sábado, 11 de agosto de 2007

Religio Perennis

Esta publicação é uma tradução de um texto de Frithjof Schuon, intitulado "Religio Perennis", uma das várias designações que o autor atribuía à Sophia Perennis, publicado no seu livro “Light on the Ancient Worlds”.

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Uma das chaves para a compreensão da nossa verdadeira natureza ou destino último é o facto de que as coisas deste mundo nunca são proporcionais ao real alcance da nossa inteligência. A nossa inteligência existe para o Absoluto, caso contrário não seria nada; de todas as inteligências deste mundo, apenas o espírito humano está capacitado para a objectividade, o que implica – ou prova – que apenas o Absoluto confere à nossa inteligência o poder para alcançar em pleno tudo o que pode e ser a totalidade do que é [1]. Se fosse útil ou necessário comprovar o Absoluto, o carácter objectivo e transpessoal do Intelecto humano seria testemunho suficiente, pois este Intelecto é o sinal incontestável de uma primeira Causa puramente espiritual, uma Unidade infinitamente central mas contendo a totalidade das coisas, uma Essência simultaneamente imanente e transcendente. Já foi dito mais do que uma vez que a Verdade total está inscrita num eterno guião na própria substância do nosso espírito; aquilo que as diferentes Revelações fazem é “cristalizar” ou “actualizar”, em diferentes graus e de acordo com cada caso específico, um conjunto de certezas que, não só permanecem para sempre na divina Omnisciência, mas também repousam, por refracção, no “naturalmente sobrenatural” núcleo da individualidade, tal como em cada uma das colectividades étnicas ou históricas, ou na espécie humana como um todo.

Da mesma forma, no caso da vontade, a qual não é mais do que o prolongamento ou complemento da inteligência, os objectivos que normalmente procura atingir, ou aqueles que a vida lhe impõe, não reclamam todo o seu alcance. Apenas a “dimensão divina” pode satisfazer a sede de plenitude na nossa vontade ou no nosso amor. O que torna a nossa vontade humana e, por essa razão, livre, é o facto de que esta é proporcional a Deus; apenas em Deus ela é mantida livre de todas as restrições, de tudo o que limita a sua natureza.

A função essencial da inteligência humana é o discernimento entre o Real e o ilusório ou entre o Permanente e o impermanente, e a função essencial da vontade é a ligação ao Permanente ou ao Real. Este discernimento e esta ligação são a quintessência de toda a espiritualidade; considerados ao seu nível mais elevado ou reduzidos à sua mais pura substância, constituem a universalidade subjacente a cada um dos grandes patrimónios espirituais da humanidade, ou o que pode ser designado por religio perennis [2]; esta é a religião a que os sábios aderem, a que é sempre e necessariamente fundada nos elementos formais da instituição divina [3].

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O discernimento metafísico é uma “separação” entre Âtmâ e Mâyâ; a concentração contemplativa ou consciência unificadora é, pelo contrário, uma união de Mâyâ e Âtmâ. O discernimento é separativo [4], em relação ao qual se refere a “doutrina”; a concentração é unitiva, em relação à qual se refere o “método”; a “fé” está relacionada com o primeiro elemento, enquanto que o “amor a Deus” se relaciona com o segundo.

Parafraseando o conhecido dito de Santo Ireneu, a religio perennis é fundamentalmente o seguinte: o Real entrou no ilusório de modo a que o ilusório possa regressar ao Real. É este mistério, em conjunto com o discernimento metafísico e a concentração contemplativa que são o seu complemento, o mais importante do ponto de vista da gnose; para os gnósticos – no sentido etimológico e correcto da palavra – em última análise, não existe qualquer outra “religião”. É ao que Ibn Arabi chamou a “religião do Amor”, colocando o ênfase no elemento de “realização”.

A dupla definição de religio perennis – discernimento entre o Real e o ilusório e uma unificadora e permanente concentração no real – implica, adicionalmente, o critério de ortodoxia intrínseca para todas as religiões e espiritualidades; uma religião, por forma a ser ortodoxa, terá de possuir uma mitologia ou simbolismo doutrinal que estabeleça a distinção essencial analisada, providenciando um caminho que garanta, quer a perfeição da concentração, quer a sua continuidade; por outras palavras, uma religião é ortodoxa se providencia a suficiente, senão exaustiva, ideia do absoluto e do relativo e, assim, da suas relações recíprocas, e uma actividade espiritual que é, por natureza, contemplativa e efectiva no que respeita o nosso destino último. De facto, é evidente que as heterodoxias tendem sempre a adulterar ou a ideia do Principio divino ou a forma como nos ligamos a ele; elas oferecem uma mundana e profana, ou – se preferirmos – “humanista” imitação de religião ou de um misticismo que não contém mais do que o ego e as suas ilusões.

