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domingo, 27 de outubro de 2013

A caminho do essencial





A editora Les Sept Flèches lançou o livro Vers l'Essentiel: Lettres d'un Maître spirituel, o qual reúne cartas escritas por Frithjof Schuon a correspondentes de diversas denominações religiosas: cristãos, sufis, hindus, budistas e peles-vermelhas. Entre os destinatários mais conhecidos estão René Guénon, Titus Burckhardt, Martin Lings, Seyyed Hossein Nasr, Léo Schaya, Jean Borella, Marco Pallis, William Stoddart, Râma Coomaraswamy, Joseph E. Brown, Jean-Louis Michon, Michel Vâlsan e Lord Northbourne.

sábado, 24 de novembro de 2012

Sugestão de prenda para o Natal




Com a aproximação do Natal, deixamos como sugestão de prenda esta belíssima obra da editora de livros para criança e jovens Wisdom Tales. Este livro reúne passagens seleccionadas dos Evangelhos para criar um conto de Natal que relata o nascimento e a infância de Jesus, incluindo a Anunciação, a Visitação, a adoração dos Reis Magos, a Apresentação no templo, e a fuga para o Egipto, e também o inspirador Sermão da Montanha. O livro só existe, até ao momento, em língua inglesa, mas as passagens seleccionadas estão identificadas e é muito simples constituir o conto com a ajuda de uma versão portuguesa da Bíblia.

Este livro de qualidade superior, que bem poderá tornar-se uma leitura clássica para um Natal em família, contém reproduções magníficas de pinturas, esculturas, iluminuras e vitrais de todo o mundo, que ilustram de forma brilhante o relato. Uma prenda que certamente fortalecerá o espírito de Natal dos mais pequenos, mas também o dos graúdos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Olho do Coração (Chante Ishta)

Para além do livro que resultou da interacação de Hekaka Sapa com o poeta John Neihardt no início da década de 1930, Alce Negro Fala, deixamos também nota de uma outra obra repleta de ensinamentos espirituais da religião dos Indíos Sioux, tal como transmitidos pelo mesmo Alce Negro a Joseph Epes Brown, duas décadas depois.
Aqui fica uma pequena mas profundíssima passagem, bem como o indíce da primeira edição do livro na língua francesa (1953).


É o desejo do Grande-Espírito que a luz entre nas trevas para que nós possamos ver não apenas com os nossos dois olhos, mas sobretudo com o Olho único que está no Coração - Chante Ishta - com o qual nós vemos e conhecemos tudo o que é verdadeiro e bom.

(em Hehaka Sapa: Les Rites Secrets des Indiens Sioux, Payot, Paris, 1953, p.69)






Table de matiêres:

Avant Propos (Joseph Epes Brown)

Introduction (Frithjof Schuon)

Préface de Hékaka Sapa (Wapiti Noir)

I. La Descente de la Pipe Sacrée

II. La garde de l'ame

III. Le rite de purification

IV. Límploration d'une vision

V. La danse du soleil

VI. L'apparentage

VII. Préparation de la jeunne fille aux devoirs de la femme

VIII. Le lancement de la balle

(ver também The Sacred Pipe: Black Elk's Account of the Seven Rites of the Oglala Sioux, University of Oklahoma Press, 1953)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Alce Negro e a Rainha Vitória


Alce Negro (1863-1950) foi um lider espiritual dos Oglala Sioux e um homem de medicina. Foi baptizado em 1903 e não encontrou nenhuma contradição entre as suas tradições tribais e o catolicismo tradicional de então.

Alce Negro ditou a sua autobiografia ao poeta John Neihardt em 1930. O resultado foi um dos melhores e mais acessíveis clássicos da espiritualidade dos tempos modernos, que ademais comunica a poderosa mensagem universal e intemporal da sabedoria ameríndia, tal como acontece, por exemplo, com as Cartas do Shaykh Darkawi no caso da mística islâmica ou com os Relatos do Peregrino Russo no caso do cristianismo em geral, e do hesicasmo em particular.

Aqui fica uma pequena passagem deste muito recomendado épico histórico e espiritual, que relata o encontro entre o Alce Negro e a Rainha Vitória durante um dos espectáculos do "Buffalo Bill's Wild West Show" em Inglaterra, no ano de 1887. 

Dançámos e cantámos, e eu era um dos dançarinos escolhidos pela Avó, porque era jovem e ágil e podia dançar de muitas maneiras. Nós estávamos defronte da Avó Inglaterra. Ela era baixa e gorda e nós gostávamos dela porque ela era boa para nós. Depois de dançarmos, ela falou-nos. Disse algo do género: “Tenho 67 anos de idade. Vi todo o tipo de povos por esse mundo; mas hoje vi o povo mais bem-parecido que eu conheço. Se me pertencessem eu não permitiria que vos andassem a exibir desta maneira.” Ela também disse outras coisas boas, e depois disse que teríamos que a visitar, pois ela também tinha vindo visitar-nos. Ela apertou a mão a todos nós. A mão dela era muito pequena e suave.


(…) Meia lua depois fomos ver a Avó. (…) O vestido dela era todo brilhante e o chapéu dela era todo brilhante e a carruagem dela era toda brilhante e também os cavalos. Ela parecia um fogo a vir. Quando ela chegou onde nós estávamos, a carruagem dela parou e ela levantou-se. Então todas aquelas pessoas se levantaram e bradaram e fizeram-lhe vénias; mas ela fez uma vénia a nós. Enviámos um grande grito e as nossas mulheres fizerem o trémulo. As pessoas na multidão estavam tão excitadas que ouvimos dizer que algumas dela ficaram doentes e caíram. Depois, quando ficou calmo, cantámos uma canção à Avó.
Esta foi uma altura muito feliz.

in Black Elk Speaks, The Premier Edition, pp. 177-178 (ver também edição portuguesa)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Educação à luz da tradição



Quase todos os países do mundo moderno estão a “reformar” os seus sistemas de educação. Todavia, apesar dos enormes esforços e recursos aplicados no ensino e na aprendizagem, os ministros da educação modernos revêm constantemente os programas curriculares numa tentativa de decidir o que as crianças devem aprender.
  
O entendimento da natureza humana foi esquecido, a par com a perda de um sentido do sagrado e de uma ligação com o Princípio Divino. Estes aspectos essenciais  para o bem das crianças neste mundo e para o benefício dos seus fins últimos nunca são comunicados nem compreendidos. Nas sociedades tradicionais, a educação era um meio através do qual o conhecimento do Princípio Divino e da sua relação com a alma humana era transmitida às gerações mais jovens.

Education in the Light of Tradition é uma compilação de textos que aborda um tema raramente discutido nos círculos filosóficos e educacionais. Esta publicação da World Wisdom é um contributo para a redescoberta das verdades e dos valores nos sistemas de educação tradicionais e para o aclarar das dificuldades sentidas nos sistemas públicos de educação moderna.

