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domingo, 8 de julho de 2012

Fulgores de Fátima

por Pedro Sinde


Depois de uma primeira colaboração com o texto “O botão da perplexidade no caminho da flor”, o Pedro Sinde presenteou-nos com o primeiro de um conjunto de ensaios que pretende escrever em torno das aparições de Fátima. 

Gratos, partilhamos de seguida um trecho do texto que poderá ser lido na íntegra aqui.



Fulgores de Fátima, I

O escapulário e o rosário: duas armas para a ‘grande guerra santa’


Para J.-C. P.

As palavras que se seguirão procurarão reflectir sobre alguns aspectos, eventualmente menos notados, das aparições de Fátima. Estes textos não têm nenhuma ordem explícita, são apenas reflexões que procuram olhar para o tema das aparições a partir de diferentes ângulos, de modo a ir extraindo vários aspectos que nem sempre aparecem explicitamente; trata-se, afinal, de uma das grandes manifestações dos céus: as primeiras aparições do século XX e as maiores de que se tem conhecimento.

O leitor achará natural a referência ao rosário no título de um texto sobre as aparições de Fátima, no entanto, poderá espantar-se por aí se fazer referência explícita ao escapulário. Há várias razões importantes para isso, mas seria suficiente dizer que a Senhora do Carmo foi a última forma de que a Virgem se revestiu, na derradeira aparição, a 13 de Outubro de 1917, com o escapulário no braço direito; de resto, a importância atribuída ao escapulário foi reconhecida por Lúcia ao afirmar (bem antes de 1960) que o escapulário “é parte integrante da mensagem de Fátima” e ainda que “o Escapulário e o Rosário são inseparáveis” (Kyliano Lynch, Nossa Senhora de Fátima e o Escapulário). Podemos ainda lembrar estes dois elementos: por um lado, a veneração da Senhora do Carmo em Fátima é muito antiga e, por outro, a própria Lúcia acabou por entrar no Carmelo.
Nesta última aparição, a Virgem mostrou-se sucessivamente sob três aspectos: primeiro como Senhora do Rosário, depois como Senhora das Dores e, finalmente, como Senhora do Carmo, isto é, mostrou, de forma eloquente, três aspectos ou etapas vitais de qualquer caminho espiritual. Podemos dizer, entre outras coisas, que para chegarmos à paz do Carmelo, ao jardim da Virgem, ao Paraíso na Terra, começamos pelo fervor da crença (ou do conhecimento), representado no rosário, e que, com a sua ‘luz’ e com o seu ‘calor’, vai fixar o volátil e dissolver o fixo: por um lado, vai fixar a mente dispersa (agora cativada pela luz do rosário) e, por outro, vai dissolver a ‘dureza do coração’, os aspectos da alma que estão ‘endurecidos’, a insensibilidade, quer dizer, vai despertar a alma, retirando-a do sono e da passividade – ou do esquecimento – em que vive, introduzindo no seu dia-a-dia estes momentos de graça, de meditação, de oração, de invocação. Para a alma decaída, a transformação é, naturalmente, dolorosa.

domingo, 1 de julho de 2012

Relação mestre-discípulo – no Ocidente!



Aquele que instrui um candidato para a Dança do Sol é o tunkansila. Isto significa que é mais do que um avô. O candidato passa a ser como um recém-nascido. O seu instrutor dirige-o em tudo. Ele não deve fazer mais do que aquilo que o seu instrutor lhe diz. O instrutor pensa e fala por ele, e diz-lhe como pensar e falar. O instrutor estabelece as regras e o candidato deve obedecê-las com precisão. O instrutor torna-se o outro eu do candidato. 

- George Sword, Teton Sioux


domingo, 15 de janeiro de 2012

O teu centro está em toda a parte

Após um período de menor actividade do Sabedoria Perene, é nosso desejo que ele regresse com um novo ímpeto e que possa continuar a ser uma refrescante fonte para aqueles que buscam uma luz num mundo cada vez mais envolto em espessas e escuras nuvens. Fazemos coincidir este regresso com outro, o do retorno ao trabalho na Revista Sabedoria Perene. O próximo número já tem o tema escolhido: a Educação; tema que por certo será do interesse dos nossos leitores. Regressaremos a este assunto numa outra ocasião.

De momento, para celebrar o início do que se pretende ser um novo ciclo de trabalho, deixo-vos um maravilhoso excerto de um livro de Mark PerryOn Awakening and Remembering, ao qual regressaremos noutras ocasiões, onde este conceito de ‘ciclicidade’ é magistralmente tratado. Mas é sobretudo pela abordagem do Centro que partilhamos as seguintes palavras.




TUDO NA CRIAÇÃO GIRA EM TORNO DE UM CENTRO, isto pelo simples facto de que todas as coisas têm uma origem à qual não podem escapar. E esta origem é também o seu fim pois, à imagem das árvores, todas as criaturas têm raízes, mesmo que invisíveis; assim, uma criatura só se pode desviar em relação à sua base. Por muito que as aparências nos indiquem o contrário, uma trajectória em linha recta apenas é conspícua quando a sua origem e fim são velados, esquecidos ou rejeitados. A fuga em frente dos seres e dos eventos parece sugerir uma trajectória linear lançada ao longo de um eixo em constante retrocesso. Estas sucessões de existências, aparentemente livres de convergir ou divergir de outras existências paralelas, surgem como que arremessadas ao longo de linhas cujo fim é completamente estranho à sua origem, o que causa a impressão de ser a linha e não o círculo o princípio operativo da manifestação. Esta ilusão de perspectiva é ainda mais reforçada pela nossa cultura moderna que obriga as pessoas a se adaptarem a uma constante mudança. Vivemos tempos de estonteante obsolescência, tempos em que a excitação pela novidade mascara a destruição da tradição, o frenesi da mudança trivializa a realização, a fatuidade do progresso deprecia o valor do património. O que a história e a cultura poderão ganhar com um apelo nostálgico face a este desprezo, nunca o poderão recuperar realmente em prestígio intelectual. O que caracterizava a primeira era da humanidade, a Krita Yuga das escrituras sagradas hindus, era a noção de Centro e o mito do Eterno Retorno, altura em que governava a ideia de repetição – e não de mudança – em torno de um princípio perene. Tal deve-se, em parte, ao facto dessa primeira era estar tão próxima da origem que praticamente se identificava integralmente com ela. No entanto, através de um movimento de expansão, semelhante a uma espiral sempre crescente, a humanidade cresce/cai da sua origem divina e, sem ser capaz de escapar a esse movimento em torno do centro, continua a afastar-se cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ganhar velocidade. 

Se podemos caracterizar o homem antigo como estático, em conformidade com uma visão da existência centrada no espaço e não no tempo, podemos então caracterizar o homem moderno, o homem do Kali Yuga, como dinâmico, em conformidade com uma visão da existência centrada no tempo e na mudança e, consequentemente, na destruição. A preservação da tradição era o valor essencial do homem antigo que, através dos ritos sazonais celebrados, mantinha sempre presente a ideia de renovar e garantir a ligação com o centro original. Mas para uma civilização viciada no progresso, que avança com base no pressuposto da prévia ignorância humana, quando não no da inferioridade, romper com o molde “embrutecedor” da tradição torna-se imperativo. O que é esquecido é que – voltando à imagem da espiral – a tendência é para girar cada vez mais distante, até que tudo gire fora de controlo; isto é cada vez mais evidente na medida em que vivemos num mundo onde a velocidade tem acelerado em proporção directa com a supressão e transformação do passado. Este facto, apesar da excitante atracção que provoca, é inerentemente aberrante e destabilizador; o homem não pode viver num ritmo cada vez mais frenético sem se alienar de si próprio. Por outro lado, não deixa de ser uma componente necessária de um ciclo, que não pode terminar de outra forma que não em desintegração. Esta constatação não se trata de pessimismo, mas sim de realismo cosmológico.

