a Sagrada Escritura, uma seção que concentre maior número de doutrinas e conselhos espirituais perenes e universais. Boa parte de tudo aquilo que o leitor da Bíblia dela se recorda deriva do Sermão: o Pai-Nosso; as bem-aventuranças; o sal da terra e a luz do mundo; a porta que se abre a quem bate; as “pérolas” que não devem ser lançadas aos profanos; os “tesouros” a serem acumulados no céu; o oferecimento da outra face etc. E o ponto mais formidável de todos: o amor aos inimigos. Não foi à toa que Santo Agostinho chamou o Sermão de “regra perfeita” da vida virtuosa [1].


 
Fonte inesgotável de instruções espirituais e morais, o Sermão é o cerne dos Evangelhos. Vamos mais longe ainda: é a quintessência de todo o Cristianismo. Num poema, Frithjof Schuon pergunta: “What is Jesus?” E responde: “He is the Sermon of the Mount” [2].
 
 
* Excerto do artigo O Sermão da Montanha segundo a filosofia perene (Mateus Soares de Azevedo, Interações, 7 11, pp. 77-86, 2011)
 
[1] Em De Sermone Domini in monte (Edições Santo Tomás, 2003. Tradução de Carlos Nougué).
 
[2] “Que é Jesus? Ele é o Sermão da Montanha.” em: Songs without Names IX (EUA: World Wisdom, 2006).



 
 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Alce Negro e a Rainha Vitória


Alce Negro (1863-1950) foi um lider espiritual dos Oglala Sioux e um homem de medicina. Foi baptizado em 1903 e não encontrou nenhuma contradição entre as suas tradições tribais e o catolicismo tradicional de então.

Alce Negro ditou a sua autobiografia ao poeta John Neihardt em 1930. O resultado foi um dos melhores e mais acessíveis clássicos da espiritualidade dos tempos modernos, que ademais comunica a poderosa mensagem universal e intemporal da sabedoria ameríndia, tal como acontece, por exemplo, com as Cartas do Shaykh Darkawi no caso da mística islâmica ou com os Relatos do Peregrino Russo no caso do cristianismo em geral, e do hesicasmo em particular.

Aqui fica uma pequena passagem deste muito recomendado épico histórico e espiritual, que relata o encontro entre o Alce Negro e a Rainha Vitória durante um dos espectáculos do "Buffalo Bill's Wild West Show" em Inglaterra, no ano de 1887. 

Dançámos e cantámos, e eu era um dos dançarinos escolhidos pela Avó, porque era jovem e ágil e podia dançar de muitas maneiras. Nós estávamos defronte da Avó Inglaterra. Ela era baixa e gorda e nós gostávamos dela porque ela era boa para nós. Depois de dançarmos, ela falou-nos. Disse algo do género: “Tenho 67 anos de idade. Vi todo o tipo de povos por esse mundo; mas hoje vi o povo mais bem-parecido que eu conheço. Se me pertencessem eu não permitiria que vos andassem a exibir desta maneira.” Ela também disse outras coisas boas, e depois disse que teríamos que a visitar, pois ela também tinha vindo visitar-nos. Ela apertou a mão a todos nós. A mão dela era muito pequena e suave.


(…) Meia lua depois fomos ver a Avó. (…) O vestido dela era todo brilhante e o chapéu dela era todo brilhante e a carruagem dela era toda brilhante e também os cavalos. Ela parecia um fogo a vir. Quando ela chegou onde nós estávamos, a carruagem dela parou e ela levantou-se. Então todas aquelas pessoas se levantaram e bradaram e fizeram-lhe vénias; mas ela fez uma vénia a nós. Enviámos um grande grito e as nossas mulheres fizerem o trémulo. As pessoas na multidão estavam tão excitadas que ouvimos dizer que algumas dela ficaram doentes e caíram. Depois, quando ficou calmo, cantámos uma canção à Avó.
Esta foi uma altura muito feliz.

in Black Elk Speaks, The Premier Edition, pp. 177-178 (ver também edição portuguesa)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Palestra na USP: O Islão no Ocidente




O Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), por meio de seu Laboratório de Estudos da Ásia (LEA), promove o encontro “O Islã no Ocidente: História & ideologia nos meios de comunicação”, com palestra do jornalista e escritor Mateus Soares de Azevedo. O evento acontecerá no Auditório do Departamento de História (FFLCH-USP), Av. Lineu Prestes, 338 - Cidade Universitária, São Paulo, em 23 agosto, às 19h30.
  
A ideia da apresentação é oferecer ao público interessado uma panorâmica do desdobramento histórico, religioso, político e cultural da civilização islâmica, especialmente no que diz respeito aos seus contatos com o mundo ocidental e à maneira pela qual os meios de comunicação retratam sua mensagem e seus eventos.

Em síntese, a apresentação terá três movimentos:
1. A mensagem e a práxis islâmica em si
2. As relações históricas do Islã com o Ocidente
3. O tratamento que a imprensa ocidental dá aos eventos e assuntos islâmicos

Sobre o conferencista: Historiador das religiões, islamólogo e jornalista, Mateus Soares de Azevedo nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1959. Cursou o antigo ginásio e o secundário no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e graduou-se em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo. É mestre em História Social das Religiões pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Relações Internacionais pela Universidade George Washington (EUA). Viveu uma temporada na Inglaterra e outra nos Estados Unidos, onde contatou especialistas e realizou pesquisas para seus livros e artigos. Um de seus trabalhos, publicado em inglês como “Men of a Single Book” (World Wisdom, 2010) foi premiado nos Estados Unidos como melhor livro do ano na categoria “Religião Comparada”.  É autor dos seguintes livros: ‘Homens de um Livro só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no pensamento moderno’ (Best Seller, 2008);  ‘A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã, Judaísmo’ (Record, 2006);  ‘Iniciação ao Islã e Sufismo’ (Record, 2001, 4ª ed.);  ‘Mística Islâmica’ (Vozes, 2000, 3ª ed.), entre outros.