O quarto número da Revista Sabedoria Perene, a publicar em breve, incluirá traduções de alguns artigos também considerados nesta publicação da World Wisdom. Damos também a conhecer os conteúdos desta excelente publicação:

Editorial

I. Education and the Human Condition

FRITHJOF SCHUON
The Triple Nature of Man

ANANDA K. COOMARASWAMY
The Bugbear of Literacy
TITUS BURCKHARDT
The Traditional Sciences in Fez

WILLIAM STODDART
The Role of Culture in Education
M. ALI LAKHANI
Education in the Light of Tradition: A Metaphysical Perspective

ENES KARIĆ
Moral Tuition and Education

II. Education in Traditional Societies
CHARLES EASTMAN (OHIYESA) & JOE MEDICINE CROW
Traditional Native American Education
JAGADGURU OF KANCHIPURAM
Traditional Hindu Education

MARCO PALLIS
Education in the Borderlands of Tibet

SACHIKO MURATA
Learning in the Confucian Tradition

WILLIAM C. CHITTICK
The Goal of Islamic Education

ANNE FITZGERALD-LO
Education in Sub-Saharan Africa

III. Dilemmas of Modern Education

MARTIN LINGS
Education at the Eleventh Hour
SEYYED HOSSEIN NASR
Modern Education: Its History, Theories, and Philosophies

LORD NORTHBOURNE
Intellectual Freedom

GHISLAIN CHETAN
Schools Adrift

IV. Solutions for Education Today?
 
JEAN BIÈS
Transdisciplinary Education: Profiles and Projects

JAMES S. CUTSINGER
The Once and Future College: Rose Hill in Theory and Practice
GRAY HENRY-BLAKEMORE
Educating Young Children Today: An Interview with Elena Lloyd-Sidle

Book Reviews

JANE CASEWIT
L’Ecole à la Dérive: L’Enseignement Actuel à la Lumière de la Tradition Universelle
by Ghislain Chetan

SAMUEL BENDECK SOTILLOS
A Spirit of Tolerance: The Inspiring Life of Tierno Bokar
by Amadou Hampaté Bâ

Notes on the Contributors  

Note on the Editor

domingo, 1 de abril de 2012

Espírito de tolerância

Tierno Bokar (1875-1939) foi um mestre espiritual sufi que viveu no Mali no início do séc. XX. Apesar dos incríveis obstáculos que enfrentou no decurso da sua vida, as suas palavras acabaram por ser preservadas através de um dos seus mais próximos discípulos, Amadou Hampaté Bâ. Estas suas palavras, registadas num livro que aqui recomendamos, A Spirit of Tolerance – The Inspiring Life of Tierno Bokar, são palavras de elevada inteligência espiritual, com uma enorme ênfase no amor, na caridade e numa fraternidade que desconhece fronteiras religiosas. As palavras que seleccionámos dizem respeito precisamente a este último aspecto e são, tal como toda esta obra, verdadeiramente inspiradoras. 


“Tierno,” perguntei-lhe um dia, “será favorável relacionarmo-nos com pessoas de outras fés para trocar ideias e melhor compreender o seu Deus?” Ele respondeu:
Porque não? Dir-te-ei: devemos falar com estrangeiros desde que sejamos capazes de ser cordiais e respeitosos. Ganharás enormemente com o conhecimento de diversas formas religiosas. Acredita em mim, cada uma destas formas, por muito que te possam parecer estranhas, contêm aquilo que pode fortalecer a tua própria fé. Por certo, a fé, tal como o fogo, deve ser mantida através de um combustível apropriado para que resplandeça. Caso contrário, enfraquecerá, perderá intensidade e volume e transformar-se-á em brasas, depois em carvão e por fim em cinzas.

Acreditar que a nossa raça ou a nossa religião é a única que possui a verdade é um erro. Isto nunca poderia ser. Na verdade, na sua natureza, a fé é como o ar. Tal como o ar, ela é indispensável para a vida humana e não é possível encontrar um homem que não acredite verdadeira e sinceramente em algo. A natureza humana é tal que não é capaz de não acreditar em algo, seja em Deus ou em Satanás, seja no poder ou na riqueza, seja na boa ou na má sorte.

Assim, quando um homem acredita em Deus, ele é nosso irmão. Trata-o como tal e não sejas daqueles que se perdem. A não ser que se tenha a certeza de possuir todo o conhecimento na sua totalidade, é necessário preservarmo-nos de nos opormos à verdade. Algumas verdades apenas nos parecem para além da nossa aceitação pela simples razão de que o nosso conhecimento ainda não teve acesso a elas.

Evita confrontos. Quando algo noutra religião ou crença te choca, procura ao invés tentar compreendê-lo. Talvez Deus venha em teu auxílio e te ilumine sobre o que te causa estranheza…
(…) 
O ensinamento religioso dado por um Profeta ou por um mestre espiritual autêntico é como água pura. Pode ser absorvido sem qualquer perigo para a nossa saúde espiritual ou moral. Esse ensinamento será inteligível e de uma ordem superior. Tal como a água pura, não conterá nada que o possa alterar pela modificação do seu sabor, do seu odor, da sua cor. Amadurecerá a mente e purificará o coração, pois não contém qualquer poluente externo que possa ter o efeito de ofuscar a alma ou endurecer o coração. Não podemos deixar de enfatizar os benefícios resultantes do estudo dos ensinamentos de outras religiões reveladas. Elas são, para todos, como a água potável. (…)

sábado, 24 de março de 2012

Cartas do Shaykh ad-Darqâwî


Esta preciosa tradução de excertos de cartas do Shaykh ad-Darqâwî, o fundador de um importante ramo da Ordem Shadhiliyyad do Norte de África, pertence a uma classe de literatura sufi que ainda não recebeu a devida atenção fora do mundo islâmico.

Cada carta é uma preciosa gema de sabedoria, uma chave indispensável para abrir certas portas que estão diante de cada viajante ao longo do Caminho. Quase todas as cartas dizem respeito ao método e aos aspectos operativos da Via, baseados nas técnicas centrais da invocação ou dhikr. Neste domínio, elas devem ser consideradas entre as mais directas instruções dadas sobre o método sufi que se podem encontrar em toda a literatura sufi, enquanto, geralmente, os mestres têm preferido referir-se às técnicas espirituais propriamente ditas de forma alusiva. No entanto, ocasionalmente, também são discutidos aspectos fundamentais da doutrina sufi.

“A doença que está a afectar o teu coração é uma daquelas coisas que atinge o homem que Deus ama, pois, ‘entre todos os homens, os mais duramente provados são os Profetas, depois os santos, seguidos daqueles que, em maior ou menor grau, se lhes assemelham.’ Portanto não fiques abatido, uma vez que isto acontece muito frequentemente a homens cheios de sinceridade e amor, para que eles avancem em direcção ao seu Senhor. Através deste sofrimento, os seus corações são purificados e transformados em pura substância. Na falta de tais encontros com a realidade, ninguém alcançaria o conhecimento de Deus, longe disso, pois ‘se não houvessem arenas para as almas, os corredores não conseguiriam correr o seu percurso’, tal como é dito por Ibn ‘Ata-Illâh em Hikam, onde ele também diz: ‘Na variedade dos sinais e dos estados mutáveis, eu cheguei a reconhecer a Tua intenção em relação a mim, a de me mostrares todas as coisas, para que não possa existir nada em que eu não Te conhecesse.’ No mesmo sentido, os iniciados disseram: ‘É nestes tempos de rebelião que os homens se destacam de entre os homens. ‘No Alcorão está dito: Supõem as pessoas que serão deixadas em paz porque dizem ‘nós cremos’, e que não serão provados? (XXIX, 1).”

Ao disponibilizar estas cartas em língua inglesa, Titus Burckhardt prestou um serviço àqueles que buscam instrução espiritual. Ele também enriqueceu a literatura sufi nas línguas ocidentais e tornou disponível mais um documento de extraordinário poder e beleza, pertencente ao passado recente.

“Durante os seus primeiros anos em Marrocos, Titus Burckhardt imergiu na língua árabe e assimilou os clássicos do sufismo na sua forma original. Anos mais tarde, através das suas traduções, ele partilharia estes tesouros com um público mais vasto. Um dos seus trabalhos de tradução mais importantes foi o das cartas espirituais do ilustre mestre marroquino do século XVIII, Shaykh Mulay al-‘Arabi ad-Darqâwî. Estas cartas manifestam uma visão profunda e intensa de verdades metafísicas intemporais e, ao mesmo tempo, são um precioso documento de aconselhamento espiritual prático.”

William Stoddart

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ofícios e a Tradição

Hoje deixo aqui mais uma muito generosa contribuição de um nosso amigo do outro lado do Atlântico, Alberto Vasconcellos Queiroz, que traduziu directamente do alemão o seguinte extracto do maravilhoso livro de Titus Burckhardt, “Fez, Cidade do Islão”.


“Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil...” 

