sábado, 28 de julho de 2007

Gnose Cristã

Esta publicação é uma tradução de um curto texto de Frithjof Schuon, intitulado "Christian Gnosis", publicado no Sophia - The Journal of Traditional Studies, Vol. 8, Nº. 1 em 2002 e reeditado no livro “The Essencial Sophia”.

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O Cristianismo é “Deus fez-Se o que somos, por forma a nos fazer o que Ele é” (St. Ireneu); é o Céu tornado terra para que a terra se possa tornar Céu.

Cristo recorda no mundo exterior e histórico o que se passou, desde o início dos tempos, no mundo interior da alma. No homem, o Espírito Puro torna-se ego, por forma a que o ego se possa tornar Espírito Puro; o Espírito ou Intelecto (Intellectus, não mens ou ratio) torna-se ego, incarnando-Se na mente na forma de intelecção, ou verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto, unindo-se a ele.

O Cristianismo é, assim, uma doutrina de união ou a doutrina da união: o Princípio une-se com a manifestação, por forma a que a manifestação se possa unir com o Princípio; resultando daqui o simbolismo do amor e a predominância do caminho “bhaktic”. Deus tornou-se homem “devido ao seu grande amor” (St. Ireneu), e o homem deve unir-se a Deus igualmente através do “amor”, seja qual for o significado – volitivo, emotivo ou intelectual – que se lhe atribua. “Deus é Amor”: Deus – como Trindade – é União e deseja União.

E qual é o conteúdo do Espírito ou, dito noutras palavras, qual é a mensagem de Cristo? Pois a mensagem de Cristo é, no nosso microcosmos, o eterno conteúdo do Intelecto. Esta mensagem ou o seu conteúdo é: ama Deus com todas as tuas faculdades e, em função deste amor, ama o teu vizinho como te amas a ti; isto é: une-te – porque “amar” significa essencialmente “união” – com o Intelecto e, em resultado (ou como condição) dessa união, abandona todo o egocentrismo e discerne o Intelecto, O Espírito, o Ser Divino, em todas as coisas. “Saibam que todas as vezes que fizeram isso a um destes meus irmãos, foi a Mim que o fizeram.”

Esta mensagem – ou esta verdade inata – do Espírito prefigura a cruz, porque também aí existem duas dimensões, uma “vertical” e outra “horizontal”, nomeadamente o amor a Deus e o amor ao outro, ou União com o Espírito e união com o ambiente que nos rodeia, entendido como a manifestação do Espírito. De um ponto de vista algo diferente, estas duas dimensões são representadas respectivamente por Conhecimento e Amor: “conhece-se” Deus e “ama-se” o outro, ou ainda: amamos Deus conhecendo-O e amamos o outro amando-o.

Mas a mensagem mais profunda de Cristo, ou a verdade conatural com o Intelecto, é a de que a manifestação não é mais do que o Princípio; esta é a mensagem do Princípio para a manifestação.

Na prática, a grande questão é saber como é que nos podemos unir com o Logos ou o Intelecto. O principal meio é a “oração” [ver post Sobre a Oração (...)], cuja quinta-essência é objectivamente o Nome de Deus e subjectivamente a concentração, logo a obrigação de invocar Deus com fervor. Mas esta “oração”, esta união de todo o ser com o seu princípio ou origem divina, continuará ilusória sem a união com a totalidade, o “outro” universal, ao qual pertencemos como um fragmento; a cisão entre o homem e Deus não pode ser abolida sem a cisão entre o “eu” e o “outro” ser também abolida; não podemos reconhecer que Deus está em nós sem ver que Ele está também nos outros e de que forma Ele está neles. A Manifestação deverá unir-se com o Princípio e – no plano da manifestação e em função desta união “vertical” – a parte deverá unir-se com o todo.