Se o ponto de vista do homem fosse suficientemente elevado, ele libertar-se-ia da ilusão de linearidade, recordaria as origens e preveria as conclusões; ele compreenderia as consequências. De todo o modo, os exemplos do princípio circular abundam, seja na doutrina hindu dos ciclos milenares (manvantaras), a qual os quais já mencionámos, ou nos periodos dos Estóicos, seja no carrossel das estações ou nas ondas concêntricas num lago provocadas por uma gota de água, nas órbitas das grandes galáxias ou nos círculos dos falcões, nos ciclos dos dias e dos anos, nada se exclui a esta lei cuja benevolente imanência – a força que move o sol e as restantes luminárias, segundo Dante – salva a cada instante a manifestação de se desintegrar no nada que está continuamente a sugá-la. O círculo é o dharma perfeito, e o dharma perfeito é a verdade.

O princípio dinâmico do círculo, celebrado pelas rondas das danças de todas as culturas “primitivas”, possui o seu equivalente estático no princípio da esfera, cuja redondeza é para a forma o que a circularidade é para o movimento. O nosso globo terrestre é uma esfera que pertence, por sua vez, a uma galáxia que espirala em torno – e em afastamento – de um centro invisível do qual é a projecção esférica.

De uma relevância ainda mais imediata, é o facto de o homem estar colocado sob a abóbada celeste e poder contemplar, a partir de todo e qualquer ponto, o mesmo nascer e pôr-do-sol, os infindáveis ciclos da lua, e a ronda processional das constelações estelares. Ele testemunha o eterno retorno das estações ao mesmo tempo que sente, na sua própria carne, a herança destes ciclos com a passagem da juventude à maturidade, passagem essa que marca as etapas processionais da sua estadia mortal, na qual os extremos se tocam, pois a idade avançada pode ser, em termos espirituais, uma segunda juventude. Não será então verdade que tudo o que o homem vê e tudo o que ele experiencia segue, fundamentalmente, ritmos perenes e imutáveis? E falar de ritmo é falar de repetição. E o que é a repetição senão retorno e circularidade?

Esta evidência é plena de significado, pudesse o homem simplesmente parar e ponderar as suas implicações. Observar que a Realidade pode ser compreendida geometricamente como um círculo, ou uma esfera, prova, para mais, a bondade da substância universal pois, como reconheceu Platão, a redondeza é a forma concreta do bem, do agradável e do amável. O desespero não usurpa a serenidade daquele que compreende isto no seu coração. 

Também a magnificente migração anual de diversas criaturas testemunha o pulsar de um grandioso ser que permeia o majestoso silêncio da natureza. O colibri, a borboleta monarca, o salmão, que regressam aos seus locais de acasalamento ou desova, não precisam de “sistemas de radar”, pois são os emissários de centros/corações: viajam com o fluxo e o refluxo, a projecção e o retorno desses centros dos quais as suas viagens traçam as configurações das artérias que se dispõem através de raios invisíveis mas intrinsecamente vivos. Para o contemplativo, o respirar e o pulsar do Céu está onde murmure uma brisa em ramos frondosos, salpique a água em riachos serpenteantes ou onde um grilo cante. E o centro divino está sempre onde se eleva uma montanha, no desabrochar de uma flor e no sorriso de uma donzela. E ele está sobretudo onde se encontra um homem em oração.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Caminho para o Coração*

Esta publicação resulta de uma muita generosa dádiva enviada por um dos nossos amigos do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que é fundador, conjuntamente com Mateus Soares de Azevedo, de um projecto já aqui mencionado por diversas vezes, a editora Sapientia.

Esta sua partilha, que vamos mencionar mais à frente, permite-nos abordar um aspecto menos conhecido de um dos maiores expositores da Sabedoria Perene, Frithjof Schuon. Referimo-nos ao facto deste, para além de encarnar nos nossos tempos aquilo que podemos imaginar terem sido os grandes sábios de tempos imemoriais, ter sido um grandioso artista e, nos últimos três anos da sua vida, um extraordinário e prolífero poeta, escrevendo cerca de 3500 curtos poemas na sua língua materna, o alemão.

Nas palavras de William Stoddart, esta torrente de poemas “cobre todos os aspectos possíveis da doutrina metafísica, do método espiritual, das virtudes, bem como do papel e função da beleza… exibem uma incrível sagacidade, profundidade, compreensão e compaixão. Eles são a sua dádiva final para o mundo, o seu testamento e o seu legado.” Ainda segundo a opinião deste autor amplamente autorizado para falar da obra de Schuon, o principal tema destes poemas “é a oração confiante a um Deus todo-misericordioso e a benevolência para com os homens de boa vontade. Acima de tudo, os poemas são instrumentos de instrução e, como tal, uma poderosa propulsão para o interior.” Patrick Laude diz-nos, ainda, que o esoterismo quintessencial que Schuon expõe tem as características da simplicidade da verdade pura, e que é esta simplicidade que os seus poemas transmitem, oferecendo uma “destilação musical do elixir da sabedoria”.

É precisamente esta sua vertente de poeta que temos o prazer de dar a conhecer através de alguns versos traduzidos por Alberto Queiroz. Tratam-se de composições poéticas pertencentes à colecção de poemas ingleses, escritos antes da 'explosão' na sua língua materna, e que são, também eles, verdadeiras pérolas de ‘sabedoria destilada’. Diz-nos o tradutor que a tradução de poesia é algo extremamente complexo e que estas traduções, efectuadas há vários anos, foram até hoje fruídas apenas por um núcleo muito restrito de amigos. Por esta razão, é imensa a nossa gratidão para com o tradutor, e é grande a esperança que os nossos leitores possam, tal como nós, sentir a fragrância, recorrendo às palavras de Alberto Queiroz, do remoto perfume do original.

* - Nome dado à colecção de poemas ingleses escrita por Frithjof Schuon.


Regina Coeli

És mais que um Símbolo, estás perto
De mim como o sangue e o coração; é certo,
És o ar que me faz viver, que puro e sábio me faz;
Doce e terno ar que o paraíso me traz.

És mais que as palavras que de ti falam,
E mais que as músicas sacras que embalam
Nosso louvor a Ti. Meu êxtase te pertencia
Mesmo antes de Deus criar a vinha.


Diga ‘Sim’

Diga ‘sim’ a Deus, Deus a ti dirá ‘sim’:
Da Porta do Céu, eis a chave dourada.
Na terra, não me ocupa minha estrada,
Ela pode ser longa:
              Curta é a Estrada de Deus a mim.


Grandeza

Perguntas-me o que é grandeza: um valor
Do homem não é, mas do Criador.
Nosso cor deve saber antes que seja tarde
Só nossa consciência de Deus tem tal qualidade.

Há uma só consciência d’Ele, veja bem.
A mil espelhos a única Luz se oferta.
A contingência é sonho, mas a Verdade é certa:
Sê o que és, não perguntes quem é quem.


Memento

Sabes que não podes mudar o mundo;
Renuncia a ele, deixas as coisas serem o que devem ser.
Certas coisas podemos mudar, outras não;
Em todo destino há algo a aprender.

Não esqueças: existe um Sumo Bem
Cujo Amor pode vencer a Fatalidade.
A razão é que o som mais profundo do Ser
Vem da harpa da pura Felicidade.


Liberdade

Sentes que o mundo terreno é triste,
Mas tal tristeza chorar não devias;
Não digas que é mau o mundo que existe…

Pois a toda sombra a hora final soa
E é infinda a alegria oculta nas coisas;
A vida é às vezes dura, mas a alma voa.

Contempla a dupla face da existência:
De um lado está o ferro, mas do outro o ouro vive.
Devias ver a felicidade que é tua essência,
E então saberias: Deus a fez pura e livre.


Omega

Da Infinitude dar uma imagem finita:
Em toda poesia esta intenção habita.
Toda obra humana a um limite final se inclina;
Seu arquétipo, no Céu, nunca termina.

Da Arte e da Beleza, qual a razão?
Mostrar o rumo do mais fundo Coração.

O canto de um pássaro do Céu surgia;
O mundo fora um sonho; era eu a melodia.


Símbolo

O Símbolo devias trazer em teu peito
E no Símbolo devias sempre morar;
Ele é um tesouro, e um abrigo,
E uma arma, e um barco a nos salvar.