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Pode parecer desproporcional tratar de uma forma simples e, de certa forma, esquemática, um assunto tão complexo como as perspectivas espirituais mas, uma vez que a própria natureza das coisas nos permite considerar o aspecto da simplicidade, a verdade não seria melhor servida seguindo os meandros de uma complexidade não requerida neste caso. A capacidade de análise é uma função da inteligência e a de síntese outra; a corrente associação da inteligência com a dificuldade e da facilidade com a presunção, não tem, obviamente, qualquer relação com a verdadeira natureza do Intelecto. O mesmo acontece com a visão intelectual e a visão óptica: existem coisas que devem ser examinadas em detalhe por forma a serem compreendidas e outras que são melhor observadas a uma certa distância e que, parecendo simples, revelam desta forma, a sua verdadeira natureza. A Verdade pode expandir e diferenciar-se indefinidamente, mas está também contida num “ponto geométrico”; compreender este ponto é tudo, seja qual for o símbolo – ou simbolismo – que provoque a intelecção.

A Verdade é una, e seria inútil recusar procurá-la excepto num local específico, pois o Intelecto contem na sua substância tudo o que é verdadeiro, e a verdade não pode ser manifestada a não ser onde o Intelecto seja utilizado na atmosfera de uma Revelação. O espaço pode ser representado por um circulo, mas também por uma cruz, uma espiral, uma estrela ou um quadrado; e tal como é impossível a existência de uma só figura para representar a natureza do espaço ou extensão, o mesmo se verifica em relação à existência de uma só doutrina para descrever o Absoluto; por outras palavras, acreditar que existe apenas uma verdadeira doutrina é semelhante ao negar a pluralidade das figuras geométricas usadas para indicar as características do espaço ou – escolhendo um exemplo diferente – a pluralidade da consciência individual e de pontos de vista visuais.

Em cada Revelação, Deus diz “Eu”, enquanto Se coloca extrinsecamente num ponto de vista diferente de outras Revelações anteriores surgindo, assim, uma contradição no plano de cristalização formal.

Pode ser feita a objecção de que as várias figuras geométricas não são rigorosamente equivalentes na sua capacidade de servir como correspondências entre o simbolismo gráfico e a extensão espacial e, assim, que a comparação apresentada pode, de igual forma, ser utilizada como um argumento contra a equivalência das perspectivas tradicionais; em relação a isto respondemos que não se pretende que as perspectivas tradicionais sejam correspondências absolutas – pelo menos a priori – com os caminhos de salvação e meios de libertação. Adicionalmente, apesar do círculo – para não mencionar o ponto – constituir uma adequação mais directa da forma ao espaço do que a cruz ou qualquer uma das restantes figuras e, dessa forma, reflectir de uma forma mais perfeita a natureza da extensão, temos que considerar o seguinte: a cruz, o quadrado ou a espiral, expressam explicitamente uma realidade espacial que o círculo ou o ponto expressam apenas implicitamente; as figuras diferenciadas são assim insubstituíveis – doutra forma não existiriam – e não são, de forma alguma, diferentes tipos de círculos imperfeitos; a cruz, por exemplo, é infinitamente mais próxima da perfeição do ponto ou do círculo do que a forma oval ou trapezoidal. Considerações análogas são aplicáveis às doutrinas tradicionais no que respeita às suas diferentes formas e méritos.
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[1] “O céu e a terra não Me (Allah) podem conter, mas o coração do Meu fiel servo contem-Me” (hadîth qudsî). Da mesma forma diz Dante: “Eu entendo que o nosso intelecto nunca esteja satisfeito se a verdade não o ilumina, para além do qual nenhuma verdade é possível” (Paraíso 4:124-26).

[2] Estas palavras relembram a philosophia perennis de Steuchus Eugubin (séc. 16) e os neo-escolásticos; mas a palavra philosophia sugere correctamente ou erradamente uma elaboração mental e não sabedoria e, por essa forma, não traduz exactamente o sentido pretendido. Religio é o que “liga” o homem ao Céu e congrega todo o seu ser; em relação á palavra traditio, esta está relacionada com uma realidade mais exterior e por vezes fragmentada, para além de sugerir uma visão retrospectiva; uma religião recém formada “liga” o homem ao Céu a partir do momento da primeira revelação, mas apenas se torna uma “tradição” – ou tem “tradições” – após duas ou três gerações.

[3] Isto é verdade mesmo no caso dos sábios Árabes pré-Islâmicos, os quais viviam a sua espiritualidade na herança de Abraão e Ismael.

[4] Este é o significado da palavra Árabe “furqân”, nomeadamente, “diferenciação qualitativa”, derivada de “faraqa”, separar, discernir, bifurcar; é sabido que “Furqân” é um dos nomes para o Alcorão.


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