Interiormente, se desejarmos compreender que a alma inteligente é “essencialmente” – não na sua acidentalidade – Intelecto ou Espírito, devemos igualmente compreender que o ego, incluindo o corpo, é “essencialmente” a manifestação do Intelecto ou o Ser [sobre o "Ser" ver nota de rodapé no post Tradição e Modernidade]. Se desejarmos compreender que “o mundo é falso, Brahma é verdade”, devemos igualmente compreender que “todas as coisas são Ātmā.” Este é o significado mais profundo de amor ao próximo.

O sofrimento de Cristo é o sofrimento do Intelecto no seio das paixões. A coroa de espinhos é o individualismo, ou “orgulho”; a cruz é o esquecimento ou a rejeição do Espírito e, com ele, da Verdade. A Virgem é a alma em submissão ao Espírito e unida a ele.

A própria forma dos ensinamentos de Cristo é explicada pelo facto de Cristo dirigir a sua mensagem a todos os homens, do primeiro ao último; Ele não poderia dar à sua mensagem um modo de expressão que fosse ininteligível para algumas inteligências, e ineficiente ou mesmo prejudicial para alguns. Shankara pôde ensinar gnose pura porque não se dirigia a todos, podendo-o fazer porque na tradição Hindu já existia e incluía a priori vias espirituais adaptadas a inteligências modestas e temperamentos passionais. Mas Cristo, como fundador de um universo espiritual e social, tinha a necessidade de se dirigir a todos.

Se é errado censurar Cristo por não ter ensinado explicitamente gnose pura – o que na realidade ensinou pela sua própria vinda e pela sua pessoa, gestos e milagres – é igualmente errado negar o significado gnóstico da sua mensagem e, assim, negar a contemplativos intelectivos – os quais se centram na verdade metafísica e pura contemplação, ou na pura e directa Inteligência – todo o direito a existirem e a lhes oferecer uma via espiritual em conformidade com a sua natureza e vocação. Isto é contrário à parábola dos talentos e ao ditado “em casa de meu Pai existem muitas moradas”.

A totalidade do Cristianismo é expressa na doutrina da Trindade, e esta representa essencialmente uma perspectiva de união; ela revela uma união in divinis: Deus prefigura na Sua própria natureza as relações entre Ele e o mundo, relações que apenas são “externas” de uma forma ilusória.

“A Luz brilha na escuridão e a escuridão não o compreende”: a verdade destas palavras foi manifestada – e ainda é manifestada – no Cristianismo, pela incompreensão e rejeição da gnose. E isto explica, em parte, o destino do mundo Ocidental.

2 comentários:

  1. Miguel,
    Este texto do Schuon é, a par com as demais publicações do autor, espectacular e evidência, entre outras coisas, a incompreensão da gnose no seio da corrente religiosa mais influente no mundo ocidental.
    Muitos outros assuntos, e talvez bem mais interessantes, haveria para sublinhar e desenvolver na sequência deste curto texto mas vou arriscar uma abordagem mais polémica que espero poder despoletar alguma discussão.
    Na ausência da valentia que exigiria abordar o tema que proponho despertar com palavras próprias, optei por me escudar em dois autores tradicionalistas: Martin Lings e Rama P. Coomaraswamy.
    O primeiro, recentemente falecido, apresentou no 2.º apêndice do seu livro “Ancient Beliefs and Modern Superstitions” um resumo de um outro livro da autoria de Rama P. Coomaraswamy e que se intitula “The destruction of the Christian Tradition” (Sophia Perenis, 1981). Neste último, expõe-se várias informações e factos sobre a deploração e o empobrecimento que assolou a Catolicismo Romano desde o Concílio do Vaticano II. Para além dos aspectos específicos da obra, que saem fora do objectivo do meu comentário, gostaria de salientar a demonstração da imiscibilidade entre os padrões de pensamento tradicionalista e “modernista” que fica patente neste resumo...