Eu conheci um penteeiro na rua de sua corporação, a mashshâtîn. Ele se chamava ‘Abd Al-Azîz (Servo do Todo-Poderoso), vestia sempre uma jelabá negra – a ampla túnica munida de mangas e de capuz – e um turbante branco com o lithâm, o véu de rosto, que emoldurava suas feições um tanto duras. O chifre para seus pentes ele o obtinha de cabeças de boi que comprava dos açougueiros. A testa com os chifres ele punha para secar numa área arrendada, depois retirava os chifres, abria-os longitudinalmente e os aplainava sobre o fogo, algo que devia ser feito com o maior cuidado, para que não rachassem. Desse material ele entalhava pentes e torneava caixas para antimônio, usado como cosmético para os olhos; isso ele fazia num torno muito simples, no qual ele conduzia com a mão esquerda um arco que, enrolado numa haste, a fazia girar, enquanto na mão direita ele segurava a faca e com um pé empurrava um contrapeso. Durante esse trabalho, ele costumava cantar suratas alcorânicas numa voz baixa. 

Fiquei sabendo que, em consequência de uma doença ocular que frequentemente se manifesta na África, ele já era meio cego e fazia seu trabalho mais pelo hábito que pela visão propriamente dita. Um dia ele se queixou para mim que a importação de pentes de plástico diminuía o seu ganho: “Não é somente triste que hoje, por causa do preço, os pentes ruins industrializados sejam preferidos aos pentes de chifre, muito mais duráveis”, disse; “é também absurdo que homens fiquem postados diante de uma máquina e tenham de repetir sempre o mesmo movimento sem ter o que refletir sobre ele, enquanto um antigo ofício como o meu cai no esquecimento. Meu trabalho pode lhe parecer grosseiro, mas ele contém um significado sutil, que não se deixa explicar pelas palavras. A mim mesmo ele só se revelou após muitos anos, e, mesmo que eu quisesse, não o poderia transmitir sem mais a meu próprio filho, se ele mesmo não pudesse alcançá-lo – e acredito que ele preferirá aprender algum outro ofício. Este ofício remonta de aprendiz a mestre até nosso Senhor Set, filho de Adão. Foi ele que o ensinou aos homens pela primeira vez, e o que um Profeta traz – pois Set era um Profeta – deve comportar em si um benefício particular, exterior tanto quanto interior. Isso eu fui entendendo gradualmente, que não há nada de fortuito neste ofício, que cada movimento das mãos e cada processo traz em si uma sabedoria. Mas nem todos o podem compreender. Contudo, mesmo que isso não seja compreendido, ainda é algo tolo e reprovável privar os homens do legado de um Profeta e fazer com que eles se postem diante de uma máquina para realizar dia-a-dia um trabalho que não tem sentido.” 

Portanto, a ameaça que hoje paira sobre os ofícios marroquinos não é somente um desafio exterior, mas também uma ameaça no plano da própria alma. Mesmo que nem todo artesão árabe medite com tanta consciência sobre seu ofício como aquele penteeiro, a maior parte dos ofícios ainda tem um conteúdo espiritual que, com as inovações da indústria moderna, ficará esquecido. 

Mesmo o aguadeiro, que não faz mais que encher nas fontes públicas da cidade sua pele de cabra para trazer aos bazares uma bebida fresca para os que têm sede, independentemente de se recebe deles alguma recompensa ou não, mesmo ele ainda mostra em toda a sua postura a dignidade humana, tal como nas terras européias ainda tem o camponês que lança com devoção a semente. 

Até mesmo o mendigo que se acocora diante das mesquitas e nas pontes e com sua veste cem vezes remendada exerce seu ofício, não pede com vergonha, mas diz ao passante: “Dê o que é de Deus!” ou canta com voz monótona um refrão religioso. 

Pois quase todos os que ainda não foram sugados pelos remoinhos do mundo moderno vivem aqui sua vida ainda como um papel provisório, que não empenha de forma definitiva sua alma, mas pertence à Divina Comédia desta existência terrena. 

(Titus Burckhardt, Fes, Stadt des Islam, Olten and 
Freiburg-im-Breisgau: Urs Graf Verlag, 1960, pp. 64, 69,70.)

domingo, 15 de janeiro de 2012

O teu centro está em toda a parte

Após um período de menor actividade do Sabedoria Perene, é nosso desejo que ele regresse com um novo ímpeto e que possa continuar a ser uma refrescante fonte para aqueles que buscam uma luz num mundo cada vez mais envolto em espessas e escuras nuvens. Fazemos coincidir este regresso com outro, o do retorno ao trabalho na Revista Sabedoria Perene. O próximo número já tem o tema escolhido: a Educação; tema que por certo será do interesse dos nossos leitores. Regressaremos a este assunto numa outra ocasião.

De momento, para celebrar o início do que se pretende ser um novo ciclo de trabalho, deixo-vos um maravilhoso excerto de um livro de Mark Perry – On Awakening and Remembering, ao qual regressaremos noutras ocasiões, onde este conceito de ‘ciclicidade’ é magistralmente tratado. Mas é sobretudo pela abordagem do Centro que partilhamos as seguintes palavras.




TUDO NA CRIAÇÃO GIRA EM TORNO DE UM CENTRO, isto pelo simples facto de que todas as coisas têm uma origem à qual não podem escapar. E esta origem é também o seu fim pois, à imagem das árvores, todas as criaturas têm raízes, mesmo que invisíveis; assim, uma criatura só se pode desviar em relação à sua base. Por muito que as aparências nos indiquem o contrário, uma trajectória em linha recta apenas é conspícua quando a sua origem e fim são velados, esquecidos ou rejeitados. A fuga em frente dos seres e dos eventos parece sugerir uma trajectória linear lançada ao longo de um eixo em constante retrocesso. Estas sucessões de existências, aparentemente livres de convergir ou divergir de outras existências paralelas, surgem como que arremessadas ao longo de linhas cujo fim é completamente estranho à sua origem, o que causa a impressão de ser a linha e não o círculo o princípio operativo da manifestação. Esta ilusão de perspectiva é ainda mais reforçada pela nossa cultura moderna que obriga as pessoas a se adaptarem a uma constante mudança. Vivemos tempos de estonteante obsolescência, tempos em que a excitação pela novidade mascara a destruição da tradição, o frenesi da mudança trivializa a realização, a fatuidade do progresso deprecia o valor do património. O que a história e a cultura poderão ganhar com um apelo nostálgico face a este desprezo, nunca o poderão recuperar realmente em prestígio intelectual. O que caracterizava a primeira era da humanidade, a Krita Yuga das escrituras sagradas hindus, era a noção de Centro e o mito do Eterno Retorno, altura em que governava a ideia de repetição – e não de mudança – em torno de um princípio perene. Tal deve-se, em parte, ao facto dessa primeira era estar tão próxima da origem que praticamente se identificava integralmente com ela. No entanto, através de um movimento de expansão, semelhante a uma espiral sempre crescente, a humanidade cresce/cai da sua origem divina e, sem ser capaz de escapar a esse movimento em torno do centro, continua a afastar-se cada vez mais e, ao mesmo tempo, a ganhar velocidade. 

Se podemos caracterizar o homem antigo como estático, em conformidade com uma visão da existência centrada no espaço e não no tempo, podemos então caracterizar o homem moderno, o homem do Kali Yuga, como dinâmico, em conformidade com uma visão da existência centrada no tempo e na mudança e, consequentemente, na destruição. A preservação da tradição era o valor essencial do homem antigo que, através dos ritos sazonais celebrados, mantinha sempre presente a ideia de renovar e garantir a ligação com o centro original. Mas para uma civilização viciada no progresso, que avança com base no pressuposto da prévia ignorância humana, quando não no da inferioridade, romper com o molde “embrutecedor” da tradição torna-se imperativo. O que é esquecido é que – voltando à imagem da espiral – a tendência é para girar cada vez mais distante, até que tudo gire fora de controlo; isto é cada vez mais evidente na medida em que vivemos num mundo onde a velocidade tem acelerado em proporção directa com a supressão e transformação do passado. Este facto, apesar da excitante atracção que provoca, é inerentemente aberrante e destabilizador; o homem não pode viver num ritmo cada vez mais frenético sem se alienar de si próprio. Por outro lado, não deixa de ser uma componente necessária de um ciclo, que não pode terminar de outra forma que não em desintegração. Esta constatação não se trata de pessimismo, mas sim de realismo cosmológico.