Ele é uma Graça divina que nos dá vida;
Em tal Graça, não te podes perder.
E saiba, tu também és o Símbolo e
O Sinal de Deus, ou não pod’rias ser.


Ápice

Qual foi o maior instante em nossa vida?
Qual a maior felicidade, em que evento?
Terá sido um dia de glória, ou de amor?
Quando com gente santa passamos um momento?

Deve ter sido o dia em que encontramos Deus.
Ele entrou no tempo, não se sabe como. Mas, ora,
O tempo está sempre aí, e Deus é perto.
E assim, o ápice de nossa vida é agora.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O botão da perplexidade no caminho da flor

por Pedro Sinde


Senhor, aumenta em mim o deslumbramento por Ti.
Hadîth


As palavras que se seguirão não têm outra pretensão que a de lembrar um aspecto do caminho que muitas vezes é esquecido, tratando-se, no entanto, de um aspecto de grande importância: o estado de perplexidade, quer apareça sob a forma de temor, quer apareça sob a forma de deslumbramento – temor que é a forma negativa da perplexidade; deslumbramento que é a sua forma positiva. Este tema ocorreu-me ao ler uma passagem de um livro de Martin Lings (What is Sufism?), em que o autor refere quatro momentos do caminho por analogia com o crescimento de uma planta:

a)      semente (doutrina)
b)      caule (compreensão)
c)      botão (perplexidade)
d)      flor (iluminação)

Vamos, então, procurar desenvolver um pouco este esquema apenas com o intuito modesto, já referido, de destacar a importância da terceira “etapa”: a perplexidade. Coloquei a palavra “etapa” entre aspas, porque não se trata de etapas cronológicas ou de uma sequência; trata-se de quatro momentos complexos que muitas vezes são concomitantes, outras se sucedem, outras se interpenetram.

A doutrina é como uma semente, na medida em que é uma potência, um saber potencial que a alma deve assimilar ou, antes, que a alma deve, estudando-a, despertar ou acordar em si, recordando-a (“recordar” é “acordar” de novo e estes dois actos ligam-se ao “coração” ou ao verdadeiro “saber de cor”, o “decorar”). A doutrina de que se trata aqui não é, pois, o saber erudito, mas antes o saber que a alma traz no fundo de si em estado de dormência, em estado de esquecimento. O estudo da doutrina vai levando ao despertar desse saber adormecido, que assim passa gradualmente da potência da semente ao acto do caule ou da nebulosa reminiscência à presentificação da “memória”.
Seguindo esta bela e fecunda metáfora, logo somos levados a pensar na parábola do semeador. Há terreno e terreno, há almas e almas ou diferentes ‘substâncias’ psíquicas onde cai a semente da doutrina; e também há tempos e tempos, quer dizer, uma alma pode ter recebido a semente numa altura em que, por falta de água ou calor, ela não frutificou; mas tempos depois essa semente, já com outras condições, caída nessa mesma alma, pode frutificar, como as sementes no túmulo do Faraó séculos e séculos depois.

O caule é, pois, a compreensão da doutrina, a passagem da potência ao acto ou a actualização, por vivência funda, fecunda e fecundante, por despertar da reminiscência no fundo de si, naquele ponto em que a alma é tangencial ao espírito; como se entre a alma e o espírito houvesse um véu ou uma nuvem entre a terra e o céu e a doutrina fosse um vento que afastasse essa nuvem, uma mão que afastasse esse véu. Com a aprendizagem da doutrina a alma é levada numa ascensão, que equivale também a uma parcial libertação da terra – deixando para trás a horizontalidade terrenal, a alma pela meditação na doutrina, pela descoberta dos símbolos, inicia o seu trajecto vertical, num processo verdadeiramente entusiasmante.
É, porém, quando a alma julgava ter compreendido (quer dizer, “abarcado” ou “agarrado”) a doutrina que lhe acontece defrontar-se com os aspectos doutrinais mais paradoxais; até ali, ela ascendia, alegre, levada pelo entusiasmo da compreensão doutrinal e eis que, de repente, hesita, duvida, não compreende, recua, fecha-se sobre si mesma. É que a doutrina implica no seu seio mais íntimo ou, o que é o mesmo, no seu ponto mais alto, a passagem da imanência à transcendência, da criatura ao Criador ou do saber ao sabor (dhawq) e, no entanto, o “pensamento só serve em relação às coisas criadas, [pois] quando o Gnóstico se direcciona no sentido do Criador, então o seu pensamento transforma-se em deslumbramento. Assim, o deslumbramento é o fruto do pensamento (…)”, é o que diz o shaykh al-‘Alawī.
A alma terá de vencer aqui uma prova tremenda; o que lhe é pedido é que morra para si mesma e para o que julgava saber, que veja a doutrina como upaya. É como se a alma se visse subitamente num lugar outro, como que no meio de um oceano ou como se o caminho em que seguia tivesse desembocado num abismo; o caule, quanto mais cresce, mais se afasta da terra, lá no cimo, a alma vê-se como que “no céu”, no entanto, se não tiver firmes raízes no húmus da razão e da religião, provavelmente tombará ao primeiro sopro do espírito, pois o espírito sopra onde quer, ninguém sabe de onde ele vem nem para onde ele vai. E ali, no cimo, os ventos sopram e, muitas vezes, em sentido contrário um ao outro. A alma terá de fazer esta operação extrema: sair de si, colocar-se numa circunferência exterior, no lugar de onde os ventos sopram, em vez de se deixar estar no centro do seu “eu” que sofre com os ventos contrários ou que fica perplexo a pensar de que modo pode a mesma doutrina conter em si isto e o seu contrário. Assim, como perante um koan zen, a alma terá de saltar acima de si mesma, colocando-se, pois, fora de si, na raiz da sua ipseidade, a que muitos chamam o “Si-mesmo” ou Ele; a raiz da sua ipseidade está no céu, por isso, a planta, aqui chegada, percebe que a sua raiz verdadeira é celeste; a alma deixa de ver em espelho, como diz São Paulo.
É, pois, ali que nasce o botão, depois da verticalidade ascensional, como uma aparente (mas apenas exteriormente) estagnação. Confrontada com o Real (al-Haqq), assusta-se, percebe que, afinal, não sabe. Percebe que o seu “saber” não é nada face ao Criador. Da imanência pressente o abismo da transcendência e tem medo. Mas o medo é o princípio da sabedoria; ela foge da causa do medo, em primeiro lugar, e isso leva-a a fechar-se, como o botão da flor. Como botão, ali, suspensa no céu, a alma sabe que já não há retorno, tem vertigens. Esta vertigem acontece ou pode acontecer por dois motivos: um é a vertigem da razão perante os primeiros fulgores intuitivos do Intelecto (vai com maiúscula, para que não se confunda com o que vulgarmente se designa por inteligência); fulgores que, resplandecendo, como que a cegam. Outro motivo é o espanto perante a existência do mundo criado; a impressão tremenda da infinitude. A infinitude da verdade do Intelecto e a infinitude na existência da criação. São os “sinais de Deus”, como lhes chama o Alcorão: ayat’Allāh ou sinais de Deus, os sinais na alma e os sinais no horizonte, como se diz numa surata. Os sinais dentro (batin) e os sinais fora (zahir). Um filósofo português, Sampaio Bruno, chamava às verdades do Intelecto, as verdades “acima da razão”, pois o Intelecto supera a razão. Ela segue sendo necessária para a exposição doutrinal, e, por assim dizer, não perderá a sua razão de ser, porque ela é um elemento protector da alma humana; é comparável a um muro que a protege, mas se a protege, também a cerca e, por isso, para quem subiu um pouco acima dela, tem de dar o salto para lá do muro ou apenas contemplar de dentro do muro o exterior imenso. Assim, um dia, alguém olhando um pôr-do-sol, aquilo que viu, fora das categorias habituais, foi como uma misteriosa fogueira que vogasse no ar. Não era o sol, era algo misterioso, tremendo, directo, fulgurante e desconhecido. Exige-se que a capa do hábito, dos hábitos, caia e que se tome algo da nudez essencial ou primordial a que se refere um outro filósofo português e a que se refere Frithjof Schuon, sobretudo nos magníficos textos sobre os índios norte-americanos. Quando cai o hábito o impulso imediato da alma é esse fechar-se sobre si mesma; esse impulso aparentemente negativo mostrar-se-á, no entanto, providencial e levá-la-á a descobrir o mundo exterior no seu interior ou o mundo interior no seu exterior. É quando poderá ouvir a voz do seu mestre a dizer-lhe: “Distende o teu espírito e aprende a nadar” (‘Alī al-Jamal). Ou poderá ainda ouvir ao seu mestre estas palavras: “se estás num estado de perplexidade (hayrah), toma atenção para não te agarrares a nada, para que não feches com a tua própria mão a porta da necessidade, pois esse estado assume para ti a importância do Nome supremo” (ad-Darqāwī). Não podem deixar de impressionar estas palavras que colocam para algumas almas a par da invocação do Santo Nome o estado de perplexidade! E, a este propósito, a importância da perplexidade perante os sinais no horizonte é tão grande que al-‘Alawī chega mesmo a dizer:
“Como podes tu não ver os sinais de Deus? Se te desses conta da realidade que está à tua frente, perturbar-te-ias e perderias a cabeça. E deverias mesmo perturbar-te, pois este tipo de perturbação aproxima mais de Deus do que qualquer acto de piedade (…). A perturbação do coração, ligada ao temor que lhe provoca essa tomada de consciência, vale mais do que qualquer obra de piedade dos homens ou dos djinns. Esta perturbação do coração, que leva a sair da prisão da indolência e a desejar uma vasta tomada de consciência da realidade, vale mais para Deus do que qualquer obra de piedade dos homens e dos djinns”. A indolência referida, são os hábitos. A alma aperceber-se-á agora como foi providencial ter aprendido a doutrina, como é providencial o estar dentro do corpo de uma religião, pois os hábitos velhos (a indolência) só podem ser combatidos substituindo-os por hábitos novos e salutares, que são aqueles que uma religião, providencialmente providencia: hábitos que se manifestam nos bons pensamentos, boas palavras, bons actos; ou no exercício da oração mental, da oração ritual, das virtudes e da beleza. Como sugere Frithjof Schuon, num compromisso integral: substituir o hábito dos pensamentos automáticos e aleatórios pelo hábito da oração, substituir o hábito do comportamento profano pelo comportamento digno e sacramental; substituir o hábito da fealdade do mundo moderno pelo hábito da beleza perene das civilizações tradicionais.