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    The destruction of the Christian Tradition [A destruição da Tradição Cristã] (…) constitui um brilhante registo escrito, completamente documentado, sobre o que aconteceu imediatamente antes, durante e após o Concílio do Vaticano II. O autor [Rama P. Coomaraswamy] é insuspeito relativamente ao que é ortodoxo ou herético e para além de, no conjunto, ser claro e directo, aborda o assunto de forma simples tomando por base as decisões dos concílios anteriores e os pareceres das maiores autoridades da Igreja ao longo dos séculos. Aquilo que o autor [Rama P. Coomaraswamy] escreve é suficiente por si só e não necessita de adendas. Contudo, tomando uma perspectiva ligeiramente diferente, no sentido de ir ao encontro dos “modernistas” e do seu padrão de pensamento próprio (…), [Martin Lings] acrescenta ainda os seguintes comentários:

    Os responsáveis pelas alterações acima mencionadas argumentaram que a religião necessitava de se adaptar ao evoluir dos tempos. Sobre isto, importa contestar o seguinte: Não se a adaptação implicar [que a religião passe a] deixar de ser o que é para se tornar cúmplice da época a que se pretende adaptar. A adaptação verdadeira é diferente: a medicina, por exemplo, para se adaptar a uma dada época, tem que ser capaz de fornecer antídotos para as doenças que vão prevalecendo. Analogamente, não é descabido suster que, no processo de adaptação a uma época caracterizada por mudanças drásticas e por inquietude turbulenta, a religião deveria mais do que nunca estar pronta a demonstrar firmemente uma estabilidade inabalável sem a qual, já que é veículo da Verdade Eterna, nunca poderá ser fiel a si mesma. Não existe dúvida alguma que a vida da alma humana sente a necessidade profunda de algo que se mantenha constante e esta tem o direito de esperar que a religião seja a constância infalível que satisfaz essa necessidade.

    Considerações [como a de que a igreja necessita de se adaptar aos tempos] (...) foram lançadas aos ventos pelo Concílio do Vaticano II. Portanto, não é surpreendente que se precipitasse uma crise sem paralelo, cuja gravidade pode, de certa forma, ser quantificada pelas seguintes estatísticas. Entre 1914 e 1963, a Igreja Católica recebeu apenas 810 pedidos de padres a solicitar renúncia, de entre os quais apenas 355 foram aceites. Durante os 15 anos que se seguiram ao concílio verificaram-se mais de 32 000 deserções do sacerdócio. Estes factos devem ser tidos em consideração quer por parte dos culpados da crise gerada, quer por parte das vítimas dessa mesma crise; e, no que se refere às vítimas (que abrangem clero e laicidade), é significativo que a liturgia tradicional tenha sido desencorajada e, para além disso, expressamente proibida. Esta estratégia deveria falhar por completo, não fosse o facto da maioria dos homens leigos – onde se pode incluir, até certo ponto, parte do clero – se encontrarem sob a ilusão de que devem obediência absoluta à hierarquia eclesiástica.

    Um dos grandes méritos deste livro de Rama Coomaraswamy é o de demonstrar com clareza, partindo dos próprios pressupostos da doutrina Católica estrita, até que ponto a obediência se torna um pecado e também até que ponto a autoridade, mesmo a do Papa, se torna nula e vazia.

    ***

    Assim, nesta “época caracterizada por mudanças drásticas e por inquietude turbulenta” (conforme diz Lings), parecem sobressair dois padrões de pensamento distintos e imiscíveis e que, conforme diz Schuon,poderão explicar em parte o destino do mundo Ocidental:

    - O que pode reavivar o conteúdo gnóstico da corrente religiosa mais importante na formação do mundo ocidental como o conhecemos;

    - O que se manisfesta orgulhosamente como profundamente agnóstico, sem sequer conhecer a gnose a que se opõe...

    Abraço
    Nuno

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  2. A igreja cristã renascerá doravante com todo vigor...
    -Shalom Adonai!!!

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