quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Compreender a palavra “Tradição”

Este curto texto de Ali Lakhani dedicado ao significado da palavra “Tradição”, tal como entendida pelos perenialistas ou tradicionalistas, foi publicado como editorial do nono número da publicação periódica Sacred Web. A tradução deste texto constitui, assim, mais uma contribuição para o objectivo de dar a conhecer o pensamento destes autores, dedicados ao estudo das doutrinas Tradicionais e da Sophia Perennis.

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A Tradição nada tem a haver com quaisquer “idades”, sejam “negras”,
“primitivas”, ou quaisquer outras. A Tradição representa a doutrina
dos princípios primeiros, os quais são inalteráveis.
Ananda K. Coomaraswamy, Correspondência, 1946


…não existe nem pode existir nada verdadeiramente tradicional que não
contenha em si algum elemento de ordem sobre-humana. Este é, de facto, o ponto essencial, contendo em si a própria definição de tradição
e de tudo o que lhe está relacionado.
René Guénon, O reino da quantidade e os sinais dos tempos


Os termos “tradicional” e “moderno” sugerem uma distinção entre o antigo e o novo, o fixo e o em alteração, o venerado caminho do passado e o progressivo caminho do futuro. A polaridade subjacente que reflecte está fundada na estrutura metafísica da realidade, na arquitectura da Absoluta inviolabilidade da Substância e da Infinita possibilidade da Forma. Esta polaridade subjacente é expressa na dialéctica da Necessidade e Liberdade. A Necessidade é o principio organizador da disposição, da projecção e reintegração: tudo o que existe reside e emerge a partir de uma mesma realidade, cuja Substância transcendental é simultaneamente a sua Origem e o seu Fim, o critério de toda a objectividade. A Liberdade é o princípio criativo desta disposição, expressando-se numa infinita variedade de modos e modalidades da Forma e no imanente potencial da nossa própria subjectividade pessoal.

Os termos “Tradição” e “Modernidade”, tal como usados por tradicionalistas como Seyyed Hossein Nasr, não são derivativos da diferenciação convencional entre os termos “tradicional” e “moderno”, apesar do uso particular que eles dão a estes termos tenha como premissa a estrutura metafísica descrita atrás. Isto pode ser confuso. Para Nasr, “Modernidade” é “aquilo que está separado do Transcendente, dos princípios imutáveis que, na realidade, governam todas as coisas e que são dadas a conhecer ao homem através da revelação no seu sentido mais universal”, enquanto que “Tradição”, por contraste, designa esses mesmos princípios imutáveis, a sophia perennis ou sabedoria primordial, as quais estão fundadas no Transcendente. De acordo com esta definição, Modernidade não é necessariamente um sinónimo de contemporâneo (ou focado no futuro), nem Tradição é sinónimo de continuidade história (ou focado no passado). Tradição é, neste sentido, metahistórica: a sua única relação com o passado reside na ligação de uma particular tradição religiosa à sua fonte original, ou seja, à revelação que a autentica, a escritura que a fundou e as suas formas de adoração, transmitidas através do ambiente protector de uma tradição particular. Mas esta relação entre uma tradição particular e as suas origens históricas é, de certa forma, acidental. A relação entre Tradição e Revelação transcende a história. A Revelação, “no seu sentido mais universal”, não é um acontecimento histórico: está baseada no eterno presente e é contínua. A sua autenticação não pode ser reduzida à nossa capacidade para a colocar em qualquer momento da história, mas sim, garantida pela sua capacidade de ressoar como verdade no interior do santuário do Coração, cuja faculdade de discernimento é o supra-racional Intelecto.

O Conhecimento é, assim, uma ressonância da Substância espiritual que pertence ao todo da criação, e cuja presença ressoa no interior do Coração puro. O Conhecimento não é uma mera forma de taxidermia intelectual, mas sim um caminho para habitar a própria criatura. É ser humano na sua totalidade.