O encontro com o Mestre dá-se, para as almas maduras, nesta fase da perplexidade.
Depois de se ter fechado, a alma começa idealmente um processo de abertura para cima, quer dizer, depois da reacção ao medo e à vertigem por fuga (e não tendo para onde fugir, ela busca inicialmente refúgio em si mesma), acaba por se abrir confiante ao Criador; entrega-se-lhe, como que dizendo “eu não sei, mas Tu sabes” e suplica, abrindo-se aos raios da Sua Luz: “Ilumina-me, Senhor, pois só pela Tua Luz posso ver.” Abrindo-se, pois, para cima, ela é já à imagem do Criador, como diz um amigo meu (António Telmo): “As flores imitam o sol”. O homem é à imagem de Deus; a flor é à imagem do sol. Fitra ou o reencontro com a natureza primordial do homem, com a inocência virginal – a alma pode reencontrar a sua imagem, que é o modo como o Criador se teofaniza nela. Para isso, ela terá de ser o mais moldável possível, como a matéria-prima em estado puro ou o barro pronto nas mãos do oleiro celeste. É este um dos mais fundos sentidos da submissão (islām), comparável à ideia de tao no Oriente ou ao fiat voluntas Tua, no Pater; porque a Sua vontade, na verdade, quer dizer, na eternidade, já está feita.

A perplexidade assume, pois, um aspecto operativo, por assim dizer, de primeira instância; como diz Martin Lings, a perplexidade “é um modo de faqr” (pobreza espiritual; como no sermão da montanha: “bem-ditos os pobres de espírito”) ou é “a necessidade imperativa de iluminação” ou ainda, poder-se-ia dizer, o bater à porta ou o pedir. Só bate ou pede aquele que necessita e um pobre é, como dizemos em português, um necessitado.

domingo, 11 de outubro de 2009

Palavras Trovão

É geralmente aceite que o homem é capaz de acreditar sem compreender; no entanto, temos menos presente a possibilidade inversa, isto é, que ele possa compreender sem acreditar, algo que nos surge como uma contradição, uma vez que a fé aparenta ser necessária apenas para aqueles que não compreendem. No entanto, a hipocrisia não é apenas a dissimulação de quem se mostra melhor do que verdadeiramente é; ela também se manifesta na desproporção entre a certeza e o comportamento e, neste sentido, os homens são na sua maioria mais ou menos hipócritas, na medida em que proclamam admitir verdades que não mais do que muito debilmente põem em prática. No plano da simples crença, crer sem actuar em consonância com os ditames do que se acredita corresponde, no plano intelectual, a uma compreensão sem fé e sem vida; pois acreditar de verdade implica uma identificação com a verdade aceite, seja qual for o nível desta aderência. A piedade está para a crença religiosa como a fé operativa está para a compreensão doutrinal ou, podemos acrescentar, como a santidade está para a verdade.

Frithjof Schuon – Logic and Transcendence

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Jardim

"Make our path pleasant as a garden,
And be Thou, O Holy One, our goal!"

- Jalāl-ad-Dīn Rumi

"Torna o nosso caminho tão aprazível quanto um jardim,
E que sejas Tu, Senhor, o nosso destino!”

(tradução livre da versão em língua inglesa)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Whitall N. Perry

Whitall Perry nasceu perto de Boston em 1920. Os seus interesses intelectuais iniciais incluíam o Platonismo e o Vedanta, tendo viajado frequentemente para o Médio e Extremo Oriente antes e depois da 2ª Grande Guerra. Quando na Universidade de Harvard, em 1940, tornou-se num dos alunos que tiveram a felicidade de conviver com o génio de Coomaraswamy.

Entre 1946 e 1952, Perry e a sua esposa viveram no Egipto, altura em que desenvolveu relações próximas com René Guénon. Após a morte de Guénon, Perry e a sua família mudaram-se para a Suíça, onde consolidou a sua já duradoura relação com Frithjof Schuon. Em 1980 regressou, juntamente com a família Schuon, aos Estados Unidos.

Ananda Coomaraswamy exprimiu um dia a ideia que os tempos eram adequados para que alguém, bem versado nas tradições das grandes religiões da humanidade e fluente em diversas línguas, compilasse uma enciclopédia antológica que agregasse a sabedoria espiritual de todas as eras num único volume. Esta tarefa foi atingida por Whitall Perry, brotando de um dedicado trabalho de dezassete anos e que resultou num trabalho de importância absolutamente única, o qual convida o leitor a embarcar numa viagem espiritual. Teve a sua primeira edição em 1971 com o título A Treasury of Traditional Wisdom, e tem uma recente reedição como The Spiritual Ascent: A Compendium of the World's Wisdom (Fons Vitae, 2008).

É uma obra fantástica em que o seu simples desfolhar cria uma sensação de total perplexidade perante o trabalho envolvido em cada uma das mais de mil páginas, repletas de citações que se estruturam numa tapeçaria imensa cujos fios provém de todas as grandes religiões e tradições esotéricas. Cada secção do livro é introduzida com um comentário conciso e preciso, frequentemente usando como guia os trabalhos de Guénon, Coomaraswamy e Schuon, a quem Perry reconhece uma “profunda gratidão” e cujos “diferentes papéis”, afirma Perry, “foram totalmente indispensáveis para a materialização deste trabalho.” Seria certamente impossível revelar toda a manifestação da Sabedoria Primordial na sua plenitude, mas Perry aproximou-se, sem dúvida, de um tal ideal.

Perry publicou ainda alguns outros livros, tais como: Gurdjieff in the Light of Tradition (1978), The Widening Breach. Evolutionism in the Mirror Cosmology (1995) e Challenges to a Secular Society (1996). Deixou-nos recentemente em 2005.