Se o ponto de vista do homem fosse suficientemente elevado, ele libertar-se-ia da ilusão de linearidade, recordaria as origens e preveria as conclusões; ele compreenderia as consequências. De todo o modo, os exemplos do princípio circular abundam, seja na doutrina hindu dos ciclos milenares (manvantaras), a qual os quais já mencionámos, ou nos periodos dos Estóicos, seja no carrossel das estações ou nas ondas concêntricas num lago provocadas por uma gota de água, nas órbitas das grandes galáxias ou nos círculos dos falcões, nos ciclos dos dias e dos anos, nada se exclui a esta lei cuja benevolente imanência – a força que move o sol e as restantes luminárias, segundo Dante – salva a cada instante a manifestação de se desintegrar no nada que está continuamente a sugá-la. O círculo é o dharma perfeito, e o dharma perfeito é a verdade.

O princípio dinâmico do círculo, celebrado pelas rondas das danças de todas as culturas “primitivas”, possui o seu equivalente estático no princípio da esfera, cuja redondeza é para a forma o que a circularidade é para o movimento. O nosso globo terrestre é uma esfera que pertence, por sua vez, a uma galáxia que espirala em torno – e em afastamento – de um centro invisível do qual é a projecção esférica.

De uma relevância ainda mais imediata, é o facto de o homem estar colocado sob a abóbada celeste e poder contemplar, a partir de todo e qualquer ponto, o mesmo nascer e pôr-do-sol, os infindáveis ciclos da lua, e a ronda processional das constelações estelares. Ele testemunha o eterno retorno das estações ao mesmo tempo que sente, na sua própria carne, a herança destes ciclos com a passagem da juventude à maturidade, passagem essa que marca as etapas processionais da sua estadia mortal, na qual os extremos se tocam, pois a idade avançada pode ser, em termos espirituais, uma segunda juventude. Não será então verdade que tudo o que o homem vê e tudo o que ele experiencia segue, fundamentalmente, ritmos perenes e imutáveis? E falar de ritmo é falar de repetição. E o que é a repetição senão retorno e circularidade?

Esta evidência é plena de significado, pudesse o homem simplesmente parar e ponderar as suas implicações. Observar que a Realidade pode ser compreendida geometricamente como um círculo, ou uma esfera, prova, para mais, a bondade da substância universal pois, como reconheceu Platão, a redondeza é a forma concreta do bem, do agradável e do amável. O desespero não usurpa a serenidade daquele que compreende isto no seu coração. 

Também a magnificente migração anual de diversas criaturas testemunha o pulsar de um grandioso ser que permeia o majestoso silêncio da natureza. O colibri, a borboleta monarca, o salmão, que regressam aos seus locais de acasalamento ou desova, não precisam de “sistemas de radar”, pois são os emissários de centros/corações: viajam com o fluxo e o refluxo, a projecção e o retorno desses centros dos quais as suas viagens traçam as configurações das artérias que se dispõem através de raios invisíveis mas intrinsecamente vivos. Para o contemplativo, o respirar e o pulsar do Céu está onde murmure uma brisa em ramos frondosos, salpique a água em riachos serpenteantes ou onde um grilo cante. E o centro divino está sempre onde se eleva uma montanha, no desabrochar de uma flor e no sorriso de uma donzela. E ele está sobretudo onde se encontra um homem em oração.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta de René Guénon a Frithjof Schuon sobre o livro "A Unidade Transcendente das Religiões"


(...) Apesar de, como certamente estará informado, eu ter tido notícias suas recentemente, fiquei extremamente feliz por ter novas suas diretamente, e também por ouvir que eu posso receber a visita de um de nossos amigos; talvez v. mesmo possa nos fazer uma nova visita proximamente...

Obrigado por enviar os sucessivos capítulos de seu livro [A Unidade Transcendente das Religiões], que agora foi completado; considero-o do maior interesse, e teria sido uma grande pena se v. tivesse decidido não escrevê-lo. Não há modificações que eu gostaria de sugerir, nem há nada a acrescentar ou a remover; penso que o que concerne ao Cristianismo, em particular, nunca foi apresentado antes deste ponto de vista, e isto pode ajudar algumas pessoas a entenderem muitas coisas. É importante que este livro seja publicado o mais cedo possível; Luc Benoist me disse que isto pode acontecer para o fim do ano, mas como a nova edição de La crise du monde moderne sairá aparentemente mais cedo que ele disse, espero que este fato possa antecipar a publicação dos próximos volumes da coleção, isto é, o seu livro primeiramente e então o de Coomaraswamy [Hindouisme et Bouddhisme]. Acerca do novo título para seu livro [De l’unité transcendante des religions], ele me parece preferível à versão anterior [De l’unité ésotérique des formes traditionnelles], porque é mais curto e porque será talvez mais claro para os leitores ainda não acostumados à nossa terminologia.

(...) Quanto ao que v. diz em sua resposta sobre S. João, haveria apenas isto a acrescentar: muitos muçulmanos também consideram S. João como um Profeta, pertencente à família de Al-Khidr, Sayyid-na Idris e Sayyid-na Ilyas; seja como for, compreende-se que ele seria apenas Nabi, e não Rasûl. A este respeito, não me recordo se já tive a ocasião de lhe contar que o que me deu a ideia de escrever os artigos sobre a “realização descendente”, publicados no começo de 1939, foi o fato de alguns xiitas reivindicarem que o Wali fosse um maqâm mais elevado (do ponto de vista de al-qurb, ‘proximidade’) do que o Nabi, e mesmo que o Rasûl. O que eu escrevi recentemente sobre os Malamatiya, como v. verá ( ou talvez já tenha visto, pois o número 4 de Études Traditionnelles já deve ter sido publicado) também lida com a mesma questão; este artigo concorda com o que v. mesmo escreveu acerca da relação dos iniciados com o povo (...)

Sim, recebi de Buenos Aires os dois estudos que v. menciona, sobre o Budismo e os “Nomes Divinos”; tive a mesma impressão sua, especialmente do segundo. É bem difícil de ler e contém muitas complicações desnecessárias, e mesmo muitas correspondências que parecem injustificadas; pergunto-me sobre que autoridades o autor poderia fundamentar suas asserções... Certamente que o livro de S. Abu Bakr [The Book of Certainty] é bem diferente; v. não acha que, se fosse traduzido para o francês, seria válido incluí-lo na coleção Tradition? Não creio que Luc Benoist poderia ter objeção à ideia.

De fato, conheci madame Breton (então mademoiselle Dano) em meus últimos tempos em Paris e, desde então, ela me escreve de tempos em tempos. Penso que v. fez bem em responder a ela, ela é certamente bastante agradável e parece ter um bom entendimento, e não há razão para não ter confiança nela; ademais, é um fato gratificante que não pertença àquela categoria de correspondentes – demasiado numerosa – que são criadores de casos e indiscretos. Devo também mencionar que ela e seu cunhado, Paul Barbotin, foram de considerável ajuda para mim em elucidar algumas maquinações de membros do R.I.S.S. e outros do gênero. Acrescentarei, para que saiba exatamente com quem está lidando, que ela é claramente católica e está em contato com Charbonneau-Lassay.