Em linguagem corrente, os termos “tradicional” e “moderno” sugerem duas atitude distintas para com a mudança, o primeiro resistindo-lhe, e o último aceitando-a. Mas a “Tradição”, no sentido de sabedoria primordial, não é necessariamente resistente à mudança. A imagem de Shiva Nataraja personifica, quer a ideia de quietude (o fixo, ou o ser), quer a de movimento (em mudança, ou vir a ser). A “Tradição” é uma combinação de ambos estes elementos. É ao mesmo tempo um Equilíbrio estático e uma Atracção dinâmica, o realismo clássico da transcendência e o idealismo romântico da imanência. O homem é simultaneamente um escravo da mudança (estando sujeito aos processos do tempo) e o seu mestre (estando equipado para a transcender espiritualmente). A busca da salvação é, num determinado nível, uma busca pela paz, enquanto que noutro, uma busca da criatividade e frescura, a libertação da petrificação. O termo “tradicional” pode ter uma implicação pejorativa de excessiva rigidez e formalismo, enquanto que o termo “moderno”, pode querer significar aquilo que é excessivamente individualista ou sem princípios. Nestes sentidos, quer o tradicional quer o moderno são opostos à “Tradição”, a qual reconhece a mútua interdependência dos princípios organizadores e criativos da realidade. Quando a criatividade deixa de se conformar às hierarquias inerentes a um universo ordenado espiritualmente, a volição torna-se satânica e profana a Liberdade. E quando as exigências de conformidade reprimem a expressão genuinamente espiritual, o intelecto torna-se tirânico e profana a Necessidade. A “Tradição” reconhece que a Necessidade (o discernimento intelectual que a expressão criativa tem necessariamente um princípio organizador) e a Liberdade (a transcendência da expressão criativa em conformidade com esse princípio organizador) estão interligados, e que o discernimento intelectual tem implicações morais. O “ethos” humano é assim uma dimensão da estrutura sagrada da realidade.

A “Modernidade”, no sentido considerado pelos tradicionalistas, indica uma tendência para uma “rigidez” moral e intelectualidade “opaca”. Quando a realidade deixa de ser apreendida como metafisicamente “transparente para a transcendência”, não existe nenhuma realidade espiritual apreendida que possa ressoar na alma humana, nada que “derreta” o coração em submissão por compaixão, a verdadeira e serena Liberdade, cuja vil falsificação é uma alma aprisionada pelas paixões, cedendo às gratificações momentâneas de auto-indulgência, antes que os seus insaciáveis apetites sejam desviados para uma nova sedução.

É neste sentido que “Tradição” e “Modernidade” são colocados em oposição. O tradicionalista não é necessariamente oposto ao “moderno” como convencionalmente entendido, apenas à “Modernidade”, entendida como o inverso de “Tradição”, no sentido particular definido anteriormente. Um tradicionalista pode ser “moderno” no modo de vestir, na linguagem, nos confortos modernos ou tecnologias e, ainda assim, necessariamente oposto à “Modernidade”, no sentido da sua negação do transcendente ou do sentido do sagrado. Da mesma forma, nem tudo o que parece “tradicional” está de acordo com a “Tradição”. Por exemplo, o fundamentalismo, apesar de poder surgir revestido de uma roupagem tradicional e usar uma linguagem tradicional, é a própria antítese da “Tradição”, a qual recusa a redução fundamentalista do espírito à palavra, bem como o seu excessivo formalismo e exclusivismo. “Pelos seus frutos conhecê-los-emos”, não pela sua aparência.

As palavras e os rótulos, em ultima análise, tendem a ocultar a realidade, abstraindo-a. Na melhor das hipóteses agem como símbolos, inspirando o significado que reside adormecido no nosso interior. “Tradição” e “Modernidade” são, finalmente, aspectos de nós próprios: “Duo sunt in homine”, ensinado por S. Aquino, um ensinamento que ressoa através do discurso tradicionalista e no interior de cada alma humana. Existe, no fim, um elemento em cada alma que terá de ser conquistado para um bem maior. A “Tradição” convida cada um de nós a cumprir o nosso total potencial humano, a compreender o mundo exterior com o olho interior, com compaixão, e a nos conformarmos com a vontade do intelecto e, dessa forma, ultrapassar as tendências do nosso ser Prometeico, integrando a Verdade, a Bondade e a Beleza nas nossas vidas, por forma a alcançar a Vida Eterna.

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