Publicações no “Sabedoria Perene”:

terça-feira, 24 de junho de 2008

Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XX

Como anunciado numa publicação anterior, vamos publicar no Sabedoria Perene um texto do escritor brasileiro Mateus Soares de Azevedo. Agradecemos profundamente não só a autorização que nos deu para a sua publicação mas também o apoio e incentivo que tão gentilmente ofereceu aos autores deste espaço. O nosso eterno obrigado.

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Schuon e as grandes figuras espirituais do séc. XX (1)

Mateus Soares de Azevedo


Aqui, vamos apresentar e debater o legado dos mais importantes e influentes guias espirituais de nossa época, à luz dos ensinamentos da Filosofia Perene. Nesta tarefa, faremos referência aos ilustres representantes de religiões mundiais e, simultaneamente, recorrendo ao ‘universalismo’ perenialista, abordaremos a equivalência fundamental de suas mensagens. Cada um dos sábios e santos aqui expostos traz o aporte da ‘cor’ específica de sua religião de origem, enquanto a sabedoria perene enfatiza sua unidade subjacente, mediante seu acesso à ‘luz incolor’ que unifica os diversos patrimônios espirituais da humanidade. Tal sabedoria não pertence especificamente nem ao Oriente nem ao Ocidente, mas simultaneamente os engloba e transcende ambos.

Entre os mestres que melhor expuseram e viveram esse conhecimento inspirado estão Frithjof Schuon (1907—1998) e Sri Ramana Mahârshi (1879—1950). O primeiro tendo seu raio de ação privilegiado, mas não exclusivo, no Ocidente e o segundo em parte relevante do Oriente, isto é, a Índia. Ambos são ‘universalistas’, o que significa que eles creram e ensinaram explicitamente, no caso de Schuon, a “unidade transcendente das religiões”; ambos expuseram a mais pura e também mais intrinsecamente ortodoxa forma de gnose, cada qual à sua própria maneira. Ambos, finalmente, atraíram admiradores de variados horizontes religiosos. Schuon foi, de fato, um sábio na dupla capacidade de metafísico – na linha de Platão, Pitágoras e Shânkara – e de guia espiritual “extra-confessional”, dotado de um profundo amor por todas as religiões autênticas, mas sem nenhum apego a seus aspectos mais formalistas e nacionalistas. Schuon foi um mestre da verdade incolor, da verdade além das formas. (2) Há certamente distinções a serem feitas no alcance, completude e universalidade das doutrinas metafísicas que Schuon e o Mahârshi expuseram e nos métodos de realização espiritual que advogaram. Mais sobre tais questões no que segue.

Ao escolher o “filósofo” (no sentido original de “amigo da sabedoria”) suíço e o místico hindu como principais objetos de nosso estudo, não esquecemos a imensa importância (especialmente nos domínios da metafísica tradicional, do simbolismo religioso e da crítica da mentalidade moderna) do esoterista francês René Guénon (1886-1951).

Guénon foi o precursor da escola perenialista ou tradicionalista, da qual Schuon constitui o ápice. Se Guénon é o originador deste fenômeno único e sem precedentes de influxo intelectual e espiritual numa época quase completamente impermeável à verdadeira intelectualidade, Schuon é sua floração máxima e conclusão. O esoterista francês foi a semente e o metafísico alemão a flor e o fruto. Guénon foi o pioneiro e Schuon a consumação; o primeiro foi como um rio e o segundo como um oceano — tão profundas e diversificadas a doutrina metafísica que expôs, o aconselhamento espiritual que concedeu e os poemas e pinturas que produziu.

Dando início, então, a esta expedição em busca das luzes espirituais de nosso tempo, focamos, no que diz respeito ao Cristianismo ocidental, dois descendentes espirituais do grande Francisco de Assis, ambos capuchinhos italianos: a irmã Consolata Betrone (1903—1946) e o Padre Pio de Pietrelcina (1887—1968).

Soror Consolata Betrone pode ser considerada, num certo sentido, uma sucessora de Santa Teresa de Lisieux; (3) ela foi uma alma piedosa e devota diretamente ensinada pelo Cristo sobre a via da oração jaculatória e da invocação perpétua do Nome Santo. Caminho visto pela Filosofia Perene como a quintessência mesma de toda espiritualidade. A mensagem de irmã Consolata é bastante significativa para os cristãos; para Schuon, trata-se de uma contribuição central, na medida em que vincula a via da infância espiritual e da confiança em Deus de santa Teresinha com a invocação.

Padre Pio, o estigmatista, (4) ensinou e praticou a invocação do Nome Santo e foi o diretor espiritual de milhares de almas; foi neste sentido que Schuon escreveu, em carta a um correspondente italiano dos anos 1950, Guido di Giorgio, que Padre Pio era “une protection, sinon bien plus” (5) para o mundo cristão.

Um papa também tem lugar nesta síntese. Falamos de Pio XII (1939—1958), incluído aqui não apenas em razão de sua excelência, mas particularmente devido às covardes calúnias que sua memória tem sofrido (quando vivo e podendo respondê-las, elas não se manifestaram). Como derradeiro pontífice tradicional, sua memória tem sido atacada por oportunistas e mentirosos que se valem de falsas alegações de que teria sido indiferente ao destino dos judeus europeus durante a 2a Grande Guerra. (6). A verdade é que, diferentemente de muitos dos líderes seculares do período, que muito pouco fizeram para ajudar os judeus, Pio XII agiu claramente em sua defesa durante o conflito. (7)

Quando o anti-semitismo racista grassava solto, foi ele quem ousadamente declarou: “Somos todos semitas!” Aqui, ele tinha em mente a tradição monoteísta abraâmica que é comum a judeus, cristãos e muçulmanos. O papa se referiu também ao fato de que, se por um critério meramente racial ou étnico os europeus e seus descendentes não são semitas, eles de certa maneira se tornam espiritualmente semitas por sua adesão a uma religião de origem semita como o Cristianismo. A este respeito, é importante lembrar que, em 1942, milhares de judeus foram abrigados em mosteiros, escolas e conventos católicos sob o patrocínio do Supremo Pontífice. A própria cidade do Vaticano acolheu muitos deles e Castelgandolfo, a residência de verão dos papas, recebeu então mais de 15 mil. Em 1944, Pio XII mandou colocar o brasão papal na entrada da principal sinagoga de Roma, antes que a cidade fosse tomada pelas tropas nazistas; isso com o intuito de proteger seus objetos sacros de profanação. Em 1946, ninguém menos que o grão-rabino de Roma, Israel Zolli, abraçou o Catolicismo, com toda a sua família. Uma das razões que deu para esta espetacular mudança de religião foi precisamente a defesa que Pio XII fez de seu povo. Em suas memórias, o rabino dedica um capítulo a Pio XII, e escreve: “O Santo Padre escreveu à mão uma carta aos bispos, instruindo-os a abrir a clausura de conventos e mosteiros para, assim, se tornarem refúgios para os judeus. Eu soube de um convento em que as irmãs dormiram no porão e deram as camas para os refugiados.” Ademais, o rabino escolheu como seu nome cristão “Eugênio”, o nome de batismo de Pio XII. Curiosamente, a lenda do “papa nazista” começou a tomar forma muitos anos depois do fim da guerra – até então, a ação de Pio XII era elogiada unanimemente, inclusive por organizações judaicas. Até que, no início dos anos 1960, a coisa começou a mudar com o lançamento, em Berlim, 1963, da peça Der Stellvertreter, Ein christliches Trauerspiel (“O vigário, uma tragédia cristã”), de autoria de um ex-líder da juventude nazista, Rolf Hochhuth. Baseada em documentos históricos forjados, o papa é nela retratado como um homem frio que odiava os judeus. Uma obra recente, “O mito do papa de Hitler”, do rabino norte-americano David Dalin, desfaz a lenda. (8)

Tais informações constituem prova suficiente de que as acusações contra Pio XII não têm nenhuma base sólida e que, pelo contrário, só se mantêm por conta de uma inconfessável motivação ideológica e política. Ao mesmo tempo, ao atacar o legado do pontífice, ataca-se a Igreja tradicional, que, após sua morte, passou a ser severamente fustigada pelo concílio Vaticano II e suas sequelas.