Seu capítulo sobre as formas de arte será certamente bastante apropriado para o volume de Bharata Iyer [Art and Thought, em homenagem ao 70º aniversário de Ananda Coomaraswamy]; Marco Pallis escreveu para dizer que preparará algo sobre a vestimenta tradicional. Quanto a mim, infelizmente não fiz nada até agora; já que parece que os artigos serão solicitados logo, pergunto-me se uma tradução de meu estudo sobre a teoria dos elementos, que apareceu no número especial de Études Traditionnelles dedicado à tradição hindu, não seria apropriado. Dificilmente eu poderia escrever agora algo de alguma extensão, nem isto será possível até que eu conclua com todas as questões de publicações e republicações que estão em pauta presentemente, pois tudo isso me toma muito tempo e é ainda mais complicado pela lentidão e irregularidade do correio. É verdade que o período de silêncio destes últimos anos foi vantajoso para mim, no sentido de que de outra maneira teria sido provavelmente difícil completar quatro novos livros durante este tempo; mas, de outro ponto de vista, a ausência prolongada de notícias tornou-se algo bastante duro...

Meu obrigado a v. e a todos os nossos amigos pelos bons votos; continuo com boa saúde, graças a Deus, e minha família se junta a mim para enviar-lhe nossas saudações e boas lembranças.

Min al-faqir ilâ Rabbi-hi
‘Abd al-Wahid Yahya.

domingo, 31 de julho de 2011

A Unidade Transcendente das Religiões




Tal como anunciado anteirormente, a nova edição brasileira de A Unidade Transcendente das Religiões está já disponível. O preço deste clássico de Frithjof Schuon é R$ 42,00 (18 euros) e pode ser encomendado através do endereço eletrónico do Instituto René Guénon em S. Paulo (irget@terra.com.br).

Este é um dos raros livros que oferecem um novo e genuíno panorama da realidade e do mundo em que vivemos. A Unidade Transcendente das Religiões é sem nenhum favor uma das obras mais importantes publicadas no Século XX.

Em língua portuguesa, foi publicado pela primeira vez em S. Paulo, em 1953, pela editora Martins; depois em Lisboa, nos anos 1980, por Edições Dom Quixote, de Lisboa. A presente edição é uma nova tradução, revista e ampliada, feita de acordo com a mais recente edição francesa de Éditions du Seuil, de Paris.

T. S. Eliot, responsável pela primeira de mais de uma dezena de edições do livro em inglês, escreveu: “Não conheço obra mais impressionante no campo do estudo comparado das religiões do Oriente e do Ocidente.”

Huston Smith, o mais influente autor e professor de história das religiões nos EUA, autor do best-seller As Religiões do Homem, disse de Frithjof Schuon: “Não conheço nenhum pensador que possa rivalizar com ele.”

Esta que pode ser considerada a primeira obra do grande metafísico e pensador religioso Frithjof Schuon, expõe as ideias semente que o autor viria posteriormente, ao longo 47 anos e em 22 obras doutrinais, a analisar, ou melhor, a sintetizar, através de todos os pontos de vista concebíveis e muitas vezes no limite do exprimível; aquelas mesmas ideias semente que constituem a substância de toda a sabedoria e de toda a religião, a sophia perennis e a religio perennis.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Esoterismo & Exoterismo no Cristianismo, Islão e Judaísmo

Durante o próximo mês será publicada pela editora do Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais uma nova edição da obra "A Unidade Transcendente das Religiões", de Frithjof Schuon (pedidos pelo email irget@terra.com.br).

Deixamos os leitores com esta genial e profunda síntese, extraída do capítulo “O aspecto ternário do monoteísmo”:

(...) O monoteísmo, revelado a Abraão, possuía o esoterismo e o exoterismo em perfeito equilíbrio e, em certa medida, em sua indistinção primordial, ainda que se tratasse somente de uma primordialidade relativa às tradições de estirpe semítica; com Moisés, é o exoterismo que, por assim dizer, tornou-se religião, no sentido de que ele determina a forma desta última, sem prejudicar, contudo, a sua essência; com o Cristo é o inverso que acontece, com o esoterismo, de certa maneira, tornando-se por sua vez religião; com Maomé, enfim, o equilíbrio inicial é restabelecido e o ciclo da religião monoteísta é fechado. Estas alternâncias na Revelação integral do monoteísmo procedem da própria natureza deste e, por conseguinte, não são imputáveis somente a vicissitudes contingentes; a “letra” e o “espírito”, estando compreendidos sinteticamente no monoteísmo primordial ou abraâmico, deviam cristalizar-se de alguma maneira, por diferenciação e sucessivamente, no decurso do ciclo da Revelação monoteísta. Assim, o Abraamismo manifestou o equilíbrio indiferenciado do “espírito” e da “letra”; o Mosaísmo, a “letra”; o Cristianismo, o “espírito”; e o Islã, o equilíbrio diferenciado desses dois aspectos da Revelação. (...)

Um peregrino cristão na Índia



O Padre Henri Le Saux (1910-1973) foi um monge beneditino francês que viveu os últimos 24 anos da sua vida na Índia, onde ficou conhecido como Swami Abhishiktananda.

"Um Peregrino Cristão na Índia" é uma muito interessante obra de Harry Oldmeadow, que nos oferece um relato da exemplar e inspiradora viagem espiritual deste monge, do seu marcante encontro com Ramana Maharshi, das suas experiências místicas no Monte Arunachala, e do seu profundo interesse pela metafísica e pela espiritualidade da Índia, bem como pela conciliação destas realidades com a sua herança e função sacerdotal cristã.

Esta muito recomendada obra introduz alguns dos aspectos-chave da sophia perennis, tais como a primazia da metafísica e as inter-relações dos universos esotérico e exotérico das diferentes tradições religiosas da humanidade, entre outros. Esta obra discute ainda, de forma sóbria e clara, a importância destes aspectos-chave para a abordagem a temas tais como, por um lado, a ambivalência do exclusivismo e do sincretismo religioso e, por outro lado, a pseudo-espiritualidade que se instalou nos movimentos “Nova Era” da actualidade.

Esta excelente e muito recomendada obra está organizada da seguinte forma:


I: “Consecration to God”: Life and Work
1. A biographical Sketch
2. Friends and Influences
3. Writings

II: “In the Mystery of God”: Spiritual Themes in Abhishiktananda’s Writings
4. The Monk’s Vocation and Sannyasa
5. Advaita
6. The Cosmic Teophany
7. Way Staions in the Spiritual Path
8. Signs: The limits of Religious Forms
9. Dialogue: Meeting in the Cave of the Heart

III: “Unity and Diversity”: Abhishiktananda in Prespective
10. Abhishiktananda and the Perennial Philosophy
11. Abhishiktananda’s Gift




domingo, 16 de janeiro de 2011

Palavras de sabedoria

Mais uma edição no outro lado do Atlântico com interesse para os leitores do Sabedoria Perene. Referimo-nos à tradução do famoso Hikam de Ibn Atâ’Allah al-Iskandari. A tradução para a língua portuguesa, de Aluizio J.R. Monteiro Jr., foi efectuada a partir da tradução do árabe para o francês realizada por Abd-ar-Rahman Buret com a colaboração e introdução de Titus Burckhardt.


O Hikam, ou “As palavras de sabedoria”, de Ibn Ata’Allâh de Alexandria figura entre as mais célebres compilações de aforismos sufis. Difundiu-se por quase todo o mundo islâmico a partir do Magreb (norte da África), onde foi objecto de inúmeros comentários, até a Indonésia, onde foi traduzido para o malaio. Sua difusão é, de certa forma, paralela à da ordem sufi Shadiliya, que tem no Hikam o vade mecum, o guia e o companheiro de viagem daquele que percorre a Via contemplativa. Isso porque Ibn Ata’Allah, nascido em meados do séc. VII/XIII e falecido em 709/1309 no Cairo, foi não somente o discípulo e sucessor do mestre Abu-I-Abbas al-Mursi, ele próprio discípulo do fundador dessa ordem, Íman Abu-I-Hassan Shadili, mas também o primeiro mestre desta Tariqa sufi a deixar uma obra doutrinal escrita. Podemos presumir que seu Hikam resume e fixa o ensinamento oral de seus predecessores.

Titus Burckhardt


Ibn ‘Atâ-Allah al-Iskandarî al-Judâmî as-Shâdilî, nasceu em Alexandria, Egito, no século XIII/VII (da hegira). Teve uma educação tradicional islâmica recebida de grandes mestres. Seu sheikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî predisse que Ibn ‘Atâ-Allah tornar-se-ia uma autoridade tanto na sharia/fiqh como na tariqah/Via espiritual: “Ele disse pela via da sharia, o conhecimento exotérico, e pelo da Verdade ou tariqah, o conhecimento esotérico”. O shaikh Abû al-‘Abbâs al-Mursî foi um discípulo privilegiado do sheikh as-Shâdilî, qutb (pólo espiritual) de seu tempo e um dos maiores mestres sufis da história do Islão. Com relação aos fundamentos da Via espiritual, Ibn ‘Atâ-Allah afirma que: “A base de sua Via – que Deus seja louvado – é a concentração em Deus, o combate contra a dispersão (ádam at-tafriqa), a perseverança no retiro espiritual (khalwah) e a invocação (zikr) do supremo Nome”. Sua obra portadora de grandes ensinamentos metafísicos e espirituais, também dirigida ao crente comum, regista com beleza e sabedoria os ensinamentos de seus mestres da Via sufi.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ocultismo & Religião


Este estimulante livro expõe e debate as relações entre psicologia, ocultismo e religião que permeiam as obras de Freud, Jung e Mircea Eliade.

Ele expõe informações, só recentemente disponíveis, que mostram que havia na psicanálise freudiana aspectos que iam além do materialismo estrito pelo qual ela ficou popularmente conhecida. Harry Oldmeadow e Mateus Soares de Azevedo revelam, em primeira mão em língua portuguesa, que o método psicanalítico concebido por Freud sofreu forte influência de ramos subterrâneos da tradição judaica, sobretudo de movimentos messiânicos heterodoxos, como o Sabataísmo e o Frankismo.

De modo similar, o livro documenta como o psicólogo suíço Carl Gustav Jung se valeu de doutrinas gnósticas, ocultistas e mesmo cristãs para compor seu método terapêutico, o qual muitos atribuem perfeita convergência com doutrinas tradicionais. Em outras palavras, a presente obra discute se o Junguismo constitui uma alternativa real à perspectiva de Freud, como se acredita em círculos intelectuais e religiosos contemporâneos.

Ocultismo & Religião (São Paulo, editora Ibrasa, 2011) põe em relevo igualmente a vida e a obra do historiador de religiões romeno Mircea Eliade, outro influente intelectual que refletiu sobre os choques e intercâmbios entre religião, ocultismo e psicologia.

Os autores confrontam com discernimento e coragem o lugar do homem em um mundo no qual a ciência despojou o cosmo de significado profundo, solapou os pilares da fé e roubou do homem sua envergadura espiritual.

*

SUMÁRIO

Apresentação
Capítulo 1 – A religião secreta de Freud
Capítulo 2 – Jung e os crentes sem religião
Capítulo 3 – Mircea Eliade e Jung
Bibliografia Selecionada

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Forma e Substância nas Religiões




Divulgamos aqui a segunda publicação da Editora Sapietia: o magnífico "Forma e Substância nas Religiões" de Frithjof Schuon. Aqui fica o índice da obra e a ligação para uma apresentação do tradutor Mateus Soares de Azevedo.



Apresentação: Frithjof Schuon e o caminho da Metafísica, da Oração e da Virtude...
Prefácio do autor
1. Verdade e Presença
2. Forma e Substância nas Religiões
3. Atmâ – Mâyâ
4. Substância, Sujeito e Objeto
5. As Cinco Presenças Divinas
6. A Cruz Espaço-Tempo na Onomatologia Corânica
7. Observações sobre o Fenômeno Maometano
8. A Mensagem Corânica de Jesus
9. A Doutrina Virginal
10. Síntese dos Pâramitâs
11. Sobre o Elemento Feminino no Mahâyâna
12. O Mistério das Duas Naturezas
13. A Questão das Teodicéias
14. Algumas Dificuldades dos Textos Sagrados
15. Paradoxos da Expressão Espiritual
16. A Margem Humana
17. Sobre um Problema Escatológico
18. Os Dois Paraísos

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Homens de um livro só




A edição em língua inglesa deste Homens de um livro só, da autoria de Mateus Soares de Azevedo, estabelece uma muito necessária e clara distinção entre os nefastos efeitos do fundamentalismo pseudo-religioso e os benefícios que advêm das verdadeiras manifestações de religiosidade e espiritualidade. Por outro lado, e não de menor importância, clarifica de forma decisiva que o padrão de pensamento moderno é também ele mesmo uma forma de fundamentalismo que se caracteriza pelo total abandono, nomeadamente por parte do mundo ocidental, daquela visão “integral” da existência e do mundo que prevaleceu até ao final da idade média – a visão que passou a ser apelidada de tradicionalista ou perenialista a partir do século XX – e pela aceitação acrítica de teses “fragmentárias” sobre a mesma existência e o mesmo mundo, como é o caso das teses propostas por autores individuais como Darwin, Freud, Jung e Marx, entre outros.

Este livro tem o mérito de, em pleno século XXI, e à luz daquela visão “integral” da existência e do mundo, discernir e criticar brilhantemente estas diferentes formas de fundamentalismo, apontando simultaneamente na direcção da paz e da harmonia humana.

Esta edição recentemente publicada pela World Wisdom contém dois novos capítulos que não constam na primeira edição em língua portuguesa – um sobre o Concílio Vaticano II e outro sobre Carl Gustav Jung – e ainda uma profunda reformulação do primeiro capítulo, o qual contém novos dados sobre o sionismo. Aqui fica o indíce da mesma:

Forward by Alberto Vasconcellos Queiroz
Introduction by William Stoddart

PART I: Militant Fundamentalism vs Traditional Religion
1. Beware of the Men of a Single Book
2. Militant Islam, the Muslim World, and the Holy War
3. Asymmetries between Christianity and Islam
4. The Koran and the Bible
5. The Message of Islam
6. Sufism in the Face of Militant Fundamentalism

PART II: Secular Fundamentalism
7. Marxism as Fundamentalism
8. Freudian Psychoanalysis as Secular Fundamentalism
9. Jung and the Faithful without Religion
10. Vatican II and the Three Revolutions
11. Science Fundamentalism: A Short Answer to Three Militant Atheists

Map of the Islamic World
Selected Biography

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Poemas da Montanha


Nesta magnífica selecção de Poemas da Montanha recentemente publicada pela Serra d’Ossa Edições, encontramos um caminho para o coração da poesia mística de Frei Agostinho da Cruz, tão magnificamente mapeado pelo texto introdutório de Dalila L. Pereira da Costa.

Com reforçada inspiração para prosseguir este ciclo de estudo dedicado à Natureza, divulgamos aqui esta obra e reproduzimos uma pequena amostra da Elegia da Arrábida deste monge franciscano português.

* * *

Convosco e dentro em vós, Serra batida
Mais das ondas humanas que marinhas,
Cantarei, como cisne, a despedida.

Testemunha sois vós das queixas minhas,
E porque quero mais, antes que gente,
As feras e serpentes por vizinhas.

Tanto, que nem de amigo, nem parente,
Inda agora não faço diferença,
Se seu amor do meu for diferente.

A nenhum deles nisto faço ofensa,
Se algum seu interesse só pretende,
Pois nele só consiste a desavença.

(…)

O descanso do doce pensamento,
O repouso do livre coração,
Não se deve perder um só momento.

Qual deve ser a minha pretensão
Antre os bosques desertos, velho e enfermo,
Senão não ver em mim um só senão?

(…)

Passando os olhos meus pela verdura
Das plantas, que plantou a natureza,
Me mostraram no Céu nova pintura,

Onde a minha alma, em puro fogo acesa,
Não sinta, nem consinta outro desejo,
Senão ficar de amor divino presa.

(…)

Em vão pera comigo o tempo gasta
Quem mais quer alongar meus longos dias,
Que a morte, inda que tarda, não se afasta.