Concluamos este tópico com mais algumas breves informações. Dois anos antes de se tornar papa, em 1937, quando era o secretário de Estado do Vaticano, o então cardeal Eugênio Pacelli colaborou com o papa Pio XI (9) na elaboração da famosa encíclica Mit brennender Sorge (“Com grande preocupação”), que condenou em termos enérgicos a ideologia racista nazista. Mas, quando alguns críticos alegam que a encíclica não foi forte o bastante, devemos lembrar-lhes que até praticamente o final do conflito nem mesmo organizações judaicas conheciam a plena extensão das atrocidades nazistas. E, no caso de Pio XII, ele foi às vezes obrigado a moderar o tom de suas intervenções ou mesmo manter um prudente silêncio para não agravar a já perigosa e cruel situação. (10)

Alguns acreditam que a origem principal desses ataques, disfarçados evidentemente, vêm dos ‘revolucionários’ que tomaram controle do Vaticano desde a época de João XXIII, Paulo VI e do concílio Vaticano II, quando se estabeleceu, por assim dizer, uma “nova “igreja e uma “nova” religião, a religião do “Homem “ e do “Mundo” (com maiúsculas por favor!), em total oposição à antiga e perene religião. (11) A despeito de atos e palavras, muitas vezes ambíguos, é indisputável que tal controle “revolucionário” tem sido mantido tanto por João Paulo II como por Bento XVI. (12)

Homem profundamente compassivo e humilde, Pio XII tinha um dom particular para ensinar e transmitir um amplo corpo de guiamento doutrinal e moral. Tinha também profunda consciência da dignidade de sua função de supremo pontífice, mas também do homem como representante de Deus na Terra. Isso pode ser constatado pelas fotografias que nos permitem testemunhar seus gestos hieráticos – poder-se-ia usar o termo hindu “mudrâ”, especialmente quando ele dava a bênção papal aos fiéis -, a meu ver insuperáveis mesmo por mestres hindus ou budistas. (13)

Avancemos agora para o mundo do Islã. Talvez sua maior figura no século XX tenha sido o cheikh magrebino Ahmed al-Alawi (1869—1934). Ele é relevante para o fenômeno da Filosofia Perene por ser um mestre da mística sapiencial, ou gnose, e também do método espiritual da “Lembrança de Deus”. O cheikh Alawi tinha profundo interesse pelas grandes religiões, especialmente o Cristianismo. Sua aura de santidade já era tamanha que em um dado momento sua confraria espiritual (tariqa) contava com cerca de duas centenas de milhares de adeptos por todo dar el Islam, o que a fazia ter, além de influência espiritual, uma irradiação também cultural e política. Que contraste com líderes pseudo-islâmicos contemporâneos como Sadam Hussein e Hafez Assad que, apesar de terem sido secularistas anti-religiosos, exploraram desavergonhadamente o islamismo para seus fins políticos ou pessoais! Schuon conheceu pessoalmente o cheikh Al-Alawi e escreveu de forma tocante sobre ele:
“A idéia que é a essência secreta de cada forma religiosa, que torna cada qual o que é pela ação de sua presença interior, é demasiado sutil e profunda para ser personificada com igual intensidade por todos aqueles que respiram sua atmosfera. É, portanto, uma grande felicidade entrar em contato com um autêntico representante espiritual de uma dessas formas, alguém que representa em si mesmo, e não meramente porque ele pertence a tal civilização, a idéia que, por séculos, tem sido seu sangue vital.
“Encontrar-se com alguém assim é como ficar face a face, em pleno mundo moderno, com um santo medieval ou um patriarca semita, e esta foi a impressão que me causou o cheikh Al-Hajj Ahmad al-Alawi, um dos grandes mestres do Sufismo.... Em seu jelabá marrom e turbante branco, com sua barba prateada e mãos longas que pareciam, quando ele as movia, prostrar-se sob o fluxo da sua baraca (irradiação espiritual), ele exalava algo do ambiente puro e arcaico do Profeta Abraão... seus olhos, como duas lâmpadas sepulcrais, pareciam penetrar todos os objetos, vendo em sua casca externa apenas o mesmo nada, além do qual viam sempre a mesma realidade – o Infinito. Seu olhar era bem direto, quase duro em sua enigmática firmeza, mas ainda assim pleno de caridade... A cadência do canto, das danças e das invocações rituais parecia continuar vibrando nele perpetuamente; sua cabeça às vezes balançava de forma ritmada enquanto sua alma submergia nos mistérios insondáveis do Nome Divino, oculto no dhikr, a Recordação... Ele era envolvido ao mesmo tempo por toda a veneração devida aos santos, aos líderes, aos idosos e aos que estão próximos da morte.” (14)

Avançando ainda mais no Oriente, encontramos na Índia um grande precursor de Ramana Mahârshi – e também dos perenialistas – na figura de Sri Ramakrishna (1836-1886), conhecido como o Paramahansa (“cisne supremo”), designação mais elevada para um místico na tradição hindu. Ramakrishna foi um pioneiro da universalidade da revelação, conceito que seria posteriormente exposto e explicado pela Filosofia Perene. Apenas para mencionar um único exemplo de seu caráter único: em diferentes períodos de vida, ele praticou espontaneamente, e sinceramente, duas religiões não-hindus, o Cristianismo e o Islã. Às quais reconheceu plenamente validade e autenticidade espirituais, manifestando, desta maneira, e por participação pessoal direta, o conceito metafísico da “unidade transcendente das religiões” – tema desenvolvido por Schuon no livro de mesmo título.

Como William Stoddart escreve no seu estimulante “O Budismo ao seu alcance” (Record, 2004), Ramakrishna foi a primeira autoridade espiritual dos tempos modernos a ensinar explicitamente tal idéia. Além disso, também foi um praticante do método espiritual da invocação do Nome Divino, uma técnica tradicionalmente considerada – e igualmente enfatizada pela Filosofia Perene – como a melhor apropriada para o final da Kali-Yuga (a “Idade Sombria” dos hindus), que parece ser a nossa. Ramakrishna costumava citar um ditado que Schuon mais tarde explicaria de muitas formas, isto é, que “Deus e Seu Nome são um”.

Não podemos deixar a Índia sem mencionar duas figuras de imenso valor. O grande bhakta (‘devoto’, ‘amigo de Deus’) Swami Râmdas (1884-1963) e o 68º. Jagadguru (“mestre universal”, em sânscrito) de Kanchipuram (1894-1994). Como o ‘peregrino russo’ no século XIX, swami Râmdas percorreu todo o subcontinente indiano como monge errante, sempre invocando o Nome Santo, no qual tinha uma confiança inabalável como meio privilegiado para alcançar Deus. Em sua única visita ao Ocidente, Râmdas se encontrou com Schuon, em Londres, encontro que lhe causou profunda impressão. Ele escreveu: “A imponente figura de Schuon se destacava de todos nós – ele me pareceu como um príncipe entre os santos.” (15)

Quanto ao Jagadguru de Kanchipuran, foi um descendente tradicional e autêntico de Sri Shankaracharia (século IX DC), o maior expositor da via sapiencial (gnose) na Índia. Mestre do jnâna por 90 anos (ele assumiu sua função ainda em 1907, o mesmo ano em que Schuon nasceu), o Jagadguru recebeu de Schuon a dedicatória de seu livro Language of the Self (“A linguagem do Si”) – prova da alta estima em que era tido. Além de ter sido um representante oficial do Advaita Vedanta, o Jagadguru foi um universalista versado no Cristianismo, no Islã e mesmo na religião dos índios americanos, tendo sido de fato um admirador do visionário sioux Alce Negro (Black Elk).

E já que mencionamos o pajé pele-vermelha, passemos agora para o mundo primordial da tradição xamanista dos índios, na figura extraordinária deste homem santo, chefe e xamã dos Sioux, Hekaka Sapa (“Alce negro” na língua índia) (1862-1950). Homem de contemplação intensa, ele recebeu diversas visões do mundo espiritual e explicou para as novas gerações de índios o sentido de sua religião e a utilidade de seus antigos ritos. Em uma série de ensaios penetrantes, especialmente em ‘The Feathered Sun – Plains Indians in art and philosophy’ (“O Sol com plumas: os índios das planícies na arte e na filosofia”), Schuon mostrou seu entendimento e amor pelo patrimônio espiritual dos índios e demonstrou sua universalidade e convergência com as demais religiões, provando, portanto, sua verdade intrínseca e sua ortodoxia. Vale a pena informar ao leitor interessado que Alce Negro terminou seus dias reverenciado não apenas como uma espécie de figura profética pelos índios americanos, mas também como um homem santo pelos missionários cristãos que lhe ensinaram o amor de Jesus Cristo, um amor que ele de certa maneira incorporou em sua religião nativa da Dança do Sol e do Cachimbo Sagrado.

Em nossa peregrinação intelectual e espiritual, cabe mencionar agora dois antecipadores da Filosofia Perene, ainda da época medieval. Muhiddin ibn Arabi no Islã (+ 1240) e o cardeal Nicolau de Cusa (1401—1464), no cristianismo ocidental. Ibn Arabî é particularmente conhecido pela declaração ‘universalista’ contida em um de seus poemas:
“Meu coração se abriu para todas as formas: é pasto para as gazelas, claustro para os monges cristãos, templo para os ídolos, a Caaba dos peregrinos, as tábuas da Tora e o livro do Corão. Eu pratico a religião do Amor: seja qual for a direção da caravana, a religião do Amor será meu caminho e minha fé.”

Certamente, uma confissão inspirada de universalismo e amor de Deus por parte do maior dos “gnósticos” muçulmanos! De sua parte, o cardeal Nicolau de Cusa escreveu um comentário sobre o Corão (Cribatio Alcorani) e um diálogo entre seguidores de diferentes fés, intitulado, De Pace Fidei, no qual advoga um entendimento entre as grandes religiões.

Nosso foco retorna agora para Schuon e o Mahârshi, cada qual a própria epítome da espiritualidade no mundo moderno. A este respeito, devemos considerar Guénon e Schuon como compartilhando um único e mesmo espírito –, com diferentes funções e estilos, contudo --, o da metafísica tradicional, da ortodoxia intrínseca e universal, e da crítica radical e devastadora da mentalidade, cultura, arte e ciência modernas. Mentalidade que eles castigam como materialista, relativista, inconsequente e prejudicial ao homem e ao ambiente. Como mencionado anteriormente, Guénon e Schuon são os dois chefs d’école da escola perenialista ou tradicionalista, e a diferença entre eles se refere ao fato de que o esoterista francês foi como a corporificação da mensagem intelectual ou metafísica, ao passo que Schuon foi um mestre tanto da intelectualidade como da espiritualidade. Guénon, por exemplo, não quis ter discípulos. Schuon escreveu: “A obra de Guénon é ‘teórica’, dado que não visa diretamente a ‘realização espiritual, e mesmo se abstém de assumir o papel de um ensinamento prático... O papel de René Guénon foi expor princípios, mais do que mostrar como aplicá-los...” Ele prossegue: “Guénon foi como a personificação, não da espiritualidade em si, mas da certeza metafísica....” (16)

Quanto ao Mahârshi, digamos de saída que, a rigor, não foi um mestre espiritual strictu senso, e isso pela razão de que foi um fard (um ‘solitário’), termo que tomo emprestado do sufismo. Isso significa que foi um daqueles santos que não tiveram um mestre que lhe ensinasse a Via espiritual, mas que obteve sua condição excepcional devido puramente à graça divina, por iluminação direta. (17) Não tendo sido discípulo de um mestre, ele não foi mestre de discípulos. A rigor, portanto, ele não ensinou um método espiritual propriamente dito.

Sua preocupação permanente e constantemente reiterada era a auto-investigação, “Quem sou eu?”. Na resposta, o Mahârshi apontava para o Si, o Ser divino como nosso autêntico centro. (18) Em seu caso, o divino estava, por assim dizer, em sua poderosa presença espiritual. A “via” do Mahârshi, se podemos considerá-la assim, consistia em sua presença: mediante seu darshan, ele abençoava todos aqueles que buscavam sua baraca (outro termo sufi). Ele foi um contemplativo nato e um gnóstico nato, o mais extraordinário fenômeno espiritual que a Índia engendrou no Século XX.

O sábio, que viveu na montanha sagrada de Arunâchala, próxima de Tiruvannamalai, no sul da Índia, costumava dar sua bênção através de seu silêncio contemplativo, não apenas aos seguidores do Sanâtana Dharma (Hinduísmo), que o procuravam vindos de todas as regiões da Índia, mas também a europeus e americanos, católicos, protestantes, judeus, budistas e muçulmanos, e mesmo a indivíduos sem uma filiação religiosa. Este último aspecto implicava uma problemática, pois, desde que ele não requeria explicitamente de seus visitantes uma filiação tradicional (cujo propósito é garantir uma estrutura ou moldura para a jornada espiritual), seus seguidores não-hindus permaneciam sem suporte doutrinal ou ritual e, portanto, não se preparavam para alcançar algo de sólido e permanente em termos de vida espiritual.

Muito provavelmente, Schuon tinha este ponto em mente quando incluiu o seguinte poema em sua coleção:

Ein Weiser sagte: fragt euch — wer bin Ich?
Dies ist kein Weg. Der Weise meinte sich,
Beschrieb sein Geisteswesen, gottgeschenkt;
Es ist nicht euer, weil ihr Gleiches denkt.
Man kann nicht ohne Gott die Welt verbrennen —
“An seiner Frucht wird man den Geist erkennen.”

Um sábio disse: questionem a si mesmos – quem sou eu?
Mas isso não é uma via espiritual. O sábio referia-se a ele mesmo,
Ele descreveu seu estado espiritual, dado por Deus;
Tal estado não é o teu, apenas porque pensas o mesmo.
Não é possível vencer o mundo sem Deus –
“Conhecereis o Espírito por seus frutos.”

Schuon tem mais a dizer sobre o santo indiano, e concluímos a seção sobre o grande Ramana Mahârshi com suas palavras:
“Com o Mahârshi, encontramos a Índia antiga e eterna (...) A função espiritual que pode ser descrita como ‘ação de presença’ encontrou no Mahârshi a sua expressão mais rigorosa. Sri Ramana foi por assim dizer a encarnação, nestes últimos dias e em face da febre ativista, de tudo o que é primordial e incorruptível na Índia. Ele manifestou a nobreza da ‘não-ação’ contemplativa em face de uma ética da agitação utilitária (...) A grande questão ‘Quem sou eu?’ surge, com ele, como expressão concreta de uma realidade que é viva, e tal autenticidade dá a cada palavra do sábio uma fragrância de inimitável frescura – a fragrância da verdade quando ela é corporificada da maneira mais direta. Todo o Vedanta está contido na questão do Mahârshi: ‘Quem sou eu?’ A resposta é: o Inexprimível.” (19)

Quanto ao próprio Frithjof Schuon, seu método espiritual estava longe de ignorar a questão da filiação tradicional, pois, para ele, a conditio sine qua non para receber guiamento espiritual era o comprometimento na prática, com sinceridade e discernimento, de uma religião ortodoxa. Em seu círculo de admiradores e seguidores havia muçulmanos, cristãos (tanto católicos como ortodoxos e protestantes clássicos), judeus, budistas, hindus e adeptos indígenas da religião da Dança do Sol e do Cachimbo Sagrado.