Venha quando quiser, por quaisquer vias,
Que por nenhuma já pode vir cedo
Despir as enrugadas carnes frias.

Deixe-me o coração arder um Credo
Naquele amor divino a quem me dei,
Enquanto vivo aqui neste degredo.

No meu Deus, em que só me confiei,
Porque por mi pregado foi na Cruz,
Confiado só nele acabarei,
Chamando por Maria e por JESUS.

domingo, 20 de junho de 2010

A Água e o Seu Significado Espiritual


Apresentamos esta obra que contém artigos e poesia relacionados com a natureza sagrada e sustentadora da água – o seu simbolismo nas grandes tradições espirituais do mundo: Hinduísmo, Judaísmo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, Taoísmo, Confucionismo – e a dos nossos Povos Primordiais. Nela podem ser encontrados textos oriundos da área académica em crescimento de Religião e Ecologia, assim como sobre o modo com que os assuntos mundiais da água estão a ser abordados por pessoas de fé. Nesta obra, à medida que aprendemos mais sobre lagos, chuva, rios sagrados, fontes e lágrimas, deparamo-nos com temas universais tais como o Dilúvio, o Transpor das Águas, os Rios do Paraíso e o Baptismo. Deixamos aqui uma muito pequena amostra da mesma.


Deus está para o homem como o magnete está para o ferro. Então por que não atrai Ele o homem? Tal como o ferro profundamente embebido em lama não é movido pela atracção do magnete, também a alma profundamente embebida em Maya não sente a atracção do Senhor. Mas tal como o ferro se move livremente quando a lama é lavada com água, também a alma por constantes lágrimas de oração e de arrependimento lava a lama de Maya que a prende à terra, e é rapidamente atraída pelo Senhor.

Excerto do Evangelho de Sri Ramakrishna


Existe uma "fonte na Divindade, que brota sobre todas as coisas na Eternidade e no Tempo".
Mestre Eckhart


Alguns dos artigos seleccionados pelo editor:

- Wendell Berry, Sabbaths: The Book of Camp Branc (selections)
- Coleman Barks, Wandering Thoughts on Rumi, Water, Music, Love, and Identity
- Jonathan Montaldo, Sacred Waters: Thomas Merton’s Thirst for Contemplation
- Thomas Merton, Rain and the Rhinoceros, In the Rain and Sun, and Song
- Titus Burckhardt, The Symbolism of Water
- Alexander Price, The Centrality of Water in the Hopi Tradition
- Mary Evelyn Tucker and John Grim, The Emerging Alliance of World Religions and Ecology
- Henry David Thoreau, Shells Upon the Shore
- Hamza Yusuf Hanson, Walk on Water
- Rabbi Dr. Menachem Kallus, The Feminine and Masculine Waters in the Teachings of the Baal Shem Tov
- Graeme Castleman, Returning to the Primordial: The Water Symbolism of Baptism
- Martin Lings, The Quranic Symbolism of Water
- A.K. Coomaraswamy, The Sea and The Flood in Hindu Tradition
- Bonnie Myotai Treace Sensei, Take Me to the River: The Koan of Kindness
- Huston Smith, Served With Distinction, 1910­1932
- Selections from the Gospel of Ramakrishna

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Frithjof Schuon – Mensageiro da Filosofia Perene

Apresentamos mais esta notável obra de Michael Oren Fitzgerald, Frithjof Schuon: Messenger of the Perennial Philosophy, muito recentemente publicada pela World Wisdom (2010), e que consiste em nada menos do que a mais completa biografia disponível do principal porta-voz da filosofia perene. Para o efeito, recorremos ao preâmbulo da obra, onde podemos encontrar as sempre precisas, profícuas e criteriosamente seleccionadas palavras de William Stoddart.



Apesar de praticamente todos os livros de Frithjof Schuon estarem disponíveis em Inglês há muitos anos, dificilmente se poderá dizer que o seu nome seja familiar. Contudo, para pessoas com interesses especiais em campos tais como o da filosofia, da teologia, da religião comparada, e o da vida espiritual, muito se conhece sobre ele há muito tempo.

A presente biografia providencia, de uma forma aliciante e fascinante, um suporte detalhado sobre a sua vida, os seus escritos, e as suas ideias, mas eu resumirei aqui alguns dos aspectos essenciais de modo a dar imediatamente uma pista relativamente à natureza e ao carácter deste homem.

Frithjof Schoun (1907-1998) nasceu de pais alemães, na cidade suíça de Basileia. Os seus pais eram de origem Católica, mas não praticavam, e encaminharam o seu filho para uma escola Luterana. Durante a sua longa vida, Schuon manteve-se profundamente grato para com um seu estimado professor dos primeiros anos de escola pelas “maravilhosas lições de Bíblia”. Ao mesmo tempo, a criança Schuon ficou fascinada ao ler as “Mil e uma noites” e outros contos tradicionais do mundo inteiro. Ainda enquanto criança, estava já ciente de que o que admirava e aspirava saudosamente eram sobretudo as quatro qualidades universais: “o sagrado, o nobre, o belo e o grande”. Por volta dos 11 ou 12 anos de idade, inesperadamente, teve uma profunda e duradoura experiência espiritual quando viu e foi avassalado pelas três grandes estátuas budistas japonesas do Museu Etnológico de Basileia. Esta foi uma experiência fundamental, e ensinou-lhe como a sabedoria e a santidade são inseparáveis da beleza, e como elas podem ser conduzidas ao coração do homem através dos cumes da arte sagrada.

Depois da morte do seu pai em 1920, a sua mãe e os seus dois filhos mudaram-se para Mulhouse (Mülhausen), na Alsácia, que tinha sido anexada pela França em 1918. A morte do pai e a mudança para a Alsácia foram extremamente traumáticas para o jovem Schuon, mas foi em Mulhouse que frequentou a escola de um convento dirigido por freiras da aristocracia francesa, sob cuja influência o jovem adolescente se tornou apraz e voluntariosamente católico. Foi também nesta altura que aprendeu francês, a língua com que estaria destinado a escrever os seus muitos livros filosóficos.

No decurso da adolescência, Schuon continuaria a aspirar saudosamente pelas quatro qualidades universais acima mencionadas; e, mesmo sem ensinamentos explícitos, o jovem Schuon tinha então desenvolvido um profundo entendimento das realidades metafísicas, teológicas e espirituais. Mas os ensinamentos explícitos estavam também à mão. Lia avidamente as Escrituras sagradas, e especialmente o Bhagavad-Guitá, o qual foi para Schuon uma revelação em todo o sentido da palavra. Contudo, em toda a sua compreensão, inata e adquirida, ele estava só. Era incompreendido pela sua família e relacionados e, como resultante, sofria bastante. Continuou a amar o protestantismo de infância e o catolicismo da juventude mas, ao crescer para a idade adulta, perdeu o apego a elas, e viveu quase inteiramente na firme e implacável aura intelectual do Vedanta e do Platonismo.

Em 1924, aos 17 anos de idade, descobriu os livros do magistral filósofo francês René Guénon (1886-1951). Isto foi para Schuon uma imensa consolação. Não só encontrara nos escritos de Guénon uma confirmação plena da visão profunda que já detinha; encontrara também o vocabulário preciso da metafísica e a terminologia com que poderia vestir e exprimir os seus próprios entendimentos e percepções. Alguns anos mais tarde começaria uma correspondência prolífica, a qual prosseguiu até ao final da vida de Guénon.

Várias eventos e experiências significativos na vida de Schuon ocorreram no final da década de 1920 e início da de 1930, entre as quais o serviço militar, as suas primeiras viagens e, por fim, o seu encontro decisivo com o mestre sufi argelino Shaykh al-‘Alawī. Mas deixo os detalhes destes eventos cruciais e seminais para o biógrafo, que lida com eles copiosamente, e vou virar-me para o importante assunto que foi a longa e íntima associação intelectual com René Guénon.