Aqueles a quem o destino concedeu a oportunidade de encontrar-se com este homem extraordinário, (20) invariavelmente se sentiam como que caminhando nas nuvens, ainda que não infrequentemente tais encontros engendrassem semanas ou mesmo meses de reflexão e meditação, para se digerir tudo que havia sido transmitido. Discernimento implacável, nobreza infinita, cortesia sincera, bom senso infalível: essas são algumas das expressões recorrentes que foram usadas por aqueles que conheceram Schuon pessoalmente. Toda questão lhe colocada, seja de filosofia, religião, mística, estética, ou mesmo de temas contemporâneos ou assuntos pessoais, mesmo as mais simples e prosaicas, era recebida com interesse e respondida com brilho. Certamente que ele não apreciava o pedantismo nem a presunção, tampouco questões estúpidas, mas a extraordinária discriminação e perspicácia de Schuon era como uma espada mágica – como a de Galaaz, o cavalheiro invencível da Távola Redonda – que, da maneira mais eficiente e indolor, cortava o nó górdio de nossas ilusões. Uma profunda gratidão era o sentimento predominante de todos aqueles a quem o amor e a inteligência de Schuon marcou, e é com este sentimento que agora encerro esta breve e incompleta avaliação do legado deste sábio.

Com sua morte, perdemos o penetrante e inspirado discernimento de um sábio e artista cuja lucidez confrontou nossa época – obcecada por novidades banais e passageiras - com as verdades profundas e permanentes da Filosofia Perene. Através de seus escritos, ele ensinou gerações a pensar com objetividade, a ver as causas das coisas em seus efeitos remotos e a antecipar os efeitos remotos nas causas presentes. Schuon se foi deste mundo em 5 de maio de 1998, mas sua mensagem permanece. Aliás, ela parece se tornar mais e mais relevante com a passagem do tempo, como a confirmar sua unidade com a sabedoria perene que ele tão resolutamente personificou. Seu legado continua à disposição de todos aqueles, do Ocidente ou do Oriente - para além de todo artificial ‘conflito de civilizações’ - que buscam o sentido profundo das coisas, que sondam o porquê do mundo e do homem e se fundam na certeza e na serenidade para superar o ambiente de dúvida fundamental e relativismo que envenena o pensamento e a vida dos agitados, ansiosos e angustiados homens e mulheres de nossa época.

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1. Publicado em inglês no livro ‘Ye Shall know the Truth: Christianity and the Perennial Philosophy’ (Word Wisdom, EUA, 2005); em francês, no ‘Dossier H: Frithjof Schuon’ (L’Age D’Homme, Paris, 2002); e, em espanhol, no volume ‘Frithjof Schuon: Notas biograficas, Biografias, Estudios, Homenajes’ (Olañeta Editores, Palma de Mallorca, 2004). Ainda inédito em português.

2. No mundo do Cristianismo, Schuon poderia ser classificado na linhagem dos “gnósticos” (o termo não é usado aqui num sentido sectário ou heterodoxo), como São João evangelista, S. Clemente de Alexandria, Angelus Silesius e Mestre Eckhart. No Islã, ele entraria no grupo de Ibn Arabi, Rumi e do cheikh al-Alawi.

3. Santa Teresa de Lisieux era admirada por Schuon em razão de sua completa confiança em Deus, sua profunda humildade, seu ‘bom senso’ espiritual e seu costume de oferecer tudo, incluindo alegrias e dores, a Deus.
4. Padre Pio é o único padre estigmatizado na história da Igreja católica (São Francisco também tinha os estigmas de Cristo, mas ele não era sacerdote). Pode ser de interesse observar que o Padre Pio era da mesma geração de Guénon e guardava semelhança facial com Schuon.

5. “Uma proteção, se não bem mais”.

6. Pode-se especular que a razão pela qual sua memória tem sido vilipendiada é precisamente porque ele foi o último representante da Igreja Católica não-modernista, constituindo, portanto, um alvo privilegiado para os inimigos da verdade e dos meios de salvação revelados.

7. Como foi o caso dos líderes populistas Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingo Perón, na Argentina, e mesmo em certa medida de Franklin D. Roosevelt nos Estados Unidos; até 1942, o presidente norte-americano não concordou com os pedidos de Pio XII para receber mais refugiados judeus da Europa.

8. The Myth of Hitler's Pope: Pope Pius XII and His Secret War Against Nazi Germany (2005).

9. Achille Ratti, papa Pio XI (pontífice entre 1922 e 1939), merece um lugar nesta síntese. Além de seu trabalho de esclarecimento das doutrinas sociais cristãs e suas vigorosas condenações do fascismo (1931), do comunismo (1937) e do Nazismo ( 1937), ele mostrou ser um homem de visão ao dizer as ousadas e universalistas palavras ao seu núncio para a Líbia: “Não penseis que seguis para um país de pagãos; os muçulmanos alcançam a salvação; os caminhos de Deus são infinitos .”

10. Alguns leitores podem se interessar em saber que Pio XII concedeu uma audiência privada a Titus Burckhardt em Castelgandolfo, quando conversaram sobre a arte sacra da Idade Média. O papa apreciou a presença de um representante eminente da escola de Guénon e Schuon, assim como Burckhardt apreciou o papa; ao final da audiência, o pontífice concedeu sua bênção ao visitante: “Eu te abençôo, seus colegas, sua família e seus amigos.” Certamente, uma iluminada conexão entre o Catolicismo de sempre e a philosophia perennis.

11. Nas palavras do cardeal Suennens, o Vaticano II foi a “Revolução Francesa na Igreja”; de acordo com o teólogo francês, e depois cardeal, Yves Congar, foi como “a Revolução de outubro de 1917”.

12. A despeito de seu sempre lembrado “carisma”, e de quase três décadas como papa, o pontificado de Karol Woitila foi um desastre em termos de frear ou limitar as conseqüências da trágica crise que se abate sobre a igreja desde os anos 1960. De fato, milhares de padres abandonaram o sacerdócio. As vocações escasseiam tanto entre o clero secular como entre as ordens religiosas. Apenas nos EUA, dos 49 mil seminaristas de 1965 restaram hoje 4.700. Por todo o mundo, seminários, escolas e conventos foram fechados. A freqüência à missa caiu para menos de 20%, quando era de 75% em 1960. No Brasil, "o maior país católico do mundo", a Igreja perde cerca de um milhão de fiéis ao ano. Pesquisa do Datafolha de maio de 2007 informa que de 1997, data da terceira viagem de JP II ao Brasil, até 2007, a porcentagem de católicos na população caiu de 74% para 64%. Ou seja, apenas nestes últimos dez anos a Igreja perdeu cerca de 15 milhões de almas! E segundo o último censo do IBGE, de 2000, no período entre 1970 e 2000, o número de ateus e agnósticos mais que decuplicou, de 0,5% para 7,4%. Na Europa Ocidental, metade dos recém-nascidos não é mais batizada na Igreja. Vale assinalar, em contraste, que as igrejas orientais, que não seguiram o aggiornamento, vivem um bom momento. E até recebem muitos católicos em suas fileiras, chamados de “refugiados do Vaticano II”! "Pelos frutos se conhece a árvore", ensina o Evangelho.

13. O gesto de juntar as mãos em oração é um típico “mudra” cristão.

14. ‘Râhimahu ’Llâh’, de Frithjof Schuon. Em Cahiers du Sud (Paris), août-septembre, 1935. Citado em Martin Lings: ‘A Sufi Saint of the 20 th century’ (University of California Press, 1973, pp. 116-117).

15. Ver World is God, de Swami Ramdas. Anandashram, P. O. Anadashram, Via Kanhangad, South India, p. 107.

16. Ambas as citações foram tiradas de “René Guénon: L’Oeuvre”, publicada em Études Traditionnelles, Paris, juillet—novembre 1951. A tradução para o inglês é: “René Guénon: Definitions” (Sophia, vol. 1, no. 2, Winter 1995).

17. À parte este último aspecto, Guénon também pode ser considerado um “fard”. Este aspecto fundamental da mensagem do Mahârshi converge perfeitamente com o ensinamento de Schuon, sendo em fato sua finalidade.

18. Este aspecto fundamental da mensagem do Mahârshi converge perfeitamente com o ensinamento de Schuon, sendo em fato sua finalidade.

19. Perspectives Spirituelles et Faits Humains. Paris, Maisonneuve & Larose, 1989. Pp. 164-65.

20. E tal qualidade pode ser percebida através deste espelho dele mesmo que é representado pelas palavras que disse de sábios de diferentes tradições, palavras que em parte foram reproduzidas aqui.