René Guénon e Frithjof Schuon foram os originadores daquela que subsequentemente ficaria conhecida como a escola de sabedoria “perenialista” ou “tradicionalista”. Guénon foi o pioneiro e Schuon a concretização ou quintessência. Schuon indicava a analogia existente com outras duas escolas de sabedoria que possuíram uma dupla de originadores ou exponentes, nomeadamente aquelas associadas a Sócrates e Platão em Atenas no século V a.C., e a Jalâl ad-Dîn Rûmî e Shams ad-Dîn Tabrîzî na Turquia do século XIII.

Basicamente, o ponto de vista de Guénon e de Schuon é o da “filosofia perene”. Este termo tornou-se familiar aos leitores de língua inglesa através da publicação, em 1945, do livro de Aldous Huxley com este mesmo título. A ideia central da filosofia perene é a de que a Verdade Divina é uma, intemporal, e universal, e que as diferentes religiões são justamente diferentes linguagens que expressam aquela Verdade una. O símbolo mais comummente usado para transportar esta ideia é o da luz incolor e das muitas cores do espectro que se faz visível apenas quando a luz incolor é refractada. Na Renascença, o termo exprimia o reconhecimento do facto de que as filosofias de Pitágoras, Platão, Aristóteles, e Plotino, expunham indiscutivelmente as mesmas verdades que aquelas assentes no coração do Cristianismo. Subsequentemente, o significado do termo foi alargado de modo a cobrir a metafísica e o misticismo de todas as grandes religiões, especialmente do Hinduísmo, do Budismo e do Islão.

De facto, Huxley não foi o primeiro a apresentar esta ideia na era moderna. Já tinha sido aventada pelo santo bengali Ramakrishna (1836-1886), que estava intimamente familiarizado – e num nível mais profundo que Huxley –, não apenas com o Hinduísmo, mas também com o Cristianismo e com o Islão. Contudo, tendo em consideração o “exotismo” e infamiliaridade do grande Ramakrishna, e também as dúbias credenciais religiosas de um Huxley assaz superficial e sincretista, nem o termo nem a ideia da “filosofia perene” surgiram de uma posição favorável entre religiosos mais conservadores, cristãos ou outros.

Mas ocorreu um desenvolvimento que ninguém poderia antever. Na década de 1920, os livros do filósofo francês René Guénon começaram a aparecer. Estes livros expunham, no modo irrefutável de Platão, a unicidade da Verdade supra-formal e a multiplicidade das expressões formais que dela advêm. Assim, é possível perceber que a razão de ser das diferentes religiões não é que elas são “todas iguais” mas, precisamente, que elas são todas diferentes! A essência (respeitante a Deus, ao homem, e à salvação) é obviamente a mesma, mas as formas são significativamente diferentes. Cada religião – não apenas o Cristianismo – faz uma reivindicação absoluta, justamente pela razão de que é uma expressão do Absoluto; esta é a sua justificação e a sua sine qua non. Vermelho, amarelo e verde não são escuridão; ao contrário, cada uma delas é uma refracção da luz incolor. O princípio da unidade religiosa reside somente em Deus, e é um homem precipitado aquele que afirma que Deus Se expressou em apenas uma língua!

Os trabalhos de Guénon foram seguidos, da década de 1930 em diante, pela longa série de artigos e livros de Schuon, que foi quem levou a exposição da verdade intemporal e da sua qualidade salvífica a uma elevação incrível. A mensagem de Schuon foi realmente uma de verdade, beleza, e salvação.

É difícil disputar a profundidade e a genialidade deste dois autores que foram os originadores da corrente de intelectualidade e espiritualidade conhecida como a escola “perenialista” ou “tradicionalista”. Nada pode retirar a originalidade da visão de Guénon e de Schuon, mas é apropriado referir alguns dos grandes precursores a quem eles se referem frequentemente. Entre eles incluem-se Shankara (Hinduísmo), Platão (Grécia Antiga), Eckhart (Cristianismo Ocidental), e Ibn ‘Arabî (Islão). Porém, a visão perenialista não requer formulações exaustivas: pode-se resumir nas palavras de Cristo: “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos tornará livres”. Para a filosofia perene, isto é realmente tudo: verdade intemporal, e a sua qualidade libertadora.

Talvez devido à superficialidade de um Huxley do início do século XX e às fantasias nas ideias do movimento “nova era” do final do século XX, a escola Perenialista, com as suas teses universais e referências extra-cristãs, é ainda encarada com suspeição em alguns círculos. Na realidade, algumas pessoas tendem a confundir dois opostos: as ideias “nova era” e a filosofia perene. Outros, de novo, pensam que a filosofia perene está apenas relacionada com algo que é pejorativamente referido como “misticismo Oriental”, esquecendo que o próprio termo é de origem Cristã, e que foi primeiramente utilizado para formular o reconhecimento cristão das verdades eternas do platonismo. Estas verdades eternas são precisamente tudo o que é a filosofia perene.

A filosofia perene não é para néscios, e é precisamente isso que o homem moderno e sofisticado precisa de saber. A filosofia perene – que é o universalismo verdadeiro e o ecumenismo verdadeiro – é o reconhecimento da origem divina de cada religião. A essência de cada religião é pura verdade, e as várias formas religiosas vestem essa verdade com trajes de diferentes padrões e cores. “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” Este ensinamento de Cristo aplica-se não só ao Céu, mas também à Terra. A função das várias religiões é expressar a verdade e oferecer uma via de salvação, de um modo ajustado aos diferentes segmentos e etnicidades da humanidade. Cada religião vem de Deus, e cada religião leva de volta a Deus. Mormente, cada religião compreende uma doutrina e um método, isto é dizer, é uma verdade iluminadora unida a um meio de salvação. Se assim não fosse, não seria uma questão de religião, mas de uma ideologia vazia humanamente criada (tal como o Freudismo, o Jungianismo, o Teilhardismo, e muitas outras) incapaz de salvar quem quer que seja.

* * *

Frithjof Schuon resumia por vezes a sua mensagem de uma forma extremamente sucinta. Por exemplo:

Todos os seus ensinamentos em quatro palavras: Verdade, Oração, Virtude, Beleza.

As três concomitâncias do Amor de Deus: Natureza Virgem, Arte Sagrada, Companhia Sagrada.

A doutrina de Shankara, o método de Honen, a primordialidade dos Índios Americanos.

Relativamente ao último destes sumários: Shankara foi o pináculo da sabedoria Hindu, um mestre da metafísica universal na forma do Advaita Vedanta (“não-dualidade”); Hônen, um mestre do Budismo (Amida) japonês, foi um preeminente exemplar da confiança total no poder salvador do Nome revelado; no que respeita aos grandes Chefes Índios, eles evocam as qualidades de dignidade, coragem, frugalidade, sacrifício, e proximidade à Natureza Virgem.

Em termos cristãos este ternário é: a doutrina de Mestre Eckhardt, o método de São Bernardino de Siena, e o amor da natureza (a primordialidade) de São Francisco de Assis.

Em termos islâmicos é: Tawhîd (a doutrina da unidade), Dhikr (a lembrança de Deus), e Fitra (natureza primordial ou o estado de hanîf).

Cada uma das várias expressões de cada uma das três componentes deste ternário (doutrina, método, e primordialidade) deriva do mesmo (respectivo) arquétipo. O primeiro exemplo acima mencionado (relativo a Shankara, Hônen, e aos Índios Americanos) – formulado pelo próprio Schuon – é particularmente apropriado, evocativo, e uma expressão memorável dos três arquétipos respectivos.

* * *

Em termos pessoais, Schuon foi uma combinação de majestade e humildade; de rigor e amor. Schuon era feito de objectividade e incorruptibilidade, unidos com compaixão. Nos muitos encontros durante um período de quase cinco décadas, as qualidades pessoais que constantemente me impressionavam eram a sua paciência infinita e generosidade infinita.

Que esta informativa e bem documentada biografia transmita com sucesso aos leitores o fenómeno precioso e único que foi Frithjof Schuon.

William Stoddart
Windsor, Ontario